A minha trégua

(É a continuação de Délibáb.)

“O que mais me agrada em você é algo que não haverá tempo capaz de lhe tirar.”
:: Do livro A Trégua, de Mario Benedetti.

“Quando as pessoas vão embora, o que estão dizendo é: escolhi te matar. Mas de quantas mortes você também é culpada, cara amiga?
(…)
O que é melhor, ser um campo de experiências inéditas ou ser feliz? Responda rápido.”
:: Do livro Como Esquecer, de Myriam Campello.

A Trégua - Mario Benedetti

A Trégua é um excelente livro de Mario Benedetti, que (além de ser um dos melhores romances que já li, com uma capa muito linda como essa aqui do lado, pela Objetiva) narra em forma de diário parte da vida de um cinquentão (viúvo e com três filhos crescidos) prestes a aposentar-se. Entretanto, em seu trabalho, ele recebe três auxiliares. Um deles é uma mulher: Laura Avellaneda, jovem de vinte e poucos anos que, mesmo sem ter aparentemente atrativo algum para o seu chefe, além do rosto leal, acaba conquistando-o. E ambos então iniciam um relacionamento com algumas perturbações aqui e ali, criadas à partir da diferença de idade entre os dois personagens. Li esse livro sem pretensão alguma, tendo em vista que fora uma sugestão momentânea de um amigo de colégio. Fora um dos primeiros livros que adquiri de um autor latino-americano, antes mesmo de Vargas Llosa e García Márquez.
Pensava nisso quando acordei de manhã, ainda fresca, como se o banho da noite anterior não tivesse se ausentado de meu corpo – um cheiro de jasmim do meu perfume no lençol. Na mesma semana marcáramos, por telefone, um novo encontro para aquele dia. Na noite anterior ao encontro, entretanto, tomei minha decisão.
Esperei um dia inteiro pelo findar da tarde. Quando veio, me aprontei normalmente, peguei minha bolsa, calcei botas de combate. Olhando-me no espelho, entretanto, vi um batom púrpura nos lábios, olhos marcados, vestia um sobretudo preto. Estava me preparando para ser viúva sem porvir? Só podia ser. Sorri do mérito da ocasião. Talvez a minha aparência servisse de introdução ao inevitável. Alguma hora tinha de acontecer. Já havia ensaiado na frente do espelho tudo o que estava pensando em falar, palavra por palavra, tomando toda a cautela necessária, abrindo mão da minha ironia. Porque, não é novidade: sou péssima com despedidas. Muitas vezes quero abraçar a pessoa e não deixá-la jamais, entretanto me limito a um aceno de cabeça e um suspiro cansado e conformista. Permitir que as pessoas saiam facilmente de minha vida não é arte na qual eu seja especialista.
Ele se atrasara, como sempre, enquanto eu reformulava em minha cabeça a ordem natural das coisas. E minhas mãos tremiam. Quando chegou, entrei em seu carro e decidi que seria ali mesmo, agora. Não, não foi. Fiquei silenciosa, ouvindo apenas o ruído do que pretendia ser uma estação de rádio e sua conversa sobre mais um motivo que ele dera para “fugir de casa”.
– Aconteceu algo? – Ele perguntou, notando minha quietude.
– Não. – E, rapidamente, para desviar o assunto: – Aonde iremos?
– Ao lugar de sempre, meu amor.
O lugar de sempre. Deitaríamos, ele me despiria imediatamente, mas ficaria ainda meia hora vestido, acariciando meu rosto e conversando comigo, banalidades.
Nisso de estarmos deitamos – o meu corpo notavelmente tenso, minhas expressões rígidas -, decidi abrir o jogo:
– Eu não quero mais. – Desabafei, lentamente e com muita gravidade.
– Que está dizendo?
– Estou dizendo isso: que não quero e não posso.
Ele ficou em silêncio, tentando decifrar meu olhar com a furtiva lágrima que já escapara.
– Está com outra pessoa? Você sabe que eu não me importo. Já lhe disse: não temos futuro juntos. Será ótimo que você encontre alguém. De qualquer modo, teria que acontecer, um dia.
Então chorei convulsivamente e me encolhi toda, de modo que ele me abraçou apertado e demoradamente.
– Menina, que está acontecendo…
