Aborto

Pergunto-me, por ora, se ela se enxerga triste, porque tudo lhe incomoda. O rádio ligado na sala, meus sons contemporâneos. Escova de cabelos na pia do banheiro repleta daquele zelo, dos fios brancos, velhice a chegar. Meus livros espalhados na mesa de centro, canetas no chão da sala de jantar. Um gosto amargo ferindo por dentro, um erro provavelmente cometido. Memorial do incontido, muito do que deveria ser dito, pouco para se falar.
Eu sonho com fetos esvaindo-se de mim, círculos rosados e viciosos, teimando em desabitar-me antes mesmo do tempo certo. Abortei infinitamente e várias vezes as mesmas crianças, com olhos em pares, ardósia, azul. Cachos no cabelo, gravuras de Frida, a pintora, no canto da parede – o sonho é um reboco de futuro premeditado. O sonho sempre vem ao encontro de meu aniversário. E a austríaca imperatriz faz-me recordar, toda vez, o filho que perdera, do qual carrego a culpa, como se eu mesma o tivesse matado – pobre delfim.
Haverá um dia, mãe, em que eu irei embora. Livrar-se-á de mim a senhora, adquirirei uma orfandade comum – e aceitarei resignada. Sentiu-se presa por toda a vida a um feto indesejável – não lhe culpo -, também eu estou a guardar meus demônios internos. Pulso ainda no ventre que não me pertence e criança alguma habitará minha incapacidade de progredir. Não faz mal. Mas haverá um dia – um dia em que, inevitavelmente, terá sido melhor deixar-me com meus acordes, o rádio ligado, a contemporaneidade do que já é passado. Eu, usando suas roupas novas, fazendo-me adulta. Você, a recriminar-me. Eu crescendo, você impedindo, sem ver. Haverei de reencontrar-te, entretanto, um dia.

“Oh, pedaço de mim,
Oh, metade arrancada de mim,
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu.”
:: Pedaço De Mim – Chico Buarque

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12 respostas em “Aborto

  1. Ai que tesxto triste! Nossa! =/
    Achei muito triste mas, enfim BEM escrito.
    Kiss

  2. Não poderia ter arranjado coisa mehor que Pedaço de Mim pra finalizar o texto.
    beijo!

  3. e a liberdade chega, muito perigosa. mas no fim, sempre se terá o desejo de voltar em alguma ocasião.

  4. Nina,
    Lindo como sempre… Vislumbrei teu texto como pedaços de um sonho, cheios de sinceridade.
    Pedaço de mim é pra mim a música oficial de fossa, rs.
    Um beijo!

  5. Nina, o que escreves emociona. Não apenas um alguém determinado, mas o plexo anônimo que se contrai ao ler. Nem todos deixam comentários, mas teus textos registram-lhes a respiração. Esta postagem, por exemplo, devolve-nos, com força, o suspiro que abafamos por existir. Teu Aborto inaugura vagidos de emoções antigas numa forma recém-nascida de palavras.

    Um dia encontramos mesmo. A mãe em nós.

  6. Triste. Parece abraçado numa amargura sem fim. Delitos escondidos na alma, como que preces prontas a serem respondidas. Esta aflição insegura que corrói e que nos mata lentamente é como um aborto sim. Um dia encontramos algum ideal. Porém, mesmo assim precisamos aceitar o desígnio de alguns momentos.

    Esta fuga é um matar a si.

    Beijo!

  7. Pensei em várias formas de começar, mas tudo me remete a palavra Triste. Triste e incrivelmente bem escrito… Como já disseram, parece que o texto foi escrito em um momento de angustia, espero que não… Apesar de gostar muito de textos reais.

    Saudade de você e do seu espaço.

    Beijo, Nina.

    P.S.: Como assim não estou na lista “Inventário do Ir-remediável”?!

  8. Profundo e bonito, mas melancólico. Mas como a melancolia me atrái, passei a seguí-la. Parabéns pelos excelentes escritos.

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