Sobre estar mais perto dos seus sonhos

Cashback é um desses filmes de excelente fotografia e cenas certamente inesquecíveis – embora exagere nos clichês quando você costuma esperar mais do que isso (principalmente a partir de quem indica). Os personagens, entretanto, são maravilhosos e mais literários do que qualquer outra coisa. Logo, Sharon (Emilia Fox) me chamou a atenção. Ela é caixa de um supermercado (que, estranhamente, quase nunca tem clientela, mas seus funcionários são bizarros), com aquela expressão de quem não espera muita coisa da vida e que agüenta tudo calada. Ledo engano. Em uma conversa com o protagonista do filme (um garoto que sonha em ser pintor, artista), ela confessa a vontade de viajar pela América do Sul e, por isso, faz curso de espanhol, após o expediente. Pode não parecer muita coisa, mas a personagem se esforça, mesmo que devagar, em conseguir seus objetivos. Tanto que, ao findar do filme, ela deixa a atividade de caixa e vai trabalhar em uma agência de viagens.
Eu não sabia (havia esquecido, na verdade) que, no dia seguinte ao que assisti esta película, estaria assim, tão “perto do meu sonho”. Até pensei que fosse prenda do meu amigo, mas acho que ele nem se conscientizou disso, o que me faz adorar ainda mais sua presença, tendo em vista a espontaneidade que existe entre nós, desde o início.
Na segunda-feira última (dia 12), comecei a trabalhar como secretária numa filial dessas escolas inúmeras de cursos profissionalizantes. Algum tempo atrás, havia feito treinamento para trabalhar na mesma empresa, só que em outro local. Não consegui o emprego – e pensei que era mais uma tentativa frustrada que me aproximaria ainda mais do fatídico destino de migrar para São Paulo com a minha mãe – porém, na primeira semana de setembro, esse meu amigo, que trabalha lá, me chamou e eu fui (porque, né? Não dá para recusar NADA em absoluto por agora).
Fora um primeiro dia de trabalho ameno, para apelidar carinhosamente. Não fiz muita coisa, por não estar ciente de todas as atividades, e senti aquele tédio tão lugar-comum e uma sensação de inutilidade atroz, juntamente com agonia, um pouco de sono e olhos pesados, também ansiedade. Lembro-me do meu primeiro dia de estágio, em uma clínica de ortopedia, em meados do ano passado: havia chegado numa terça-feira (dia mais cheio do ambulatório), de modo que a correria se confundia com a minha timidez – que precisaria deixar de existir naquele exato momento. Acontece que eu percebi que, se não pegasse o ritmo, certamente não ficaria naquele estágio e não completaria o meu péssimo curso técnico em Informática, juntamente com o ensino médio. O resultado? Não só me adaptei como montei um verdadeiro “guia” sobre manias de médicos (cada um tem a sua), substituía funcionários, trabalhava com a auditoria (coisa que, com certeza, eu não deveria ter feito), auxiliava arquivo e RH, resolvia pepinos que não eram da conta do meu setor. Enfim: eu sabia mais do que alguns dos supervisores e fiz todo mundo chorar, fazer festa e me dar presente quando fui embora (sob o título de “melhor estagiária dos últimos trinta anos”, com faixa de miss e medalha de ouro). É claro que essa infinidade de situações ocorrera apenas porque a empresa era a mais errada possível: faltava pessoal e os estagiários acabavam fazendo o trabalho pesado. Ganhávamos pouco, não recebíamos no dia certo e havia aquela fabulosa “viagem” até o outro setor para pegar a garrafa térmica de café, porque, meus queridos, estagiário é faz-tudo, tem que se conformar, quer agradar (nunca consegue), mas, no fim das contas, sente-se satisfeito.
Daí que, no meu primeiro dia de trabalho do meu primeiro emprego de verdade, “pratiquei nadismo”: a arte de sentar e esperar que o meu amigo sentisse pena de mim e inventasse uma atividade qualquer para divertir a minha criança interior, enquanto eu treino para ser adulta. Aliás, isso me lembra um poético e sugestivo trecho de Demian (aquele livro sensacional), do Hermann Hesse:

“Vem cá. Vamos praticar um pouco de filosofia, ou seja, calar a boca, deitar-nos sobre o ventre e pensar”.

