Sem vaidade

“Os anos que haviam destruído sua juventude e beleza haviam lhe emprestado apenas um olhar mais brilhante, nobre e franco, sem de forma alguma diminuir suas qualidades pessoais.
(…)
Não há praticamente um único defeito físico que boas maneiras não consigam aos poucos harmonizar.”
:: Do livro Persuasão, de Jane Austen.

Gisele Bündchen na capa da Cláudia de abril de 2011.Já fui comparada absurdamente, para constatar que tenho um rosto comum. Sempre achei engraçado quando alguém me parava na rua para dizer: “poxa vida, você parece aquela atriz… Aquela que fez Resident Evil”. Milla Jovovich. Eu ria muito disso tudo porque, sério, até hoje nunca assisti um filme sequer da saga Resident. Não faz o meu estilo, dizem-me que é ótimo, mas ótimo também é Harry Potter, então, não confio. Quando me dizem isso, lembro-me da Milla em alguma versão remota d’A Lagoa Azul. E, com toda a sinceridade, eu nada tenho a ver com aquele rosto. As pessoas comparavam bastante quando eu era ruiva. Vá lá que, em algum momento, senti-me o quinto elemento.
A vida é engraçada, conforme o ritmo que se vai envelhecendo (no meu caso, deve ser sorte, pois o ritmo avança lento, e Caio Fernando Abreu perguntaria: “quem pode deter o avanço do tempo?”). Eu sempre fui muito magra e, quando pequena, morria de vergonha, vivia fazendo dieta para engordar, indo frequentemente à vários nutricionistas, era obcecada por adquirir peso – o avesso da juventude atual. Mas aquela pequena cresceu ouvindo a frase: “vai ser modelo”. Eu não me via naquilo, nem um pouco. Eu era feia, com os cabelos escorridos, orelhas de abano, espinhas, sardas e óculos. Detestável. De tão magricela, parecia doente. Sem contar que era tímida, não conseguia conversar com as pessoas sem estar de cabeça baixa, refugiava-me em uma solidão incompreensível, tinha medo do mundo, era monossilábica. Não me enxergava fazendo o editorial de alguma revista. Além disso, do pouco que eu sabia da “vida de modelo” (que minha irmã mais velha também havia tentado) tudo é uma questão de sorte, momento, lugar certo, rotina sem horários corretos, seleções, desfiles, ausência de orientação, irresponsabilidade e, em casos de viagens (que tem seu lado bom, de certa maneira), uma saudade infinita perante o exílio. Entretanto, quando tardiamente decidi ingressar nessa carreira, admirei-me com um avesso maior ainda: parei de tentar engordar, conformei-me, fiquei feliz do jeito que estava. Outras manias estranhíssimas acompanharam-me: passei a detestar maquiagem, criei uma alergia crônica por isso, recuso permanentemente qualquer atributo que interfira nos meus olhos; deixei de usar estampas e bordados, aceitando o que chamamos de roupa de casting – calça jeans, salto alto e blusa branca. A vida, a meu ver, ficou mais simples após essa experiência. Eu já não aderia às mil cores dos estojos vários de batons e sombras, mas até hoje cuido da minha pele, porque gosto de cara limpa, ausente de manchas e espinhas, pele de criança. A experiência como modelo me deixou simples e bela: sabia tudo de moda (quem está nesse meio acaba tendo que pesquisar bastante mesmo), mas detestava utilizar muito do que estava nas vitrines. Repetia roupa porque isso significa personalidade e não deixava de ser hippie para tornar-me pin-up da noite para o dia porque “a moda era essa”. E fui me redescobrindo diante do espelho. Até que me adaptei ao rosto que tenho, ao cabelo, traços e contornos, as curvas ausentes, as pernas longas. Diga-se de passagem, estou feliz.
