Claro enigma

Por sugestão do Mendes Campos, alterei a posição da mobília de meu cômodo pessoal, fazendo com que a escrivaninha permaneça defronte à janela. Segundo ele, janelas dão inspiração a mais para a escrita, fato do qual concordei solidamente e decidi por compartilhar também. Feito isto, percebo que são onze horas e ainda não tomei o café, resoluta que estava com aquela idéia na cabeça, deveras sugestiva do meu amigo escritor.
Descendo as escadas da pensão, deparo-me com o bêbado Castro Alves, de terno maltrapilho, vestimenta da noite anterior, cabelos desgrenhados e barba por fazer. Ainda estava nitidamente alcoolizado, mas mantinha um sorriso enternecido pela dama que certamente estivera em companhia. Embaixo do braço, levava uma pasta que continha seus mais recentes poemas que, tão boêmio quanto outrora, versava amores banais. Com o fim da escravatura, o jovem Castro deixara de ser político, por não ter mais temática que o interessasse a tratar. O Sabino aconselhara-o que o bom da vida seria narrar a infância, mas o poeta ficara com a sugestão melhor de seu colega Vinícius de Moraes – cujas magnificências das curvas femininas o ganhavam de jeito. E assim vivia Castro Alves: todas as noites em companhia de novas inspirações em forma de musas.
Cumprimento-o e descubro que o poeta irá até o bar da esquina, de modo que ofereço-me para acompanhá-lo, tendo em vista o horário e a fome que se abateu. Ele concorda, feliz, e se atreve a fazer-me um gracejo, perguntando se por acaso não estaria eu a querer fazer-lhe uma visita noturna ainda hoje. Respondo-lhe em tom de troça que é meu desejo expresso não alimentar ser mais uma de suas aventuras, o que ele sabe bem. Sorrimos, mas então somos interrompidos por uma infeliz casualidade, pois, no momento em que me pus de um salto a ficar de frente para o poeta, eis que um outro me atravessara, deixando cair uma enorme papelada datilografada.
Desculpo-me mais de três vezes e, quando levanto o rosto enquanto recolho os papéis, percebo conhecer aquele senhor. Mas também os seus óculos caíram, enquanto ele resmungava sobre o que não deveria ter acontecido, culpando-me naturalmente e com razão. Recolho os teus óculos pondo eu mesma o dito cujo em seu rosto. Imediatamente descobri sua identidade.
– Drummond, meu velho e querido Drummond! – Exclamara Castro Alves, em êxtase, ao ver o amigo que eu desconhecia pessoalmente.
– Olá Castro. Estou indo para o jornal, necessito de entregar esta crônica urgente. Mas que coisa, veja só, havia várias páginas e eis que tal mocinha faz com que tudo chegue ao chão! – Respondeu o outro poeta, aparentemente enraivecido.
– Perdão, senhor Drummond. – Respondi de cabeça baixa, ainda tomada pela perplexidade. – Foi um acidente. Não acontecerá novamente.
– Ora, assim espero. Até logo, Castro!
– Até logo, amigo!
Eu e Castro Alves atravessamos silenciosamente a rua e, chegando à outra extremidade, adentramos o nada distante boteco.
– Não causaste boa impressão à ele, senhorita. – Dissera-me o mudo e calado Rubem Braga que, sentado em frente ao balcão, acompanhara todo o incidente que ocorrera lá fora.
– Não causou mesmo. – Concordou Castro Alves. – Ô do balcão, um uísque duplo, por favor!
– Mas será possível, criatura? Uísque duplo, quase no horário do almoço? – Questionei.
– É apenas um aperitivo.
Pedi um pão com manteiga e suco de laranja. Voltei-me para o Braga e respondi:
– Braga, meu velho, você sabe bem o quanto eu desejava conhecer o Drummond. Não imaginei, entretanto, que seria em tamanha circunstância! É engraçado porque, tantas vezes estive a esperá-lo desde que você próprio me dissera que, ao findar de todas as manhãs, ele passa por aqui, apressado em encaminhar ao jornal uma nova crônica. Esperava-o aqui mesmo onde estou sentada e raramente o via. Quando acontecia de o enxergar no meio do cruzamento, não me atrevia a ter com ele alguma conversação. Que diria eu? Que o admiro imensamente e ponto final? Duvido que um poeta tão ilustre como ele queira ser interpelado assim, no meio da rua.
– Pois é, minha cara. Drummond não é exibicionista, como aquele pobre Paulo Coelho. O poeta é tão mineiro quanto eu. Recluso, costuma receber pouquíssimas visitas. É tão crítico consigo mesmo quanto o é para com o mundo. E se apressa tanto em ir ao jornal porque o de Assis, o Machado, redator-chefe, sabe bem que o Drummond sempre atrasa o texto de amanhã.
– E para piorar, – Interveio Castro Alves -, ainda ocorre aquele intrigante esbarrão entre vocês. É uma maneira pouco cortês de se deixar uma primeira impressão.
– Sinto-me péssima. – Concluí, desolada.
– Não é para tanto. – Reanimou-me Rubem Braga. – Antonio Prata escrevera, certa vez, que a primeira impressão é a que fica – para trás! Hoje tem comemoração na Academia. Aniversário do Mário de Andrade. Todo um grupo de nobres escritores fora convidado. Certamente o Drummond estará lá. Até eu, que sou velho chatíssimo para reuniões de tal estirpe terei que fazer uma social em homenagem ao meu amigo, veja só!
– Não sou uma nobre escritora. Nem sou escritora, para falar a verdade!
– Não, não é. Ainda. Em todo o caso, para adentrar a festa, basta ser a companhia de um grande escritor.
– Eu sou um grande escritor! Tenho plena consciência disso! – Berrara o Castro, tão bêbado quanto quando acordara, já em sua sexta ou oitava dose de uísque. – Quero ter a honra de levá-la ao baile, milady.
– Não se trata de um baile, Castro. E, se não chegou a notar, eu estava tentando convidar a moça para ir comigo. – Contrariou-se o Braga.
Castro Alves fez ar de troça e senti que a atmosfera do ambiente pesaria caso eu não interviesse com a minha recusa:
– Agradeço imensamente a ambos, mas não irei à festa. Não possuo uma vestimenta adequada para tal ocasião, em tal local. Além de tudo, acredito-me indisposta de ânimo, depois do que acabara de me acontecer. Vou-me embora.
