Liberte-nos

De todas as coisas que eu nunca desejei que me acontecesse, uma delas era certa: não queria ser tua ex, mais uma das tais. Não queria ter que passar por cima de meu orgulho e princípio para me arrepender depois, e implorar retorno. Isso não.
Por outro lado, entendo o lado de quem se arrepende. Também já me aconteceu. É você quem não sabe perdoar (vou negar essa frase adiante, pois sei que há muita injustiça nela). Quantos amores você já perdeu tantas vezes por não consentir? Ah, é verdade. Elas também te perderam outras tantas e quantas vezes. Mas e daí? Morreu por conta disso? Isso também não. Ao contrário. Foi criando um câncer, aos poucos, porque alimenta essa esperança de que a pessoa certa chegue (câncer entende-se como literatura). Mas se engana.
Cada indivíduo não se assemelha com o que quer que seja que você tenha dentro da cabeça. Cada um impõe as condições que lhe são cabíveis. Um exemplo: quando eu era amante do professor, não poderia telefonar-lhe, visitar-lhe ou mencionar seu nome em conversas com terceiros. Era ele quem me procurava, de acordo com sua disponibilidade. Obviamente, isso não impedia que eu sofresse. Mas amor e dor rimam. E nem o amor está livre do sofrimento.
Quando criança, ouvindo do quarto as brigas freqüentes de meus pais (que se perpetuam e ecoam até hoje), selei um pacto comigo mesma de jamais cair nessa atitude burguesa de subir ao altar. Quando pequena, eu queria ser amante de Sartre (acredite). E melhor amiga de Simone de Beauvoir. E ter a consciência limpa.
Porque, desde pequena, eu já estava predestinada a amar de uma maneira nada convencional, anti ou ultra-romântica. Amar errado. Ou amar certo, a depender de quem concordar comigo. E a maioria dos mortais discorda impiedosamente. Porque eu quero ter a capacidade de amar quantos eu quiser, sem precisar escolher conviver com uma única pessoa. Amar com liberdade. E isso nada tem a ver com a discriminação que o sexo nos impõe. Isso tem a ver com desapego, ausência de ciúme e egoísmo. Tem a ver com respeito mútuo, amizade, companheirismo. O mundo seria melhor se todos estivessem dispostos a amar sem precisar do próximo, necessitando de todos para que isso seja possível. Daí veio a religião e estragou tudo. Sempre penso que, se uma pessoa nega amar quantos puder desejar (o que significa conceder que o outro também o faça), essa pessoa não é madura ou preparada o suficiente para independer do próximo. Talvez nunca esteja preparada. O resultado disso é uma coleção infindável de relacionamentos mal-acabados e uma sensação falsa de experiência vasta. Logo após, essa criatura demora a se aceitar em um relacionamento (e aceitar o outro, em conseqüência). Temos sorte de conviver em um século em que o amor vive o seu recomeço, como na Grécia Antiga, que, vá lá, vivia suas guerras por conta do ciúme e outros absurdos de convenção, mas não deixava de renovar o amor da maneira que lhe aprouvesse, sem que a sociedade interferisse. E amar verdadeiramente é também permitir que o outro seja livre para amar quem lhe convém, o contrário disso se chama egoísmo. O cronista Carlos Heitor Cony retrata muito bem esse fato em A Estrela da Ursa Maior, crônica disposta no livro Os Anos Mais Antigos do Passado, no que segue o trecho:

“Nunca é infinito nem imortal porque, no fundo é o amor de nós mesmos em outro corpo. O namoro, sim, é largo, sem margens e sem a urgência das horas. Amamos a uma só pessoa. Podemos ser namorados de muitas.”