Escrevo isso por dois motivos: dia desses, enquanto minhas amigas preparavam-se para uma festa, falei, em tom de brincadeira: “eu também quero fazer as unhas”, e mostrei as mãos com as unhas completamente roídas (hábito péssimo que tenho desde a infância, por ser tão ansiosa), quando uma delas disse: “Daniele não tem vaidade”. É verdade. Ri naquele instante, mas fiquei pensativa: uma pessoa que sabe-se bela e admirada, por não ter vaidade será bela de verdade? Ainda não encontrei resposta, mas acredito sinceramente que, uma pessoa que se ausenta da vaidade deve ser raríssima. Procurei indícios mais fortes que demonstrassem essa atitude em mim, e recordei isso: entro em um shopping sem a necessidade de parar, olhar a vitrine e entrar na loja; não faço as sobrancelhas sob hipótese alguma; considero-me ridícula com os cabelos escovados; consigo me arrumar em trinta minutos (aliás, esse deveria ser um pretexto ótimo para estar casada), no máximo e, melhor ou pior de todos, a depender do ponto de vista de cada um, detesto elogios. Elogios frívolos, obviamente. Se você declamar uma poesia, uma ode aos meus traços, ótimo, me apaixonei. Mas ouvindo coisas nada originais, por exemplo, “seus olhos são lindos”, tá, já sei, não precisa ficar falando, é ridículo. Já ouvi elogios fantásticos, comparações tão absurdas quanto a primeira que fiz – e hoje, precisamente, ganhei o dia com: “você parece a Linda Evangelista”, claro. Já disseram a mesma coisa para a Jovovich. Também não preciso procurar beleza, exigir tal atributo nas outras pessoas. Cada um é belo ao seu modo. Eu me considero muito desajeitada, mas tenho uma amiga que, em cada gesto, compõe uma partitura. E seu rosto “nem é tão bonito assim”, como ela mesma diz. E se engana.
O segundo motivo é a capa da revista Cláudia desse mês de abril (que já está terminando…). Eu, particularmente, não aprecio muito o conteúdo da Cláudia (estilo balzaquiana para mulheres que vivem se exibindo na sociedade, considerando-se auto-suficientes, ridículo), mas minha mãe (estilo balzaquiana, etc.) gosta e assina. Daí que, tendo terminado um livro, peguei a revista onde o poeta e cronista Fabrício Carpinejar se responsabilizara em montar um perfil desvendando a beleza de Gisele Bündchen (aconselho você, caro leitor ou leitora, a dar uma fuçada nessa matéria, que está, sem sombra de dúvidas, muito linda – a Cláudia deveria investir mais em coisas desse tipo). Quando eu era modelo, Gisele era do tipo “ame ou odeie” (deve ser até hoje). Muitas admiravam, outras queriam o seu lugar. Mas Gisele também é uma dessas belezas raríssimas que se consideram naturais diante do espelho, quando, na verdade, são exóticas e indecifráveis aos olhos do resto dos mortais. “Gisele é a saudade de uma vida simples”, escreve Fabrício. “É a única que anda nas passarelas. Sabe caminhar bonito. Suas colegas dependem de esforço e desfilam”. Esforços sim. Em nome da beleza, já vi de tudo nesse mundo: emagrecimento drástico, inveja, fama à qualquer preço. As pessoas raras e belas não necessitam de buscar, mas são procuradas. Não necessitam de esforço, mas de muita sorte. Nascem dessa forma ou adquirem-na com o tempo, sem precisar formar um perfil de si própria ou ser a reinvenção de qualquer rosto do cinema já visto anteriormente. Aliás, esse é um equívoco muito corriqueiro. Todas querem ser Hepburnes ou Monroes, fato. Mas quando irá nascer uma beleza que se diga: é única? Não. Nem Gisele conseguiu. Eu, muito menos. O cronista afirmara que ela tem olhos de Mona Lisa, expressão da Renascença, cabelos da Vênus de Botticelli. E eu aqui, mera mortal, a ser comparada com atrizes de superproduções, imagina! A moda, a beleza, é uma reinvenção constante – estamos usando, vendo e ouvindo tudo o que já apareceu nas décadas anteriores, com certas liberdades premeditadas, mas ausente de qualquer novidade, procurando a nova Kate Moss. Não sei que rosto terei daqui há dez, vinte anos – e nem me importo. Pois, como escreveu Tolstói (e essa frase traduz a minha desistência nesse meio de fotos e desfiles): ah, a vaidade… Mais vale morrer!

