Helena futurista

Antes de ler Mário Prata, como comentei na semana anterior, eu havia lido Helena, excelente obra do Machado de Assis, descrito pelo próprio Prata como o “pai dos escritores brasileiros”. Pois bem. Acontece que no livro Minhas Mulheres e Meus Homens, do Mário, deparei-me com esta preciosidade aqui, que decidi dividir com vocês (o que estiver entre colchetes é comentário meu):

“Eu estava adaptando Helena, do Machado de Assis, junto com o Reinaldo Moraes e o Dagomir Marquesi para a Manchete. E tinha a personagem da namorada do Estácio que eu gostava tanto dela que nem me lembro mais o nome [chamava-se Eugênia]. A Maiara [Magri] foi escalada para o papel. Levei um papo com ela:
– Olha, eu não sei muito bem ainda o que fazer com a personagem. Aliás, a culpa é do Machado que me passou a personagem torta (que presunção, meu Deus!). Mas fica tranqüila, que, com o tempo, a coisa pinta.
Mas não pintava. A personagem ia capengando apesar dos esforços da Maiara, do Luiz Fernando Carvalho e da Denise, os diretores. Lá pelo meio da novela, já que ninguém assistia mesmo, eu, o Reinaldo Moraes e o Dagomir resolvemos brincar. A novela se passava [detalhe] em 1859.
Câmera no rosto da Maiara. Ao fundo, uma interminável discussão entre os pais dela, em off. O sempre amigo Othon Bastos e a Isabel Ribeiro. E ela falando:
– A barra tá pesada, a barra tá pesadíssima!
Depois a câmera abria e mostrava que ela estava se referindo àquele ferro que fazia as barras dos vestidos.
Noutra cena, o Ivan de Albuquerque (padre) e o Zé Fernandes (coroinha) conversavam sobre a desmiolada Yara Amaral.
Zé – Lá na minha terra, no recife, eles dizem que a lucidez é uma pira eternamente acesa. E quando a pessoa começa a endoidar, dizem que é porque a pira está apagando.
Ivan – Você acha então que a dona Dorzinha tá pirando?
Zé – Tá completamente pirada, padre.
Ivan – Então vamos rezar para Deus que ainda não pirou.
(Até hoje eu não sei se esse diálogo foi meu, do Reinaldo ou do Dagô).
Mas o problema era com a namorada do Estácio. Como a gente não sabia o que fazer com ela, inventamos uma viagem para os Estados Unidos (em 1859) durante uns vinte capítulos pra ver se achávamos uma saída.
Com isso, resolveríamos também um outro problema da novela. O mal, para o autor de novela de época é não ter telefone. O telefone resolve tudo numa novela. A gente resolveu colocar telefone na novela para facilitar o diálogo entre os personagens que viviam em fazendas distantes.
O departamento de pesquisa da Manchete nos informou que Alexander Graham Bell só patentearia o invento 17 anos depois, em 1876, nos Estados Unidos.
Isso não era problema para nós. Que o Machado nos perdoe, mas criamos um personagem – primo da Maiara – que morava na mesma fazenda e era dado a inventos. Estava ele tentando e conseguiu inventar o telefone. Dezessete anos, portanto, antes do Graham Bell.
E eis que volta dos Estados Unidos a nossa heroína, toda americanizada, com botas com estrelas brancas em fundo azul, chapéu de caubói e tudo o que tinha direito. E trouxe um namoradinho.
O namoradinho se chamava Alex Bell.
Roubou o invento do primo, deu um pé na bunda dela, voltou para os Estados Unidos, patenteou, ficou rico e famoso.”

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7 respostas em “Helena futurista

  1. Eu realmente leio bem menos do que gostaria. Principalmente a literatura nacional. Mas um dos motivos pelos quais passei a seguir o seu blog é ver se consigo despertar em mim esse gosto abandonado. Um abraço.

  2. Diferente do Eduardo eu leio muito, até mais que deveria… Ontem fui dormir depois das 4hrs lendo. Embora, tratando-se de literatura nacional, não sou exemplo para ninguém. Comprei “Helena” mês passado, vindo para o trabalho… (Eu e minha amiga compulsão). Ainda não li, mas o post me deixou com (ainda mais) vontade.

    Me diverti com a citação, quem se importa se a história não é fiel a realidade?! Bobagem…

    Um beijo enorme!

  3. Já li Helena, e confesso que também não lembro da Eugênia rs
    Adorei o texto, ri sozinha aqui!
    Beijos

  4. haha genial mesmo!
    Falam tanto no Mário Prata aqui na blogosfera que eu fico com vontade ler mas sem saber por onde começar.
    Bjs!

  5. Pingback: Retrospectiva literária 2011 « #sobrefatalismos

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