Clichê

Segundo dados do IBGE apurados em 2010, Salvador possui 3.574.804 habitantes. E, assim como acredito em estatísticas, também imagino que a probabilidade de você encontrar o par ideal na esquina de casa é, digamos, nenhuma. O que me faz indagar: porque diabos tendemos a imaginar que “o amor da nossa vida” mora em outro continente?
Como havia dito anteriormente, saí no feriado de outubro, fui ao cinema e, depois disso, telefonei para um amigo na intenção de encontrá-lo. Mas ele já estava acompanhado de um outro sujeito que – basta – , é filósofo, possui uma expressão sedutoramente solitária e, ao findar do dia, lá estávamos nós, aos beijos, na porta da minha casa.
Ele mora perto de mim. Ele-mora-perto-de-mim, elemorapertodemim. Como se não bastasse, de fato eu o encontrava quase todos os dias, durante aquele breve período em que eu pegava no trabalho a partir do meio-dia, fazendo com que todas as minhas distrações se transferissem para o turno matutino, ou seja: eu ia à lanhouse de manhã cedo, resolver minha vida de anti-social. E ele estava lá. De bermuda e camisa regata, cara de sono, barba por fazer, cabelos desgrenhados e pouco grisalhos (dançando conforme o ritmo do vento), carteira e aparelho celular na mão (chaves também, acredito). Eu, naturalmente, observava com meticulosa atenção aquela criatura de olhar cansado, meio quarentão e que não me cumprimentava sob hipótese alguma, mesmo quando eu permanecia em pé, com um livro funcionando de escudo para que ele não percebesse a minha atividade observadora. Ele olhava para a rua, eu olhava para ele, e o estabelecimento não abria. Esperávamos. Mas esperávamos o quê?
Sentávamo-nos lado a lado. Mas como ele não me prestasse a menor atenção e isso não me causasse taquicardia, decidi continuar com as ilusões comuns de minha idade, flertando com quem quer que fosse e por motivos variados. Azar o dele não olhar para mim.
E Deus disse: “desce, arrasa e junta esses dois”, para o André (aquele mesmo), nosso padrinho e cupido, porque a culpa é dele, afinal, fomos apresentados um ao outro graças a sua “intervenção divina” e cá estamos.
Em suma, o “meu namorado” (que está entre aspas porque a situação ainda é muito estranha – para mim) é professor de Filosofia, possui uma coleção (que presumo ser vasta) de camisas listradas, usa xampu de bebê (vergonha na cara, viu), tem cílios longos (oi Lydia Bennet) e uns lábios em tom de lilás (mas nada vampirescos) mais bonitos que eu já vi. Sobretudo, me aceita. Mesmo com esse jeito meio fatalista e impulsivo que adquiri ao longo do tempo.
E, por incrível que pareça (ou não), está dando certo. Quer dizer, não precisei esconder da minha mãe apesar do “oi, tenho dezenove anos, moro com os meus pais e preciso voltar cedo para casa”. A hostilidade dos dois, em princípio, me encheu de graça, sobretudo pelos informativos momentâneos que eu passava vez ou outra. Naturalmente, para a minha mãe, ele é “muito velho”. E pensar que esse mocinho de quarenta e um anos de idade (só) até “tinha medo” de subir as escadas rumo ao meu campo de concentração particular. E os adoráveis questionamentos maternais: “é casado? Tem carro? Ganha quanto?”. E também seus conselhos (proféticos, porque não dizer): “cuidado, quando ele disser que quer conversar em um local ‘mais tranqüilo’, é motel na certa”.
É início de relacionamento, então, tudo são flores de uma eterna novidade: ele telefona para mim quando estou no trabalho só para ouvir a minha voz e combinamos um encontro para o fim da tarde. Quase todos os dias isso acontece, e ele vai me buscar, sempre bem disposto. Caminhamos rumo ao Pelourinho (que, além de ser histórico, ainda pode ser romântico) e já temos o nosso “local predileto” garantido. Nossas conversas são interrompidas apenas quando nos beijamos e declarações das mais variadas já foram feitas (uma delas, com certeza, jamais esquecerei). Domingo desses, decidimos namorar no shopping, porque não há nada melhor e mais cativantemente insuportável do que perturbar a paz dos clientes da Livraria Cultura e seus funcionários. Uma moça, por exemplo, carregava