Desertar

“Desertar pode indicar coragem. Também ficar.”
:: Do livro A Disciplina do Amor, de Lygia Fagundes Telles.

Cresci ouvindo a mesma promessa, em fatigante tom de ameaça: “termine o seu segundo grau e vamos embora daqui”. Sempre pareceu que o fim de meu período escolar significaria a libertação, a tão esperada carta de alforria dela. Eu tinha cinco anos (se muito) quando a vi fazer as malas, aos prantos, pela primeira vez. É certo que essa cena não se repetiria mais em seus gestos – embora tivessem se transferido para mim (fiz as malas muitas vezes, tanto na teoria quanto na prática, ao longo desses anos – e também já pensei em sair com a roupa do corpo, sem fazer alarde). Tempos depois, num fim-de-semana na praia, em que ela conversava com sua irmã mais próxima, descobri que o meu pai havia lhe “sugerido” que fosse embora. Arrependeu-se em seguida, pedindo que ficasse. Na época em que o fato aconteceu, lembro-me de perguntar, incessantemente, se eu também não iria com ela. Havia apenas uma mala pronta. E ela só sabia chorar.
Atualmente, essa ameaça se faz mais forte. Quase um ano se passou desde o término de meu colegial. Então, fui posta contra a parede com os seguintes dizeres estampados em minha frente: “arranje um trabalho e se vire por aqui, ou venha comigo para São Paulo”. Desesperada, procuro vagas todos os dias nos jornais, visito sites que informam sobre vagas de emprego, procuro amigos, conhecidos, qualquer um que me auxilie. Acabo de sair de um treinamento para secretária – duas vagas, quatro concorrentes. Não fui aceita. Fora as seleções para telemarketing – das quais passei, porém não fui chamada. A resposta, invariavelmente, é a mesma: “o seu nome está em nosso banco de dados”. E a espera permanece.
Em contrapartida, quando repito pela enésima vez o meu dilema, onze entre dez pessoas discordam, despreocupadamente (afinal não é a vida dela), dizendo: “ah, se eu fosse você, já teria ido! Há muito tempo! Olha, em São Paulo tem tudo…”. Eu sei que em São Paulo tem tudo e mais um pouco – e uma porção extraordinária de lugares inimagináveis e atividades incríveis para desfrutar. Eu também sei que, indo para lá, ficaria mais fácil ser escritora (ao menos, imagino), as oportunidades seriam múltiplas, mais abrangentes também os contatos. Eu poderia, sei lá, conhecer o Antonio Prata e o Odilon Wagner de uma vez por todas e isso já seria muito na vida de uma Maria Ninguém como eu. Mas não.
Minha cidade pode ser um absurdo de todas as maneiras que convém aos olhos do mundo. Mas foi aqui que eu nasci, cresci, fiz amigos, me eduquei. Gosto dos teatros daqui, das orquestras daqui, de um tipo de arte que só é feita aqui. A comida, os restaurantes. A noite. As livrarias, os cafés. Os casarões antigos, os bairros com aparência de cidade do interior. O tempo abafado, mesmo quando chove. A natural falta de costume soteropolitana, quando é inverno. O clima, imprevisível. Sobretudo as praças – gosto de caminhar a cidade inteira, observando apenas a arquitetura que o vento orienta. Tenho minhas preferências. E o mar, além de tudo, o mar. Jamais o encontrarei em São Paulo – ou em qualquer outro lugar do mundo. É uma particularidade daqui. Talvez eu até chegue a sentir falta da má educação baiana – tão típica – aquela má vontade em fazer tudo, aquela preguiça, porque sim, nós baianos somos muito preguiçosos, não adianta negar. Mas nessas horas, até os defeitos comovem.
Eu sempre quis ser de lugar nenhum – o que me faria ser de tudo quanto é lugar. Já falei: quando morrer, quero ser cremada. Quero que minhas cinzas sejam jogadas ao mar, para que viajem ao vento, através dos tempos, assim eu continuaria existindo, mesmo como projeto ilusório, artificial. Sempre acreditei que seria cosmopolita: viajaria o mundo inteiro, como se este fosse uma paisagem sem fim que os meus olhos pudessem admirar constantemente, quando e enquanto bem me aprouvesse. Entretanto, ganhar o mundo não seria obrigatório. Questão de uma ou duas viagens ao ano, para conhecer e reconhecer o que só vejo nos livros. Diversão, enfim.
Recentemente, conversei com uma amiga sobre a possibilidade de ir morar com a família dela, caso consiga emprego e fique por aqui. Porque, além de tudo, ainda existe o fator “sair de casa, definitivamente”. É inconcebível que eu decida por ficar e continue a dividir a casa com o meu pai. Suportamos-nos apenas porque, talvez, mamãe seja esse pilar imaginário que ameniza tudo. A não-participação dela contribui para uma desunião sem volta. Vontade para me desprender dessa casa tenho de sobra. Minha amiga concordou. Só teríamos que conseguir uma casa maior. A vontade de todos é que moremos no centro da cidade, perto de tudo.
Morar em São Paulo é planejamento para futuro distante. Fiquei por lá algum tempo, aos dezesseis anos, quando desfilava. Conheci pouco, os horários eram rigorosos e eu praticamente não saía do apartamento sozinha. Minha mãe tem parentes lá (que nos prometeram moradia, apesar de eu não suportar a idéia brilhante de ter que “morar de favor”, mesmo sendo da família). Gostaria de morar em São Paulo após a faculdade, devidamente estabelecida financeiramente, trabalhando no que gosto, podendo bancar meu próprio cantinho. Gosto de São Paulo. Acho completamente inverso a tudo o que existe aqui em Salvador, mas não há como não gostar da contínua novidade que é São Paulo. Entretanto, sei que voltarei a me sentir como uma criança desprotegida entre milhões de rostos desconhecidos e prédios altos, tendo “Sampa” do Caetano como hino eterno. E intrusa. Porque a cidade não é “minha”, não poderá ser jamais. É algo que vai ficar identificado em meu sotaque, em minha memória, em tudo que faço. Vou me sentir sozinha, como da primeira vez que fui, porque as pessoas em São Paulo, de um modo geral, apesar de educadíssimas, não terão tempo para me ouvir, são ocupadas, desesperadas, correm contra o tempo e não se recordam da última vez em que pararam entre as cinco e seis da tarde e contemplaram o pôr-do-sol. São Paulo é assim – não pára, não lhe enxerga, não sorri, mesmo que seja o mais convidativa possível.
Estamos em julho, meio do ano. Se até outubro nenhuma oportunidade de trabalho surgir – nessas horas todo o Destino converge para uma situação fatalista, inevitável, pois, aparentemente, Deus e o mundo me encaminham para longe de tudo que eu gosto (e a Lei de Murphy é minha sombra) -, não haverá jeito que não seja fazer as malas e ir, contra a minha vontade, sem perspectiva alguma, sem saber que porta abrir para o que me espera adiante. Também sair daqui me parece um sinal imenso de fraqueza. Típica atitude de quem não consegue “sair da barra da saia da mamãe”. Eu penso em poder provar para mim mesma – e para um satisfatório punhado de gente – que eu posso sim me virar sozinha, que desertar não é sinônimo de coragem absoluta para ninguém.
Tentarei pensar no lado bom da história. O ser humano a tudo se adapta. Se tiver de ser assim, maravilha. Caso contrário, regresso. Infeliz pela tentativa, mas regresso.

