Número primo

Aquecer. Depois, ensaiar. Firmar o pé direito sob os dedos, até que o meu próprio peso esteja direcionado naquela dificuldade atroz. Dobrar a perna esquerda, com o pé na direção da coxa direita. Girar. Uma, duas, três vezes. Mas esqueci de estender os braços, acima da cabeça – e precisei repetir. Uma, duas, três vezes. Mas então chega o diretor, com seus fatigados olhos azuis que já não me atraem. Quer ver o meu desempenho. Uma, duas… Na terceira vez, só houvera uma junção de espelhos em fundo roxo-esverdeado, algum baque surdo, motivado pelo meu desequilíbrio e uma bailarina tomando soro na cama de um hospital.
Dois desmaios e duas ocasiões parando na emergência, acredito que bati o meu recorde. A mãe em desespero, o pai transtornado, afinal, ele bem que tinha avisado. O médico, muito jovem, preocupado com a minha pressão baixa, anemia, insônia, ausência de menstruação há três meses, enxaquecas constantes e desnutrição. Agora, some todos esses fatores a uma insuficiência cardíaca e terá o nítido resultado: estresse.
Não sabemos ainda se é somente isso. Do pouco que ouvi, ao que parece, há algum tipo de desequilíbrio hormonal que atinge mulheres jovens e muito magras – naturalmente, encaixo-me nesse perfil, mas antes é necessária uma quantidade de exames que passará por sangue, urina e algum tipo de “aconselhamento psicológico”. Esse último é o que mais me assusta.
Domingo fui liberada, tive folga justa, recebi flores em casa. Rosas brancas, entremeadas por cravos, do diretor. Querem me ver na cova, já percebi. Também chocolates. Joguei-os fora, eram muito doces e só tolero o meio-amargo desde a última Páscoa. Não consigo ingerir nada em absoluto, o que desperta suspeitas infundadas. Ontem, telefonei para ele, a fim de ouvir algumas verdades – tipo de situação que só ocorre quando se está longe um do outro. Perguntou se eu fizera o teste. Mas que ofensa absurda. Nem no hospital precisei ser questionada sobre se estava grávida. Também não há fundamento.
Pediu que eu parasse o tempo, deitasse e ficasse quieta, isto é – sem ler, escrever ou qualquer outra atividade que me espante o tédio, mas, quem disse? Até tentei – é impossível. Nesta casa, pelo menos.
Porque ela entra aqui com um prato de sopa – sua solução para tudo (nos últimos dois anos, não tenho experimentado outra refeição quando adoeço ou faz frio à noite). Recuso. “Mas minha filha, você precisa comer”, e o outro, da cozinha: “vai acabar morrendo, desse jeito”. Peço que deixe o quarto, me deixe sozinha, mantendo a luz acesa. Pego o livro no criado-mudo, A Solidão dos Números Primos, cuja capa da edição brasileira traz um rosto feminino, com suas marcas evidentes, escondido entre as folhas de alguma árvore, sobretudo com um olhar de quem pede auxílio, de quem implora: “precisa saber de minha história, precisa ler este livro”.

A Solidão dos Números Primos - Paolo Giordano.

Talvez, por isso, eu o tenha tomado como empréstimo, na biblioteca, nunca um livro fora julgado por mim pela capa. E eis o que sou: uma personagem de Giordano que, aos olhares do mundo, sofre de distúrbios alimentares. Diferente de Alice, entretanto, não corto a comida em pequenos pedacinhos, pousando-as no guardanapo que acabará afundando na privada de sua mansão. Simplesmente porque não moro em uma mansão.
Sempre achei uma tolice essa degradação tão conveniente em quem dança ou desfila. Não pretendia participar desse meio, não por vaidade, afinal, como escrevera Tolstói, “mais vale morrer”. Também nunca me atingira a compreensão de me olhar no espelho e ver um amontoado de ossos que se fragilizam a cada dia que passa. Mas caí nesse abismo, por outros meios.
Por tudo, fiz greve. Quando não falar ou desobedecer já não adiantavam, recorri a não me alimentar, que é uma tortura mútua, afinal, todos sofrem, eu levo a culpa e me aplico um castigo merecedor. Provocava meus desmaios, saía apenas para testar se de fato cairia no meio da rua, caminhava cada vez mais distante, afastava-me do centro, pretendia morrer assim: em um lugar onde ninguém me conhecesse, por isso mesmo, sequer levava uma bolsa com documentos, indigente. E voltava para casa, arrasada, porque nem morrer para garantir a liberdade dos meus pais, nem para isso eu estava capacitada.
Costume virou hábito. Como feito passarinho dentro de casa, detesto me alimentar em casas de estranhos, até mesmo nos restaurantes procuro consumir o mínimo possível.
A questão agora é outra. Já que essa tática não se demonstrava eficaz, decidi acumular minha rotina com tudo que pudesse estar entre o divertido e o desgastante. Os quatro anos de colégio foram assim. Ao término, houvera o convite para o ballet. Acabo de me lançar em um outro projeto, não muito exigente, mas ao qual vejo evoluir a cada instante, enquanto sua autora definha. Lavar pratos no restaurante de minha tia. Até distribuir sorrisos no final de semana doem-me as têmporas. Para agüentar tudo isso, alguns doces ao longo do dia, que substituem as refeições principais, algo como dois brigadeiros no café do teatro, balas de maçã verde. Jamais chicletes, pois perdem o sabor e estragam os dentes.
Os exames deverão ser feitos de segunda à sexta-feira, entre sete e onze da manhã, por ordem de chegada. Em jejum, lembremos. Enquanto isso deverei repousar e, após os resultados, apresentá-los ao médico o quanto antes. Nada de estresse. Bastante líquido, frutas, verduras e carnes em geral. Também a habitual e generosa taça de vinho, todas as noites, para o bem do coração. E um psicólogo, não podemos esquecer, pelo menos duas vezes na semana, sozinha. É Giordano, prazer, eu sou um número primo.