um cesto de mercado vazio e passeava entre as estantes como quem fazia piquenique, enquanto nos reprovava sem reservas. Algumas senhoras discretas fingiam tolerar nossa situação e nos sentíamos como que fazendo parte de alguma exposição específica – dois artefatos quase extintos, raríssimos, também inaceitáveis; variando nos abraços e carinhos – eu em seu colo, guardando o seu cheiro enquanto ele constatava que, de fato, gosta da minha pele. O inferno são os outros (oi tio Sartre), mas não importava. Eu estava realizando um velho e bobo sonho, esse de namorar em uma livraria, mas namorar de verdade, e não praticar o ato de “tomar um café com um homem casado” como acontecia meses atrás. Até porque, sempre tive inveja dos casais que namoram em locais públicos, fazendo questão de exibirem sua felicidade escancarada. Eu queria ser assim, mas não dependeria de mim apenas.
É professor de Filosofia. Naturalmente, me ensina muito, ensina bem, adoraria ser sua aluna de verdade (oi Lolita). Tem uma filha adolescente, sua grande cúmplice, cuja idade não se difere tanto da minha, mas não a conheço ainda. E, claro, estou ansiosa para que ocorra, otimista por tornamo-nos possíveis grandes amigas, mas também receosa – ela pode não gostar de mim e penso que tem todo o direito de fazê-lo antes de me conhecer. Deve ser muito apegada ao pai, talvez sinta-se ameaçada pela fria barreira do ciúme (embora ele tenha me dito que ela estivera entusiasmada com a situação). Mas iremos a uma livraria, falarei dos best-sellers de nossa geração (minha total repulsa), dar-lhe-ei dicas de livros, tomaremos sorvete na praça de alimentação e essas inúmeras expectativas despretensiosas que prometi não imaginar, mas a vida tem dessas artimanhas de passatempo.
Estive raciocinando sobre os clichês da vida. Para algo ser clichê, é necessário uma aparente perfeição causada por repetições. Por exemplo: sabemos que toda comédia romântica (americana) tem final feliz. Isso é clichê. Mas também seriam clichês esses momentos tranqüilos nos quais caminhamos de mãos dadas pela rua, perscrutando o olhar estampado de felicidade um do outro? Não. Na minha vida, instantes assim não se repetem. Aliás, é a primeira vez que eles me ocorrem. Logo, clichês foram todas aquelas platonices primaveris de outrora. Basta.
Acho que estou amando. Mas não é um amor de quinze anos: avassalador, desmedido, impulsivo e impossível. Esses adjetivos só transitam por nossa mente enquanto não estamos vivendo um grande amor, mas desejando que tal aconteça. Com esta idade, determina-se um indivíduo para também servir de Narciso: pensa ser feio o que não é espelho, desnecessárias exigências surgem e, no fim de tudo, lamentamos uma perda do que não houvera e passamos a buscar na memória detalhes inexistentes que funcionem como resquício de um sentimento solitário (quinze anos é a pior idade, a mais traumatizante). Por isso o nosso amor é leve, tranqüilo, maduro, cuidadoso e paternal. Ele me respeita muito. É paciente (precisará ser) e muito gentil. Eu já havia desistido de procurar me apaixonar, mas esse meu presente fora irrecusável. Meu filósofo predileto (assim será considerado por todos, daqui a cem mil anos), Saramago (meu grande mestre literário), dizia que “por nada ter esperado da vida, tenho tudo”. É nesse ritmo que a banda toca. Porque ansiar tanto por um sentimento natural, que virá em seu tempo certo e quando menos esperarmos? O que faz a vida valer à pena são as surpresas do destino. Engraçado até mesmo como não penso absolutamente no futuro, no fim, no adiante, nessas bobagens que antecipam um efeito meramente presumido (pensamentos esses que nem sequer me permitiram tentar “adquirir experiência” em tempos remotos). O grande pacto de Cazuza com a vida era esse: “o nosso amor a gente inventa / pra se distrair / e quando acaba a gente pensa / que ele nunca existiu”. Vejamos nós, por exemplo: éramos dois solitários opostos e agora necessitamos um do outro, com a urgência intrépida dos amantes, e a satisfatória tranqüilidade dos humildes. Leitores, me internem: estou gostando mesmo desse cara.