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12 respostas em “Desertar

  1. Coincidência escrevermos sobre nossos pais ao mesmo tempo (ao mesmo post, sei lá). Coincidência infeliz, porque ninguém merece conviver com uma figura masculina tão perturbada. Mas não quero entrar em conselhos sobre pais porque acho isso chato, além do mais, cada um sabe a profundiade da sua dor. Isso há de ser uma conversa muito íntima.

    As pessoas, às vezes, acham obrigação gostar de SP, mas não é assim. Antes de tudo, você tem que se orgulhar do lugar onde nasceu e gostar, sim, muito dele. Tendo arranha-céus ou não, av. paulista ou só rua de terra, não importa, é o lugar onde você nasceu e se criou. Não tem nada mais lindo do que isso, sinceramente. Só acho que você não tem que provar nada a ninguém. Tem, sim, que seguir o seu caminho e realizar seus sonhos, mas mudar de cidade não remédio pra nada nessa vida. SP não faz mágica. Aqui anda complicado pra todo mundo, nada é mais fácil há um bom tempo. Você em SP será a mesma pessoa que é agora, portanto, suas chances e oportunidades continuarão a mesma.

    Ao invés de procurar por trabalho, procure sua felicidade. Trabalho não é garantia de nada, a não ser salário. Mas que salário paga felicidade?

  2. Ja esteve em meus planos sair do RJ mais de uma vez. Numa delas era pra ir morar e procurar emprego e faculdade em BH.
    E era essa situação de parente oferecer moradia e eu não conseguir pensar em morar de favor. Nesse meio tempo desisti.
    Ainda ameaço sair de casa, mas não para mudar de estado. Por enquanto. Eu acho…

    Como é que eu consigo me identificar tanto com as coisas que vc escreve aqui?

