Adaptação

“Talvez, toda história de amor comece com essa pergunta implícita: posso ser seu intérprete? Fale comigo, fale através de mim. Escreva as minhas falas. Conduza-me. Sim, porque há a vaidade de ser inventado pelo outro também, de saber que o outro nos empresta toda a beleza do próprio olhar. É um convite para a nudez, em todas as suas formas.”
:: Roberta Mendes, na crônica Carpinejando.

Engraçada a vida, consoante o grau de conhecimento que se tem sobre as pessoas ao nosso redor. Você, por exemplo. Você, ainda não. Tomo como exemplo um amigo meu que diz, constantemente, algo banal como: “homens não gostam de mulheres inteligentes”. Ele vive me dizendo isso porque, toda vez que me encontra, vê-me lendo um livro, escrevendo, pesquisando qualquer assunto na biblioteca, estudando, meditando, divagando… Engraçado, sobretudo porque eu também me conheço, e tanto me conheço que ainda sei que só me apaixono por aqueles que me desvendam, que me analisam minuciosamente. Não à toa, por muito tempo guardei mágoa e amor por esse amigo. Já lhe contei.
Você, que tanto gosta de filmes, permita-me, por obséquio, uma constatação: conhecer nada tem a ver com interpretar. A vida é um roteiro adaptado da interpretação de quem a lê. O resto é cinema. O resto é versão hollywoodiana (mas eu prefiro o humor francês com seus finais infelizes e sua arte incompreensível, incomum).
Se você estivesse aqui agora, veria que muito teríamos para adaptarmo-nos um ao outro. Eu mais ainda. Eu sou um poço de fingimento no que se refere aos gestos, isso demora meses até que eu me acostume a ser espontânea. A minha vida é cheia de regras de etiqueta desde sempre. Muitas coisas, entretanto, não consigo disfarçar. Reparou no meu tom de voz antes de desligar o telefone na última ocasião em que conversamos? Sim, houvera um motivo para isso. Naturalmente. Eu vivo dizendo que abril (apesar de ter um nome lindo) é mês insólito, monótono, repleto de antônimos “sinonimizados”. Maio é amor puro, mês do nosso aniversário, frio, gelado, roupas de inverno. Junho é descanso e festa e descanso. Mas creio que julho será o meu fim.
Em dezenove de maio, o dia avançava lento, sem deter o tempo (parafraseando Caio Fernando Abreu). Fui dormir entremeada nas cobertas, afundada. Dormi de mau jeito. Acordei com dor na coluna, fui para o ballet (que é novidade, pois voltei a fazer aulas), voltei para casa, tomei um banho frio, vesti o sobretudo, rumei para o coral. Não teve aula, por conta de um imprevisto do professor. Ainda bem. Se descobrissem que eu estava desafinada, amor, isto em mim provocaria imensa dor. Voltei para casa, ouvi infinitamente a mesma canção, tomei café (mesmo odiando) e fui dormir porque estivera chovendo e não haveria pôr-do-sol convincente. Em vão. A dor não passou.
Uma vez você me disse que eu fosse até aí passar uma noite, porque ao menos uma noite valeria à pena (se compreendi bem). Juro-te: nunca ouvi estupidez maior. É por isso que eu não vou, porque você não é homem para uma noite só. E eu tinha ainda aquele sonho bobo de casa cheia de filhos e netos, domingo, nós dois sentados na varanda de cabelos brancos, vendo a vida passar.
Oposto a isso, eu sim sou passável. Uma noite apenas te compensaria por todo esse tempo perdido em espera – e no dia seguinte, eu seria descartada do teu folhetim. Usaria meu vestido azul para chegar e ir embora, aquele mesmo que usei quando decidi por aquela viagem sutil até Belo Horizonte. Eu só queria te conhecer, e o vestido azul é o mais bonito que tenho. Mas não hesitaria em queimá-lo, porque seria o dia seguinte.
Eu poderia lhe dizer agora mesmo: “não vá embora, fica”. Não o farei porque sei que seria injustiça. Fosse você em meu lugar, também me deixaria ir. Oportunidades não se perdem, amor. Também poderia dizer-te: “vem”. Mas não venha, não queira vir se for para uma noite apenas. Queira vir em razão de me seqüestrar, aí sim, aceitarei de bom grado e sem fazer perguntas. Falo sério.
Eu não duvido do teu amor por mim. Mas não é amor. Entenda: o sentimento é cabível, mas nada condizente com o teu nome. É afeto. Você guarda um carinho imenso por mim. O meu primeiro amor (que rendeu muito assunto), por exemplo, hoje é quase um irmão mais novo, que eu super-protejo e quero bem. Você comigo em nada se difere. É um afeto banal.
Nós dois, jovens e tolos, sabíamos que, ao embarcarmos nessa, não haveria volta, mas sim essa sensação de incompleto, do “não-ter-sido”. Nós dois também sabemos que estamos acostumados a isso. Só que você se arrisca mais, prova está nos teus relacionamentos anteriores. Eu tive desvios no meio do caminho, pessoas importantes e sem importância alguma. Casos. Acasos. Desvãos.
Não se afobe não, que nada é pra já. O amor não tem pressa e pode esperar. E já esperou tempo demais, tempo excessivo. Algum tempo atrás escrevi uma coisa e descobri que fui impulso, pontapé definitivo para um “casal como nós” que de fato casou, mas não dera certo por muito tempo. Eles arriscaram. E eu fiquei pensando: quando será a nossa vez?
Talvez essa vez, essa chance, nunca chegue. Se o encanto restar, será poético, vai por mim que até pode virar filme (sendo um best-seller antes). É provável que nunca saibamos interpretar um ao outro, com o olhar, reinventando-nos sempre, todos os dias. Já afirmei que gosto desse tatear de mãos no escuro, que tanto pode significar futuro quanto entrega. Agora, você vai se afastar ainda mais de mim. Não se trata apenas, claro está, de sua localização geográfica. É mais. Serão outras pessoas que você conhecerá, mais sábias, elegantes, surpreendentes. E não vai demorar muito até que eu seja aquela lembrança sutil de um devaneio que você outrora teve. Eu serei uma daquelas histórias, como os primeiros amores que o tempo passa e cura, e que você irá rir logo adiante, sentado no sofá de seu apartamento em Buenos Aires, a nova namorada do teu lado (você a conhecerá em uma festa de estrangeiros, numa noite cálida, adepta a essas necessidades do corpo), você abrindo uma caixa, reencontrando cartas, reencontrando-me, eu ali, tão inconveniente.
A vida não imita a arte. A vida é uma versão nada clichê do cinema. É uma casa do lago caindo aos pedaços, é um orgulho infinito sobrepujando o caráter. Também é desertar. Também é deixar ir. É desapego. Vai. Vai logo. Eu quero, eu deixo (como se você realmente precisasse de meu consentimento). Entretanto, se você voltar um dia, não procure saber onde estou, como vou, com quem, com quantos e por que. A resposta para isso tudo você já sabe: nós falhamos (outra vez).

