Costas nuas

Stella Florence, atriz.Tempos atrás, quando minha irmã mais velha estivera entusiasmada em fazer uma tatuagem, pesquisara bastante. Achou então uma entrevista que a escritora Stella Florence concedera para alguma revista da qual não recordei o nome. A foto publicada mostrava-a de costas para a câmera, nua – e suas costas exibiam um considerável acervo de tatuagens que nada mais eram do que palavras aleatórias e cheias de significado. A cada término de relacionamento, a autora tatuava uma nova palavra – para ilustrar o que havia aprendido, sobrado ou justificado a convivência com determinada pessoa. Na época, eu havia achado a idéia maravilhosa, exótica, original. Minha intenção era furtar esse propósito – mas nada passou de intenção – até porque, morro de medo de fazer tatuagem e já não há tempo para isso: viver com outras pessoas.
Ele gosta de cinema, daí marcamos um encontro no sábado (entenda-se como: eu telefonei porque queria ver o novo Lars e a companhia valeria à pena), até porque eu nunca havia estado naquele cinema, apesar de ser tão perto de onde moro (minha cisma típica com lugares estranhos e pessoas desconhecidas). Tinha certeza de que se atrasaria, mas, por sorte, reencontrei um outro amigo que vejo de quando em vez. É o tipo de pessoa que sempre volta cheia de projetos, mas não foi só isso. Ele também reapareceu solteiro, disponível e em crise. Eu também não podia fazer muito: deixei-o em um monólogo incessante, fui boa ouvinte. Ele também estava esperando uma amiga, para “ver no que iria dar”. Conversamos um pouco, novos projetos foram apresentados, concordei, pedi que me telefonasse quando precisasse, afinal, estou livre por tempo indeterminado e disposta a trabalhar com arte, como sempre. Marcamos um cinema para depois do dia quatro. Sua amiga chegou dentro de meia hora, ao mesmo tempo que o outro me telefonava, avisando que se atrasaria um pouco. Apresentações foram feitas, os dois afastaram-se para o café, e continuei sentada na frente da vitrine da diminuta livraria. Quinze minutos depois, o outro chegara.
Sentamos, fomos interrompidos por uma conhecida dele, retomamos o diálogo. Entramos na livraria, saímos, compramos os ingressos (“você paga”, lhe disse por telefone, afinal, estou desempregada), subimos à escada e sentamos em um banco no primeiro patamar, que dava para a lateral da livraria. Conversamos amenidades. Descobri que ele é um ariano que consegue controlar as impulsividades – mas não sei se vive de amor profundo. “Sou de touro, com ascendente em escorpião”, respondi. Perguntou o que aquilo significava, mas nunca sei ultrapassar a teimosia de uma taurina, então parti para escorpião, que pode ser possessivo e ciumento, mas também é um signo de pessoas sedutoras – e isso é elogio, de alguma forma. Ele concordou. Não com os que possuem ascendente em escorpião, de um modo geral. Mas sim que eu sou sedutora. Fingi não ter dado atenção.
Fomos para a fila dos lanches e ele me assegurou que, apesar do enorme saco de pipocas que as pessoas carregavam exageradamente, aquilo tinha um gosto horrível que só ganhava sabor na base de muito sal. Comprou refrigerante. Detestamos coca, mas ele gosta de limão e eu, guaraná. Como não tenho o hábito, deixei que escolhesse o sabor que quisesse – provavelmente eu não beberia muito (nunca bebo um copo inteiro de refri). Caminhamos para a sala de exibição – que já estava cheia. E o filme pronto para começar.
Sentamo-nos a um canto. Na tela, James Franco impressionava-se com o resultado de uma nova droga testada em um chimpanzé de laboratório (não era o filme errado, mas o Lars fora exibido mais cedo e ele estava trabalhando). Ele dissera algo, que não entendi. Pedia a minha mão. Relutei, já sabendo no que desencadearia, mas e daí? Concedi. Taquicardia. Esquece, era muito cedo ainda. E eu realmente tencionava prestar atenção ao filme.
Mãos. Já escrevi do quanto são sedutoras. Toque da pele, contato. Inícios. No mais, prelúdio, introdução, porvir. Fiquei tensa. Continuei tensa, mas aceitei os afagos. Ainda estava tensa quando apoiei meu rosto em seu ombro. O sentimento permanecia enquanto nos beijávamos. Sorrisos, constrangimento talvez (de minha parte, pelo menos). Levava minha mão esquerda até seus lábios. Não desgrudamos. Sabíamos que aconteceria. E queríamos. Aliás, esse jogo é detestável, mas é bom de jogar: você gosta da pessoa, a pessoa gosta de você. Mas precisa existir um empecilho natural, um charme daqui e dali. Queríamos estar juntos desde que saímos do trabalho dele, algumas semanas antes, à noite, de onde eu havia passado a tarde recebendo treinamento (dele) para uma vaga na nova filial da empresa. Não arranjei o trabalho, mas consegui um amigo. Mas havia aquele fingimento, que droga, mas é assim: testar, conhecer, esperar. Expectativa sempre presente, tudo bem.
O filme terminou, levantamos com a sala quase vazia. De mãos dadas. Saímos, ficamos aguardando algum ônibus que nos levasse para a lateral do teatro, de onde pegaríamos outro ônibus que nos levasse para nossas respectivas casas. Eu sou péssima nesse tipo de situação, e caí no devaneio de questionar, com todas as letras: “o que somos agora?”, “amigos”, ele respondeu. Óbvio. O que você queria, Jane Austen? Que ele se ajoelhasse e lhe pedisse em casamento naquele instante? Até Mr. Darcy, minha filha, precisou saber das intenções da  Srta. Bennet. Então, minha irmã, se toca!