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12 respostas em “Sem vaidade

  1. Desculpe, mas pacifismo não é ficar parado, com os braços cruzados. Pacificismo é lutar, de uma forma correta e coerente, pesando atos com sensatez, de forma a sobrepujar/evitar atos violentos desnecessários. É uma filosofia que visa evitar a continuidade da violência ao redor.

    Como tu podes dizer que é nada? Nem mesmo é pouco. Cada ação que fazemos, mesmo que mínima pode alterar a força do vento. É o efeito borboleta minha cara. Uma simples batida de asas da borboleta pode influenciar o curso natural das coisas. NÃO AGIR é nada. Mas uma atitude, um comportamento já é uma ação; que por si só altera todo um conjunto ao redor, porque às vezes esta ação/comportamento segue na contramão dos acontecimentos. Porque incomoda o incomum, o pensar diferente, o agir diferente.

    Quem cruza os braços e espera um milagre não pratica nem pacifismo, nem violência. Pratica o pior: a indiferença com o mundo.

    Beijo pra ti querida!

  2. Carpinejar é ótimo. Seus escritos sempre me surpreendem por sua sensibilidade e outras coisas mais. És bela e ponto. :)

    Kisses, have a good night! ;D

  3. Eu sempre fui meio avessa à seguir modas… uso o que me agrada e ponto. Seja ‘last season’ ou não, tanto faz, o importante é que eu me sinta bem. Também já fui comparada algumas vezes, a mais absurda com Angelina Jolie. HA quem sou eu!

  4. Motivo suficiente pra tá casada né?! Aham sei! rsrsrs
    E pera ae! Óculos?! Você usava óculos?!!! Revelação do ano, rsrsrsrs. Quando você levou as fotos não me lembro de ter visto você de óculos.

    Levi Ventura

  5. Muito nobre de sua parte. Acho que as maiores belezas estão nas coisas mais simples da vida.

    Pra vc ter uma ideia, sou fã número 1 das mulheres que deslumbram qualquer ser humano do sexo oposto sem um grama de maquiagem no rosto sequer.

    Belo texto… Me desculpe pela ausência, mas sempre quando posso estou por aqui…

    Bjao Nina!

  6. Concordo muuto contigo.
    Tudo é reiventando e estranhamente as pessoas tentam lutar contra isso como se fosse algum tipo de pecado repensar uma ideia. fato é também que tudo hoje em dia carece bastante do realmente novo. Na verdade nem sei mesmo se é carência ou se na verdade todos forçam suas vistas para tentar achar em algo muito inédito um traço de algo costumeiro. É um ciclo.
    E realmente, não há ausência de vaidade. Humanos que somos.
    Muito bom o post!
    Um beijo e boa semana. ! =)

  7. Ei Nina! Hahaha, não fazia ideia que seu nome era Daniele =P
    Eu também sou bem tranquila com essa questão de beleza. Também sou tachada de relaxada, descuidada e não-vaidosa por muitas (sim, muitAs, porque os meninos não costumam reclamar) por causa disso. Não tenho paciência e necessidade nenhuma de me maquear pra ir pra faculdade. Sempre uso o discurso de que prefiro que estejam todos acostumados a me ver de cara limpa e me achem maravilhosa quando me maquio do que ser do time das que só sai de casa toda maquiada, e um dia que sai sem todo mundo assusta e acha horrorosa.
    Que comentem o que quiserem comentar. Se eu estiver afim de colocar uma calça jeans justinha, bota de cano alto, blusa de gola e cachecol pra ir pra faculdade, farei isso. Mas se estiver com vontade de ir com a calça jeans mais folgada que tiver, cabelo preso, tênis e blusa de moletom, também o farei.
    E pronto!
    =]
    Beijos!

  8. Achei graça que o mundo da moda teve um efeito reverso em você, meio que no seu dia-a-dia vc fugiu dele, na falta de maquiagem e no estilo da roupa. Comassim vc não faz as sobrancelhas?
    Eu também sou difícil, não é qualquer elogio que me ganha.

  9. Quando você tiver oportunidade, venha para São Paulo fazer uma oficina com o Carpinejar, de escrita criativa. Não pela oficina, mas pela experiência de poder estar na mesma ambiência de grandes escritores como ele. Atualmente faço uma oficina com o grande João Gilberto Noll. Abraços e estava com saudades de ler você, menina prodígio.

  10. Nina,
    me identifiquei muito com a forma como você se descreve. Não no quesito auto-estima, porque a minha ultimamente não anda lá essas coisas, mas ainda assim, nunca fui de fazer as unhas, não aliso meu cabelo, não sigo nenhuma moda, sempre fui magra mas nunca me preocupei muito com isso, não tenho paciência pra ficar experimentando roupas e a única maquiagem que faço é um lápis bem preto nos olhos de vez em quando.
    Concordo totalmente com você, o que é a beleza? beleza passa. Mais vale investir no que fica, do que nessa vaidade totalmente exaustiva, no meu ponto de vista.
    Um beijo!

  11. Pingback: Carpinejando « #sobrefatalismos

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