A condição da amante

“Não posso desobedecer a algo que não conheço e cuja realidade tenho o direito de negar.”
:: Do livro Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov.

Uma semana passa e o telefone não toca. Entre tantas condições, existe uma em especial que é o fato de que não devo telefonar-lhe, com o intuito de não comprometer a ambos. Mais três dias e meu último pensamento antes de adormecer é um desejo que quero cumprir e reprimir. Após horas de sono, tenho um pesadelo de que estou vendo-o com outra, quando uma das condições também é que não haverá pessoa alguma, além de mim e sua esposa. Selado o pacto, despachei todos os outros amantes. E agora, em um termo levianamente coloquial, tornei-me “puta de um homem só”. É justo, ora. E vou muito bem, obrigada.
Quinze dias. Apesar das inúmeras vezes em que ele me acalmara, a assegurar-me que jamais me abandonaria sem explicação, sinto este pânico súbito de que fui descartada, de que sua esposa nos descobrira (o que quase de fato ocorreu, como se verá adiante) e ele estava tentando salvar as sobras de tudo o que chamam lar. Amena para com o meu amado, porém, não mais do que desesperada, imagino horrores: ele definitivamente mudou-se para sua bela casa de férias no interior do estado, sofreu qualquer tipo de problema de saúde ou, em meu egoísmo nítido e válido, é de seu desejo expresso não querer ver-me jamais, por excelência da honestidade cristã que lhe é conferida. Afinal, todo mundo quer ser bonzinho e ir para o céu.
Quando a última hipótese parece-me a mais plausível e convincente, amaldiçôo-o por todas as horas em que estampei em minha face um misto de indiferença e sorriso falso, diante do discurso minucioso sobre todo o encantamento que é sua bela esposa e de como ele olha para mim recordando-se do tempo em que a conhecera.
Não que eu detestasse ouvir. Até gostava da comparação, por mais estranho que pareça assumir isso agora. Também adoro quando ele me descreve balzaquiana, aprisionada em um corpo de menina. Diz que, apesar de meus dezoito anos, possuo rosto de quinze e mentalidade de trinta. Elogio reverso, nada original (claro está que já ouvi isso antes). Mas quando qualquer tentativa de persuadir a tentação presente provém especificamente do ser amado, todas as palavras e momentos silenciosos tornam-se belas diante da existência humana. E sinto-me, indubitavelmente, manteiga derretida, último biscoito do pacote. Feliz.
Enquanto ele utiliza o seu charme arcaico, fazendo-me lembrar de que detesta aparelho celular, mantenho o meu o mais perto possível, ao alcance das mãos. Em uma terça-feira banal, recebo dois telefonemas pela tarde: convite a um cinema, além de novidades do meio musical, devidamente informadas por um entendido no assunto; e um lembrete nada formal sobre uma comemoração qualquer durante o fim-de-semana. Dir-se-ia que “veio e não veio quem eu desejaria/se dependesse de mim”, como diz a canção do Caetano. Ao findar da tarde, quase seis e meia, meio sonolenta, acordo com o tradicional toque do meu Nokia.
Atendo.
Finalmente.
– Achei que você não ligaria mais!
– Pois é, mas quem é vivo sempre aparece. E você sempre “acha” errado de minhas atitudes!
– Oh, não me puna! Morri de saudades…!
– Eu também. Ansiava por lhe telefonar, mas a escola em que minha esposa trabalha esteve em greve de professores, para variar. E você não vai acreditar, menina: vi você subindo a ladeira dia desses. E eu estava com Fulana ao meu lado, quando ela entrava no salão de beleza. Assustei-me. Na verdade, torci para que você não me visse e, se acontecesse, que não se aproximasse a fim de me cumprimentar. Seria um problemão daqueles.
– Eu imagino. Mas na verdade, eu não o veria nem se quisesse. Sou completamente míope, você sabe.
– Ah, mas eu não. Inclusive te vi mudada.
– Cortei o cabelo.
– Percebi. Mas quero ver de perto. Você poderá sair esta semana?
– Provavelmente sim. Que dia?
– Eu lhe retorno para marcarmos. Vai depender do controle de Fulana. Ela não quer me largar. Mas ela trabalha, enquanto estou aposentado. Vou dar um jeito de escapar.
– Assim espero!
– Um beijo, meu amor.
– Outro. Tchau…
Fico ali com um sorriso besta, a sensação de estar sendo tão enganada quanto a digníssima dele e a falta de amor próprio que tenho em tentar mendigar o amor dos outros. Impressionante a minha submissão. Fato é que eu poderia expressar agora toda uma percepção feminista dessa fase que atravesso, mas não quero. E não posso. Não posso porque estou a pensar que, ainda esta semana, nos encontraremos. Eu entrarei em seu carro e lhe farei uma reprimenda de expressão mimada, cara de choro e ele me passará um sermão paterno que já ouvi e compreendi milhões de vezes sobre a pose de “excelente marido” que ele mantêm dentro de casa – mas que não sou obrigada a aceitar, sequer discutir. E deverei esquecer, para cobrir-lhe de beijos pela saudade que senti durante todo esse tempo. E nos reconciliaremos como se tivéssemos há décadas juntos, no papel e perante a Santa Igreja, inclusive.
A condição da amante é essa eterna posição de cega, surda, muda, estável e amputada diante da complexidade do outro (e da minha própria, confesso). É oprimir os sentimentos mais ternos temendo que, ao serem revelados, perder-se-á o ser amado. É fingir, feito atriz concorrente ao Oscar uma amenidade inexistente. Mas principalmente, ser amante é saber-se suja e indulgente consigo própria, obtendo uma paciência infinda diante do aprendizado constante. Em meu vício eterno de amar errado, ainda não tenho noção de como sair dessa vida.

Anúncios

6 respostas em “A condição da amante

  1. Tenso. Já vivi algo parecido… até que alguém próximo me disse: “olha, tem gente que gosta da remela, e outras do olho.” E aí, pensei: remela não é comigo. Não é fácil, mas você consegue.

    Um beijo

  2. Lancinante o texto. Fingir amenidade é uma violência. Barganhar-se por menos do que se vale, menos do que se quer. A carência, meu Deus, sempre ela… A mais cara das barganhas… É mesmo de quebrar a banca.

  3. Tava com saudades dessa história.
    Não é por nada não, mas vai dar um livro e tanto.
    beijos!

  4. Oh! Agoniante. Já me meti nisso. Sem propósitos. Nunca há, ou nunca deveria ter.

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s