Pré-meditações, antes dos olhos transbordarem

(Para Jean Piter.)

“A gente, entendes, quero dizer eu e ela, gostava muito um do outro, continua a gostar muito um do outro e os tomates desta merda é eu não conseguir pôr-me outra vez direito, telefonar-lhe e dizer – Vamos lutar, porque se calhar perdi a gana de lutar, os braços não se movem, a voz não fala, os tendões do pescoço não seguram a cabeça. E foda-se, é só isso que eu quero. Acho que nós os dois temos falhado por não saber perdoar, por não saber não ser completamente aceite, e entrementes, no ferir e no ser ferido, o nosso amor ( é bom falar assim: o nosso amor) resiste e cresce sem que nenhum sopro até hoje o apague. É como se eu só pudesse amá-la longe dela com tanta vontade, catano, de a amar de perto, corpo a corpo, conforme desde que nos conhecemos o nosso combate tem sido. Dar-lhe o que até hoje lhe não soube dar e há em mim, congelado embora mas respirando sempre, sementinha escondida que aguarda. O que a partir do início lhe quis dar, a ternura percebes, sem egoísmo, o quotidiano sem rotina, a entrega absoluta a um viver em partilha, total, quente e simples.”
:: Do livro Memória de Elefante, de António Lobo Antunes.

“Impossibilidade é a palavra que cerca minhas esperanças, letras verticais limitando o horizonte. Uma vez ele me disse, não existe nada mais triste do que um amor que se desfaz. Reconheço, jamais construiremos a sincronia perfeita, nem nossos corpos conhecerão o cais. Ele entendeu e me ofereceu um abraço. Preferia algo mais dramático, um olhar impressionista repleto de vermelhos, e sua fala foi um punhal.
– Mantemos a amizade, melhor assim.
Antes dos olhos transbordarem, pedi licença e perguntei onde ficava o banheiro. Lá dentro, sentei no chão e chorei pelas lagartas de casulos inúteis pelos amores perdidos, pelos sonhos que desistimos de buscar. Antes do tempo tornar tudo antigo, antes da máscara virar pele indelével, jurei ali mesmo nunca mais esquecer.”
:: Do conto Coleção, de Monique Revillion, presente no livro Teresa, Que Esperava As Uvas.

“A tua alegria era um vírus incurável. Chamava-te Sininho porque, como a Fada de Peter Pan, refilavas muito e espalhavas pó de ouro em tudo que tocavas.
(…)
Foste a última imagem do meu breve filme de mente. Eu subia no balouço quente, quando a luz se derretia eu ouvia atua voz. Dizias: ‘Não fujas, Sininho’. Vivíamos na terra do nunca, onde não se cresce para não se morrer, tu rias-te e emprestavas-me a melancolia lancinante de uma fada ciumenta. ‘Não fujas Sininho’. Dizias isto muito devagar, e depois corrias por um campo de sangue, com os pés lentos combatendo o lodo cor de vinho. E eu queria dizer-te que não me chamo Sininho. Queria dizer-te o meu nome, mas já não tinha voz.”
:: Do livro Fazes-Me Falta, de Inês Pedrosa.

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5 respostas em “Pré-meditações, antes dos olhos transbordarem

  1. Confesso que não conheço nenhum destes livros, e fico triste por isso. )Parecem histórias lindas, daquelas que tocam fundo na gente.
    Adorei as citações, todas falam de amor, o nosso principal tema para qualquer coisa, não é?

    Beeijos!

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