Procuro, procuro Dolores Haze

Até o final “benedettiano” de nosso caso, ele tinha o costume de fazer-me comprar a livraria inteira, se eu quisesse. Começara em dezembro do ano passado, perto do Natal. Logo, era um presente. Tímida, fui escolher um Saramago na Livraria Cultura, cuja filial, naquela época, ainda era recente, de modo que fui conhecê-la ao lado dele – o que teve um significado maior, e que, por assim dizer, me faz ter recordações num misto de saudade e remorso quando passo por lá.
Engraçado que, naquele dia mesmo, havia lhe contado sobre A Trégua, de Benedetti, e no quanto o romance cabia naquilo que estávamos vivendo. E, enquanto saíamos do estacionamento rumo ao shopping, lembrei-me também de Lolita, do Nabokov. Inclusive, cheguei a procurar esse livro, com esforço e sem mérito. Perguntei a um dos livreiros e estava esgotado. Paciência.

Lolita, na versão de 1997, por Adrian Lyne.

Eu sempre persegui Dolores Haze. Certa vez, aos nove anos de idade, liguei a televisão de madrugada na Globo e estava começando o filme da versão de Adrian Lyne. Na época, eu desconhecia por completo o significado daquilo tudo – e em como ele alteraria meu rumo literário dali por diante. E me recordo vagamente de Dominique Swain, já no final, com seu par de óculos antiquados, grávida, perguntando se poderia sentar no colo de Humbert Humbert. Dos filmes que ficaram de minha infância, recordo apenas fragmentos de Lolita. Jamais o encontrei à venda em alguma loja especializada em “filmes dificílimos de encontrar” – isso inclui a Cultura.

Lolita, na versão de Stanley Kubrick.

