Ficção é isso

 

Natália, ex-participante do Big Brother Brasil 11

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A epidemia da minha geração encontra-se diária e religiosamente logo após a novela das nove horas. Há mais de uma década venho prometendo a mim mesma não assistir ao Big Brother. É o tipo de pretensão que costumo assinalar em negrito na minha “lista de resoluções para o Ano-Novo”. Em vão. Por três meses desperdiço minhas horas de sono ou leitura para acompanhar a saga de… personagens. O Big Brother é, sobretudo, uma enorme ficção – divertida e reflexiva. Nítido está que segue até mesmo um roteiro meticulosamente traçado pelo senhor Boninho, de pôr inveja em qualquer prestigiado autor global. Pouco se via e pouco se vê da necessidade de cada um. Aparentemente existem “cotas” para negros e nordestinos. A população da casa é ambientada principalmente por administradores e modelos, o cenário poderia ser o calçadão de Copacabana, o Leblon. Polêmicas surgem e a justificativa mais ilusória (porém funcional) é a convivência. Vimos estrangeiros, nos primeiros anos. Atualmente homossexuais e uma transexual na mais recente edição. Naturalmente, nada contra. O mais interessante no ser humano – isso eu sempre fiz questão absoluta de frisar – é a sua possibilidade de livre-arbítrio. Tudo contra, porém, a partir do momento em que o indivíduo deixa de ter caráter para ser a atração principal daquilo que se espera dele ou dela. O transexual sempre vai ser, aos olhos do público, a pessoa desonesta e vendida, que vai contra as regras de uma sociedade, o anti-religioso e demais termos ofensivos que não me cabem. O estrangeiro, claro está, jamais merecerá a premiação de um reality show com formato e padrão internacional que se passa no Brasil, patriotas que somos. Isso acontece pelo fato de que adoramos apontar o dedo para o alheio, julgando o próximo da maneira que nos convém, atribuindo nossos pré-conceitos a quem nos é desconhecido e não nos deve satisfações. Ou não.
Talvez não. Simplesmente porque o Big Brother é feito por pessoas de extrema inteligência, é inegável. Uma pessoa que é discreta, que deseja não se expor, possui muito menos chance do que alguém que diz fazer e acontecer sem precisar medir conseqüências. O Big Brother não cria personagens. Ele apresenta esses personagens ao público. Ele apresenta esses personagens a si próprios.
Porque, o que compete dentro de uma casa em que pode-se passar até três meses confinado, não é necessariamente o prêmio em dinheiro tão almejado. Não, mas de forma alguma. O que se espera de um personagem é que ele se revele autor de sua história. A mais recente edição é repleta de fingimento, de falsidade múltipla. Acaba de sair a Natália, por exemplo. Ela foi caracterizada como “falsa” e “traiçoeira” por seus companheiros de confinamento. E assim está provado: quem tem ética, não fica. Na edição anterior havia um advogado que se portava da mesma maneira (e advogado ético nesse país parece utópico) que fora eliminado justamente por ser uma utopia! Circo pegando fogo é um cenário que todo mundo quer ver, independentemente das conseqüências. É necessário ofender, perseguir, humilhar. Situações que, “na vida real” por nós seriam consideradas inaceitáveis, na casa do Big Brother são comuns e a audiência vai muito bem, obrigada.
Havia um tempo, há oito anos atrás, quando o programa passava por sua terceira ou quarta edição, que eu realmente pensava em participar de tudo aquilo. Não por conta das festas, da piscina, do prêmio em si – artifícios ambiciosos que levam milhares de pessoas a inscreverem-se. Nada disso. Apesar dos pesares, o Big Brother nos traz, estranhamente, uma grande concepção de si mesmo. Ali, todos os nossos limites podem vir a ser testados, não apenas em provas de resistência ou de raciocínio lógico, mas no momento em que Fulano passa por você e não lhe cumprimenta, para depois indicar-lhe ao dia de eliminação. Será que a culpa vem a ser nossa? Se Fulano não se aproxima, porque a Montanha não mover-se-á até Maomé?
É sobretudo a enorme ficção que criamos de nós mesmos, a fábula menos pior, a casca. Um dia, com toda a sua paciência esgotada, também enxerga-se a ferida aberta e toda a sua invenção desmascarada. Porque você tem um namorado aqui fora e beijou um Príncipe Encantado lá dentro. Porque você não contou sobre a vida que levou para o rapaz que se atreveu a conquistar-lhe. Porque você não deve satisfação. Porque a sua família pensará errado da aparente princesa que tinham em casa. Porque não há alegria estonteante que não possa apagar-se diante do desespero de uma lágrima. Porque você tem medo de palhaço e eu sou claustrofóbica. Porque você ofende e grita, porque eu me calo e vou embora. Porque eu não sou você – e posso discordar. Vice-versa. O Big Brother é essa esperteza doentia da exposição, esse auto-conhecimento profundo, essa indignação evidente do anti-herói que ganhou a edição passada e dos quinze minutos de fama, que se perpetuam.
O Big Brother é toda essa perda de tempo apavorante, que nos deixa fixos os olhos no televisor, a ver uma ficção malmente ensaiada e vestida de vida real. Criticar ofensivamente significa ser o primeiro a ligar o aparelho depois da novela. Apontar a personalidade deste ou daquele é, inconscientemente, indicar uma parede de espelhos à nossa frente. Tudo isso é muito engraçado, comovedor, perigoso e envolvente. O que não aprendemos, ainda, é que existem diversas formas, mais honestas e inteligentes, do que a venda da própria humilhação e imagem – de conseguir dinheiro ou fama. E a vida nos ensina, do momento em que nascemos ao instante que partimos, coisas belas e sujas, que moldaram, moldam e moldarão nossa personalidade, fracassos e triunfos.
De modo que não é necessário fingir ser verdadeiro e vender os seus princípios em nome de grana ou “ser ou não ser, eis a questão”. Quer ser artista? Faça algo de útil à sociedade. Participando de um reality show de tão baixo nível e falta de consideração, o máximo que se poderá conseguir é o título desonroso de “sub-celebridade”, parabéns. Preciso desligar mais a televisão e ler um livro. Com essa atitude, nada perco. Ganho mais perante meu conhecimento. Tente fazer o mesmo.