“Não é particularmente versada em histórias antigas e invenções mitológicas, mas só precisou de duas palavras simples para compreender o essencial da questão. Embora as conheçamos já, não se perde nada em deixá-las escritas outra vez, Éramos Nós.”
:: Do livro A Caverna, de José Saramago.

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22 respostas em “Clichê

  1. ô que delícia saber que você encontrou um peito quente pra deitar a cabeça, uma pessoa em quem pensar todas as vezes que fecha os olhos.

    bem vinda à magia do amor – e aos adoráveis (e complicados) relacionamentos!

  2. Admito que mal posso esperar para fazer eu mesma todos esses clichês que você citou, principalmente o ‘namorar na livraria’. Sempre que vou a esses lugares tem tantos casais que eu realmente quero fazer o mesmo e mostrar a todos como sou feliz. Mas enquanto isso não acontece, sigo esperando. :3

    Deve ser ótimo compartilhar momentos assim com uma pessoa especial, que te aceita por inteiro. Beijo Nina!

  3. Ei mocinha, eu gosto do meu amor de quinze anos, tá? Correção, dezesseis, hunf.

    E só mesmo a sua meiguice romântica pra me deixar sensível, oh.

    Vou tornar a enxugar minhas lágrimas comovidas enquanto exclamo um “que lindo” vez ou outra. Hahaha.

  4. Que texto LINDO, Nina! Tão natural e leve, e esse final então, me dando o eterno soco na barriga do tipo: Para de esperar demais da vida, e espere que ela te mostre a que você veio!
    Amei!
    E boa sorte com seu novo amor!
    Ainda estou esperando o meu.
    Mas espero que venha com tipo.. 20 anos. Porque lá em casa o buraco ia ser BEM mais embaixo se eu aparecesse com um de mais de 30. HAHAHA.
    Beijos!

  5. Não vou jogar
    Meu destino contra o seu
    Num filme piegas sem sal
    Não vou chorar
    Nem fingir que o amor morreu
    Chega de drama banal

    Que seja a dor
    Nosso amor, nossos ardis
    Teatro nô japonês
    Onde o ator
    É ao mesmo tempo atriz
    Vestes da mesma nudez

    Eu, Belmondo
    Como um Pierrot, le fou
    Só no cinema francês
    Você, Bardot
    Belo anúncio de shampoo
    Só fica bem nas TVs

    Melhor viver
    Nosso papel bem normal
    Que a vida nos reservou
    Interpretar
    Nosso bem e nosso mal
    Sem texto e sem diretor

    Chega de representar
    O que nós não queremos ser
    Não vamos nos transformar
    Num casal clichê do clichê

    ***
    CLICHÊ DO CLICHÊ
    (Gilberto Gil)

  6. internem não!!! amar é uma delícia. dá trabalho, e disso a gente sabe, mas é uma delícia. deixe ser, deixe seguir macio, sem idealizar o outro, entregue ao amor real… e te digo o que sempre repito pra mim mesma quando caio de amores: o real é pés dançantes em piso escorregadio. só dança a dança quem arrisca o deslize.
    arrisquemos! =)
    qto à idade da carteira de identidade, não acho que ela seja indicativo de nada. meu namorado é 8 anos mais novo que eu e vivo com ele o melhor de todos os meus relacionamentos. indicativo de nada, darling…
    e a história dos encontros na lan me fez lembrar de outra… mas essa te mando em off pelo face.
    excelente texto!
    beijo p’c!