Mas o primeiro dia de trabalho é o que menos importa: outros virão e serão melhores. Vou aprender tudo direitinho e rápido, porque o meu amigo vive na sobrecarga e eu estou bajulando muito ele nessa crônica, então chega (porque ele está lendo isso aqui e rindo muito, podem acreditar). Afinal, como sempre, fiz uma introdução extensa para falar de outro assunto (estou sendo barroca – “mulher que os gregos desprezariam?”, feito o Caetano).
Enquanto eu fazia o treinamento, percebi que, no caminho de ida, me deparava com a peculiar editora Saraiva no meio do caminho (“tinha uma pedra” – diria Drummond, se visse). Pensei ter visto apenas mais uma livraria, mas as grandes livrarias estão dentro dos shoppings (aqui, ao menos, é dessa forma). De modo que era mesmo a editora. E perto da minha casa, afinal, o trabalho (por sorte) não é muito longe de onde moro (apesar de precisar tomar o ônibus), de modo que fiquei pensando: por que cargas d’água existe uma editora tão próxima de mim e eu nunca havia notado? Será o destino, Benedito?
Aquele bairro, na realidade, jamais me fora necessário. Nunca havia perdido nada lá, embora agora tenha me encontrado. Na época em que avistei a livraria, também havia começado a dialogar com o Odilon (Wagner, ele mesmo, por e-mail, morram de inveja), comuniquei-lhe minha imediata decisão: escreveria um livro (ainda tratarei deste assunto, aguardem) e receberia minha primeira recusa (ou não) ali mesmo, já que estava próxima e acessível. E, como a minha sede de literatura é grande, também passei a pesquisar o funcionamento de uma editora e leio, religiosamente, as crônicas do Luiz Schwarcz pela Companhia das Letras (minha editora predileta). Quero entender a mentalidade de uma pessoa que lê obras incompletas e que não sabe o sucesso que haverão de obter. Até porque, apesar do escritor se dedicar a uma atividade solitária e individualista, o editor, em contrapartida, precisa trabalhar em conjunto – o que, sem sombra de dúvida, parece-me muito mais difícil. Mas estou tentando, afinal, meus esboços iniciais também passarão nas mãos da Companhia (assim espero) e quero ter certeza de que estou fazendo a coisa certa.
Penso mesmo que não basta querer ser escritora, líder de uma banda de rock ou receber o Nobel em, sei lá, física. Você precisa, além de escrever, pesquisar o assunto, interagir com as informações, não cair no abismo de erros de concordância. Assim como o líder de uma banda de rock precisa saber mais do que três acordes e, para ganhar um Nobel, deve haver muito estudo, disciplina e dedicação. Mas, enquanto escrevo humildemente (e quase em segredo) o futuro best-seller brasileiro (haha), prometi a mim mesma saltar do ônibus um pouco antes, só para passar na frente da editora Saraiva e morrer de inveja de quem trabalha lá dentro. Porque, daqui a algum tempo, quando eu for uma grande e insuportável escritora reclusa que não responde cartas dos leitores e mata todos os seus personagens (momento Stranger Than Fiction), quero lembrar desses instantes em que passei, por cinco segundos de minha rotina diária, em frente ao meu sonho, sorrindo displicentemente de meu segredo, fingindo não me importar com o aceleramento das batidas do meu coração.

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9 respostas em “Sobre estar mais perto dos seus sonhos

  1. Ah, meu sonho… pois é. Conseguirei. Ultimamente ele anda me escapando, maroto, mas chegarei lá… sei que sim.

  2. Temos o mesmo sonho. E vamos chegar lá um dia. Eu sei disso! Não é possível que o mundo queira ser tão cruel conosco.
    Olha, também tem uma editora Saraiva entre a minha casa e a faculdade! Infelizmente ela não é perto nem de uma e nem de outra, é bem no meio de um looongo caminho. Mas um dia eu chego lá.
    Beijos

  3. Haha, que linda boba você é.
    Primeiro, ando querendo muito um emprego filosofal destes que você arranjou.
    Segundo, também é sonho meu escrever algo. Deve ser o sonho mundial dos blogueiros, mfmf.
    Terceiro, roubei essa imagem/banner aqui debaixo porque eu sou fresca e quero linkar o povo com imagens ;D

    beijo.

  4. Vou te confessar uma coisa : posts enormes me cansam e assustam. Por isso, mtas vezes eu acabo fugindo deles.
    Mas com você é sempre diferente, eu tenho vontade de vir aqui encarar seus textos enormes porque, ao contrário da maioria, seus posts me prendem. A propósito, estou aqui num dia de semi-ócio no trabalho e é nesses momentos que meus pensamentos viajam para coisas parecidas com o que você escreveu: quero escrever um livro.

    determinação é o começo. e talento você já tem.

    beijos!

