Distopia livresca

Quando recebi o meu primeiro pseudo-salário de estagiária, não deu em outra: fui correndo para a livraria mais próxima a fim de torrar meu dinheirinho suado, mérito do meu esforço em sorrir para pacientes idosos e distribuir fichas cujos números iriam parar em um painel. Já nessa época, eu conhecia de cabo a rabo as livrarias de minha cidade: detestava as “megastores”, sempre lotadas nos fins de semana; a Saraiva da Barra tem um acervo consolador de biografias; a do Iguatemi é ótima em lançamentos; a do Salvador Shopping compõe um razoável acervo de trilhas sonoras de filmes que ainda estão em cartaz no cinema; dois sebos no centro da cidade vendem a preços acessíveis; um sebo perto da orla marítima é caríssimo – só os turistas freqüentam; o antigo Cine Glauber Rocha ganhou, após a reforma, uma livraria pequena, porém moderna, que visitei recentemente; e a única Livraria Cultura daqui, um bebê de tão recente, ah, essa tem de tudo, mais um pouco e até aquilo que eu nem imaginava! Sinto-me em casa, principalmente quando sento na escada de marfim, puxo uma almofada fluorescente e folheio algum exemplar de Vargas Llosa, por exemplo.
No meu tempo de criança, havia uma Saraiva no Centro, onde minha avó me levava. Mas não deu muito certo e logo fechou. A Civilização Brasileira era a menos aconchegante e a mais vazia: descobri depois que a mesma fora “exterminada” e a Saraiva comprou (mas não sei se é verídico). Havia também a Siciliano – melhor de todas – você chegava lá, tirava um livro da estante, sentava no chão mesmo, passava horas lendo e “neguinho tava nem aí” para o que você fazia, os livreiros tampouco se incomodavam. Por conta disso, era o point dos estudantes dos mais variados cursos. Mas aos poucos também foi perdendo mercado, acho que faliu.
Pois bem. Com o meu primeiro pseudo-salário de estagiária, decidi o lugar, mas não o que iria comprar. Era sábado de manhã – eu teria um dia inteiro para decidir, tirar os livros das estantes, ler orelhas, julgar pela capa, essas coisas. Então, como eu estava em uma fase meio Jane Austen, comecei por aí e fui procurar. Acontece que eu não encontrava um livro sequer da dama da literatura inglesa no acervo da Saraiva do Shopping Barra. Estava começando a me irritar, quando recorri ao auxilio de um rapaz meio corcunda, de óculos, camisa preta, cabelos desgrenhados e “avental de empregada doméstica”, como diz minha mãe, com o logotipo da livraria.
– Moço, você trabalha aqui? – Essa pergunta é péssima. Se você sabe a resposta, pelo óbvio das circunstâncias, por favor, evite-a.
– Sim. Que deseja?
Senti que a solicitude dele acarretaria em meu desamparo. É sério, eu tinha uma relação distante com os livreiros: evitava-os o máximo que podia, pois eram ocupadíssimos, sempre de um lado para o outro, e eu não queria incomodar. Sobretudo porque gosto de procurar um livro e encontrar muitos outros, adoro essa busca implacável por um exemplar esgotado, procurar Jorge Amado e encontrar um Agualusa perdido, no lugar errado. Por outro lado, donos de sebo é outra coisa: torno-me melhor amiga (até porque, eles nada fazem o dia todo além de observar o movimento), ofereço-me para organizar o acervo (como foi bom ter sido voluntária em uma biblioteca!), invariavelmente ganho desconto em minhas comprinhas mensais. Além disso, eu morro de vergonha de dizer que “estou procurando livros de Jane Austen”, porque, né? Eu pareço uma fã de romances de banca de revista (embora Jane não seja isso, mas confundem-na bastante), livros de vampiros bonzinhos e mashups bizarros. Mas tomei coragem e perguntei:
– Vocês têm algum livro da escritora inglesa Jane Austen?
– Claro que sim! Mas só sobraram alguns, venha ver… – E ele me apontou o canto esquerdo de uma estante baixa – Há uma senhora que passa por aqui quase todo fim de semana e leva vários exemplares da obra dela.
Meu Deus, se essa senhora estiver lendo isso agora, favor deixar um comentário lá embaixo: precisamos nos conhecer.
E o livreiro continuou:
– Sabe, eu gosto muito de Orgulho e Preconceito. Elizabeth Bennet é uma das poucas personagens realmente inteligentes da época de Jane Austen. Penso que no quesito “comédia de costumes”, Jane foi a maior representante feminina.