  7. Nina, sempre que venho aqui, começo a ler, paro no meio e fico pensando. Respiro, sabe? E depois volto. Tudo o que eu leio por aqui, sobretudo nos ultimos meses tem muito de mim HOHOHO como se fossem escritos por mim – eu podia ter escrito isso (ja q eu vivo tb)!
    Não tenho a pretensão de me comparar a você, que tem a escrita impecável, SABE? Mas eu me identifico! Muito!
    Idade é algo interessantíssimo. Ainda estou a me acostumar com as diferenças e distâncias. Idade não deveria significar tanto, eu queria relaxar mais quanto a isso.

    Um beijo, tudo de bom, tudo de melhor, tudo de amor.

  8. qdo eu tina 19, caí na armadilha amorosa mais fudida do universo.
    mas tudo bem, eu quis me arranhar.
    foi, eu quis. e é sempre isso q importa.
    delicie-se.

  9. Love is in the air! nã nã nã nãnãaaa

    Ai, moça! Pois saiba a senhora que sumida não estou! Eu sempre venho aqui, te visito, mas não comento porque não sei o que comentar. Muitas vezes você me deixa sem palavra alguma, ora bolas! Mas fica tranquila que do seu canto eu não largo nem divido pedaço.

    Fico muito contente por você ter encontrado seu ‘amour’! Viva isso intensamente, sem se preocupar com o amanhã ou com hierarquias românticas. Namorados, ficantes, casados, não importa! Vocês são um do outro, e ponto final :)

  10. Ai que delícia, hein? Depois de um texto como esse e de uma história assim, os comentários se tornam irrelevantes. Daí que eu só tenho a dizer que fico feliz com a sua felicidade. *-*

    Beijo!

  11. Ah, então era você, outro dia, se pegando com um coroa na livraria? Que mundo pequeno…

    mentira, não vi nada
    é clichê, mas a maioria dos clichês são bons… na verdade só ficam ruins quando viram tédio, até lá podemos curtí-los bastante.

  12. Ah, é a minha vez de ter ciúmes… *risos

    Mas olha, tô tão feliz, tão feliz, que nem sei o que dizer.

    É engraçado como as coisas acontecem né. E também é algo incomum ler você tão doce, quando o contrário é muito mais frequente. Mas é compreensível te ler assim, te saber assim, pelo sentir que te envolve, por esta sensação bonita que navega no teu rio interior, que como você diz, é paciente, é maduro, leve e tranquilo. E isto não me deixa tão surpreendido, porque o fato de você não se preocupar muito com planos para amanhã, você se torna centrada, dia após dia. Sabia que teria uma maneira madura de conduzir as coisas e de recebê-las. Pelo menos agora.

    Acho que não seria mais adequado que fosse um professor de filosofia. Cara, que perfeito. Você, sendo tão hermética e profunda nos pensamentos, na maneira de lidar, pensar e agir com a vida, só precisaria mesmo de alguém assim. Engraçado, mas o destino às vezes é assim.

    Olha, este teu amigo André é abençoado mesmo. O enviado de Deus…*risos

    Outra coisa que notei… é mais engraçado ainda, você, no texto dizer “e Deus disse: desce, arrasa e junta estes dois”…
    Sendo você ateia, falar de Deus é no mínimo curioso… kkkkkk

    E acredite, você não precisa ser internada. Não há doença mais saudável que essa.

    E acho que pela primeira vez, posso dizer que ao mesmo tempo, nós dois estamos bem. hehe

    Beijo!!!

  13. Que bom saber dessa história até agora feliz! Bom saber que encontrou alguém para amar e está satisfeita com isso! Muito bom saber! Desejo que continue a ser feliz, minha cara porque nessa vida o que nos resta é apenas aproveitar os bons momentos e torcer para que eles percam a vergonha e deixem de ser escassos. Boa sorte para você! Muito amor para vocês! Sejam felizes!

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