O livro está sob a mesa, ok?

Quando pequena, minha avó tentou alfabetizar-me em francês. Qualquer pessoa pode achar isso o ápice da elegância, mas o fato é que eu jamais consegui estabelecer um diálogo em francês que avançasse mais do que duas frases. A minha avó paterna era a única estrangeira viva da família (que eu conheci, porque sei que devo ter tios-avós e seus filhos e netos na Europa, mas nunca os procurei) e, por conseguinte, a única que poderia me ensinar a sua língua materna. Foi assim, juntamente com aquela constatação óbvia de que crianças aprendem mais fácil um outro idioma enquanto pequenas.
O problema é que, após os primeiros anos de minha existência, minha avó só comparecia em períodos de férias escolares – que não impediram-nos a proximidade tão necessária. No resto do ano, como o resto dos brasileiros mortais, eu falava em português – com os meus pais, os vizinhos, os primos, a professora e os coleguinhas do jardim de infância. Fui desaprendendo francês aos poucos, já que estava ausente de prática. Mas a minha avó, que também foi professora, ensinou-me meu próprio idioma, junto com o hábito da leitura e as primeiras inspirações da escrita.
A geração dos primeiros anos de 1990 (oi) não teve inglês como disciplina obrigatória. Logo, na pré-história, aprendia inglês os filhos daquele pai rico que pouco freqüentava as reuniões escolares e passava as férias com os pentelhos na Disney. Era algo para poucos. Assim como os computadores e o celular de tijolo da Sony Ericsson (que na época só era Ericsson) e todo mundo achava bacana ter um mesmo que você não conseguisse falar com ninguém (exceto se, sei lá, você fosse amigo do Eike Batista).
Passei por todo o ensino fundamental ouvindo resoluções premonitórias do tipo: “daqui há dez anos, todo mundo vai ter que falar inglês – é o novo latim”. Fato. Hoje em dia, quem trabalha com seres humanos precisa aprender inglês. E se você mora em SalvadorCity, é magérrima, tem olhos verdes e cara de paulista (eu), a oportunidade de trabalhar com eventos e/ou turismo é ainda maior. Na cidade oficial do “maior carnaval do mundo”, três dias no camarote de algum inútil popular rende mais do que dois meses como operadora de telemarketing. Então, como terminei o colegial e não consigo arranjar a porcaria do primeiro emprego, decidi entrar numa dessas agências de eventos e publicidade para ver no que iria dar. Sou modelo desde os quinze anos, mas nunca fiz tanto trabalho de “divulgação em massa” como agora. Já foram duas propagandas para shopping center, uma gravação de videoclipe para uma banda de pagode (como figurante, graças a Deus), algumas festas “badaladas” nas boates mais exclusivas que me fizeram chegar em casa às cinco da manhã e o dinheiro, minha gente, está entrando. Fora o fato de que essa agência tem sede no Rio de Janeiro e, Projac, rede Globo, vocês estão me perdendo e eu sou amiga do @OdilonWagner que agora é meu fã, viu?
Porém, também é fato que, de um modo geral, essas agências exigem que todo o seu casting saiba falar pelo menos o básico do inglês. O básico do inglês eu sei. The book is on the table (talvez essa frase ainda salve o mundo na cena final de algum filme com o Nicholas Cage e sua expressão de eterno assustado, na qual ele certamente verá o céu cair sob a sua cabeça e pronunciará a frase fatídica, daí a tela ficará negra e os créditos vão subir após um fastidioso “the end”, vai saber). Mas nós sabemos que “o básico do inglês” é eufemismo – e não basta.