Uma vez eu havia prometido a mim mesma que certamente me casaria com um homem que gostasse de Jane Austen. Mr. Darcy, i love you.
– Isso é sério? – Perguntei.
– Isso o quê?
– Você gosta mesmo dessa autora?
– Claro que sim. Por que, você não?
E foi assim que ganhei de presente um grande amigo de literatura. É estudante de Letras e gosta muito de conversar sobre quase todos os livros que chegam ao seu local de trabalho. Aos poucos, fui percebendo que tínhamos opiniões parecidas: amamos Saramago, detestamos derivados da geração 140 caracteres e jamais entenderemos Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu (apesar de gostarmos muito). É minha alma-gêmea literária.
Passei a ir lá quase todos os sábados: tomava um sorvete no café, selecionava minhas edições pocket (aliás, um abraço ao pessoal da L&PM – vocês preenchem o vazio da minha estante), recebia dele os detalhes mais elaborados dos lançamentos que poderiam me interessar. “Esse livro é bom”, “esse eu não curti”, e assim por diante. Eu não fazia idéia de como ele arranjava tempo para devorar uma livraria inteira, mas conseguia, de alguma forma. E estava sempre de bom humor. E encomendava os livros que eu pedia e não tinham no estoque. E me telefonava da própria livraria para avisar de algum título traduzido para o português, de algum autor que eu aprecio.
Em meu primeiro ano de colégio, com o assunto “estágio” rolando vagamente nas conversas aleatórias, era um sonho generalizado: “poxa vida, quero trabalhar em uma livraria”. Qualquer jovem da minha turma dizia o mesmo. Todos aqueles livros, todo aquele cheiro de páginas impressas com carinho, todo aquele acordo ortográfico in-su-por-tá-vel, aquele clima das cafeterias, aquela adoração cult, aquele desprezo por best-sellers, aquela vontade de tornar-se escritor e habitar as “ilhas” de lançamentos… Fora as conversas: encontrar leitores assíduos, inteligentíssimos, que sacam tudo de literatura e artes em geral, imagine. É. Mas aí o colégio terminou, fiz estágio em uma clínica de ortopedia e conheci a Hillé.
– Olha, tem um blog novo aí que eu achei interessante. Narra o cotidiano de uma livraria. – Me disse o livreiro da Saraiva da Barra, por telefone.
Ele me passou o endereço do dito cujo e percebi que o blog era novinho, tanto que li os posts em menos de trinta minutos, engasgando de tanto rir. Todos aqueles leitores confusos com títulos, autores trocados por seus personagens, situações inimagináveis, humor ácido – mas com razão plena. Divaguei: quem deve ser a criatura por trás da criação? Porque o blog é sensacional, engraçadíssimo, um passatempo excelente e um manual de boas maneiras para o leitor sem noção que visita um espaço sagrado que armazena livros. O blog dela quebrou aquele meu ideal de perfeição – criou uma “distopia”, como aquele livro do George Orwell, que terminei de ler agora a pouco.
Não agüentei, postei o link no Twitter e, pouco tempo depois, a autora apareceu por lá, agradecendo o elogio e começamos a conversar, numa boa. Nada sei da Hillé: pela lógica do avatar, presumo que seja meio ruiva e use óculos. Acho que mora em São Paulo. Fato é que ela prefere não se identificar, porque, sei lá, acha que vai perder o emprego, apesar do blog ser muito bom. A Hillé é minha “mãe literária”, me chama de filha, eu a chamo de mãe e a vida vai levando. A moça já foi destaque em alguns dos mais importantes jornais do país e, recentemente, escrevera para o blog da Companhia das Letras. Tudo isso sem precisar ser uma “it-girl-look-do-dia” ou fazer um vídeo idiota que garanta trilhões de acessos no Youtube. Não sei se o Manual Prático de Bons Modos em Livrarias é uma idéia original, mas é bem escrito, tem referências ótimas e já tornou-se sucesso instantâneo. O rapaz que me indicou jura que não conhece a autora, nem pessoalmente, mas adora o espaço.
Com a Hillé na minha vida, é ela quem alegra o meu dia, quando ocorre de estarmos online na mesma rede social, no mesmo horário. Com isso, cresceu a vontade de trabalhar em uma livraria. Seja como for, já coloquei meu currículo na Cultura e na Saraiva. Agora, é só aguardar.