No segundo ponto de ônibus, havia pessoas saindo do teatro. Quase nove horas – a noite começando, mas é aquela velha história: dezenove anos, mora com pai e mãe, tem-que-dar-satisfação. Normal, ele também já teve a minha idade (e muito mais liberdade, acredito). Outra vez “o que faremos agora?” e ouvi o que precisava saber e já sabia. Não sem antes ter dito alguma coisa como “nunca namorei”, o que, pasmem, é a mais pura verdade (e eu sou sincera, em tudo). “Não tenho planos para namorar agora”, ele respondeu. “Eu sei. Você acabou de adquirir sua independência, está morando sozinho, fazendo sua faculdade, trabalhando… enfim”. E depois, eu estou com um retardo de batimentos no coração, que assume o dobro de potência em situações de nervosismo e/ou estresse – o que pode ocasionar em uma parada cardíaca. Não tem cura, mas o tratamento existe. Daí que eu me recuso a fazê-lo: por ser um gasto desnecessário de dinheiro que a minha família não possui, por significar “sobreviver” e não o essencial, por ter que visitar o cardiologista toda semana, por tomar remédios tarja preta, por não enfrentar situações específicas, pela opção de preferir ter uma vida normal ao contrário disso. Esses foram os pensamentos, fluindo alto demais (vai Giordano, diz que é feito Fabio e Alice em seu livro, aquele desvio de tempo e espaço). Porque o médico concluíra: “então você não tem muito tempo” e fiz expressão de tédio, “conte-me uma novidade” e estou me adaptando a idéia de morrer de susto (não de bala, ou vício). E consegui fazer piada: quero morrer com vinte e sete anos. Só os ícones de determinadas gerações morrem com essa idade. Humor macabro. Ele tem vinte e sete anos.
Tentou me consolar. “Não precisa. Não estou assustada. Me conformo. São os outros que se preocupam”. É verdade. Mas nada há de errado com a morte. Aliás, morremos desde o instante em que nascemos. “Viver” não é o verbo adequado, correto. Viver é um instante. Morrer é todo esse tempo (filosofa, garota).
Mas eu queria ter dito que, ora bolas, apesar dos pesares ainda estou aqui, e posso sim me apaixonar (errar é humano). Mas se isso acontecer, juro por Deus que desapareço, afinal, não faço parte dos planos dele – e não quero interromper ou atrapalhar os projetos de outrem. Eu queria ter dito: “sabe, havia um tempo no qual o mundo inteiro tinha culpa e eu acreditava que, na minha vida, passavam homens transitórios. Mas a gente só percebe que somos nós os passageiros aleatórios na vida dos outros quando um bem precioso se esvai. Então concordo, sejamos amigos. Não posso escolher, preciso agarrar as oportunidades – esta é a sua condição, está certo. Sejamos amigos, porque você vai terminar sua faculdade, trabalhar, viajar, talvez casar e ter filhos. Sejamos amigos, porque minha vida é tudo que tenho – e só há o resto dela: as chances que agora chegam e que determinam o momento. Sejamos amigos, porque eu nunca vou completar uma faculdade, não escreverei tantos livros, não poderei gerar as crianças que já haviam sido denominadas. Sejamos amigos, porque cada aniversário será uma aproximação da estimativa de vida que uma pessoa ‘dotada’ de insuficiência cardíaca possui, e a minha é de, no máximo, vinte e cinco anos (se continuar a recusar o tratamento, lembremos). Sejamos amigos, porque, sabe, há uma escritora com vasta experiência de vida, que tatuou nas costas um dicionário de sentimentos e eu jamais poderei fazer o mesmo, porque já disse, nunca namorei. E, poxa vida, você é legal, não se distanciou de mim, nossa amizade foi mero acaso e espontaneidade, gosto da sua companhia (isso deveria bastar, não?), das nossas conversas, dos nossos olhares. Gosto até das nossas diferenças, que não são tantas: você ama  quadrinhos, eu adoro romances ingleses. Então, não dá para pedir muito, não cabem exigências aqui. Então tá bom, sejamos amigos”.
O problema é que, como sempre, eu não disse nada, e talvez tenha sido melhor. Mas então decidi escrever, para variar. E, claro, vou dar aquele tempo para que ele pense, e vou entender se não quiser me ver mais (“essa louca? Nem pintada de ouro”). E vou ficar aqui, assim, achando que, mais uma vez, minha escrita estragou um sentimento qualquer que, com naturalidade, talvez o tempo permitisse amadurecer. Mas é que, por sermos amigos, por termos concordado com isso, eu tenho pouco tempo. Daí que ele também pode ficar com pena – e confundir isso com amor – o que seria a maior das humilhações sentimentais. É claro que, se ele se apaixonar por mim primeiro (ah, impossível), a situação será bem diferente. Porque terá de aceitar que eu sou livre. Que minha liberdade nada tem a ver com situações externas: minha liberdade tem a ver com o pouco tempo que me resta. Minha liberdade significa que preciso conhecer outras pessoas, viver com elas, saber, descobrir, amar demais – morrer do coração sempre é sinal de que se amou demais. Mas enquanto estou viva, talvez ainda faça um monte de gente feliz. Ele, por exemplo.

