Escrevo, logo existo

Não sou movida por promessas. Se fosse, seria suficientemente leviana e estaria já casada com um homem que, provavelmente, teria toda a razão do mundo para trair-me sem que eu soubesse. Se fosse, jamais perguntaria a uma artista, diante do seu público, quem ela levaria para a cama naquela noite. Se fosse, não haveria também razão para continuar escrevendo.
Fui movida por inocência durante muitos anos. Havia feito o meu próprio mapa-astral, onde a intervenção do destino pouco me era válida. Tinha certeza do que queria e de como conseguiria. Naquela época, em que eu era uma criança de cerca de trinta anos, parecia fácil: colegial, faculdade, trabalho, apartamento, viagens, viver com arte. Havia um seguimento clínico (e alguns cursos paralelos que fiz, traçando planos extras, caso o primeiro não desse certo), o que me deixou tranqüila por um certo período, enquanto meus colegas de classe se descabelavam com testes vocacionais diversos. Eu tinha certeza. No fundo, ainda tenho. Mas o termo “conseguir” se transformou em “tentar” e “tentar” é muito menos tentador – oh, infame trocadilho.
Quando comecei a escrever neste espaço, era engraçado, pois só havia um objetivo: desabafar. Nada me parecia mais instantâneo e terapêutico (o que demonstra que a escrita serve para artifícios dos mais variados). Minha intenção nem era tanto de fazer amigos inúmeros com outras tantas crises existenciais piores ou mais levianas do que as minhas. Eu escrevia porque sentia. Escrevia porque amava. Escrevia porque odiava. Escrevia para humilhar quem eu julgava que merecia. E escrevia para me culpar, deveras. Não obstante, em algum momento, a fase platônica se dissipara e cá estou eu, a ouvir Chico Buarque, dando risada do grande amor, jurando que não é mentira.
Não muito tempo passou e descobri que sim – era capaz de amar novamente. Era um motivo novo para usufruir da inspiração que se posicionara abaixo do meu nariz, sob a forma magistral e nada original de uma lâmpada. Reconciliei meu coração de pedra com a minha insanidade sem fundamento e, lá estava eu, ouvindo Caetano Veloso, porque só um novo amor pode a saudade apagar.
Entre essas duas fases, porém, foram poucas – digo raras – as ocasiões em que amadureci literariamente. O máximo que distingui disso tudo foi que criei um estilo literário sem perceber – e que só vejo hoje porque reli tudo o que escrevi até então. Assumo a crônica como minha única capacidade de expressão. Recorto mentalmente trechos de música e em muitas canções me inspiro para compor textos dos mais variados, embora ainda esteja egoísta quanto aos assuntos. Tenho um acervo mediano de citações dos livros que andei lendo nos últimos três anos – e eles também se fazem presentes em quase tudo o que escrevo. Mas a característica maior do que venho desempenhado é essa patologia sem limites que vocês, caros leitores, perceberam antes de mim: fuga do real para o imaginário – e vice-versa. Frequentemente me perguntam o que é verdadeiro e o que é ficção naquilo que escrevo. No princípio, fiquei a imaginar se vocês duvidavam de minha capacidade literária ou do fato de que eu realmente fosse uma colegial de dezesseis, dezessete anos que dormira com quase metade do corpo docente durante o último período do ensino médio. Por ventura e capricho de autora iniciante, decidi deixar com vocês mesmos o mistério. Saramago dizia que um autor deve ser julgado por sua obra enquanto estiver vivo pois, consequentemente, poderá defender-se de quaisquer acusações. Porém, em se tratando da minha pessoa, faço questão que se deleitem com biografias póstumas no formato mais admirável que a impressa marrom possa divulgar. O que, afinal, move um cronista? A obra de sua própria vida, daquilo que ele vive e observa – correto? Por qual motivo, então, deverá haver dúvidas quanto a veracidade daquilo que o autor transmite?
Sim, venho utilizando muito da ficção para compor minhas crônicas, admito. Mas vocês erram, muitas vezes, sobre o que julgam ser uma inverdade. É devaneio, claro, quando estou a relatar a vida da imperatriz Elisabeth da Áustria como se fosse eu a reencarnação desta. Mas será mentira ou coincidência que a infeliz ocasião de seu assassinato no estrangeiro tenha-me influenciado no coração que pulsa de nervoso e enfraquece facilmente? Serei eu doente de fato, ou também minha doença é crônica?
Ultimamente tenho acreditado mais em destino, em acaso puro, do que nos planos que eu mesma havia traçado. Ter sido educada por uma professora aposentada tão boa contadora de histórias que, por ventura, também era minha avó – só poderia significar isso, apesar da completa negação de meu pai quanto ao meu suposto talento. Mas fiz ballet dos quatro aos dez anos. Li Shakespeare e Dostoievski aos doze anos de idade. Fiz música e teatro pouco depois disso. Comecei a escrever pequenas fábulas aos dez anos que, engavetadas durante muito tempo, foram redescobertas e necessárias enquanto eu fazia um curso técnico em Informática. Agora, enquanto este blog completa três anos de existência e eu estou definitivamente desempregada (mas virtuosa de um arsenal criativo que beneficamente têm me incomodado), um grande amigo me convida para um projeto literário, muito bom aliás. Casos do acaso. Ou talvez, com tantos paralelos que tive em minha vida, uma predestinação para a escrita sempre estivera comigo, desde que nasci. Nunca me vi como escritora, embora goste de escrever. Caso eu enxergasse esse coletivo de desabafos como profissão, certamente viveria frustrada com prazos de entrega e editores intolerantes que limitariam meu espírito criativo. Vejo vocês, meninas de quinze, dezesseis anos, inspiradas por um amor leviano ou o fim de algo que sequer aconteceu – já passei por tudo isso. E devo dizer que o bom da literatura, inicialmente terapêutica, é poder cortar os pulsos com a lateral do papel ofício, até que se amadureça. Porque vocês irão descobrir que o amor segundo e terceiro é melhor do que aquele que parecia eterno. Porque vocês irão se deparar com frustrações deveras em qualquer tipo de relacionamento. Porque vocês não vão odiar a si próprias a vida inteira pela culpa que não fora dividida. Porque vocês vão estudar, se profissionalizar e conhecer alguém que lhes dê o valor necessário. Ou não. Mas também, não será o fim do mundo – cada um é feliz à sua maneira. Eu sou fatalista, otimismo não é comigo, vocês sabem. Por não ser movida por promessas, vou com o destino. Sou movida pela incerteza que ele reserva para mim.

