Cabrocha

(Para Victor Hugo e R.S.C., com amor).

Kirsten Dunst, em cena do filme Maria Antonieta.

...

Era maio do ano passado. Estávamos naquela agonizante pressa para encontrar um estágio – nós, amigos e adversários – de uma carreira promissora da qual somente você deve estar seguindo. Fazia um calor abafado dentro do ônibus em que estávamos. Você, esperto, sentou ao lado da janela. Abri meu leque para fazer do vento um fenômeno natural presente. Apesar dos meus momentos de silenciosa vigília, conversávamos banalidades. Ao que, empolgada, deixei “voar” o leque na direção da moça que lia Paulo Coelho à nossa frente. Ri, envergonhada, e você fez o mesmo, mas sendo o cavalheiro que sempre foi, pediu desculpas e recolheu o artefato imperial do assento da frente.

***

Havia um tempo de brilho incontido, de horas a fio escolhendo os adereços a compor a fantasia verde-e-rosa. Era tempo de Rio e Sampa invadindo a Bahia, do percurso mal-traçado e dos atalhos e desvios, das inexistentes carruagens tão venezianas quanto o baile que nos aguardava impaciente. Havia um tempo em que me faziam uma cabrocha de alta classe, de dourado me vestiam, para que o povo admirasse. De serpentina no chão da praça. Havia um tempo em que as canções eram mais inocentes, em que sair na Avenida não era perigo evidente. Havia um tempo em que o barulho era mais convidativo, em que a casa nossa de cada dia servia apenas ao descanso, enquanto as ruas eram invadidas por pessoas várias e mascaradas – e todas as máscaras traziam uma irreverência -, que era, de toda forma, sua identificação.

***

No mês seguinte, pouco antes das férias juninas, deitamos na escadaria da biblioteca, a fim de conversar. Falamos do passado com aquela certeza infeliz de que, separados pelo tempo, éramos demasiadamente solitários. No primeiro ano, você filava todas as aulas da primeira unidade para passear cidade afora. Eu fazia o mesmo, desanimada com meus professores e colegas de classe, para ler best-sellers na arquibancada. Me apaixonei por quem viria a ser o seu Melhor Amigo. Tudo ocorria em turnos opostos.

***

Havia um príncipe em cada baile infantil – e todos eles estavam a minha espera, a dar-me as mãos em trato de convite. Mas havia um príncipe de rosto pintado ao modo leviano Luís XV. Esse príncipe estava em todos os bailes, era o mais velho dos príncipes (devia ser delfim) e eu imaginava que, se não o casassem logo, estaria a perder o seu reino.
Por um ano, fora diferente. Eu já crescida estava, o carnaval começara sem que eu me desse conta. Houve um tempo em que se ouvia Saudosismo, que era música cantada para uma pessoa só. E o carnaval já não era importante deveras, porque eu torcia na aproximação da quarta-feira – onde tudo se acabasse. Porque, segundo a promessa da canção, estaríamos juntos naquela data: “eu, você, nós dois/ quarta-feira de cinzas no país/ e as notas dissonantes se integraram ao som dos imbecis”. Havia um tempo em que todo carnaval tinha seu fim.

***

No segundo ano, parecia ainda uma fuga. Você mudou para a manhã e eu me encaminhei para a tarde. Desencontrei você para criarmos laços definitivos como toda amizade vã – no último ano do colégio, nas escadarias da biblioteca, para que você acabasse dizendo: “Talvez, um dia, eu esteja no ônibus e encontre você, a jogar o leque em minha cabeça”.

***

Era um tempo em que havia pôr-do-sol todos os dias, disponível ao bel-prazer dos olhares atentos. E fora em um desses que eu a vi. O samba havia começado – ela era a mais brilhante. O cortejo inteiro se cansava, enquanto ela seguia adiante. Era porta-bandeira baiana, desfilando, ia cantando a liberdade. Com o olhar acompanhei e espetáculo, vinha atrás também a banda, em viola enluarada, cantando marchinhas e outras coisas de amor. Veio o príncipe, cruzando a esquina – e eu o reencontrara, finalmente. Veio o príncipe, fixando o olhar na passista porta-bandeira. Veio o príncipe, que havia encontrado sua rainha de bateria. Veio o príncipe. Ela viu. E tornou-se a mais bonita onde ele era mestre-sala.

