Que tipo de mulher você pensa que eu sou?

“Nos seus acessos de misoginia o médico costumava classificar as mulheres consoante o tabaco que usavam: a raça Marlboro-sem-ser-de-contrabando lia Gore Vidal, passava o verão em Ibiza, achava Giscard d’Estaing e o príncipe Filipe muito pêssegos e a inteligência uma maçada esquisita; o tipo Marlboro-de-contrabando interessava-se por design, bridge e Agatha Christie (em inglês), freqüentava a piscina do Muxaxo e considerava a cultura um fenómeno vagamente divertido quando acompanhado do amor do golfe; o gênero SG-Gigante apreciava Jean Fernat, Truffaut e o Nouvel Observateur, votava socialista e mantinha com os homens relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas; a classe SG-Filtro tinha o pôster de Che Guevara na parede do quarto, nutria-se espiritualmente de Reich e de revistas de decoração, não conseguia dormir sem comprimidos e acampava aos fins-de-semana na lagoa de Albufeira conspirando acerca da criação de um núcleo de estudos marxistas; o estilo Português-Suave não se pintava, cortava as unhas rentes, estudava Anti-Psiquiatria e agonizava de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios, de camisa da Nazaré desabotoada e noções sociais peremptórias e esquemáticas.”
:: Do livro Memória de Elefante, de António Lobo Antunes.

Eu sou do tipo que não fuma. Que adora o aroma de cigarros de cereja, mas não tolera qualquer outro tipo ao redor. Freqüento cafeterias, detesto café. Gosto de Truffaut, design, afins. Não permito mais do que dez pastas em um pen-drive de quatro gigas, detesto quem escreve “pra” em lugar de “para”. Morro de frio com qualquer vento, visto trinta e seis, não uso salto superior a três centímetros. Prefiro que dividam a conta comigo, pois tenho com os homens relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas. Voto socialista, no primeiro turno. Abomino best-sellers com continuações (ou seja, todos), detesto sucessos cinematográficos recentes. Desce em meu conceito quem se atrasa. Não tenho o hábito de fazê-lo, mas aprecio pessoas que tiram os sapatos à entrada da casa de outrem. Tenho joanetes, em ambos os pés. Admiro homens com barba mal feita, por volta dos trinta anos. Adoro jovens estudantes de Humanas com cabelos cacheados, mas detesto seu absolutismo quanto a estereótipos (“ou somos burgueses ou somos comunistas”, um saco). Converso com desconhecidos idosos em praças públicas, daqueles que costumam repetir infinitamente a mesma história, para que possamos ouvir-lhe com ar de novidade. Gosto de olhares cínicos e pouco confiáveis – eles sempre são o oposto disso. Aprecio aquele que saúda quem vê pela frente, sem preconceito ou falta de vontade. Detesto vegetarianos ou qualquer membro da “geração saúde” que ousa tentar me influenciar. Leio Agatha Christie, nas férias ou durante as viagens de férias. Não consigo dormir sem comprimidos – sofro de insônia. Guardo notas fiscais, panfletos de exposição, selos ou qualquer outro “documento” que me recorde momentos felizes. Leio jornais à noite: gosto dos quadrinhos, não confio em seu horóscopo, vejo a programação dos poucos eventos em minha cidade e ponho-os no chão para que minha gata possa dormir. Uso camisetas pretas e masculinas de bandas de rock farofa dos anos 80. Detesto maquiagem nos olhos, causam-me alergia. Corto as unhas rentes – do pé. Rôo as das mãos (hábito péssimo). Leio biografias de pessoas que desconheço. Ouço rádio nas madrugadas freqüentes em que não consigo dormir. Não me apaixono fácil (não mais), e estou tentando quebrar essa barreira divisória entre mim e aquele ingênuo que se interessa. Agonizo de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios (oi Chico Buarque), condenando o estilo musical dos outros. Eu sou do tipo que não fuma, já disse, apaga isso. Se continuar, vou embora. Você não entende que essa é uma maneira fácil de distanciar de mim. Fique aqui, não levante, deixa que eu pego um táxi, você está bêbado, vou pedir a conta.

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11 respostas em “Que tipo de mulher você pensa que eu sou?

  1. Você é autêntica e isso é muito bom. Por experiência própria te digo que isso costuma assustar e afastar as pessoas, mas, bem, que se dane. Não consigo deixar de admirar pessoas assim. Para cada dois que afastamos com nossa autenticidade, conquistamos um. E tenho para mim que qualidade não é quantidade.

  2. Imagino que vc deva odiar tambem seus leitores que, nao por displicencia, nao passaram mais aqui – mas por ter sido refem de um tempo sufocador.

    Devo imaginar tambem que odeie pessoas que nao poem acento nas palavras. Pois nao fique: estou com problemas no teclado que lhe escrevo esse breve comentario.

    Ca estou, depois de longa e talvez imperceptivel ausencia. Digo-lhe ja o porque: um livro. Que li? Faca-me o favor, nao sou assim tao lento nas leituras, o que nao posso negar quanto as minhas producoes. Um livro que escrevi e de que faco toda a questao do mundo que leia.

    Cronica: o jornalismo de shorts.

    Ainda nao foi diagramado, sera em breve. Mas esta pronto. Me da o seu email ao qual acessa com mais frequencia?

    Um grande e saudoso beijo

  3. Você é do tipo autêntica, daquelas que fala sem rodeios e que admira os detalhes. É crítica e escreve maravilhosamente bem.

    Essas são minhas opiniões.

    Adorei o texto.
    Beijo!

  4. entrei em outro blog qualquer e, nossa, como é bom te ler. parágrafos grandes, que fazem sentido. literatura mesmo, não discursos falados em forma digital. adoro.

    também sou daquelas que não fuma, mas prefiro cigarro de menta e narguile de qualquer coisa a cigarro de cereja.

  5. Eu adoro esse tipo de texto-crônica-confissão-desabafo…
    Bom saber mais coisas sobre você <3

    beijos, Nina!

  6. Gostei… As pessoas mais interessantes que eu conheço carregam na sua mochila alguns quilos de autenticidade. E isso não é bom? Destacar-se no meio de uma multidão que segue conformada na mesma direção, por medo da contramão.

    Adorei.

    Beijos

  7. Pior que a maior parte dos estudantes de humanas tem, de fato, os cabelos cacheados. Será que é um requisito pra entrar nos cursos? XD
    No mais, adorei o texto – como sempre!
    Beijo!

  8. Bêbado eu já estou e, querendo ou não, por mais que se zangue, a conta é por minha conta. rssr
    Adorei!

  9. Pingback: Retrospectiva literária 2011 « #sobrefatalismos

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