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15 respostas em “Costas nuas

  1. Os caminhos do amor são tão complexos, que mal enxergamos o horizonte. A penumbra encalça nossos desejos. É normal este embate sublime, em que os anseios se confundem. O amor é sempre presente. Sempre nos move de alguma maneira singela, quase teatral. Ficamos imaginar aquele momento como o início de um maior na nossa vida.

    E diante do risco ou da oportunidade, ficamos a pensar no que pode dar. É neste momento que não importam quantas tatuagens temos na costa. Nem se ao menos ela é nua. Ficamos as nos inteirar naquele assovio intermitente que o coração pulsa no âmago de nossa alma. Ser sincero não é o problema. Muito menos o confessar das fraquezas. Não será amada se ser falsa. Seja sempre assim aberta, liberta. Não há vergonha nenhuma em anunciar fraquezas.

    Todos temos fraquezas. Elas acabam preenchendo mais do que devemos, porque damos atenção demais à elas. E isto causa certa cor, certa comoção. Sabê-las não significa alimentá-las. Sabê-las é ter sementes. Para semear as qualidades.

    Amar é na verdade gostar da junção destes dois elementos. E tu tens muitas. Tantas qualidades quanto fraquezas. O que há de mal em ser assim um pouco fraca? Não há. Porque tu também tem força. E são as forças que te diferenciam. São elas que cativam.

    Sabe porque te gosto? Porque conheço teus defeitos, tuas fraquezas. E mais importante. Conheço as tuas virtudes, tuas melhores qualidades. O amar vem do saber integrar tudo e respeitar, aceitar. Amar é ter suavidade e cumplicidade. Saber os limites de alguém. E mesmo assim querê-la.

    Eu só queria te dizer para não se preocupar á toa. Não se esconda. Não se evite. Seja a Daniela de verdade, que sempre foi e sempre é. Tuas costas não estarão nuas para sempre. Não sendo quem és.

    És uma amiga mui importante para mim. Muito. Se eu tivesse te encontrado noutro caminho, senão o da amizade, facilmente teria me apaixonado por ti… Porque tu tens um tesouro belíssimo no peito. Um coração.