As aulas de inglês tornaram-se oficiais quando adentrei drasticamente o ginásio. Digo “drasticamente” porque eu era muito boa na área de humanas e, quando se está na pré-adolescência e quinta série, tudo o que queremos é abandonar os cadernos à lápis e ter um fichário com o Leonardo Di Caprio na capa (que foi o maior hit da minha época, se você contar com o fato de queTitanic era a maior novidade), além de ser muito bom em sentar no fundo da sala e fazer bagunça até que o horário termine. Eu amava Língua Portuguesa, Gramática, Literatura, Educação Artística e História. Era péssima em Matemática. Já Geografia e Inglês eu achava fácil demais para me prestar ao fato de gostar ou não, de modo que, em suma, não fedia nem cheirava. A minha obrigação para com essas duas disciplinas era tirar notas altas e aprender. Gostar não era termo de adaptação, sequer possibilidade. Tanto que evito como posso as palavras estrangeiras em minhas crônicas. Não gosto. Mesmo.
Meus professores elogiavam minha pronúncia e escrita, naquela época eu era uma poetisa de rimas fáceis e vulgares, mas o “prodígio” aqui, na opinião de todos, deveria cursar Letras. Cogitei a possibilidade. Mudei para Jornalismo. Daí só queria ser escritora/atriz/cantora/bailarina/performática e multimídia e morrer de fome (segundo a maldição do meu próprio pai, que costuma ter um julgamento muito distorcido – porém ambiguamente real – de quem escolhe o caminho tortuosamente artístico). O ensino médio abriu minha mente para História e penso estar no caminho certo (até parece, ainda nem me mexi para o vestibular).
No ano passado, que fora o último do colegial, tive aulas à noite da parte técnica do meu curso de Informática. Como tudo era dentro do ambiente escolar e eu, muitas vezes, precisava esperar horas para uma aula apenas que ocorreria lá pelas dez da noite, fui na cara-de-pau pedir que um dos professores de francês me permitisse assistir às suas aulas. Eu sei, é muito poético retomar o idioma que minha avó tentara me ensinar com tanto esmero. Mas não era nada disso. O professor é um cinquentão charmoso, alto, de voz grave e compassiva. Quando falava em francês então, não havia quem não suspirasse. E não usava aliança. E, como eu sou leviana diante de um homem mais velho (ah, Odilon…!), me apaixonei.
Eram aulas divertidas e proveitosas: tudo muito bem resumido, entremeado por canções de Carla Bruni e Edith Piaf que tentávamos traduzir, e o professor ficava abismado com o fato de que eu conseguia terminar duas canções em uma aula. E eu lá, jogando charme e concordando, apesar de achar francês “muito difícil”, pedindo dicas de literatura clássica da França e recebendo panfletos dos mais variados eventos do ramo. Ele dizia que eu levava jeito para a coisa – o que me fez cogitar a possibilidade de procurar uma editora e oferecer meus serviços como tradutora de Balzac, Dumas e afins. Esse período de um ano não deu em nada. As aulas acabaram, eu e o professor tivemos muitos diálogos silenciosos nos quais eu lia o capítulo de algum romance enquanto ele me observava e, quando enfim terminou, eu guardei os elogios que recebi e ele resignou-se em sua perseverante solidão. Mas aí eu já estava paquerando o meu professor de matemática (eu não perco tempo, hein?) que é muito bem casado e o resto da história, bem, muitos de vocês já sabem.
Como esse ano dei uma reviravolta na minha vidinha anti-social e tornei-me figurante de videoclipes vulgares e atriz “dia de princesa” de shoppings sem público, decidi aprender inglês de vez, porque eu tenho quase vinte anos, uso bengala e não consigo acompanhar essa geração Lady Gaga. Entretanto, também não estou interessada em participar de mais um cursinho que ainda está passando pelo “verb to be” e que não consegue estabelecer um diálogo que sobreviva por mais de meio minuto com perguntas e respostas. Qual foi a brilhante idéia que eu tive então? Isso mesmo, fui procurar o charmoso cinquentão poliglota que foi meu professor no ano passado.
