Délibáb

“Délibáb” é uma palavra húngara que significa, de certa forma, ilusão, miragem. “Délibáb” é uma palavra única – assim como “saudade”, em nossa língua portuguesa. Mais do que tudo, no meu caso, “Délibáb” é uma espécie de carpe-diem, mais do que isso – um estado de espírito.
A primeira vez que me deparei com um délibáb, descobri que tal sensação podia tomar várias formas. No princípio, viera feito um déja-vu. Eu estava a ler A Valsa Inacabada, livro de Catherine Clément, que inicia com um episódio pitoresco da vida de Elisabeth da Áustria (rainha da Hungria), desencadeando toda uma minúcia do que foi a vida da imperatriz. Diversas vezes a palavra délibáb é mencionada – embora seja descrita apenas como um sentimento indescritível –, pois só o sabe quem o sofre. E como fui Sissi em passada vida, carrego comigo o fardo de ter a certeza de quando passo por um.
É meia-noite. Devido ao ócio dos dias todos, ontem acordei às onze da manhã. Sonolenta, assustei-me com o rádio da sala ligado tão alto (essa é a desvantagem de conviver com um pai surdo) e ouvi a voz dele. Eu tinha certeza. A informação me veio pela metade, importante político a ser enterrado em Minas Gerais. Tinha certeza. E confirmei ao final da notícia. Délibáb.
Ao longo do dia, ausente de trabalho, reorganizei minha escrivaninha, a estante de livros, arrumei todos os novos, limpei minhas gavetas, a carteira, queimei meus navios. Redescobri cartas, embalagens de chocolates, marcadores de página feitos de cetim, brindes de aniversários, panfletos revolucionários, cronograma de exposições e teatro, listas de músicas, ingressos de cinema, notas fiscais, canetas, cadernos, diários, fotos e dedicatórias. E lembrei que já tive dez, doze anos, o que ainda me parece difícil de acreditar. Chorei um pouco das minhas bobagens, tomei um banho, passei um perfume antigo de lavanda, sentei-me no sofá, li o meu Saramago enquanto ouvia Chico Buarque, tive uma idéia para mixtape, li os comentários do meu blog, respondi e-mails, liguei para uma amiga a fim de avisar um evento, discutimos, desliguei sem perdoar, dormi. Délibáb.
Sonhei com meus dentes caindo. Sinal de morte. Délibáb. E ainda segundo o meu dicionário de sonhos, sonhar no dia 31 do mês significa grande tristeza. Chorei. Lembrei que ouvi certa vez uma sábia frase, de que um dia perfeito se define quando estamos a rir e chorar ao mesmo tempo, todo um misto de emoções. Délibáb.
Levantei, já era noite. O aroma de lavanda impregnava o quarto e senti-me orgulhosa pela bagunça desfeita. Têm chovido bastante. Minha casa antiga não irá suportar por mais tempo – e divago sobre isso ao observar um canto do teto úmido, com a tinta cor-de-rosa a se soltar. Tomo outro banho enquanto os estranhos assistem televisão na sala. Me arrumo, coloco um filme e, quando termina, descubro que já é meia-noite-inteira. Telefono para o homem cuja voz ouvi mais cedo, e pergunto se acaso não lhe telefonei tarde demais. “Mas o dia está só começando”, tinha razão. E eu senti uma falta enorme de ouvir aquela voz. Contei-lhe o que aconteceu durante o dia – e essa distância terrível me fez confessar muito das coisas erradas e das pessoas errantes com as quais acabei por envolver-me. Délibáb. Délibáb é uma humildade enorme, às vezes falsa quando se confessa, porém válida. E disse-lhe ainda o que é óbvio desde o início: que não fui feita para ele, que não mereço tanto, mereço até desprezo, meu Deus do céu, que estará ele a fazer comigo? Por qual motivo perde tanto o seu tempo?
Fatalista que sou, entretanto, por isso mesmo não discuto com o destino. Acredito mesmo nas possibilidades (que contradição). Uma delas, por que não, é que nós podemos, sim, dar certo. Que nos impede além da distância? E distância, por ventura, terá de ser mesmo empecilho? Em minha vida passada, quando fui imperatriz, conheci um jovem em um baile de máscaras. Eu era casada com um homem terrível (um casamento forçado devido aos títulos), mas aquele jovem, que tanto me encantara, quase me reconhecera. Dançamos valsa o restante da noite, para que eu pudesse fugir feito Cinderela. Que veio depois? Possibilidades. Uma sucessão de délibábs, interminável. Escrevemos cartas até o fim de minha vida. E se agora essa companheira de viagem para a vida inteira assusta-me, é porque me utiliza para fins de mérito – por ter deixado algo de incompleto em passada vida. Por isso, infinitamente, reencarna, reencarno, reencarnamos. Délibáb.
Pedi desculpas ao telefone – era o mínimo. Era o máximo que eu podia fazer naquele momento, mas a verdade é que eu deveria abraçá-lo se pudesse, pois é injusto que ainda continue a acreditar em mim, em nós, depois do que fiz – e que não têm perdão. Ele me fez renovar a recordação de que sim, fui uma menina – fui uma menina que lá esteve, sentada ao seu lado, pousando minha mão na sua, cheia de medos e expectativa, fui. Sempre julguei a traição, as pessoas que traem, que não conseguem se controlar, que o fazem por motivos dos mais levianos. E talvez a minha justificativa seja tão leviana quanto. Solidão, afinal, é motivo? Nunca foi em meus princípios. Por isso mereço desprezo. Fez-me ver, entretanto, que o nosso amor talvez deva ser assim – esse délibáb que é um nirvana incompleto. Eu mesma sempre acreditei que poderia amar alguém sem nunca precisar conhecê-lo profundamente, vê-lo com determinada freqüência, dividir o mesmo leito, compartilhar as mesmas dúvidas e constatações. Por isso mesmo, dir-se-á que sempre estou a amar o impossível de maneira mais impossível ainda. Mas lidar com impossibilidades possíveis está em acordo com o meu ofício de vivência e de escrita. E se esta vida me for incompleta de amor, insuficiente de tanto, não é necessário alarde, não há que haver pânico: pois reencarno junto com Elisabeth, e tentaremos outra vez, caminhando no círculo vicioso e infinito de erros e acertos, procuras e respostas, desvios e certezas.
Ele cantou uma música e eu me acalmei um pouco. Mas continuei chorando. Pediu que eu tomasse juízo – e bem se vê o quanto estou precisando disso. Despedimos-nos, desliguei, délibáb.
Era uma hora da manhã, em ponto. Decidi então que continuaria a publicar os textos que já escrevi sobre aquele caso todo – e também a parte incompleta de um livro que não tem futuro e que não preciso terminar, mas que por aqui precisa ter um fim aquela coleção de contos. O dia está só começando, ele mesmo me dissera. E agora, experimento uma nova sensação de délibáb, pois se não tomei juízo, ao menos tomei uma decisão. Vou dormir. E quando acordar, preparar-me-ei para mais uma despedida, antes que seja tarde, antes que o dia termine.