***

Em minha outra vida, quando fui Elisabeth, lembro-me de um inesquecível episódio: era fevereiro de 1874, quando inventei de ir ao Baile do Reduto – um baile de máscaras, à veneziana, bastante democrático, pois toda a sociedade austríaca se juntava, fazendo com que ninguém soubesse se a identidade do seu par provinha (ou não) da nobreza. Fui acompanhada de uma de minhas damas e acabei conhecendo o senhor Taschnik. Era um jovem aparentemente tolo (que, tardiamente, vim a perceber que possuía apenas a inocência de uma criança), mas de elegante porte, com quem dancei muitas valsas e mantive uma correspondência assídua até o fim de minha vida, sem que ele soubesse minha identidade, embora vivesse em desconfiança. Naquele baile, esqueci um leque preto e simples – mas acredito sinceramente que o homem com quem estive decerto o guardou a vida inteira.

***

Nenhuma história de amor carnavalesca tem final feliz. Houve um tempo em que se via Colombina, Arlequim. Em que Carmem Miranda não era americanizada. Hoje em dia até mesmo eu ando distante do calor de qualquer gingado, onde os camarotes transformaram-se em noites de gala, quando o meu samba quer ser na rua. Quando posso, quero e devo, bato palma com vontade, mas não é sempre que vem valendo a pena. O carnaval era um tempo de certezas absolutas, em que ser criança era melhor, era o tempo de “ter sido” sem ter planejado. Ou o tempo dos planos futuros, longínquos.

***

Agora é fevereiro e o carnaval se aproxima. Não tenho a pretensão de ir em algum baile de máscaras, mas parei na frente de uma vitrine de antiquário e notei um leque preto em destaque. Adentrei o recinto, mas não obtive significativas respostas quanto a origem do objeto antes de comprá-lo – a um custo relativamente alto para um leque meio quebrado.
Fico a pensar se é um presente da vida que tive, ou mesmo um sinal de reencontro nosso. Seja como for, ainda espero ansiosamente pelo momento incerto em que poderei avistar o seu semblante, sinalizando minha presença com esse leque, mesmo que você, pé-de-valsa imperial, como costumo chamá-lo, esteja agora com uma porta-bandeira mais atrativa aos olhos teus. Você mesmo não sabe, mas houve um tempo em que o samba não precisava sair, me procurando. Era eu quem ia atrás dele até o dia último amanhecer. Era a infância primeira, ausente de preocupações. Resta a recordação, sobretudo. E uma canção para espantar a saudade. Porque eu, que tanto brinquei de princesa, acabei por acostumar-me à fantasia.

“Mas ele não reencontrava nada do frágil brilho que o tinha encantado tanto. (…) Nada, exceto esse rosto de arcanjo que ele tinha adivinhado naquela famosa noite.
E o movimento do leque.”
:: Do livro A Valsa Inacabada, de Catherine Clément.

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6 respostas em “Cabrocha

  1. Esse com certeza foi, senão o mais, um dos seus textos mais lindos que já li. E só tenho isso a dizer, porque de carnaval e amores estamos todos infestados.

  2. Texto lindo.
    Não cutro muito carnaval, não tenho tantas boas lebranças assim mas, as que tenho prefiro guardar comigo.
    Kiss e ótimo findes.

  3. ah… até chorei um pouquinho. lindo, lindo, lindo mesmo.

    sinto falta de carnavais venezianos, ou pelo menos carnavais que façam menos barulho.

    beijo!

  4. sendo carnaval ou qualquer outra coisa, o final feliz é simplesmente impossível.

  5. Nina-querida,
    Resolvi tentar dar mais vida ao blog, voltei a comentar. Deixei o seu por último, sempre deixo o que gosto mais por último, e aqui… se eu pudesse morar no teu blog, te juro que te pedia abrigo.
    Lindo texto, como sempre, adoro tanto encontrar uns versinhos do Chico no meio dos teus escritos.
    “Quem te viu, quem te vê”, linda, linda.
    Um beijo!

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