Só que o meu problema é que eu não li O Segredo de Rhonda Byrne e, por isso mesmo, meu “poder de atração” se limita apenas a fixar um “vai acontecer” esdrúxulo e sem propósito eficaz. Por exemplo, escrevi a crônica sobre o Odilon Wagner (aquele lindo) e pensei: não vai dar em nada, ele nem vai ler, mas vou passar-lhe o link pelo twitter. E fiquei naquele pensamento: “ele vai ler, ele vai ler” e ele leu, e divulgou, e ainda esbanjou elogios à minha pessoa mandando a sua carinha de mau mais meiga, afirmando que eu não sou amadora coisa nenhuma e eu fiquei me achando, tendo ataques múltiplos de estrelismo, dá licença? E com essa eu ganhei o dia, a semana, o mês, o ano, a década e o século. Daí pensei: “é, devo estar com sorte” e fui tentar. Pra quê.
Coloquei minha melhor roupa vintage para combinar com a personalidade do professor, arrumei as madeixas em um coque e usei um batom seco em tom de vinho, a fim de impressioná-lo. Não satisfeita, pus um salto para estar “à altura” de sua elegância, coloquei uma bolsa no ombro da tendinite e rumei para o colégio, às seis da tarde.
As aulas começariam às sete, mas aprendi que o dito cujo chega cedíssimo (sabe-se lá porquê) e fica trancafiado na Sala dos Professores (fazendo sabe-se lá o quê – e com quem, vai saber). Encontrei uma funcionária querida, perguntei-lhe sutilmente pela presença do mestre e fui surpreendida com um “ainda não chegou”, mas tudo bem. Decidi esperar sentada na escada a ler um livro, relembrando os velhos tempos em que não havia nada a ser feito no intervalo de uma aula para a outra. Quase sete horas, ele passa por mim, acompanhando de um sujeito duvidoso (entendam como quiserem) e diz “boa noite” no seu idioma favorito de pronúncia impecável. Tenho tempo apenas de responder-lhe, acrescentando que precisaria falar-lhe depois. Ele concordou e foi embora. Aguardei.
Esperei tanto que já sentia sono e a personagem principal do meu exemplar de Jane Austen não sabia que vestido escolher para mais um baile em cidade de província, o que me soava familiar, quando o professor assustou-me com um “estou aqui” em português-lusitano carregado de sotaque francês.
– Como o senhor está?
– Muito bem. E você, que tem feito? A que devo a honra da visita?
– Estou bem. Desempregada, trabalhando vez ou outra com algum evento. Vim pedir-lhe uma coisa, mas estou envergonhada…!
– Não se preocupe, apenas peça.
– Preciso de um professor que me ensine inglês…
Pausa. Já avisei que ele é poliglota? Que fala cinco línguas e uma delas é o grego? Não? Pois então, que conste.
– …e de imediato pensei no senhor.
Nova pausa. Por conta dele, que pensou por cinco segundos no assunto e respondeu:
– Não dou aulas de inglês, infelizmente.
E deu-me a dica de uma outra professora do colégio, “ótima” na definição dele, que provavelmente poderia me ajudar, enquanto a minha expressão facial definhava a cada instante porque, como eu disse, o meu “poder de atração” havia se limitado apenas ao “espero que ele esteja no colégio hoje” e mais nada. Burra!
Eu deveria ter explicado melhor. Deveria ter dito, com todas as letras: “não aqui, seu boboca, estou falando de aulas particulares que eu poderei pagar a cada mês, na sua casa ou na minha”. Mas só me dei conta disso no caminho de volta, amaldiçoando a caricatura ridícula que tentei representar com todo aquele teatrinho.
O meu consolo é saber que nem tudo está perdido, pois acabo de me lembrar de um jovem poliglota que costuma dar aulas aos domingos na biblioteca próxima da minha casa. Quando invento de passar as tardes por lá, ele sempre aparece com alguma aluna de intercâmbio de colegial, interessada em aprender português, e me pede de empréstimo uma caneta. Como o Odilon Wagner não vai dançar nesse fim-de-semana (acho) e eu terei sossego, vou ver se consigo pedir algumas aulas, explicando detalhada e minuciosamente meus interesses em aprender inglês e ver no que dará. Odara. Porque eu já estou para lá de Marrakesh.