“O meu trabalho é sobre a possibilidade do impossível. Peço ao leitor que aceite um pacto; mesmo se a idéia é absurda, a coisa importante é imaginar o seu desenvolvimento. A idéia é o ponto de partida, mas o desenvolvimento é sempre racional e lógico.”
:: José Saramago, no livro As Palavras de Saramago, sob organização e seleção de Fernando Gómez Aguilera.

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14 respostas em “Escrevo, logo existo

  1. Ei Nina! Realmente quando a gente cria um blog não imagina que proporções ele pode tomar, pra mim, até agora, foram todas boas. E admiro quem consegue se expressar tão bem através de crônicas, porque a crônica sempre foi meu ponto fraco. Era a professora pedir uma crônica na sala e eu tinha vontade de me matar, hahaha. E eu acreditava que dificilmente seria verdade você adolescente se deitando com todo o corpo docente da escola, fique tranquila, hahaha.
    Beijos!

  2. Quando eu era criança eu tinha um diário e começa a escrever com aquela frase “querido diário”e dai passava horas contando como minha vó tinha sido legal comigo e algum amiguinho da escola não. Daí passei para um fotolog e agora para um blog, não tenho mais só a vontade de contar ao meu querido diário sobre essas coisas bobinhas mas vontade de contar tudo, tirar em forma de palavras tudo do meu peito até me sentir oca mas até hoje nunca consegui fazer isso, admiro demais quem consegue e você foi um exemplo disso.

    Adorei o blog :D
    beijos

  3. Olha que me identifiquei com seu texto. Eu sempre considerei minha criatividade bem interessante, desde pequena, mas até hoje tenho uma dificuldade enorme em escrever contos, ficção e essas coisas; parece que estou presa em mim e na realidade, mas vivo viajando por aí. Vai entender.
    Ainda tenho que amadurecer muito literariamente.
    Beijo, moça.

  4. AI QUE SAUDADE DE VIR AQUI

    Apesar do blog parado, minha criatividade não anda a zero. Ultimamente tenho escrito só em diário, só em arquivos do compputador. Mas não por não querer mostrar os textos, mas pq tô trabalhando em outroprojeto =P
    Quando criri o blog, não tinha idéia das proporções que iam tomar. Só sei que fiz muitos amigos atraves dele. E amigos que vou levar pra vida toda. Isso é o que mais me fez fliz com esse lance de blogar =) “esse lance de escrever” =)

    Só sei que vou continuar escrevendo
    É minha maneira de lidar com o mundo e comigo mesma =)

  5. caminhar sobre teus textos é delicioso. é como passar anos com sapatos desconfortáveis e, enfim, tirá-los para sentir a areia húmida entre os dedos num passeio beira-mar.

    Uma pena que tenha que calçá-los novamente no ponto final. Me restam alguns mil títulos que vendam seja lá o que for para seja lá quem seja lá por que.

    amei.

    Beijo

  6. escrever, pra mim, é libertação. é quando você pode jogar tudo que sente e que pensa com força e com intensidade, sem se preocupar com as máscaras e as censuras do dia-a-dia.

  7. Admiro sua escrita e admiro mais ainda não poder distinguir o que é ficção ou realidade nos seus textos. É legal esse mistério; essa característica só deixa seus textos ainda mais interessantes.

    “Sou movida pela incerteza que ele reserva para mim.’

    Adorei esse trecho.
    Não é possível viver de certezas. A vida nos faz reavaliar nossos conceitos a todo momento. E mesmo que fosse possível, seria muito chato. O bom da vida são essas surpresas, essas incertezas.