Retirei-me, cansada e triste. Voltei à pensão onde Clarice Lispector, a dona, vendo-me em tal estado, pôs-se a indagar sobre o que ocorrera. Respondi-lhe que nada demais, ao que ela sorriu, de modo misterioso, com aqueles estrangeiros olhos, avisando-me de que o almoço estaria pronto em vinte minutos. Recusei, alegando estar sem fome, temendo ainda que ela me importunasse com mais perguntas. Entretanto, Clarice muito entende da alma feminina e, notando uma lágrima furtiva que já em meu rosto escapara, permitiu que eu subisse as escadas, compreendendo que eu quereria estar só.
Dormi por algumas horas e quando acordei, ouvi risos alegres e dos mais espontâneos no andar inferior. Reconheci a alegria escandalosa de Clarice Lispector, mas também compreendi que seu companheiro me era desconhecido. Temendo visita, dirigi-me ao espelho e fiz como pude um coque nos emaranhados cabelos. Abri bastante os olhos e permiti-me um rubor em pó-de-arroz, devido a palidez que se presenciara em meu rosto.
Desci as escadas. Devia ser tarde, a maioria dos outros hóspedes dormia. Clarice estava de pé, com um vestido azul escuro de festa, muito bonito. Jamais a vi tão bela. O senhor que com ela gargalhava estava sentado, no sofá, de costas para mim.
– Olá. – Dissera eu. – Está muito bonita, Dona Clarice.
– Obrigada, minha flor! Venha, quero que conheça este meu bom e velho amigo, Carlos Drummond de Andrade.
Empalideci para corar no instante seguinte. O poeta levantara-se e, quando virou, fez subitamente com que seu sorriso desaparecesse, lembrando-se, ocasionalmente, do incidente desta manhã.
– Já nos conhecemos, Dona Clarice. – Fora tudo o que consegui responder, em um fio de voz.
– Ótimo, então! Bem, já que se conhecem, não duvido que muito tenham a conversar, não é verdade? Se por acaso fosse o contrário, tendo eu o prazer de apresentar-lhes, não seria diferente, pois muito teriam a descobrir um do outro!
– Bem, Clarice, veja bem, esta moça é de quem lhe falei agora a pouco… – Tentou explicar Drummond.
– Ora essa, meu caro, veja a hora! Não devo me atrasar mais! Há um aniversário na Academia Brasileira de Letras e Fernando Sabino me espera já na entrada como sua acompanhante. Devo partir de imediato. Mocinha, feche a porta assim que eu sair, mas fique fazendo sala para este meu bom amigo, pois irá adorá-lo! Ele se recusa a ir à festa, veja que anti-social! O beberrão do Castro Alves já deve estar lá e dessa vez, acredite, voltará comigo! Até mais tarde!
E assim partiu Clarice, animada e majestosa, deixando-me sozinha com o nobre poeta.
– Também devo ir. – Ele disse, já encaminhando-se até a porta.
– Por favor, Sr. Drummond, fique! – Supliquei. – Não é possível que não me perdoe pelo impedimento que lhe cometi ao findar desta manhã. Mais uma vez devo-lhe desculpas. Se estiver incapaz de aceitar-me, não objetarei para o caso de preferir ir embora, mas, se ainda puder dar-me uma chance, peço-lhe que fique.
Não mais do que comovida, julguei ter desvendado aquele claro enigma quando vi o próprio Carlos Drummond de Andrade voltar a sentar-se no sofá. Ofereci-lhe vinho, no que ele aceitou. E pusemo-nos a conversar.
– Acredito que muitos outros já lhe tenham dito o mesmo, não serei original neste ponto, mas devo dizer que sempre foi de minha preferência conhecê-lo. – Comecei. – Vim para o Rio de Janeiro com o intuito de continuar meus estudos em jornalismo, sob os cuidados de Dona Clarice e o Sr. Alves, que me recomendou. É um prazer. – E levantei-me, estendendo minha mão direita.
Ele não consentiu ao meu cumprimento. Seriamente, sequer pôs-se a observar-me, como eu fazia para com ele curiosamente. Aquilo me ferira, porém não ofendera o meu ego. Então ele dissera, depois de um momento de breve silêncio:
– Como a senhorita, existem muitas outras jovens nesta cidade desconhecida de mesma intenção que a sua. Muitas, porém, acabam por perderem-se. Cidade grande trás muitos vícios e eu vim de um interior mineiro muito pequeno. Ainda não me adaptei.
– Eu também não. Desconheço boa parte da cidade e, acredite-me! Sequer tive tempo de ver o mar! – Respondi.
Surpreendida, vi Drummond levantar os olhos brilhantes, dizendo-me:
– Que não seja por isso! Venha comigo, vamos ver o mar.
– O que disse? – Questionei, desacreditando no convite.
– Isso mesmo que estás a ouvir. Vamos agora mesmo. Sei que está de noite, mas não demora muito. Podemos alugar uma destas carruagens de praça e chegaremos mais rápido. Vamos?
Não hesitei instante algum. Fechei janelas e a porta principal, deixei a chave embaixo do tapete de entrada, para o caso de Dona Clarice retornar antes de mim. Ainda surpreendida, vi Drummond puxar-me a mão esquerda, apressando-me sorridente, fazendo-nos correr diante da praça vazia, tendo estrelas e concreto como testemunhas.
Chegamos à praia em dez minutos. Ainda não havia absorvido a importância do acontecimento, mas tenho orgulho de dizer que, na primeira ocasião em que vi o mar carioca, Carlos Drummond de Andrade estivera ao meu lado.
Muitos anos depois, já totalmente estabelecida financeiramente, decidi retornar ao local de minha mocidade, algum tempo após a morte de meu escritor querido. A maioria dos meus amigos daquela época já falecera. A pensão de Dona Clarice Lispector era agora uma república de estudantes, não muito diferente da do tempo em que morei lá, porém com novos donos. O bar em que encontravam-se os ilustres autores fechou há muito tempo. Vi de longe o Mendes Campos, muito velho e com o seu nariz pontiagudo, que sempre lhe conferia um charme a mais – porém já não me reconhecia. Decidi ir à praia, a mesma na qual Drummond havia me levado. Senti as lágrimas chegando-me aos olhos quando vi, em plena calçada, meu próprio amigo de outrora sentado em um banco de praça, em conteúdo de estátua, de costas para o mar. Sentei-me ali mesmo e pousei minha cabeça sob seus ombros convidativos, e chorei o quanto pude a inverdade deste conto, sobre fatos que jamais poderiam ter acontecido, devido a circunstâncias de tempo e espaço, devido ao erro de meu próprio nascimento.

“Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste:
O mar com seus peixes e suas barcas;
Os pomares com cestos derramados de frutos;
Os jardins de malva e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos.
E aquela estrela maior, que a noite levaria na mão direita.
E o sorriso de uma alegria que eu não tive,
Mas te dava.”
:: Do poema Elegia 5, de Cecília Meireles, presente no livro Mar Absoluto e Outros Poemas.

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9 respostas em “Claro enigma

  1. Nossa.
    Amei demais esse conto mesmo que no final seja tão triste a realidade de que ele nunca poderia ter acontecido. =)
    Kiss

  2. Seus textos são muito, muito bonitos mesmo. Sem exagero nenhum, chego até a me arrepiar entre uma linha e outra. Grande dom este o seu, Nina.

    Grande beijo

  3. Ótimo texto!
    Conhecer Drummond seria fantástico! ;)

    beijinhos e continue com textos ótimos, assim ;*

  4. Nina,
    me emocionei com o seu conto, não tirei os olhos da tela, e vivi com você o acontecido, que já tinha vivenciado diversas vezes, de outras formas, acredita?
    Pois se eu mesma já estive com Drummond um bocado de vezes, na situações mais inusitadas!
    Lindo, lindo, lindo conto, moça.
    Um beijo!

  5. Quando estávamos em Ouro Preto, meu marido suspeitou que o calor e o esforço de vencer ladeiras haviam-me posto em delírios, quando lhe disse que precisávamos ir imediatamente ao Hotel Toffolo, encontrar Drummond. O pão de nuvens já estava servido e fumegava sobre toda a cidade.

  6. me desculpa, foi inevitável roubar a sua história e me colocar entre os personagens! cai um pouco o nível das figuras, mas, só uma passadinha não mata ninguém, né? bem na hora que está a clarice e drummond na sala, só um Opa, boa tarde a todos.

    hehe.. adorei!

    agora é sério, lindo texto. você sabe se utilizar da magia e da verossimilhança com uma facilidade incrível (e invejável).

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