Fugir para um outro país não é desculpa para que o outro esqueça um sentimento que você mesmo fez nutrir. E dizer “eu te amo” após tanto desprezo, não significa que você triunfa sobre o passado. Acredito que meu coração não seja o único a estar partido. A diferença é que eu não tive oportunidade para que você o arrancasse de mim e batesse nele com um martelo, literalmente. Lembrando que o coração partido, em questão, também pode ser o teu.
Ela volta agora e pede também para voltar com você. Você tem medo. Por quê? Porque eu existo? Se não existisse, que outra desculpa você arrumaria, dessa vez? O medo não superado impede que o amor aconteça. Claro está que é dela que você gosta. A culpa não é sua. Mas o nosso encantamento mútuo e inicial já fechou o seu ciclo. É normal. Agora está aberta a temporada desse aperto no coração porque ela voltou, e algo ficou incompleto. Não se culpe. Você foge para não se deparar com a escolha entre nós duas (ou não). E quem disse que você precisa escolher? Vai por mim: fugir não é permissão suficiente para que você esqueça. Isso só piora tudo.
No seu lugar (e eu realmente poderia estar no seu lugar), escolheria quem de mim estivesse mais próximo. É viável, confortável e mais seguro. É uma questão de pensamento lógico, afinal, você tem mais de trinta e, francamente, não merece e nem quer esperar a vida inteira por um futuro com alguém que está “do outro lado do mundo”. Até quando isso vai durar? Eu também me faço essa indagação constantemente. Afinal, eu posso estar perdendo minha juventude, os meus vinte anos, o meu coração. Isso é injusto para ambas as partes. Já desinteressadas.
Não é a tua viagem ou o retorno dela. Somos nós dois nessa espera. Por um tempo incalculável que tanto pode ser muito ou pouco, mas é o tempo que se perde, irrevogavelmente.
Tomando isso como conclusão, adiante, provavelmente, me arrependerei. E talvez eu peça para voltar. E deixe você com um aperto no coração por conta do teu medo. Daí você vai me ignorar, deixar claro que “não é não e ponto final”, sem saber se essa foi a coisa certa a ter sido feita. E então? Será que em você esse arrependimento nunca sobrevoará, sem explicação aparente? Você é do tipo que acredita que todos merecem uma segunda chance. Nesse caso, dê mais uma chance para si mesmo. A minha segunda chance já veio. Você me perdoou por algo que eu jamais me perdoaria ou perdoaria a alguém: a traição. Mas o que é traição em uma relação como a nossa? O retorno dela? Mais ideal seria se você tivesse conversado antes comigo sobre esse assunto, narrando o que lhe ocorria, para que, a partir daí, tomássemos juntos uma conclusão adequada e fôssemos felizes cada um em seu canto, com pessoas diferentes, sem que o que sentimos um pelo outro fosse alterado. Não precisa ser. É difícil, mas realmente necessário. Meses atrás, eu deveria ter-lhe dito: “Olha, beijei meu professor de matemática no carro, depois que saímos da escola e ele me deu carona. Corro o risco de estar gostando dele. E agora?”. Tudo bem, reconheço que fui, acima de tudo, suficientemente imatura para não merecer o seu perdão, mas você compreendeu que a distância, em uma situação como a nossa, conta bastante. O que pesa, nessas horas, é a nossa relação fora de nós mesmos. E isso vale mais do que o que ainda pensamos sentir um pelo outro.
Diferente, porém, é se você vai para Montevidéu, Buenos Aires ou para onde Judas perdeu as botas. Porque, se eu fosse para a Finlândia, Chile ou para onde Judas perdeu as botas, te diria, numa boa: “Não sei quando volto, então você tem sua carta de alforria e a gente continua se falando”. Embora pareça frio, isso é justo. Não fazer com que eu leia seus relatos maravilhosos de viagem e fique imaginando as estrangeiras que você anda conhecendo, os lugares incríveis que você freqüenta e fique aqui, com essa expressão de menina da roça, filha de coronel, prometida a um filho de político que foi estudar na capital, que se diverte na base da boemia e sabe-se lá quando lembra que está comprometido com uma boa moça (e esse rótulo não me cabe).
O conselho que eu lhe dou é este: vá. Viva os sonhos que você teve antes de mim ou de qualquer outra. Ame quem você amou antes de mim e não se sinta culpado ou arrependido. Para tudo tem sua hora certa. Provavelmente a hora certa de vocês dois seja esta, não a desperdice. A nossa pode chegar, ou não. Também depende de nós. A vida é muito boa e repleta de pessoas para que estejamos indispostos a tais conhecimentos. Quero você livre. Quero que você me deixe livre. E quero, acima de tudo, que essa liberdade amadureça nossos corações, porque, adiante, estaremos preparados. Se nos amamos de verdade, essa afirmação não se perderá. Porém, se nos amamos menos agora não é por ter acabado, mas as circunstâncias mudaram. Vá de acordo com elas.

Anúncios

5 respostas em “Liberte-nos

  1. Ah Nina, pode ser que um mundo assim seja realmente melhor e com bem menos dores de cabeça e consumos incontrolados de sorvete e brigadeiro de panela, mas não sei se estou pronta pra viver nele. HAHA
    Diga-me, está gostando de Helena?
    Beijo!

  2. Racionalmente, eu concordo com tudo o que você disse. Mas emocionalmente eu estou muito longe de estar preparada para um mundo desses. Cada um tem um jeito de amar, uns são mais maduros, outros menos. Eu preciso de estabilidade, de certeza, de um chão. Só sei viver assim, porque só conheço a vida assim.
    Distância é complicado demais, não sei se eu conseguiria. Mas concordo com você, quando diz que às vezes é melhor deixar as coisas serem como elas têm que ser, não prender o outro, porque o que tem que ser “seu”, será.
    Beijos

  3. Tenho que concordar com a Paloma, racionalmente é muito bonito. Mas emocionalmente, ficaria maluca. Exatamente como ela disse, eu preciso de chão, de estabiliade, preciso saber que tenho um colo e um ombro que serão só meus.
    Beijos!

  4. Eu sou tradicional!

    Eu gostei deste layout porque tem fotinhos suas! ;P
    Kiss

  5. Pingback: Retrospectiva literária 2011 « #sobrefatalismos

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s