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8 respostas em “Adaptação

  1. Nem fala sobre a vida, que eu nem sei por onde começar.
    Solidão é minha companheira, e vai ser por mais tempo. Não há solução.

  2. Nina, essa história daria um bom filme francês mesmo. Truffaut ia gostar de filmar, quem sabe.
    Texto lindo!
    beijo

  3. Nina, é tão difícil comentar no seu blog, porque você fala tudo no texto, e nos deixa sem palavras! Eu tanto amei que twittei uma das frases, te dando, obviamente, os devidos créditos. E deram RT, viu? *_*
    Lindo o texto!
    Beijos querida!

  4. Fazendo a retrospectivas dos últimos anos, percebi o quanto o mês de maio é sempre complicado pra mim. Complicado até demais.

    Mas pra você é o mês do amor, não é?

    Pois bem, é sobre isso que vou falar. Amor. Amor. Amor…. Esse mesmo que o poeta diz que tanto engorda quanto mata.

    Já te contei essa história, não? Sobre a colega de faculdade (vou chamá-la de Marion) com quem passei quatro anos. Sempre gostei dela. Me apaixonei várias vezes por ela. Carinho, amizade, respeito… Mas sempre recebi muito pouco (ou quase nada em troca).

    Nos quatro anos em que dividimos a mesma sala, nunca tivemos a oportunidade de nos acertarmos. Era sempre coisa de alguns poucos dias. Nos aproximávamos e logo estávamos distantes.

    O problema era estar distante e ter que dividir a mesma sala. Ela tinha (e ainda tem) um caso mal resolvido com uma pessoa que ela namorou por anos (quase oito hoje). Algo que ela nunca conseguiu resolver. Idas e voltas que sempre a impediu de ficar comigo.

    Nunca entendi o que se passava (e se passa) na cabeça dela.

    A questão é que eu pequei. Deixei me levar com o pouco de carinho e atenção que dela recebi. Passei a amá-la (naquela época). Que merda que eu fiz? Eu estava bem sozinho. Era como diria um outro poeta, eu estava deixando o céu por ser escuro e indo ao inferno a procura de luz.

    Eu relutei contra esse sentimento. Queria me livrar dele. Mas como se faz isso? Eu o coloquei em um lugar escondido no meu coração a fim de que ele se perdesse a ponto de nem eu mesmo poder encontrá-lo. Foi assim nos últimos 20 meses talvez.

    O grande problema é que maio chegou de novo. Marion voltou outra vez. Depois de tanto tempo. Ela pediu pra ver. Trouxe do passado as nossas poucas boas velhas lembranças. Falou sobre o quando ela mudou, e sobre o tempo que ela perdeu longe de mim. Disse que desistiu de ir trabalhar em outra cidade para ficar aqui, perto de mim, para ter outra chance e dessa vez me fazer feliz. Fez mil promessas, pediu perdão… E agora Jean?

    Eu disse não. Disse que ela não tinha o direito de entrar e sair da minha vida quando ela quisesse.