Anúncios

10 respostas em “Número primo

  1. Que texto preocupante e mórbido, Nina…
    Deixa disso, come a sopa da sua mãe e tudo mais; os doces são bem doces mas depois se acostuma hahah
    Esse fim de semana tenho que viajar, mas a gente pode marcar um jantar pro próximo, se não for um grande sacrifício. hahah

    Beijos

  2. também fiquei com vontade de ler o livro.
    força, aí. tente se acostumar. é o melhor jeito.

  3. Linda querida e amada por mim!
    Estou vindo, para vir te convidar a ir ao meu blog o quanto antes.
    Terás uma surpresa lá. Que era merecido a muito tempo e eu ingrato
    nunca fui capaz de fazê-la. Desculpa.

    Daniele, te gosto muito! Muito!

    És vip. Sempre!

    Beijo Bella!

    Jake.

  4. Passando aqui só para registrar um oi e agradecer seu carinho.
    Seus texto me deixam um pouco mais adulta! hehehe. Não que isso seja ruim mas, em meio a tantos blogs, esse é um dos poucos que é mais sério!
    Kiss

  5. Medo de psicólogos? Jamais. Eles nada são além do seu espelho. Eles não te julgam, não jogam pedra, não entortam os lábios.

    Confesso, me dói saber que alguém no mundo – além de mim – acredita estar atacando as pessoas que sempre atacaram. Eu sempre acreditei nisso, desde há muito tempo atrás. Me atacava, achando atacar meus pais. Resultado: fiquei de cama. Fiquei doente. Fiquei sozinha. Quase fiquei louca. Meus pais? Estão ótimos, obrigada. Nunca estiveram melhor. Eu? Com remédios, terapias, conselhos e todos me chamando de “coitadinha”. Eu não sou coitadinha, você não é coitadinha. Você é bem melhor do que isso, maior do que isso, mais linda do que isso.

    As pessoas não enxergam, não adianta. Sua única salvação será SE enxergar. Quer atingir alguém? Nada melhor do que a alegria pra assustar os frustrados. Esse sim, são coitados.

  6. eu nunca vou conseguir entender os medos e as fugas. e as greves. sempre vou achar que o melhor jeito de encarar tudo é batendo de frente. na prisão, chocar seu corpo contra a grade até um dos dois se arrebentar. pelo menos você enfrentou.
    mas o mundo é assim, cheio de psicólogos tentando dizer o que você tem que fazer, sendo que é só você que sabe isso na verdade. e já diria o velho bukowski, “não existe fracasso maior pra um ser humano que pagar pra alguém dizer o que ele deve fazer”.

  7. Frequentei psicólogos por muito tempo. Nunca me acostumei a contar meus mais mórbidos segredos para um completo desconhecido. Diários sempre foram bem mais atraentes. Por isso nunca um tratamento psicológico funcionou, infelizmente.
    Quanto à alimentação, é um assunto muito complicado, mas bem… Você deve comer e viver bem, fazer com que as pessoas se perguntem por que você ainda está de pé, ao invés de te olharem e pensarem “sabia que ela ia cair alguma hora”. Surpreender é sempre bom.
    Espero que descubram logo o que você tem, você se trate e fique bem novamente. Viver é bom. Demorei para perceber isso, mas bem… É bom. Não perca essa oportunidade de tornar-se notável.

  8. Pingback: Retrospectiva literária 2011 « #sobrefatalismos

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s