O teatro, fora dele

Bruno Garcia estivera, dia desses (entende-se como tempos atrás, mas ainda esse ano), conversando com o Jô Soares em seu programa (do Jô, não do Bruno). Ele estava divulgando seu mais novo trabalho, a peça Escola do Escândalo, de Scheridan. A última vez que vi uma breve menção (honrosa) desse texto maravilhoso foi no filme A Duquesa, estrelado por Keira Knightley (sua melhor atuação, acho) e Ralph Fiennes. No filme em questão, a duquesa Georgiana Cavendish e seu marido, o duque de Devonshire, assistem a uma apresentação da peça. O que o telespectador compreende, quando a personagem de Keira vai falar com o sujeito que interpreta Sheridan, é que o autor baseara-se na vida dela para criar uma paródia de costumes, algo Jane Austen, sem final feliz. Ele até brinca, dizendo: “o título certo seria ‘O Casamento Errado’”, e todo o filme é uma versão dramática da comédia de Scheridan: narra os escândalos de uma celebridade em pleno século XVIII, que se casou por obrigação e fortuna com um homem que a despreza, levando uma vida à lá Amy Winehouse, ditando moda, causando inveja, se degradando a cada dia que passa, fazendo escola, enfim. De escândalos, lembremos.

Ralph Fiennes e Keira Knightley em cena do do filme A Duquesa.
Até aí, nada. Não moro no Rio, logo, não verei a peça, com seu grande elenco (que, além do Bruno, traz o Tonico Pereira e a Maria Padilha, com direção do competentíssimo Miguel Falabella) e figurino impecável, do tipo que eu mesma gostaria de usar nos palcos e na vida, mesmo que me apertasse o espartilho e as pessoas quisessem me internar em um manicômio. Até porque, a peça de Scheridan é atualíssima, combina e mescla com o cotidiano dessa geração de 140 caracteres que insiste na fama a qualquer preço. Mas então comecei a pensar no teatro. E a brincadeira me agradou, pois, lembrando do filme anteriormente citado, passei a pensar nas ocasiões em que vi o teatro fora dele.
Porque, apesar de seus atores impecáveis e nada convincentes, às vezes a Globo acerta e nos presenteia com algumas maravilhas. Tipo Som e Fúria, seriado exibido em 2009 que narra o cotidiano fictício de um grupo de teatro paulista, cujo plano de fundo é Shakespeare, apresentando-nos Hamlet e Romeu e Julieta em seu processo de criação, mostrando os bastidores da administração do teatro e as possibilidades de romances e intrigas, enquanto isso.
É bom porque conta com um elenco sensacional, de tirar o fôlego. Marcou o retorno de Filipe Camargo à mídia – aposta excelente da emissora, pois esse cara é um ator como poucos, e nessa série estivera protagonizando muito bem. Daí vem Dan Stulbach, porque, depois do Odilon Wagner e do Chico Buarque, somente esse par de olhos azuis me contenta. O Dan faz um papel meio bobo, mas Tom Hanks é Tom Hanks (então, cala a boca). Na ala feminina, Andréa Beltrão, sempre abusando de versatilidade e Maria Flor, tão jovem e necessária, a Ofélia mais que perfeita, de cachinhos esvoaçantes, sem medo de ser feliz. Em suma, é uma série engraçada e repleta de citações do Bardo, portanto, para quem lê Shakespeare ou para quem apenas procura espantar o tédio, Som e Fúria é garantia certa de diversão absoluta.
Romance é um filme também produzido pela Globo e que traz o teatro em Tristão e Isolda – a primeira história vigente que desencadeou no ideal de amor impossível que conhecemos hoje. Talvez nem fosse necessário anunciar, mas Letícia Sabatella, Wagner Moura, José Wilker e Marco Nanini (que faz um es-cân-da-lo no meio do filme) representam de maneira ímpar, sob a direção respeitosa de Guel Arraes. Acontece que Romance é de uma originalidade incrível, tão eficaz que chega a confundir quem assiste. Às vezes, você não sabe quando a história sai dos palcos e vai para a “vida real” dos protagonistas. Os diálogos se repetem em um “tempo-espaço atemporal”. E, quando termina, tem-se a sensação de que aquela história poderia acontecer com qualquer um de nós, bastando amar, o que nem parece dificultoso. O que gosto bastante, porém, é a exibição dos bastidores de uma novela das oito, o ideal de perfeição, parece que a Globo está zombando dela mesma, afinal, que atriz iniciante não deseja ser protagonista consecutivas vezes no horário nobre? A personagem de Sabatella consegue isso.
Dos mais recentes, também houvera a série Clandestinos – que narra a história de jovens tentando ser artistas em um Brasil de poucas oportunidades; e Léo e Bia, filme de Oswaldo Montenegro (sim, ele mesmo), repleto de tiradas inteligentes de um grupo jovem de teatro que se reúne em um galpão abandonado e ensaiam incessantemente, enquanto a ditadura massacra o mundo lá fora. As histórias dessas duas produções são baseadas em fatos reais – o que torna o enredo ainda mais interessante e, porque não dizer, também “apavorante”, afinal, colocando-se no lugar da personagem, sente-se todo o sofrimento ali interpretado.
Antes de começar a trabalhar, eu vivia enfurnada em um teatro, por conta do ballet, do coral, das palestras e apresentações das orquestras de minha cidade e mundo afora. Salvador valoriza muito a música – não importando o ritmo. Peças teatrais, entretanto, são difíceis e, muitas vezes, inacessíveis. Lázaro Ramos, cujo trabalho recente fora a novela Insensato Coração acabou de dirigir uma peça que estivera em cartaz no melhor e mais amplo teatro daqui. Porém, imaginem o preço. É por essa e muitas outras que estamos sempre a reclamar que a televisão assassinou o teatro brasileiro – o que é óbvio e verdadeiro. Afinal, é muito mais cômodo você ficar em casa assistindo uma novelinha medíocre do que precisar se deslocar para o Teatro Castro Alves, pagando caro e sem lugar para estacionar, voltando tarde para casa, no meio da semana, precisando trabalhar no dia seguinte. Também é melhor baixar na internet a última mega produção cinematográfica do que pagar quase cinqüenta reais (exagero meu, é claro) para ver o mesmo no Espaço Unibanco de Cinema (vulgo e popular Glauber Rocha), o chamado “cinema de rico”, elitizado, freqüentando por poucos (no geral, artistas), no centro da cidade, perto da “nossa 25 de Março”: a Avenida Sete de Setembro, com suas bugigangas e lojas de departamento para a “classe C”.
No ano passado, aconteceu um projeto muito bacana em uma praça bastante freqüentada aqui do Pelourinho. A proposta era divulgar o teatro baiano, porém, trazendo um pessoal de fora que se apresentaria depois de nós. É claro que o público só estava lá para ver a comediante do Zorra Total (de graça e muito sem graça), mas fizemos nossa parte. E confesso que a última vez que assisti a uma peça, de verdade, pagando na bilheteria e etc., fora pouco antes do Scliar vir a falecer. Lembro-me bem que A Mulher que Escreveu a Bíblia fora adaptada do livro de mesmo nome do Moacyr e encenada lindamente em forma de monólogo. Antigamente, a TV Cultura apresentava um programa semanal que divulgava as peças teatrais, na íntegra (talvez esse programa ainda exista, não sei). Ou seja: teatro sem sair de casa. Proposta que, a meu ver, fora ridícula. Teatro “filmado” não funciona. É muito escuro e pouco condizente com o fator televisivo. Teatro funciona no cinema ou nos seriados quando é adaptado àquela forma. Mas em sua totalidade, sendo meramente transportado sem nenhum auxílio necessário, torna-se, no mínimo, insuportável. Não foi uma boa idéia.
Acredito, sinceramente, que isso não vá mudar muito a mentalidade de vocês. Já é tarde para retornamos àquele papinho de “desligue a TV e leia um livro”, substituindo a segunda ação por “vá ao teatro”. Em minha opinião, teatro é melhor (principalmente quando independente, de época ou de vanguarda, musical, ópera, raramente encenados aqui). O prazer que tenho em ir ao teatro é indescritível, inenarrável – e depois colecionar os ingressos, relembrar a data, o que eu vi, o que desfrutei, o que captei. Também, só quem já trabalhou com isso sabe – e não perde o costume. Até porque, o teatro foi minha casa, continua sendo. O teatro me acolhe. O teatro me interpreta.