    Tem idéia do que é isso? Você ama uma pessoa que por muito tempo você quis por perto. Uma pessoa que lembra todos os dias tentados esquecer. Uma pessoa que por mais que tenha te feito sofrer você sente saudades. Uma pessoa que ainda mexe com você, e que se chega perto te deixa sem reação.

    Alguém que você quer e você tenha medo ao mesmo tempo.

    Eu deixei o medo prevalecer. Disse não. O problema é que isso agora me assombra.

    Não foi um simples não. Foi um NÃO que pedia para ela nunca mais aparecer.

    Depois disso, algumas noites em claro. Dor no peito. Dor no ego. Olheiras.

    E agora Jean?

    Remédio de tarja preta pra dormir.

    Ficar assombrado ao ouvir uma canção ou passar por uma rua qualquer dessa cidade.

    Pode piorar? Pode sim.

    A literatura que eu achava que ia me salvar me mostrou que eu fracassei. De novo.

    Esperava dividir meu coração com alguém que amo e terminei de parti-lo.

    Em julho eu vou pra Montevidéu. Será um “exorcismo”. Preciso fugir de uns fantasmas. Mas não é pra sempre. Terei que voltar.

    Em maio do ano que vem, se eu conseguir guardar um pedaço de mim, quero sim estar em um café de Buenos Aires escrevendo (se eu ainda puder) uma história melhor. Irei a passeio, com data certa pra voltar.

    Eu planejava ir sozinho. Afinal, estarei de férias do trabalho.Ou quem sabe acompanhado? Duvido muito. A pessoa que pensei que pudesse estar lá comigo não atende mais minhas ligações.

    Houve um tempo em que ela me atendia com um sorriso mesmo de madrugada.

    Ela partiu meu coração uma vez. Não a ponto de eu deixar de amá-la. (é que nos amamos de uma forma que ainda não consegui descrever)

    Agora eu estraguei tudo.

    Não é a primeira vez que faço isso. Certa vez escrevi:
    “Uma criança incauta atira pedras ao céu sem pensar que elas sempre voltam. Às vezes machuca a si mesma. Assim é um tolo que desabafa com caneta e papel. Eu.”

    Estraguei tudo por não saber escrever. É, eu fracassei.

    Tomara que este mês acabe logo. Estou com muito medo dos últimos cinco dias.

  5. Uma menina que já comentou aqui no seu texto já disse uma coisa que eu também ia dizer: não resta nenhuma frase sequer pra que eu possa comentar depois, porque vc nos desarma de todas elas, diz tudo, de um jeito muito bonito e que abisma.

    Não tenho o que dizer. Posso aplaudir, mas vc não vai ver. Mesmo assim, em homenagem a vc, dedico uma salva de palmas minhas a você. Adoro seus textos, moça.

    Mil perdões pela ausência de às vezes. Serei mais assíduo.

    Beijão

  6. A cada dia é mais difícil pra mim colocar palavras aqui, comentando algo sobre você, algo em relação aos teus sentimentos. Tenho aquela impressão de que já consegui extrair tudo o que podia a respeito de ti, e que agora só me resta sentar a te ler em silêncio. Talvez seja pela minha limitação diante de mim. E isto me dói muito Daniele, por não conter na alma as palavras necessárias para te deixar um conforto aqui. É irônico logo agora não ter esta sensibilidade, quando na verdade, eu sempre tive capacidade de encontrar aquele limiar que te separa o teu mundo e nosso mundo. Foi assim, desbravando teus sentimentos mais profundos que pude te conhecer e adquirir este respeito para contigo.

    Li tudo isso aqui e praticamente me inteirei no seu mundo, como todo texto seu me faz te perceber, te esmiuçar. Mas estou todo vazio. Hoje, estas palavras soaram como facas no meu peito. Talvez porque uma coisa ou outra se configure no meu ser ainda. E este identificar me corrói um pouco. Porque essa tua aflição quanto ao amor também é em parte a minha.

    És bastante inteligente, e sabes com inteira capacidade de encontrar palavras para debulhar o ardor no peito. Estás acima de muitos. E até de mim. E é isto que te identifica. Este teu crescimento, esta teu infinito talento em expressar o que sentes da forma mais profunda possível. Ah sei lá Daniele.

    Hoje não disse coisa com coisa. Não passo um bom momento, e ler um pouco desta solidão aqui me deixa debilitado o suficiente para não comentar com propriedade.

    Perdoe-me.
    E já que falas tanto em falhas. Eu falhei também: hoje. Aqui. Contigo.

    O seu amigo Jake aqui anda machucado, e ler o que leio também machuca mais, porque enxerga a dor no teu peito. Saiba que ele te gosta muito. E continuará a desejar sempre o melhor pra ti. O que inclui toda a felicidade do mundo. Nunca esqueças disso. E nunca estará sozinhas enquanto tiveres amigos como eu.

    Minha amiga Bella, deixo aqui um grande beijo. Amoroso, no peito.

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