Diálogo imaginário com Anna, antes da valsa russa

(Para Anna Vitória, respectivamente).

Sienna Miller e Keira Knightley em cena do filme Amor Extremo.

...

– Eu sou completamente apaixonada por Chico Buarque. – Disse-me ela, deitada no chão da sala, ao meu lado, desfrutando dos cookies imperfeitos e despedaçados que eu havia tentado fazer.
– Conte-me uma novidade, Pequena Audrey. – Respondi. Sempre imaginei que a chamaria de Pequena Audrey. Ela sabe o motivo.
– É verdade. Toda vez que eu ouço Tira as Mãos de Mim, peço-lhe o contrário, logo em seguida. “Ponha as mãos em mim”. O cara é muito sedutor. Penso que todos nós guardamos um amor secreto e impossível desde a infância. O meu é Chico Buarque.
– O meu também. Quer cigarro? – Eu estava fumando. Nunca havia fumado. Também não compreendi o motivo do oferecimento. Mas resgatei um cigarro de cima da mesa de centro. Acendi. Quando havia colocado na boca, dei por mim que estava vestida de um batom vermelho. – Mas eu já traí o  Chico diversas vezes. Pelo Caetano, pelo Djavan… Acho que isso explica tudo.
– Tudo o quê?! – Perguntou, sorrindo e virando-se, curiosa.
– Tudo. Ele nunca me fez uma música. Até você tem uma música, minha cara Anna, de Amsterdã.
– Bobagem. A música não foi feita para mim. – E ela voltou a se deitar – Não existe alguma canção que, de alguma forma, tenha sido “feita” para você?
– Talvez. Ainda não sei. Acho que sou a moça deslumbrada que as vitrines vêem passar. Ou aquela orgulhosa d’O Meu Amor: “tem um jeito manso que é só seu…” – cantarolei. – Já sofri Atrás da Porta. Mas talvez eu seja a cabrocha de alta classe que se acostumou a ser princesa durante o carnaval, vai saber.
– A vantagem de não ser nome de música é que todas as canções de um determinado compositor podem ser suas, tigresa de unhas negras e íris cor de mel. – E voltou a retirar um cookie do prato.
– Não, Karenina. Caetano fez Tigresa para uma personagem de Sônia Braga. E Trem das Cores é a música dela. – Pousei o cigarro no cinzeiro, com nojo.
– E quanto a Rapte-me, Camaleoa?
– Esta é de Regina Casé.
– Mentira!
– Verdade.
Ela tomou metade de um copo de refrigerante enquanto eu suspirava profundamente. O chão estava frio e lá fora chovia. O vento adentrava a casa, sem respeito, sacudindo e molhando as cortinas das janelas abertas. A rua estava escura.
– Somos jovens. – Ela disse, misteriosa.
– E daí? – Indaguei.
– Você não tem medo que ele morra antes de o conhecermos? Nascemos na geração errada. Não estávamos aqui quando ele compôs A Banda. Eu não conheço a Miúcha. Você mora na Bahia, mas não é amiga de Carlinhos Brown. O Chico tem mais de sessenta anos. É mais fácil conhecer Caetano primeiro, visto que a família Veloso até centenária é.
– Quando foi que você se tornou tão fatalista quanto eu, Pequena Audrey?! – E sorri daquela observação. – Na realidade, sei bem do que você está falando. Já passei por isso…
– Já? Quando?
– Ano passado. Quando perdi o José.
– Mas que José?
– Saramago.
E ficamos mais uma vez em silêncio. As luzes da casa se acenderam e não precisei avisar que a eletricidade havia voltado. Ligamos a televisão. Havia terminado a novela para iniciar o reality show. Sentamo-nos no sofá e acabamos com os farelos de cookie que ainda estavam no prato. Depois de rimos com bobagens diversas, ela adormeceu primeiro. Levantei, peguei uma manta, cobri-a e fui para o meu quarto.

“No vôo que desfere,
Silente e melancólico,
Rumo da eternidade,
Ele apenas responde
(se acaso é responder
A mistérios, somar-lhes
Um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.”
:: Do poema Perguntas, de Carlos Drummond de Andrade.

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10 respostas em “Diálogo imaginário com Anna, antes da valsa russa

  1. Havia escrito este diálogo na semana passada, cujo título original era “Conversa imaginária com Anna”. Entretanto, recebi de meu amigo Johnny uma notícia adorável: reza a lenda que, ao lançar novo disco de inéditas ainda este ano, Chico Buarque trará uma valsa russa, intitulada “Nina”. Um dia antes da tal notícia, quando escrevi este conto-cronicado, não fazia idéia de que era verdade. Imediatamente decidi pela alteração do título. E, caro Chico: aguardo “minha música” com alegre ansiedade. E ai de ti caso decidas por mudar o nome!

  2. Posso dizer somente uma coisa: Adorei!
    Pronto!

    beijinhos :*
    PS: Sinto-me órfã por não ter a gana de querer conhecer alguém assim, importante… Talvez até a tenha, mas deve estar beeem escondido.

  3. Tenho essa mesma paixão pelo Chico ( “Chico”, já com alguma intimidade), não que não tenha traido-o algumas vezes com Caetano ou Cartola; e esse mesmo medo, de não conhece-lo, nascida nessa época errada, nessa nova juventude…
    identifiquei-me…
    beijo

  4. Belíssima crônica, Nina! Me sinto meio excluída por não escutar Chico Buarque, mas posso entender o tema, né? :)
    Adoro seus textos e esse em especial tem um ar tão, I don’t know, sépia.

    Beijinhos!

  5. Daí que eu vi a Amanda falando no twitter que você tinha esrito um texto pra Anna e resolvi vir aqui ler… e ó, me senti assistindo a essa diálogo, cada palavra, cada movimento, cada sentimento. Adorei! Tenho certeza de que a Anna vai adorar também.

    E pois é, daí [2] que fui fuçar seu blog e vi que o link do meu se encontra lá na sua lista, coisa linda de se ver. Essas coisas massageiam o ego, sá cumé? .D

    Um beijo

  6. Nina, você tá viajando! Mas não tem problema, querida, teremos o ano todo. Em breve eu volto. Beijo.

  7. JÁ POSSO ME ACHAR?!!
    Nina, sua linda, já te disse o quanto você é querida? Fiquei muito feliz com essa crônica, mesmo, guardarei para a posteridade. Super delicada e plenamente verossímel. Não duvido nada que seria fácil uma conversa assim acontecer caso nós duas nos encontrássemos juntas esperando a energia voltar. E ainda tendo Chico como pano de fundo! Só amor!
    Muito obrigada pelo carinho, de verdade.
    Beijo!

  8. Mais uma crônica muito bem escrita e envolvente.
    Chico tem a capacidade de nos deixar apaixonadas, não é? Ele parece sentir o que nós, mulheres, sentimos. Acho que possibilidade de ter ‘compreensão masculina’ que ele nos dispõe acentua ainda mais seus atrativos, rs.
    Adorei!

    Um beijo,

  9. Estava com saudades de ler você. Sempre bom tudo que escreves, Nina. Ainda mais quando é sobre ele.

    Beijos, Ana Karina

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