– É isso. É exatamente isso! Não outra pessoa, faço isso por mim! Não poder andar de mãos dadas com você, fingir que nos encontramos por acaso quando algum conhecido se aproxima, passar semanas inteiras com você ausente, porque eu não tenho sequer o direito de sentir ciúme, afinal. Eu agüentei tudo, embora a distância não tenha sido um problema maior, e você, além de tudo, para fazer de mim um monstro pior do que qualquer outra pessoa, consegue ser honesto comigo, nunca me esconde nada em absoluto, sempre abusou de sinceridade! Sempre me aconselhou, protegeu, me respeitou como certamente poucos homens farão comigo ao longo de minha vida, me fez crescer como mulher – e muito. Mas veja só, até isso cansa…!
Ele, que me ouviu assustado, deixou de afagar-me a cabeça e, após um prolongado silêncio, dissera:
– Me desculpe. De verdade. Eu não imaginei que lhe estava causando isso tudo.
Afastou-se. Continuei chorando, baixinho, ele se sentara na borda da cama, pelo que pude perceber do movimento nos lençóis. Minutos depois, chamei seu nome, pedi que se deitasse ao meu lado, pois aquela era a última vez – e eu não queria que nossa despedida se baseasse em desencanto. Ele concordou. Nos abraçamos, tirei-lhe a roupa, chorando e sorrindo ao mesmo tempo, fizemos amor.
– Devia ter-me dito tudo antes.
– Eu não poderia. Você não compreende.
– O que não compreendo?
Olhei nos teus olhos. Havia sede de conhecimento ali. Como eu nada mais tinha a perder, respondi-lhe:
– Eu amo você. Muito. Se dissesse isso antes, certamente o perderia. Digo-te agora por já não ter medo. Mas preciso que vá embora de minha vida. E sou eu quem precisa deixar-te. Lembra? Você, sincero, estava me perdendo aos poucos quando me disse que um dia acabaria, não haveria de ser eterno, e não haveria mesmo. Só que talvez a melhor justificativa nesse momento é que minha idade me permite ainda sonhar com a eternidade vã. Eu sei que é ilusão. Mas se você terminasse comigo, iria sobrar mágoa, muita mágoa. Agora, mesmo atingindo-lhe com uma faca no peito, não é pior: você tem sua esposa, seus filhos e netos, milhares de amigos. Não sentirá minha falta. Se sentir, veja bem, não me interrompa, será pouca. Mas eu sou só. Eu não vou agüentar essa dor.
Ele entendeu completamente e, buscando consolo na traidora, deitou a cabeça em meu ventre. Afaguei-lhe o rosto infinitas vezes. Ele, meditativo, observava minuciosamente o teto – tinha medo de encarar meus olhos, que recomeçaram o pranto.
– Talvez a minha aceitação dos fatos a deixe perplexa. – Ele disse. – Mas a verdade é que você tem toda a razão. Ainda assim, não quero que pense que sua interferência em minha vida foi leviana, banal. Não foi. Você tem uma importância enorme para mim. Ainda lhe estimo muito. E sentirei bastante a sua falta.
Às nove da noite, sem uma palavra, cada qual em um canto diferente do quarto, começamos a nos vestir. Silenciosos, fomos para o carro. Parando na esquina de minha casa, recordei-me:
– Tenho um presente para você! Quase que ia me esquecendo. – Abri a bolsa, retirei um exemplar d’A Trégua que havia comprado naquela tarde, na livraria, e entreguei-lhe, sem papel de presente, apenas com uma fita vermelha de cetim enlaçando o livro, com uma dedicatória dentro.
– Você me falou desse livro. Muito obrigado.
– Sim. Sei que você não gosta muito de ler, mas quero que se empenhe em ler este. A trégua dos personagens principais foi o amor que os uniu… – E senti que principiava a chorar, outra vez. Mas continuei: – A nossa é uma despedida.
Dei-lhe um abraço apertado, enquanto ele repetia que sentiria muito a minha falta, mas que entendia – e que, além de tudo, tinha em mim uma afeição tão grande quanto a que sente por suas filhas. E prometeu ler o livro.
Saindo do carro, ele ainda me fez parar, e perguntou:
– O que acontece com os dois no fim do livro? Ficam juntos?
– Quer que eu lhe faça perder todo o gosto, contando-lhe o final?!
– Por favor…!
– Ela vai embora.
Ele me olhou, sem surpresa alguma, e concluiu:
– Bem apropriado. Convém que seja assim.
Eu concordo.

