Dançando conforme a Valsa d’Amélie

Quando uma coisa é boa, ou extremamente popular, a tendência é comentar ao próximo: “aquele livro é muito bom”, “aquele filme é muito bom”. Ou, no pior dos casos: “aquele livro muito bom vai virar um filme que eu acho que será muito bom”. Na base dessa opinião pública toda e generalizada, falta confiança. Com isso, deixei de ver Harry Potter desde o início e só fui gostar de Dan Brown anos-luz mais tarde.
Com Amélie Poulain, entretanto, foi diferente. O comum é você ouvir algo do tipo: “esse filme vai mudar a sua vida”. Mas não. Para começar, a fabulosa obra de Jean-Pierre Jeunet é francesa. Ponto. Humor francês, dá licença, é completamente diferente do humor americano. E estamos tão acostumados ao imperialismo de lá, que até hoje boa parte da população detesta os filmes nacionais. Daí que eu assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain sem fazer a menor idéia do que se tratava e sem ter a menor noção de quem era Audrey Tautou. Graças a Deus.
Faz anos que assisti a esse filme. Naturalmente, com uma história leviana, absurda, sem pé nem cabeça, mas é mesmo um filme fantástico exatamente por esses aspectos singulares. É um daqueles filmes que trata da solidão – e que, a partir dela, podemos mudar as pessoas ao nosso redor, sem modificar tanto. É um filme, em suma, possível. E, minha conclusão predileta: é possível apenas e tão-somente pela riqueza de detalhes.
Porque, depois que você termina o filme, sente aquela leveza espiritual, aquele efeito de que nada na vida pesa porque, pelo menos por duas horas, você foi ao cinema, comeu pipoca, bebeu refrigerante, se divertiu, deu risada, torceu pela heroína e agora, reconciliou-se com a vida. Mas foi aí que o meu “inferno” começou.
Porque eu saí do cinema, sim. E percebi que a praça de alimentação do shopping tem muito vermelho e amarelo, a começar pelo Mc Donald’s (mais tarde eu leria em alguma edição da Super Interessante que essas cores são completamente estratégicas: despertam fome nos clientes de fast-food). Olhei para trás e li o letreiro do cinema, de um azul fortíssimo e irritante. Olhei para mim: eu estava de vestido verde, que diabos! Onde eu estava com a cabeça quando comprei aquele vestido? Daí fui lavar as mãos cheias do sal da pipoca no banheiro e, quando olhei-me no espelho, meu Deus do céu, o meu cabelo é chanel desde sempre – e meu batom, vermelhíssimo.
Então os dias passaram, o filme do Jeunet a cada dia ficava mais popular. Eu lia resumos no jornal sobre, via anúncios na televisão, até mesmo outdoors. Foi então, também, que o efeito “esta é Amélie Poulain e ela vai mudar a sua vida”, começou.
Porque as pessoas que me conheciam telefonavam para mim e diziam: “tem um filme passando que é a sua cara”. Eu já sabia qual era. E já estava pensando seriamente se, em algum dia da minha vida, não havia topado com o Jean-Pierre, conversado com ele, quem sabe ele me viu na rua e pensou: “esta é a minha nova personagem”. Sério. Eu já estava pensando em recorrer à justiça e pedir direitos autorais pelo visual da protagonista. Já estava ficando excessivo, obsessivo e compulsivo.
Os anos foram passando, eu assistia o filme uma vez a cada seis meses e fui me adaptando com a idéia, enquanto surgia Resident Evil e o povo já achava que eu era “a cópia” da Milla Jovovich. Daí que Amélie Poulain não existia só em mim. De repente, a maioria dos restaurantes e casas de shows da cidade tinham o Café Três Moinhos do filme, com suas cores berrantes e ausentes de combinação, como principal tema para a decoração de seus recintos. Tudo bem. Eu sentava lá, vinham me oferecendo de cara um croissant com café e punham – nessa eu quase não acreditei – a trilha sonora do filme, do excelente e criativo Yann Tiersen. E, para completar, estava começando a minha “terceira fase Amélie”, a fase musical.
Porque – anos depois -, a Globo fez uma minissérie intitulada Capitu, que contava a história do Dom Casmurro, livro clássico de Machado de Assis. Acontece que puseram uma música linda de uma tal banda chamada Beirut para compor o soundtrack. E a música tinha uns bandolins e umas sanfonas (ou acordeão, sei lá) que eu conhecia muito bem, e já não era de hoje. Amélie.
Daí que Anna Vitória também comenta sobre um tal de Thiago Pethit, que tem, pasmem, influência do Beirut em suas canções e, quando fui ouvir, não deu outra, caramba: Amélie, de novo.
Tanto Beirut quanto Pethit são maravilhosos – eu gosto muito de ouvir os dois. A trilha do Yann Tiersen até hoje considero mais criativo do que o singles famosíssimos do John Williams (oi Indiana Jones!).
Recentemente fui a um show de pop rock, de uma das várias bandas independentes existentes por aqui e não me surpreendi, nem um pouco, ao constatar que boa parte das meninas tinha cabelo curto, roupas coloridíssimas e batom vermelho. Jean-Pierre Jeunet (e Andy Warhol também, porque não?), sem saber, formou todo o visual da minha geração. O que teve também seu lado negativo, porque ninguém merece as bandas de happy rock do cenário atual.
Ainda tento me adaptar com o efeito que a Amélie Poulain ainda causa. De lá para cá, na realidade, não mudei nada. Continuo com o mesmo corte de cabelo (com algumas variações entre repicado e desestruturado), as mesmas cores para estampas e quase nenhuma alteração no quesito maquiagem. Eu não posso fazer nada. Muito pelo contrário. Foi a Audrey Tautou quem roubou meu estilo.

