Ah, se eu fosse vizinha tua, Chico…

(Se fosse verdade, Anna Vitória, Kamilla Barcelos e Sofia A. morreriam de inveja).

Mudou-se há pouco mais de três meses a vizinha de baixo. De início, ouvi dizer apenas que alguém alugara o 802, mas não mantive curiosidade, confesso. Vi o caminhão de mudança parar aqui no portão, móveis antigos foram despejados cuidadosamente sobre o piso, para que, em seguida, subissem porta adentro, carregados com esmero pelos senhores especializados. Vi tudo da janela.
À noite, voltando de um jantar, vi a menina segurando contra o peito uma caixa de papelão que continha um porta-retrato, livros e discos. Sem surpresa, vi um dos meus entremeado naquela pequena bagunça. Virei o rosto. Quando entrei no elevador, a pequena não havia se dado conta de minha presença. Tinha uns fones de ouvido que estavam, sem sombra de dúvida, no último volume, devido aos ruídos que quebraram-me o silêncio constrangedor. Mantinha fechados os olhos de espessos cílios. A boca se apertava em um sussurro de quem cantarola. O corpo balançava aos poucos, seguindo o ritmo, e notei que usava uma saia leve, criando contraste nos sapatos pesados e marrons. Não usava tipo algum de maquiagem. Nem bijuterias. Estavam presos os cabelos numa fivela carente de enfeites. Não havia o menor sinal de vaidade.
Saiu antes de mim, com pressa. E constatei: “é a vizinha”. Impaciente, tentando abrir a porta do 802 e segurar a caixa ao mesmo tempo, decidiu pô-la no chão e fixou os olhos na fechadura. Forçou, não serviu. Num impulso, abrindo mão de chegar ao meu apartamento, caminhei em sua direção e pedi que me deixasse ajudá-la. Sem uma palavra (nem sorriso), entregou-me a chave e sequer me olhou. Agradeceu quando terminei, pegou depressa a caixa (antes que eu pudesse oferecer-me para auxiliá-la novamente), entrou, bateu a porta. Ainda ouvi a chave girar outra vez, trancou-se.
“Trancar-se deve ser um hábito”, pensei. Pelos gestos e ausência de tantos outros do feitio da feminilidade, imaginei que estava a fechar-se em um imaginário que somente a ela pertencia. Estava também fechada para visitação.
Passaram-se dias sem que eu visse, ouvisse ou sentisse a vizinha. Não havia personalidade na entrada daquele apartamento, nenhum ruído aparente, nenhum perfume no ar. Tampouco me surpreenderia se minha vizinha fosse um fantasma, estava me acostumando àquela ausência tão presente. Dei para esquecê-la quando, certa manhã, despertei, súbito e assustado com minha própria voz perto dali, sem que tenha saído recentemente de meus lábios. Levantei, lavei o rosto. Distingui a canção: “Eu surpreendia o sol antes do sol raiar / saltava as noites sem me refazer…”. Segui o som, percorri correndo corredores em silêncio. Vinha do apartamento dela, a porta estava aberta, verdadeiramente escancarada. Mas que surpresa. Parei ali mesmo, ela estava sentada no chão, de costas para mim, cantando junto com minha gravação antiga, recortando seu próprio rosto de fotografias várias, mas como era estranha essa minha vizinha… Devia colecionar sonetos, retratos em branco e preto, afim de maltratar seu próprio coração (mas isso é com o Jobim). Era branca, muito branca. Branca, branca, branca. Bela, bela, bela. Devia ser húngara. As paredes (aparentes do edifício) do apartamento eram vermelhas (quando foi que ela pintou?), abarrotadas de estantes abarrotadas de livros. Não enxerguei a televisão, se é que havia alguma. A minha voz vinha de uma vitrola. Os móveis que vi no dia de sua mudança estavam ali, em sua maioria. Móveis brancos, barrocos, renascentistas. Quadros e retratos de antepassados fulguravam uma genealógica árvore (supus) na parede acima de uma pequena mesa. Parou o disco. Ela, quase a se virar, fez-me recuar bruscamente em retorno ao meu apartamento, logo eu, que pretendia penetrar no teu labirinto (um labirinto de labirintos, dentro do apartamento). Não entendi meu próprio ímpeto. Entretanto, em verdade, tive receio de que ela considerasse aquele meu acaso uma certa invasão de sua privacidade, apesar da porta aberta (e o convidativo tapete, Atrás da Porta).