Quase três anos atrás, paguei uma determinada quantia para assistir, durante uma semana, filmes do cineasta Stanley Kubrick – cuja obra, até então, conhecia vagamente, só de ouvir falar. Naturalmente, era um cinema de arte, desses que existem aos montes na cidade e são pouquíssimos visitados, mas sempre trazem obras magníficas de diretores que marcaram gerações, com preços acessíveis. Para a minha surpresa, Lolita estava dentro da grade de exibições. Acontece que Kubrick fizera a primeira versão cinematográfica da obra de Nabokov, porém, com uma atriz muito mais velha do que a Lo descrita no livro – talvez pela época, década de 60. Entretanto, eu e Carlos Heitor Cony somos da mesma opinião: a versão de Kubrick fascina mais do que a anterior, sobretudo por Quilty – o perseguidor –, que é quase um personagem de Tarantino com um charme à lá Tim Burton.
Depois viera a versão brasileira de Lolita, que fora a minissérie Presença de Anita, a fim de desmascarar diversos Humbert’s enrustidos por aí. Também Natalie Portman, em O Profissional, ao lado de Jean Reno que, no fundo, fazia lembrar vagamente. E ainda Alicia Silverstone, que, com sua atuação em diversas películas clichês de high school e fast-food, por assim dizer, tornou-se “símbolo” do cinema americano entre meados da década de 80 e início de 90; mas destaco o seu papel como uma adolescente psicopata em Paixão sem Limites – pura cópia moderna da obra de Nabokov. Então o ato de interessar-se por meninas mais jovens ganhou nome: pedofilia. E a Lolita, quem diria, passou por uma espécie de censura secreta, nunca mais fora mencionada e até mesmo ressurgiu como inocentada de sua “ninfância”.
Com razão. Porque, se você, assim como eu, passou pela infeliz ocasião de assistir os filmes antes da obra que os inspirou, certamente tivera a sensação de que Humbert Humbert era apenas um doente (pobre coitado) que desconhecia a causa de seu infortúnio – mas sabia o seu efeito. Esse efeito era a pequena Lo – uma criança “demoníaca e sedutora”, pois essa fora a mensagem que todas as versões inspiradas em Lolita quiseram nos passar. Acontece que hoje, anos depois de procurar incessantemente por Dolores Haze nas estantes de livrarias, sebos e bibliotecas – encontrando apenas seus resquícios visuais, concluo, após ter lido a obra de Vladimir Nabokov, que Lola é uma personagem inocente sim, afinal de contas, o livro é realista ao extremo e sua personagem principal sofre abusos pelo menos duas vezes ao dia, durante pouco mais de dois anos.
A obra está sob o comando da narração de Humbert Humbert, que, de fato, considera-se um maníaco, mas não sabe denominar o seu crime – tampouco sabe se é crime aquilo que comete. Humbert chega à casa da viúva Charlotte Haze no intuito de alugar um dos quartos e acaba se deparando com Lolita aos dez anos de idade. Apaixona-se de imediato. Mas Charlotte é um empecilho, pois interessa-se por Humbert, ao que ele conclui que, se for para continuar perto de sua Lo, melhor é casar-se com a mãe dela. Após a morte da mesma, porém, Humbert adota Dolores e ambos passam a viajar por todo o Estados Unidos, destinados a uma clandestinidade sem fim, vivendo em hotéis, trocando de lugar a cada duas semanas – a depender do humor e das traquinagens da personagem principal. Lolita é molestada diariamente, mas também fácil de ser subornada: por um dólar cala a boca e atreve-se em carícias mais ousadas, a depender do que Humbert lhe pede. “É a consumidora ideal”, tal como seu narrador-personagem a descreve, pois ela está sempre a ler revistas sobre moda, admirando catálogos de hospedagens, escolhendo isso e aquilo com o movimento do dedo indicador e o virar barulhento das páginas. Lolita é inocente por ser fraca. E escolhe ficar com Humbert porque, afinal, não havia outra maneira: era órfã e ele, de algum modo, oferecia-lhe proteção e segurança – algo que uma adolescente de treze anos jamais conseguiria caso estivesse só, pois não tinha para onde ir. Não à toa, ao conhecer o verdadeiro Humbert, a garota foge na primeira oportunidade viável, porém, para uma realidade ainda pior.
A obra de Nabokov possui variadas cenas que emocionam o leitor. Apesar de tudo, ao findar do livro, no reencontro que Humbert tem com sua amada, ela acaba reconhecendo que ele fora um ótimo pai. E ainda, antes disso, aprisionada à mentalidade insana de seu tutor, ele mesmo repara em seu olhar de desamparo – um olhar de quem se deixa levar pelos acontecimentos, mas que durara apenas um único segundo, estampado tanto no rosto da garota quanto nos de milhares de outras meninas que já foram seqüestradas, molestadas ou que passaram por situação semelhante – mesmo que tenham sido Lolita’s apenas pelo circunstancial, trato de moças que não envelhecem com facilidade, que perseguem uma outra feito Quilty, mas que não se olham no espelho a fim de perceberem que a pequena Lo está bem ali, diante delas mesmas. E falo exatamente desta que vos escreve que, aos dezenove anos de idade, não parece ter mais do que dezesseis.
Lolita fora o último livro que ele me presenteou, em função do meu aniversário, da penúltima vez que nos encontráramos. Depois dessa obra, a literatura do século XX alterou-se, pois ganhara uma narrativa excelente, sendo um dos romances mais possíveis da história e que é adaptado até hoje. Lolita, por ser original (mesmo que não se descarte toda a influência mitológica das ninfas) é quase um Santo Graal – está ali, embora poucas pessoas a vejam. Passou por mim recentemente – e era Pola Oloixarac perseguindo um de seus professores na universidade, enredo interessante para As Teorias Selvagens. Talvez esta seja a mais importante personagem da literatura do século passado, justamente pelas variadas repetições e adaptações de si mesma.
Capa de Lolita, escrito por Vladimir Nabokov. Edição da Alfaguara.Uma última curiosidade: a maioria dos personagens estão mortos assim que se inicia o livro – inclusive Dolores. É algo que o leitor só percebe muito depois de terminá-lo, ao descobrir que Lolita definha enquanto sua primeira filha nasce. Válvula de escape muito engenhosa do Nabokov, pois Humbert declara que só deseja que seu relato seja publicado após a morte dela, no intuito de não causar-lhe constrangimentos e remorsos. Essa compreensão só fora possível graças ao posfácio de Martin Amis (presente na edição que possuo, da Alfaguara, que acredito ser a mais recente, com tradução de Sérgio Flaksman). E admito ser estranho que eu tenha procurado não só por uma invenção da literatura mundial – talvez a melhor delas –, mas também procurei por um cadáver, um cadáver de “cabelo: claro. Boca: flamejante / Idade: quinze anos, menos um mês / Profissão: nenhuma, ou ‘figurante’”.

22 respostas em “Procuro, procuro Dolores Haze

  1. Maravilhoso, né? Eu ainda não o terminei, acredita? A biblioteca da UFPE ficou de greve e tive que entregá-lo sem terminar! AHHH!
    Mas ela voltou a funcionar e qualquer dia desses cato Lolita de novo, para terminarmos o que deixamos inacabado, rs

  2. Tá, terminei de ler seu texto e desejei ardentemente estar em BH, entrar na FNAC, ou algo mais ou menos assim, e procurar loucamente por este livro. Assisti à versão mais recente de Kubric, mas o livro… pois é. E olha que nem curto ler livros depois de já ter assistido aos filmes inspirado neles.