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21 respostas em “Distopia livresca

  1. Amei o texto. E uma coisa me chamou a atenção: “A moça já foi destaque em alguns dos mais importantes jornais do país e, recentemente, escrevera para o blog da Companhia das Letras. Tudo isso sem precisar ser uma “it-girl-look-do-dia” ou fazer um vídeo idiota que garanta trilhões de acessos no Youtube.”
    Essa foi um tapa com luva de veludo na cara de quem achou que as boas ideias estavam perdidas e era nescessário fazer uma dessas receitas de sucesso para fazer sucesso.

  2. Adorei! Sempre tive vontade de me envolver mais nesse mundo das livrarias… não sei se chegaria a topar um trabalho, porque já ouvi de tudo, mas pelo menos queria ter mais $$ para gastar nelas. kkkk

    Beijo!

  3. Já tá decidido, o meu primeiro salário, por mais mísero que seja, vai ser gasto em livros, e alguns DVDs hiper essenciais! E se sobrar uns trocadinhos, comprarei uns vestidos, haha.
    E você, hein? Continuo adorando o que você escreve.
    Um beijo.

  4. Nina, descobri a pouco este blog e a-do-ro! Muito, muito bom! Eu sou a doida dos livros aqui de casa, junto com meu namorado. Ficamos horas e horas a ver livros, pesquisar, debater, presentear (coisa boa!)… É tão bom conhecer gente que tem tudo a ver conosco no quesito bookaholic!
    Aliás, foi por tua culpa, dona Nina, que eu sou apaixonada pela diva Jane Austen! A Jane é fantástica e tu mais ainda por me instigar a leitura desta escritora maravilhosa :)
    Beijinhos e ótimo findi com muitas leituras ;D

  5. Aqui na minha cidade não tem muitas livrarias (do meu conhecimento, tem uma grande só) e os sebos são horríveis. Até têm o que tu procura, mas até tu achar… Mas em alguns lugares eu consigo achar livros baratos, esses tempos comprei a biografia da Madonna (nova e lacrada) por R$ 14,90 sendo que na internet estava mais de R$ 50. Eu adoro ofertas, mas adoro mais as livrarias. Pena que a Vanguarda seja tão cara. Mas eu gosto de ir lá e folhear algumas páginas, sentir o ambiente… Trabalhar numa livraria deve ser fantástico! :) Espero que consigas o emprego!
    :* beijos!

  6. Ah, Nina! Livrarias são fascinantes. Sexta-feira mesmo eu entrei com minha amiga na Cultura megastore do shopping Villa Lobos e quase fizemos um estrago! Eu também gostaria de trabalhar em uma, pelo menos por alguns meses.. E AMO esse blog da Hillé, hahaha. Beijos!

  7. Nina, sempre encantado com os seus textos. Amo esse feeling de relato das coisas do dia, e ao mesmo tempo uma certa dose de reflexão sobre o cotidiano. A leiturav aqui é tão prazerosa.