  3. Olha, nasci em São Paulo e com 7 anos fui morar no interior. Como nada deu certo por lá, tivemos que voltar pra São Paulo. Eu, com 12 anos na época, sofri horrores por ter que voltar pra cá. Todos me diziam que eu não poderia sair de casa, que era muito violento, que o povo era frio e apressado, etc, etc, etc. Mas eu vim, me acostumei e confesso que hoje seria bem difícil me separar dessa metrópole louca! Como o que não tem remédio, remediado está, tente pensar positivo. Caso venha mesmo pra cá, é inegável que as oportunidades de emprego são bem maiores. Então quem sabe você não vem, arruma emprego, se forma, vira escritora e pode voltar para Salvador, bela e vitoriosa para viver aí pra sempre! O que tiver que ser será, afinal! Boa sorte viu! :-)
    Beijos

  4. De vez em quando eu e meu pai também temos nossos conflitos. Eu já me peguei pensando varias vezes se aguentaria ficar com ele se minha mãe não estivesse aqui. Sinceramente não sei. Não se preocupe, quando você estiver preparada para ser independente, algo vai aparecer. E se você tiver que ir, no começo realmente deve ser difícil, mas com o tempo tudo vai ficando mais fácil.
    Beijos

  5. Eu tô numa fase que penso mil coisas, falo algumas e me ferro por causa dos meus pais. Sim… essa relação é bem delicada por isso, quando tiver oportunidade, eu sairei de casa. Acho que assim a relação melhora, viu!? Kiss e adorei o inventário do blog e o novo lay! :)

  6. Já tive muito problemas com o meu pai. Aliás, problemas não é a palavra certa, eu já tive grandes decepções. Que hoje não acontecem mais, mas ainda está na minha memória. Eu compreendo o que vc está passando. Não deve ser nada fácil. Estou torcendo que tudo dê certo para você. Você é uma garota incrível!

  7. Mudar é complicado sempre. Não importa se trocar significa colocar outra camisa ou ir embora do lugar que você reconhece como seu desde sempre. Relações são igualmente complicadas e com os pais talvez seja um ponto ainda mais tênue entre o bem viver e o conviver. Acho que procurar trabalho é bom sim. Até água custa dinheiro e seria muita hipocrisia falar que eu acho que você vai ser feliz sem grana para comprar um grampo.
    O mais importante de tudo, eu acho, é ir em busca do que vale a pena para você.
    Se quer ficar, fique. Mas busque qualidade de vida e não utopias. Se quer escrever, escreva.

    No lugar de te desejar sorte, te desejo força. Pra seguir em frente, pra correr atrás, pra secar os olhos, pra pedir ajuda quando for preciso e no que mais for preciso para que você consiga o que você quer.
    Pé no chão.

    Um grande beijo! =)

    (p.s.:gostei do layout novo e obrigada pelas visitas no meu blog)

  8. Isso é uma barra. Porque é realmente muito difícil sair da barra da mãe. Tô morando fora há dois anos, mas né, até hoje nem sei cozinhar direito e odeio passar roupa, continuo a mesma menina, só recebendo dinheiro da mamis pra me pagar o aluguel, curso de inglês, a mesma coisa mesmo.
    Boa sorte e força!, que vais precisar…
    beijo!

  9. Tudo acontece por motivos que a princípio não compreendemos. Mudanças ocorrem quando mudamos nós mesmas, a forma de encarar problemas e até mesmo de ver o mundo. Preze sempre pela sua felicidade. Seja positiva. Quando se é positivo, as coisas surgem, enxergamos os caminhos mais claros diante de nós. Passei por probleminhas parecidos e quando eu decidi ser feliz e desencanar, tudo mudou :)
    P.S.: Me encantei pela sua forma de escrever. Parabéns!

  10. Então, eu desertei para São Paulo em fevereiro desse ano. Fui embora do meu Pernambuco Imortal Imortal, meu estado querido, a minha casa. Mas vim porque eu precisava tentar garantir um futuro que me deixasse mais satisfeita, mais confiante de essa profissão de agora eu posso seguir. Larguei a faculdade de Matemática na UPE por Odonto em SP. Eu morro de saudades de casa, mas aqui é bom, aqui é do bem (:
    Minha mãe me disse: ‘Vai, se não der certo você volta para casa.’
    Eu não sei se você tem uma casa para voltar, mas a vida é isso: mostrar o rosto pra apanhar na cara.

  11. Eu sou aquele tipo de pessoa enraizada. Nasci aqui na cidade de Bauru, interior de São Paulo e não me imagino morando em outro lugar. Infelizmente há muitas coisas que ainda me prendem aqui, como por exemplo sustentar minha mãe, mas as vezes acho que algumas mudanças drásticas são mais do que bem-vindas, são necessárias.

  12. Já passei por algo parecido, aliás, acho que ainda estou passando, só que de forma menos intensa. Só sabe o peso de sair de casa quem já teve que sair ou já pensou sério nisso. Quem vê de fora acha que basta a gente se decidir e pronto, tudo se ajeita, mas as coisas são bem mais complexas. E a coisa de ficar, que é terrivelmente subestimada e equivocadamente julgada, é uma das mais difíceis também. Levei um ano mais ou menos de dúvidas, conversas, choros até decidir que queria mesmo ficar. Na ameaça de ir embora que a gente percebe que é apegado de verdade ao lugar em que mora.
    De uma forma ou de outra, te desejo o melhor em qualquer lugar que estiver.
    Beijo!

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