    Beijos de quem te gosta. De verdade.

  2. Errata: Ah, desculpa, na pressa de digitar errei seu nome acima. Seja a Daniele de verdade tá?

    ps: pensei ter lido que tu colocaria meu poema pra ti aqui? Não o vi ainda. Vai colocar?*risos

    Tu não me respondeu se mereço a carta? *risos

    Beijo!!

  3. Impressiono-me com sua capacidade de escrita. Acredito que seis anos sejam suficientes para escrever um bom livro e você deveria fazer isso, porque sua escrita é densa e envolvente ao mesmo tempo. É maravilhosa.
    Bela história a acima descrita. Belíssima.
    Assim como foi bela a ideia da autora citada.
    Sabe… Entendo que você não queira seguir tratamentos… Eu sigo desde os 5 anos e confesso que é terrível ter que viver artificialmente, dependendo de compostos químicos e elevado investimento parental.
    Viver intensamente, sem medo do futuro, exatamente como estás fazendo, é algo que me encanta muito. Pena que essa coisa de “deixar de existir” me assusta horrores. Admiro você por encarar isso com tamanha naturalidade, afinal nós não vivemos, nós morremos, a cada dia um pouco mais. Ótima constatação. Perfeito. Impecável.
    Adoro seus textos. Obrigada.

  4. você tem a coragem de viver intensamente o que quer que seja, e acho que isso é suficiente. ao menos, é o que eu espero de mim.

    sempre dá tempo pra gente fazer o que quer. acredite.

  5. eu gostaria de ter as mesmas sutilezas que você ao narrar os acontecimentos mais simples, como uma ida ao cinema, e ao mesmo tempo retratar o que se guarda por dentro, talvez com pistas, códigos ou relatos do cotidiano que são muito vastos e reais.

    grande abraço, e é um prazer ler o que você escreve.

  6. Nina, sou como vc. Quando eu entro numa relação, eu começo a perguntar para colocar tudo às claras. Mas os homens para variar ou me decepcionam com suas respostas ou não as respondem.

  7. “Mãos. Já escrevi do quanto são sedutoras. Toque da pele, contato. Inícios. No mais, prelúdio, introdução, porvir.” – isso me tocou tanto! Sempre tem uma sensação que fica nas entrelinhas, escondida na gente. Você acabou de decifrar uma pra mim.

    Eu queria tanto, de verdade, que o meu comentário atingisse você de alguma forma (boa), mas não faço a menor ideia de como rebater uma escrita como a sua. Não queria ser “mais um comentário” no seu blog, mas sim “aquele comentário” que, poxa, te fez pensar, te fez sorrir, te fez olhar diferente pras coisas. Não sei como fazer isso. Só sei te dizer que você é uma pessoa muito bonita.

  8. “O que você queria, Jane Austen? Que ele se ajoelhasse e lhe pedisse em casamento naquele instante?”

    É incrível a sua capacidade de me fazer rir tão fácil, mesmo quando se trata de uma coisa trágica como essa. É sempre assim, você conhece alguém legal, gosta dele e se ferra. Saber que não é a única ajuda? Descobri isso aqui e agora não largo mais.

  9. você disse lá no meu texto que é complicada, mas por aqui percebe-se exatamente o contrário. simples. o mundo é simples, as pessoas o complicam.
    e tô assustado com a semelhança dos textos!

  10. obrigada pelo elogio do layout. eu finalmente decidi pegá-lo pronto de outra pessoa e só mudei as figuras. que bom que gostou, fico feliz.

    mas, ah, nina. que vazio. que imenso vazio que eu não sei o que te dizer. gosto dos seus textos sinceros assim, como todos eles deveriam ser, mas eles dão uma ânsia imensa. uma ânsia de sei lá o que. ir aí onde você está e te salvar, talvez, de qualquer coisa.

  11. Ei, você já viu Amor e Outras Drogas? Não é ótimo, mas assisti ontem e a personagem da Anne Hathaway meio que me lembrou você nesse texto.
    Beijo!

  12. Pingback: Primavera, num espelho partido « #sobrefatalismos

  13. Ah, sua fofa, você vai fazer um monte de gente feliz sim^^

    Estranho, ele é ariano e não quer namorar. Nunca vi um ariano assim, ele deve ter sofrido algum trauma, uma separação difícil, algo assim. Não é o jeito ariano de ser…

    beijos

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