  5. Adorei o post e, pode acreditar, não conhecia o genial blogdacia, com o Luiz. Que dica boa!

    Nossa, há muito tempo não visito teu blog (lindo, hein?).

    Deixei o Twitter.. Como faço pra falar com você?? Tenho boas dicas de leitura!

    Bjs!

  6. você é ousada, Nina. sempre fico a pensar se tudo o que tens relatado nos ultimos tempos é sua vida real ou não. mas as vezes penso nem ser tão importante saber/ter certeza. você é ousada porque não tem medo do que sonha, de sonhar o seu sonho que é seu, e pode ser ridículo e bobo, mas é seu. que pode ser diverso ao que o mundo vigente determina, e isso é tão empolgante, faz cada um querer libertar seus sonhos mais loucos. viver é isso aí, se não for assim, não serve. se não tiver muito sonho, lirismo, encanto, não serve. continue sonhando, Nina.

  7. Acredito que a vida nos manda as coisas de que precisamos quando menos esperamos – ou notamos. E a editora estar no seu caminho é uma desses presentes. E, bem, se você já está fazendo por onde, acho que é questão de tempo para vermos um best-seller seu – e eu vou adorar ler, sua escrita é irresistível! :)
    Beijo!

  8. Separam o prédio do escritório onde trabalho e minha livraria favorita algumas pedras soltas de calçamento, uma carrocinha de churros e as pistas da Av. Rio Branco. É atravessar o mar de buzinas e sirenes e adentrar o prédio histórico de pé direito altíssimo e seus cimos de livros inatingíveis, assim como o céu deve ser.

    Gosto da disposição pouco habitual das obras, que propicia a prolixidade da busca. Favorece esbarrões em títulos desconhecidos e o flerte instigante com autores novos. Não é lugar de se chegar direto ao ponto. Não faz sentido. Só mesmo os pobres de espírito saem de lá com o que tinham originalmente em mente. Podem levá-lo também, como álibi e como álibi apenas. Dá-se geralmente assim: você jura que está procurando “Os Cus de Judas”, do Lobo Antunes, mas sairá com um volume intrigante da Marina Colasanti e outro pouco-festejado-por-isso-mesmo-mais-saboroso, do valter hugo mãe (o das minúsculas). Isso se não se deparar com o imprescindível “Metal sem Húmus”, do Dércio Braúna pelo caminho. Só há uma forma de se chegar ao livro (que se julgava até então) desejado: perguntar ao livreiro. E os livreiros da Travessa não são vendendores. São oráculos. O meu favorito, o Luciano, tinha o dom especial de adivinhar presentes, como a personagem da Binoche de identificar o chocolate de cada cliente. Você descrevia a pessoa e ele indicava o presente, pressentia o presente, prescrevia o presente. Não falhou nunca. Quando muito, o diagnóstico era tão acurado que a pessoa já tinha o presente.

    Dia desses eu fui à Travessa e o Luciano não estava. Perguntei se estava de férias. E então me disseram que não, que ele não trabalhava mais ali. Em qual filial ele está? – perguntei. Mas era pior: Luciano resolveu estudar Direito. Direito, meu Deus! O estribilho do sistema, a profissão dos, como eu, enquadrados! Ouvi com terror, como se recebesse nota de um suicídio. O vendedor pulou da cobertura do meu sonho sobre o asfalto da (minha) vida real. Eu sempre quis ter uma livraria-café. No sonho é assim: inaugurada a loja, empreendimento estalando de novo, tenho eu que fazer as vezes de livreira, para economizar com pessoal. Óbvio que a atividade não se exaure em ter. Eu queria ser entre os livros. Viver falando neles, ser remunerada para lê-los, para saber deles, para recomendá-los. E assim dar, finalmente, minha parcela de contribuição para a saúde mental da humanidade.

  9. Também tenho esse sonho. Na verdade, hoje em dia, acho que muita gente tem. Mas, mesmo morando em SP, ainda não cruzei com uma editora no meio do meu caminho. No fundo, no fundo, lançar um livro por uma editora renomada se tornou um sonho distante. Já não acredito mais nisso. Para mim, escrever se tornou o suficiente. “É o que tem pra hoje”, e pra o resto do ano também.

    Certa está você! Não pode se desanimar só porque o caminho tomou um rumo diferente. Fico contente, de verdade, que você esteja trabalhando e vivendo sua vida. Contente, porque sei o quão é ruim parar de viver mesmo estando viva. Não aconselho a ninguém.

    Boa sorte sempre! E autografe seu livro pra mim quando eu comprá-lo!

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