  3. Nossa Nina! Eu não captei essa dela ter morrido quando li!
    Lolita é certamente uma obra interessante, cheia de nuances e personagens extremamente perturbadores.. Não é algo que eu indico cegamente não, tem que ter bastante noção do que se está fazendo quando abre esse livro. Como costuma dizer a Rê, é uma história boa, mas cara, é pedofilia, e é tenso. Não dá pra sair por aí dizendo que é LINDO, porque definitivamente não é, hehe.
    Beijos!

  4. Que puta análise! Revivo a leitura lendo suas palavras. Lolita é único! Depois dele, tudo que eu leio onde tem essa fórmula “vlho tarado menina novinha” fico achando mal feito. rs. Mas Presença de Anita é muito bom, também recomendo. Tem o lance pedofila, mas Anita é muito diferente de Lolita. E a Anita do livro não é exatamente a Anita da minissérie. =)
    Mas como Lolita nenhum consegue ser. Lendo aqui me deu vontade até de ler o livro outra vez. Adorei muuito, faleci hahha
    ♥ ♥ ♥

  5. Concordo com a Carol acima: ” que puta análise”!
    Seu texto temperou que temperou meu café preto. =)
    Tenha um dia leve.
    beijo.

  6. Nina, vou te confessar: Nunca li Lolita!
    Que vergonha! rs… Logo eu, tão louca por literatura. Mas, enfim, depois de uma análise tão completa como essa, sinceridade, o livro está na lista dos mais mais mais mais queridos rs.

    Assim que sobrar uma grana – e um tempo – vou me jogar nele.

    beijos

  7. Eu amo Lolita! Amo o livro e o filme do Lyne! Vi o filme e li o livro várias vezes e a história (e os personagens) nunca deixam de ser encantadores! Fiquei muito feliz quando ganhei o livro de uma amiga minha, ela comprou a versão de banca, aquela da capa azul. Também amo Presença de Anita (não gostei do livro, mas amo a série) e procuro desesperadamente pelo livro com o roteiro da série!
    A narração é ótima e o livro não é entediante em nenhuma parte. Um clássico que todos deveriam ler e amar.
    :* beijos!

  8. Estou há tempos querendo ler Lolita. O filme eu já vi e foi como vc falou. Gosto da história e ando mais ainda querendo conhecê-la.

  9. Está aí um livro, clássico, que sempre tive vontade de ler mas nenhuma oportunidade. Já tentei alugá-lo na biblioteca da faculdade, mas por um empecilho ou outro, ainda não consegui. Aí acabei deixando passar e o livro permaneceu figurando na minha lista de futuras leituras, só isso. Seu texto só me deixou com mais vontade ainda de ler, atiçou novamente minha curiosidade. Tentarei encontrá-lo essa semana, aproveitar que entrego minha prévia do TCC segunda e terei alguns dias de calmaria. Beijo Nina!

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  14. Alguém que possui o filme LOLITA 1997, favor entrar em contato:
    cinthyapg@gmail.com
    Agradeço, pois, já fiz de tudo pra localizá-lo e não consigo.
    Quero assistir por completo.

  15. Bem, não posso falar mal porque não tenho o direito (sequer li!), mas antes de ler essa postagem, eu odiava o livro! Sempre o encontrei na Biblioteca pública da minha cidade, e virava a cara, meu coração disparava de raiva e eu só podia pensar: “Filho da…”
    A curiosidade às vezes me levava a querer ler o livro, pra saber o que é que se passa na cabeça de alguém pra escrever uma coisa dessas? A pedofilia não é uma coisa que a pessoa escreva quando não sob forma de protesto.
    Era o que me deixava furiosa, eu odiava o escritor e me recusava a ler as outras obras dele na biblioteca. Eu sempre odiei qualquer coisa relativa a pedofilia, mas hoje (não sei porque e talvez jamais saiba) resolvi procurar algum resumo do livro ou talvez uma crítica, e achei o site… Gostei da descrição de Dolores Haze, e apesar de ainda estar odiando o professor (porque a garota ainda é muito mais nova do que eu pensava), decidi ler o livro de uma vez por todas, e quem sabe, tirar minhas próprias conclusões e não julgar o escritor ou o restante de suas obras.
    Obrigada!

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