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6 respostas em “O teatro, fora dele

  1. Preciso nem falar sobre o assunto né? Teatro é a minha vida, minha paixão, minha necessidade. Sempre que eu entro em um teatro para ver uma peça e começo a olhar em volta eu tenho pequenos arrepios. Antes de começar, fico analisando cenário, iluminação, já entrando no clima do que vou assistir. Quando sou eu vivendo aquela adrenalina no camarim antes de pisar no palco então.. ai, o teatro. A arte mais bela. ;) (Você sumiu do meu blog, que aconteceu??)

  2. Eu adoraria ir mais ao teatro. Tenho vergonha em dizer que até hoje, só fui 3 vezes em toda a minha vida e mesmo assim, para vislumbrar peças pequenas. Não por falta de vontade, mas sim porque o meio cultural aqui de Bauru é pobre e também raramente, quando chegam peças de qualidade no único teatro que temos por aqui, o ingresso sai os olhos da cara

  3. Gostaria de ir mais ao teatro, é algo de que realmente gosto mas frequento muito esporadicamente. Adoro as realidades alternativas, os figurinos. Ver os atores em seus melhores momentos sem que tenha que ser através de uma tela de televisão ou cinema. Parece mais, não sei, palpável vê-los interpretando ao vivo, sem as “facilidades” das edições de programas. Mas outra coisa que gosto muito é do ambiente do teatro. Como estudante de arquitetura, toda aquela estrutura me encanta, fico fascinada. :)
    Beijo, Nina!

  4. Se tem uma coisa que eu gostaria de dar mais atenção é o teatro. Fui em poucas – e boas – peças até hoje, e sempre saio com vontade de ir mais.
    Preciso tirar a vontade do papel…

  5. na última vez q fui ao teatro, assiti a uma peça adaptada a partir de um conto, “a galinha degolada”, de horácio quiroga. a peça ficou com o mesmo título do texto original. eu nã havia lido o conto, nem conhecia o autor antes de assistir a peça. mas, lembro q qdo o li o texto, ñ senti o mesmo impacto q a peça me provocou. ñ sei explicar o motivo disso… pra mim, a adaptação foi mto boa, acabou ampliando o significado do texto original, pois havia na peça mtos traços autorais do diretor, o q eu acho massa… a peça chegou aqui onde moro, interior de pernambuco, através do palco giratório do sesc. um projeto q leva peças teatrais a mtos lugares onde ñ há uma tradição nesse tipo d linguagem, lugares onde há poucas opções d entretenimento. ñ sei se esse projeto acontece onde vc mora, mas é uma opção, pois os ingresos são bem baratinhos.

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