    Se você um dia publicar um livro, me avise; serei uma das primeiras a adquirir um exemplar.

    Um abraço, amiga blogueira e tuiteira. ;)

  8. E nós de cá agradecemos a existência deste espaço.
    Você tem razão, me pergunto como é que uma menina de 17 anos tem assim tantas experiências guardadas dentro de si. Como diria Clarice, “histórias verdadeiras, embora inventadas”.
    E é isso, não é?
    Um beijo!

  9. Parabéns, queridona!!!! Coisa boa tem que ter vida looooooonga.
    Aqui é biscoito fino.
    beijo!

  10. E continue a escrever. Seus textos sempre me causam um tremendo bem-estar, não sei explicar. Gosto muitos de te ler.
    Nunca se se esqueça de que as palavras são o seu cartão-postal, a suas identidade. Enfim, continue.

    Um beijo.

  11. Oi, sua fatalista! ;)
    Poisé, a gente vai desenvolvendo um estilo literário sem notar, né? Eu meio que terminei fazendo algo Meg Cabot, algo que tenta conversar com o leitor. Mas não digo, nem de longe, que o meu estilo é só isso. Ainda estou experimentando muito. E não faço ideia do que será de mim de verdade.
    Esse negócio do real e irreal é engraçado. Ter que explicar, toda vez, que algo é um conto e não algo que realmente acontecera é chato. Às vezes deixo sem resposta, a seu exemplo. Deixem que falem, quem pensem, que digam. :)

    Adoro vir aqui.

    Beijos!

  12. Eu PRECISO comentar este teu texto. Mas se permitires a mim, farei num momento mais adequado, para que eu possa deixar minhas impressões com total plenitude. Afinal, é sobre você de quem estou lendo, e de quem sempre li, com muito afinco e carinho. Não apenas pelo o que guardo a ti, de afeto, mas pelo quanto sou fiel aos teus sentires. Porque o que sempre enxergo de ti, me leva a debulhar sensações dentro de mim também. Você impulsiona um pouco meu aprendizado como ser humano. Aprendendo a te conhecer, aprendo a saber mais destas diferenças que permeiam nós seres humanos.

    Encontrei muita coisa boa aqui. Por mais que você se entregue ao fatalismo, nunca impedirá eu de dizer o quão preciosa és e o quão feliz há de ser.

    Deixe-me vir aqui depois, para poder dizer melhor, com calma (e novamente) tudo o que aprendi e o que vejo em ti.

    Por ora, deixo aqui o meu beijo mais carinhoso. Porque não há como esquecer você. Te amo amiga mais querida! E assim sempre será!
    Te cuida! Te quero bem!

  13. Anda virando cliche meus comentários sobre você. Mas vamos lá, hoje quero ser diferente.

    Daniele, nunca duvidei de seu talento literário. Nem sou enganado com a sua mescla de ficção com realidade. Ou com seus devaneios. Encontro você em pequenos detalhes das crônicas. Você sempre encontra uma forma de delinear um pouco aquilo que se passa contigo, mesmo que floreado pela fantasia ficciosa de alguns contos. Às vezes sonhos intrincheirados no profundo da alma, apenas expostos como possibilidades de uma reviravolta na realidade. Toda lenda tem um fundo de realidade não é? Todo desejo, exposto na ficção, tem uma ponta na realidade. Apenas como uma forma de fuga.

    O duro é sempre você por nas palavras, coisas das quais nunca sequer foram verdades, mas que poderiam ser, caso escolhesse que fossem…

    De qualquer forma, vejo em ti uma mulher que cresceu muito rápido. Talvez devido às grandes coisas que buscou ler e conhecer desde antes. Universos em que nos fazem descobrir um pouco do lado erudito da vida.

    Desculpe dizer se penso crer que esta fuga, te trouxe amarguras, desabrochadas no agora e ao longo do crescimento. Resultante talvez dessa aceleração de conhecimentos. Você virou mulher em menina. Mas ainda é uma menina, mesmo sendo mulher. E ainda há este conflito, entre o lado infante, ingênuo e sensível que ainda persiste, com o lado mais prático, racional e amargo em que a fase madura nos oferece.

    Em termo práticos, você pulou do primário para a faculdade muito cedo… rs
    É claro que isso não é um paralelo para referência. Apenas são minhas impressões.

    De qualquer forma, gosto de saber que soube ver o seu lado menina ainda. Vive lá dentro. E sofre sim, passa por esses dilemas, se frustra. É normal. Mas essa aceleração da vida acaba tropeçando um pouco suas resistências…

    Bem, és fatalista, e isto prejudica um pouco. Mas o que me move é o otimismo que tenho quanto a ti. Minha amizade por ti, sempre vai estar disposto a ajudar, mesmo que um pouco a equilibrar tuas emoções.

    Beijos meu anjo!
    Te cuida!

  14. Pingback: Retrospectiva literária 2011 « #sobrefatalismos

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