    Bom domingo e uma ótima semana.

  8. Daniele, você viaja pelo cotidiano e pela tua vida sempre de forma interessante. Rio muito quando te leio. É sempre bom te ver suavizar assim pelos dias que passa de forma tão peculiar. Sempre mescla os acontecimentos com uma pitada de humor encantador. Acho bonito. É doçura se misturando com o amargo. Embora nem sempre seja amargo. Seja mais doce do que.

    E livros. Eu não imagino um tema melhor que não esse pra ti. Você respira livros. Gastar o salário todo com livros é típico de ti. Eu admiro este teu amor, esta paixão pela leitura. Eu ao contrário sou uma negação em leitura, em livros… rs

    No mais é bonito a paixão com que descreve cada momento, e o tornando importante. Tornando evidente o quanto amas cada elemento que passa ao redor. Ou não amas… rs

    Saudades. Porque você esqueceu de mim né? *risos

    Ah, estou feliz sabe. Precisava te contar.

    Beijos querida.

  9. ai que bonito :)
    livrarias são os melhores lugares do mundo! e o blog dela é realmente ótimo ;)

  10. Nina, estava no “manual prático de bons modos em livraria” e vim te conhecer! Adoro livraria é só entar em uma eu saio falida, rs
    Com certeza me verá mais vezes por aqui!
    abs
    Jussara

  11. Engraçado, eu fiz a mesma coisa com meu primeiro salário de estágio, há uns três anos: fui para uma livraria e fiquei lá, horas, para escolher o que levar. É fato que minhas amigas começaram a ficar impacientes comigo, mas quis viver meu momento, haha. Afinal era meu primeiríssimo salário, tinha que comprar algo de acordo. =]

    Já conhecia o “Manual Prático de Bons Modos em Livrarias”, coloquei no Google Reader para nunca mais tirar. São situações muito engraçadas e a autora, Hillé, tem um jeito todo especial de narrar os acontecimentos. E claro, adorei aqui também! Sua escrita é ótima, a leitura flui de uma maneira muito boa, dá gosto de ler! Ótimo blog! Beijo!

  12. Amei o texto! Eu adoro livrarias e já trabalhei em uma – mas infelizmente os patrões não entendiam quando eu parava nas ilhas e ficava lendo orelhas e trechos e anotando referencias…. e esquecia os clientes! Com, aí meu destino vcs sabem qual foi….rsrsrsrsrs
    Adoro o Manual Prático de Bons Modos em Livrarias. Gostei daqui tb, dá gosto de ler! Coisas de amantes por livros :)

  13. cheguei aqui por conta da referência no [manual (…)], que está no meu reader. E que texto gostoso!

    Adoro “ouvir” sobre as experiências de outros leitores: a gente entende que não ama sozinho.

    Um abraço.

  14. Adorei seu blog. Cheguei aqui através do Manual Prático de Bons Modos em Livraria. Muito me interessa ler, ouvir pessoas que amam livros e que gostariam de trabalhar numa livraria, assim como eu quis um dia,rs.
    Sou de Feira de Santana e já anotei o nome de algumas livrarias que você mencionou no post.
    Bjim

  15. Adorei o seu texto! Eu sempre tive vontade de trabalhar numa livraria e, depois de ler o blog da Hillé, a vontade só aumentou! XD
    Beijo

  16. Cheguei aqui através do Manual… gostei da forma como você escreve… me deu vontade de voltar a escrever no meu blog que está parado há um bom tempo, rs.
    Não lembro se meu primeiro salário de estágio gastei com livros, mas metade do meu salário vai embora com livros, quadrinhos e dvds. E não só para mim como para os amigos.
    Creio que voltarei mais vezes para uma visita :)

  17. Também cheguei aqui por via do Manual e adorei! Adorei mesmo!

    E diga-se de passagem, meus salários são gastos basicamente em livrarias. É um vício que não dá pra evitar! haha :)

    Abraço e tá de parabéns!

    Amanda Steilein

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