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8 respostas em “Dançando conforme a Valsa d’Amélie

  1. A autora avisa que publicará, a partir de hoje, mensalmente até o fim do ano, em razão de um projeto paralelo que ela espera que esteja pronto daqui até lá.
    Abraços!

  2. Nina,

    Faz tempo que não apareço por aqui… Então a senhora é meio Améliezinha? Ah, pode até ser um filme que acabou popularizado, mas ela nunca vai deixar de ser, pra mim, uma das personagens mais adoráveis de todos os tempos.
    Um beeijo!

  3. Olá,

    Comecei na blogosfera a pouco tempo (2 dias pra ser exata) convido voce a visitar meu espaço

    p.s.: adorei teu blog.

    bjos

    Sigo-te

  4. Oi. Meu nome é Luiz. pesquisando sobre mil coisas acabei por chegar a um texto seu. Delibab. E hoje tive vários. Seu texto me fez caminhar. não sei pra onde mas fui. Estou a caminho. acabei lendo outros e outros e perdi a hora. Gostaria de mostrar minhas canções. Como se fosse um presente pelo texto que escreveu. Não é uma troca. é uma ponte.

    A gente se v. Luiz

    http://diariodacancao.blogspot.com/

  5. Amélie <3
    Muito fofo esse filme mesmo, adoro a sensibilidade dele, e amo o cabelo de Amélie.
    Quando eu era criança, minha mãe obrigava a gente a cortar o cabelo, e eu cresci usando chanel, jurando que quando fosse *dona do meu nariz* usaria os cabelos compridos. E aí? E aí que eu ando MORRENDO de vontade de cortar chanel e não tenho coragem, fico achando que vou me arrepender! Inferno!

  6. cara, odeio esse filme. até gostei quando assisti, mas aí todo mundo começou a falar tanto que eu enjoei. mas as cores e a trilha sonora são lindíssimas, mesmo.

  7. Antes de mais mais nada: Eu ainda gosto de você. Mesmo você não gostando de Harry Potter.

    Agora quem vai ter que me desculpar é você… Assisti ao filme e tive a mesma impressão que você quando citou em alguma parte do texto “Sem pé nem cabeça”, lembro que me perguntei qual o motivo do filme ser sempre mencionado como referencia para o tal “Vai mudar sua vida…”.

    Vou dar outra chance para Amélie e assistir ao clássico mais uma vez, depois te falo se mudei de opinião.

    Beijo!

  8. primeiro de tudo, te digo que ficou a minha vontade de conhecer a sua cara de amélie poulain.
    e eu sempre fui contrária a esse filme só porque todo mundo dizia que era bom. e porque descobri que era francês. eu, humana ignorante, tinha preconceito com filmes franceses por causa de um que vi e detestei.
    contudo, há mais ou menos um mês, resolvi assistir o filme, e o que aconteceu? derribei de amores. claro. óbvio. que pessoa clichê eu sou! haha (e boba também). o fabuloso destino de amélie poulain me ganhou pela simplicidade, e não mudou minha vida, mas entrou no rol de filmes preferidos.
    ah, e me gusta mucho elefant gun *-*
    :*

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