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10 respostas em “A minha trégua

  1. Belo fim!

    O fato é que há certas circunstâncias que principiam algumas consequências. Há uma principal a ser observado ao longo de encontros assim: o tremor no coração. Realidades que se unem por acaso, e suas características se entrelaçam. Vidas unidas por um caminho de difícil compreensão. Não fica muito à mostra os resultados possíveis, os fins adequados.

    Uma trégua apenas impede os acontecimentos… inevitáveis, a todo custo.

    ps: Anjo, eu sempre acerto, porque no fundo temos muito o que nos torna comuns. Se o seu refúgio é o poente, o meu também és. Você nota pelo template do blog. E sempre foi assim. O pôr do sol é o recanto que visualizado mais apropriado para que me inspirar a extrair as palavras do coração. Ao mesmo tempo em que minhas confissões são sopradas ao horizonte, para ficarem flutuando pela bonita imagem encontrada no limiar que separa o mundo dos céus. É uma forma de agradecer o bem que o poente faz, e ao mesmo tempo sempre ter a sensação de que tudo o que já saiu do meu coração está ali, para eu poder reler, poder me encontrar…

    No mais, eu te conheço bastante para poder intuir o que te faz bem. Apesar de escrever sobre mim, faço de forma universal, para que todos se sintam bem me lendo. Isso me faz bem também. E você claro sempre vai estar nas minhas homenagens, nas minhas confissões, mesmo que escondida nas entrelinhas, estará sempre, assim como muitos outros amigos que amo.

    É claro que eu me preocupo com o teu fatalismo. Mas nunca chegarei a ponto de te criticar, ou revoltar-me plenamente com tua forma de agir. Não escondo que fico apreensivo, mas é apenas porque gosto de ti, e te quero ver bem, mais alegre e mais confiante. Mas isso não significa que eu não aceite. Eu aceito você como és. Se eu não aceitasse, teria parado de visitar você há muito tempo, e minhas palavras aqui seriam apenas imaginações…
    Eu nutro um profundo respeito a ti. E sempre que posso estou te presenteando com um conforto, para que se sintas bem. Você não é menos que ninguém… Você é especial e alguém com merecimento pra ser querida.

    Minha amiga querida, deixo aqui um beijo com imenso carinho!
    Te cuida!

    Jake!

  2. Seus textos têm um efeito meio hipnótico em mim, começo a ler e não consigo parar. Parece que nem paro para respirar.
    E olha, acredito que em romances como este, alguém sempre tem de ir embora.

    Um beijo

  3. sempre acho que viver é o mais importante, sem se preocupar com complicações ou o que pode vir a acontecer depois. mas a loucura está no meu sangue, e você citou cautela aí no seu texto, então obviamente pensamos diferente.

  4. Lindona das letras,

    Feliz Páscoa!

    Como sempre, textos que me fazem pensar até fundir os neurônios.

    Kiss

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