Nos dias seguintes, minha vizinha ganhou feições, jeitos, gestos – excessos de si própria. Tudo era um resquício do que eu ouvia de sua rotina, de seus passos. Não sabia do que sobrevivia, pois se demorava na rua apenas cerca de duas horas em dois dias. Deduzi que era escritora pois, apurando bem os ouvidos, mas não tanto, distingui das seis da manhã às seis da tarde um barulho incessante de teclas de máquina de escrever – artefato que ninguém utiliza na era da tecnologia avançada. Às vezes, tinha raiva dessa minha vizinha, que deixava-me com dor-de-cabeça dias seguidos (parecia a visão do inferno de Mário Prata, “pamonha de Piracicaba” latejante), sem piedade alguma, deixando sua imaginação passar para as folhas de papel, desinventando o som. Ela devia errar muitas vezes, pois arrancava folhas várias num átimo – e resmungava. Acalmando-se, porém (ou a pretexto disso), punha na vitrola um disco. Nesse ponto, esquecia-me do ódio e passava a amá-la, afinal, essa moça é diferente, nem me conhece e já estava me passando, inconscientemente, para trás. Tinha bom gosto para música – e isso não se refere ou se limita somente a mim. Porque, para controlar-se, ouvia algo instrumental ou canções francesas, contemporâneas. Muitas vezes, porém, reclamava em tango. Se chovia, procurava um rock. Fazendo sol, instintivamente apreciava música nacional. Independentemente da sonoridade, eu sentia o chão vibrar sob meus pés descalços, tentava tocar piano, em vão, pois não conseguia. Só me era possível viver escutando aquela vizinha (em acessos de loucura cheguei mesmo a deitar no chão para saber se o volume baixo era algo de minha autoria, mas só captei palavras ao longe quase murmuradas, ela devia estar no telefone). Eu não ganhava pontos com ela nas tempestades. Mas isso aqui, sendo o Rio de Janeiro, não me deixa em Desalento.
Ri de mim mesmo ao pensar na perseguição em que caíra. Estorvo. Entretanto, vi-a num fim de manhã ensolarada, ela na calçada ao longo da praia, um vestido branco e leve, os mesmos fones de ouvido de quando eu a encontrara, os olhos fechados, vagando… Aproximei-me porque cantarolava. “Que também passará / como ondas na beira de um cais / juras, promessas, canções / mas por onde andarás?”. Eu a acompanhava até quando ali não estava. Mas a minha voz permanecia o tempo inteiro a sussurrar em seus ouvidos. Era poético, lírico.
Às vezes, entretanto, minha vizinha caía em profundo silêncio, mas apurando bem os ouvidos (não tanto), conseguia saber que estava lendo – páginas eram viradas, livros estavam sendo retirados e colocados na estante. Nesse mesmo dia em que avistei-a na calçada da praia, vi-a chegar ao fim da tarde com uma sacola da livraria que fica aqui perto. Estava cheia e era uma sacola grande. Tinha um sorriso nos lábios. E seus lábios estavam vermelhos, o rosto corado, bronzeado. Aquele vestido branco, leve. Sapatilhas finas. Era um sinal da renascença e juventude. Foi um dia ótimo para nós dois, só que ela não notara. E eu vivia no andar inferior, arrumando pretextos, mendingando a presença dela.
O síndico sabia pouco. O porteiro, nada em absoluto. Apenas que ela assinava algumas revistas da Abril, fora isso não recebia correspondências, sequer visita de parentes ou amigos. Joguei seu nome em um site de pesquisas. Vi-lhe fotos de noites de autógrafos. Escrevera dois romances. Fora isso, não muito tive a informar-me. Em razão de desespero planejei abordagens várias, algumas bem descaradas, aparentemente sem pretensão, algo como bater-lhe a porta com uma xícara, pedindo açúcar (com afeto, tentando descobrir-lhe o doce predileto, quem sabe ela não parava em minha casa – qual o quê), coisa que todo mundo faz. Infantilidades. Escrever-lhe uma carta anônima, como se eu fosse um admirador secreto. E acaso não era?
Enquanto pensava, tocaram a campainha. Absorto ainda, resmunguei silenciosamente e fui abrir. Perturbei-me. Era ela.
– Quanto tempo irá passar até que você pare de brincar de João e Maria? Mil dias antes de me conhecer? Se quiser me espionar, concedo-lhe. Mas exijo um autógrafo ao menos neste livro, Trocando em Miúdos. – Disse-me, num rompante, segurando um exemplar de Budapeste.
Ficáramos amigos, praticamente íntimos enquanto ela aqui esteve. Dediquei-lhe até mesmo uma valsa russa, que carrega o seu nome (embora, da primeira vez que me utilizei da audição para notar sua presença, tivesse lhe flagrado em plena Valsa Brasileira). Mas um dia, ela me dissera que precisava ir embora, mudar-se-ia para São Paulo em duas semanas, para estar em maior contato com a editora, fora o fato de que começaria a escrever crônicas para um jornal – e se foi.
Deixou-me – a vizinha -, sua vitrola, uma carta, vários discos. Levou meu sorriso, no sorriso dela o meu assunto. Levou junto com ela o que me é direito, arrancou-me do peito, os meus vinte anos, o meu coração. Era uma lembrança. Sigo em silêncio os passos da donzela até onde posso (“passas sem ver teu vigia, / catando a poesia /  que entornas no chão”). Considero-me ainda um secreto admirador, pois faltou muito do que deveria lhe ter dito. Aguardo nosso futuro encontro, se houver. A vizinha faz falta. O apartamento ao lado ainda espera novo inquilino.

“Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a lado, cada qual com seu silêncio, um dos silêncios acaba sugando o outro, e foi quando me voltei para ela, que de mim não se apercebia. Segui observando seu silêncio, decerto mais profundo que o meu, e de algum modo mais silencioso. E assim permanecemos outra meia hora, ela dentro de si e eu imerso no silêncio dela, tentando ler seus pensamentos, antes que virassem palavras húngaras.”
:: Do livro Budapeste, de Chico Buarque.

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7 respostas em “Ah, se eu fosse vizinha tua, Chico…

  1. Ah, chega a ser cruel esse texto, Nina!
    Se eu fosse vizinha do Chico, seria eu a pessoa que ficaria apurando os ouvidos para saber o que ele fazia, que inventaria abordagens despretenciosas para conversar com ele, que escreveria cartinhas e versos… o coitado acabaria correndo pras montanhas, de medo!
    hahaha
    Mas bom mesmo é sonhar, ainda mais com um texto lindo assim! Fiquei encantada.
    beijos

  2. Nina queriida,
    e morri de inveja mesmo desta moça!
    Acho que dava um dedo pra passar umas horinhas com o Chico, pra entender como é que ele consegue tirar de dentro de si poesia tão linda, simples e sincera.
    Amantes deste homem, é o que todas nós intimamente desejamos.
    Liiindo texto, incrível.
    Um beeijo!

  3. todas as mulheres são loucas pelo chico buarque. é impressionante. como homem, eu não entendo, mas também não tento.
    mas gosto muito de várias músicas. principalmente trocando em miúdos.

  4. Nina, desde que vc postou eu estava louca para ler seu texto. Só tive tempo de ler o início, na época. Mas cá estou eu para terminar. Conhecia a descrição de Mario Prata sobre o inferno. Há algo melhor de ser lembrada quando alguém se depara com o seu ídolo? Gostei de vc, Nina, ter lembrado de mim. Inveja colossal dessa vizinha do Chico. Eu me pergunto, como ela pode ter ido embora, sabendo que ele estava ali do lado e de butuca no que ela estava fazendo? Muito sem coração essa sua personagem, Nina. haha

  5. “Em razão de desespero planejei abordagens várias, algumas bem descaradas, aparentemente sem pretensão, algo como bater-lhe a porta com uma xícara, pedindo açúcar (com afeto, tentando descobrir-lhe o doce predileto, quem sabe ela não parava em minha casa – qual o quê), coisa que todo mundo faz. Infantilidades. Escrever-lhe uma carta anônima, como se eu fosse um admirador secreto. E acaso não era?” Pelo amor de Deus, menina! Lindo, lindo, lindo..

  6. Oi Nina!

    Não conhecia teu canto, gostei muito, vou voltar sempre.
    Boa tarde pra nós.

    Beijos
    Rosa

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