“Sempre fui nostálgica, sobretudo do que não chegou a acontecer. Dos deslumbramentos a haver. Concentra-te na felicidade para que eu possa existir nela ainda contigo.”
:: Do livro Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa.

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12 respostas em “Délibáb

  1. Mas eu sempre me pergunto se esses contos são reais. São né!? Eu sei que são lá no fundo. Kiss

  2. “A Wendy cresceu… eu já previa”.

    A canção que cantei pra você:

    Outra canção pra você lembra de mim (e não me esquecer):

    Beijo e se cuida

  3. o mundo é feito dessas pequenas ilusões diárias. por mais que tudo em torno seja vazio, é o que acaba movendo o resto.

  4. De certa forma, vivemos nos despedindo de algo, de alguém…Quando acordamos ou quando vamos dormir.
    Bjoo!!

  5. Consegui sentir o que délibáb quer dizer ao ler seu texto e defini as vezes em que senti esse délibáb, bom, agora o sentimento tem nome.
    Eu sempre sonho com meus dentes caindo daí fico louca e não paro de escová-los.

    beijos

  6. Eu sempre fico pensando se essas coisas são da minha cabeça ou acontecem mesmo. E olha que as vezes dá um medinho…

  7. Délibáb. Acho que foi mais ou menos isso que senti ao ler seu texto. Totalmente envolvente.

  8. Délibáb! Humm, não sei se já senti algo que possa ser denominado assim. Mas eu aposto que sim. Sue texto foi encantador e envolvente.

  9. Você apenas precisa domar os teus instintos. Não de uma maneira que te isente de sentir e ser o que és. Porque as sensações permeiam a tua alma como o vento trespassa o ambiente ao redor. Você tem essa sede, esse querer implantado na alma, como um motor que te ajuda a seguir teus pensamentos.

    És fatalista, e isto é o que mais me preocupa. Você tende ao exagero. Tem idade de menina, mas cabeça de mulher. Tem desejos maduros mesclados com necessidades infantis. Você cresce e não pede licença para a vida. Você descobre ao redor, mas nem assim perde o medo.

    Você é uma pessoa de rara reflexão, que se deixa invadir por sensações conflitantes. Admiro esta tua coragem, de poder sentir na profundidade os lados da moeda. O amor pulsa por completo em ti. Falta apenas mais zelo, menos fatalismo.

    Você tem cara de saudade, de pessoa que sente saudade até do que nunca foi ou existiu, mas que compreende a plenitude envolvente que se daria por entre a alma. És de uma completa magnitude, e poucos percebem. És de um valor inestimável, e raros notam.

    A distância é o menor dos obstáculos, por mais irônico que possa parecer este comentário. Mas a questão é, que a vida é permeada por vontades. Ao mesmo tempo por concessões. Você precisa se permitir amar, encontrar o amor. Então, tu verás que ao pensar nele, nada no mundo será capaz de extingui-lo, exceto pela sua própria vontade. Não desanime na frente da porta. Ponha a mão na maçaneta e abra. Entre neste quarto escuro. A distância não existe, quando a vontade de ambos é soberana… O amor nunca fica tão
    perto.

    O dia mal começou meu anjo…

    Délibáb.

    Beijo Bells!

    Do Jake.

  10. Pingback: A minha trégua « sobre fatalismos

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