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10 respostas em “O livro está sob a mesa, ok?

  1. Ei Nina! Eu super tive participação especial no seu post, e no twitter do Odilon, OOR.
    Eu acho que falar francês deve ser muito chique, e essa história de aprender inglês é um saco. Fiz 9 anos de inglês, e ainda me sinto longe de ser fluente. Amo o português, mas se a língua materna do Brasil fosse o inglês seria tão mais prático.. hahaha.
    Beijos!

  2. Por mim tá fechado. Vai mesmo? Ainda vive na capital baiana? Tem uma cafeteria em uma livraria do shopping barra… sorvete não sei se tem… ou então escolha uma sorveteria haha. Beijos

  3. Minha avó, que não era estrangeira, mas estudou a vida toda em colégio francês, também tentou me ensinar a língua, mas foi um desastre. Simplesmente quando penso francês sai a pronuncia do espanhol. Não tem jeito: Meu espanhol mata o meu francês. E agora, para piorar, meu inglês melhorou ainda mais depois do intercâmbio em NY e agora o meu inglês mata completamente o meu espanhol.
    Juro que gostaria de ser capaz de raciocinar em várias línguas estrangeiras.

  4. Acho francês uma língua maravilhosa. Super charmosa, chique e, é claro, bonita. Mas é, o inglês ainda é o carro chefe, é o idioma que todo mundo tem que saber falar. E o pior é que nessa história de “inglês básico”, muita gente coloca nos currículos que tem inglês fluente, aí quando vc vai ver, todo mundo “sabe” falar. Esses tempos eu li uma matéria que dizia exatamente isso, que do jeito que as pessoas afirmam falar inglês, daqui a pouco a língua oficial do Brasil deveria mudar haha…bem que vc faz de procurar aulas. Boa sorte! ;)

  5. Pois bem Daniele, o inglês é hoje em dia obrigatório. Não dá mais para colocá-lo de lado, sem que isso gere obstáculos. Principalmente para quem trabalha no ramo de turismo e se envolve em tudo que a cerca. Eu, você bem sabe, sou formado em turismo e sei bem o grau de importância que ela tem para o funcionamento do sistema que agrega os serviços e produtos turísticos. Turismo é uma atividade internacional. Aí em Salvador, onde eu tive o privilégio de visitar, pude enfim compreender perfeitamente toda esta gama essencial que gira em torno do turismo. Estudei muito, mas quando você visualiza a questão de maneira mais pessoal, ou seja, in loco, você acaba absorvendo melhor a necessidade de certos graus de instrução.

    Enfim, eu não sei falar inglês. Mas não é algo que eu não queira. Quero muito ser fluente, não apenas por querer, mas também pela necessidade que os trabalhos exigem, em todos os tipos de áreas. E mais ainda pela questão de que minha formação é em turismo.

    Eu como você vou buscar aprender inglês também. Mas não vou paquerar professor rs.
    Se bem que se for uma professora bonita, quem sabe. Mulheres mais velhas são charmosas também, são maduras e tem a cabeça no lugar, sabem bem o que querem, diferentes da mente infantil e boba de muitas adolescentes na beira dos 20. (risos)
    Mas não generalizo, você por exemplo definitivamente não se encaixa nesta lista de adolescentes imaturas que beiram os 20. (risos) Daniele, você sempre foi a frente do seu tempo, e admiro muito o crescimento da sua mentalidade (neste tempo que te leio), a forma como tem absorvido os aprendizados e tem propiciado o amadurecimento. Você é uma pessoa ímpar, de personalidade singular. És uma mulher sim. Com seus toques de menina, mas que sabe bem o que quer e tem ciência profunda da dor que sentes.

    Torço muito por ti. MUITO.

    Anjo, tu disseste lá no blog que adora ir lá e ler os meus conselhos. Mas te confesso que você me aconselha muito mais do que eu a ti. Só que não da forma que faço. Nem da forma que intuis. Acredite.

    Um grande beijo.

    De seu querido amigo,

    Alexandre. (Jake)

  6. Vivo aqui, na capital do absurdo, sim.

    Quer dizer que você virou dançarina de pagode? Quem diria… hahaha

    Acho shoppings tãão… mas se você preferir, a gente pode se ver lá.
    Eu tenho a mesma ideia que você sobre as aulas de inglês, pretendo entrar em um curso de conversação da UFBA, mas não estou tão certo de que eles deem aulas particulares “na sua casa ou na minha” hahah.

    Se quiser, me encontre em qualquer rede social dessas, beijos.

  7. Escritora-blogueira! ;D

    Inglês é fácil… quero ver mandarim, coreano…japonês! Só passando pra dar oi e agradecer!

    Kiss

  8. nunca fiz curso de inglês, aprendi simplesmente com livros e filmes. assim foi melhor, acho. sempre me virei quando precisou.
    de resto, não falo uma palavra de francês, mas meu italiano é ótimo. infelizmente, não tenho como ganhar dinheiro com eventos, mas logo eu abro uma igreja evangélica e resolvo o problema.

  9. hahahahahaha

    sempre penso em voltar a falar do meu cotidiano, como antigamente, mas menos toscamente tb. não vai ser com tal maestria que possui.

    curiosamente tenho uma tendência GRANDE a me interessar por professores, e homens – de qquer profissão – de 30 a 70 (uahsuahssh)

    várias coisas e alguns casos.
    beijo.

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