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13 respostas em “Ficção é isso

  1. Ai Nina, assino embaixo! Eu também fiquei furiosa que a Nathália foi votada com a mais falsa e traiçoeira, e muito mais furiosa quando ela foi eliminada ao invés da falsa da Adriana. Realmente a ética perdeu mais uma vez para a possibilidade de que haja mais barracos, entre Adriana e Rodrigão, ou sei lá. =S

  2. Definitivamente, “moral” não é a palavra do século/década/milênio. E eu vou continuar achando que é hipocrisia cobrar isso de um programa de TV quando já não existe fora delas (e, na maioria das vezes, não faço questão nenhuma de que exista). Enfim… continua escrevendo muito bem!

  3. Olha, eu assisti ao primeiro big brother, depois abandonei, olhei o final daquele que apareceu a Grazi Massafera e só. Desisti, simples assim. Não consigo ver tudo isso sem a raivinha se movimentar dentro de mim. Não consigo acreditar que o horário do BBB é sagrado na casa de tantas pessoas! Falta tempo para as pessoas se olharem, conversarem, perceberem seus próximos, porém para o BBB, o horário é privilegiado. É, vou morrer sem entender tudo isso.
    Ótimo texto ;)

  4. Zuba!
    kkkkk, ri muito lendo esse texto, só imaginei você em minha frente o defendendo.
    Então, tu tá ligada que tou assistindo também né? Achei horrível a Nathália ter saido também, era uma das poucas que via sinceridade.
    Mas é isso ae, esse texto mostra que você continua a mesma determinada e idealista Daniele que conheci.

    Ah! Tu tá ligada também que mudei de blog num é?
    http://sopedacos.blogspot.com/

  5. não é autoconhecimento, é hiperbolização de todos nossos pathos. se já agimos diferente diante de uma pessoa, imagine diante 50 milhões delas. é um teatro, com personagens distantes, milhares de quilómetros de suas estruturas (se é que esse bando de retardado uma vez teve uma estrutura). combinado ou não, não há diferença: é tudo teatro.

    e, claro, teatro por teatro, prefiro assistir ao próprio. e realidade por realidade, prefiro ir às ruas.

    como sempre, excelente texto!

  6. Zuba, quanto ao layout por enquanto vai ficar esse ae pq tou com preguiça de procurar outro e mudar.
    Então, quanto a confirmação de palavras, nem tava ligado que tava ativado, mas já desativei, tbm detesto aquilo.

  7. é de 5ª categoria. quando você disse que teve vontade de participar, era a época que eu gostava de ver o programa. há 3 anos, eu não assisto mais.

  8. nunca assisti big brother, exceto uma ou outra edição que realmente importavam no contexto brasileiro. mas mesmo nessas, era lixo da pior qualidade – apesar de divertido.

  9. Sabe Nina, eu assisti a todos os BBB até agora. Essa edição está sendo a primeira que eu não acompanho, quer dizer, não acompanho diretamente. Devo ter assistido a uns 3, 4 programas, nenhum inteiro, mas meio que sempre sei o que está rolando na casa por causa do Twitter e dos comentários de amigos.
    Confesso que o que me motivava a ver o programa era mais a vergonha alheia do que qualquer outra razão mais poética e inteligente, como assistir ao circo da personalidade humana, etc, etc… Gostava das picuinhas, dos barracos, dos casaisinhos, essa coisa toda boba mesmo.
    Só que desde a edição passada, que eu só vi o começo e depois larguei de mão, acho que perdi a paciência com o programa. Juro que tentei assistir a esse, mas tenho muita birra de todo mundo lá dentro. Muita mesmo, que beira a ojeriza. A única que eu não odiava era a Natália, e ela ter sido eliminada só mostrou que o programa não tá mais valendo a pena. Só sei que não suporto a voz da Maria, e tudo que a Paula faz, e a nojenta da Talula, e queria socar a cara da Diana toda vez que ela resolve falar que é autêntica e tem muita atitude. zzzzzzzzzzzzzzzzz
    Tô preferindo os realitys americanos, mais doença, mais vergonha alheia, e divertidos pra caramba.
    Beijo!

  10. Houve um tempo em que eu assistia Big Brother, mas era sempre da seguinte maneira: empolgava assistindo, ia desempolgando, desempolgando até que parava de vez. Nas últimas 3 edições sequer parei para assistir mais de um dia. Simplesmente desinteresse. Não consigo mais, realmente, me interessar por esse programa mas, ao mesmo tempo, não crucifico quem se interessa. Quem sou eu, não é mesmo? Cada um escolhe as melhores formas de gastar seu tempo livre.
    Eu, por exemplo, escolhi ler o seu blog e estou muito bem, obrigada! :)

    PS: Vou responder aquele meme essa semana! Tava sem inspiração. :~

    Beijão!

  11. Eu nem tenho o que falar, nunca tive paciência pra esse Reality Show.
    Já assisti outros e quer saber, sinto que as pessoas são cobaias e quem assiste também.
    Enfim, difícil de falar.
    Não condeno ninguém, porque não quero que me condenem por não assistir.
    Kiss

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