Sem ti, me consumiria

Chico Buarque de Hollanda aparecera em minha vida, se não me engano, muito antes do Caetano. Entretanto, eu não esboçava reação alguma de maneira positiva quanto à presença desses dois nas estações de rádio. O rádio, em si, sempre estivera presente em minha infância, dado o fato de que não tínhamos aparelho de som em casa, que reproduzisse CD’s. Haviam, entretanto, duas vitrolas. Nessas, porém, exaltavam-se tangos argentinos, dos mais antigos, que minha avó e meu pai adoravam escutar – cujos trechos me vêm à cabeça de quando em vez, cujas vozes, entretanto, nunca soube distinguir.
Então eu desprezava Chico, Caetano e toda uma áurea “bossa-novística” daquela época. Sim, o Caetano já fazia bossa-nova. Só gostava do Toquinho: ainda assim, para ouvi-lo numa Tarde em Itapuã, ou, quem sabe, desenhando-me uma Aquarela. Havia muito do pop dos anos 80/90 naquelas estações especializadas em músicas nacionais e, nesse sentido, eu apreciava bastante Kid Abelha, Marina Lima e Engenheiros do Havaí (por incrível que pareça).
O Caetano reapareceu em minha vida através de um disco estilo “the best of”, que minha mãe comprara na Lojas Americanas, quando também aparecera em casa nosso primeiro aparelho de som que reproduzia CD. As mesmas canções do rádio, com exceção de uma surpresa: Tigresa. Aquela, de “unhas negras e íris cor-de-mel”, que minha avó me cantava, quando eu era muito menina.
Quando entrei na escola de música e comecei meus estudos em flauta transversal, abandonei a programação da MTV e dediquei-me a ouvir de tudo um pouco que minha mãe guardava em casa. Amei Raul Seixas, Gal Costa, Alceu Valença, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Gonzaguinha e mais alguns – mas foram amores passageiros. Insisti para que comprasse mais discos do Caetano – e realmente precisei insistir bastante – até que ela cedera e me presenteara com outros dois: um também estilo “the best of”, com a diferença de que Alegria, Alegria viera de acréscimo (pois ela adorava a música) e o Prenda Minha, álbum ao vivo, muito belo, cujas canções partiam principalmente do anterior, Livros.
À medida que eu ia gostando cada vez mais do Caetano, crescia juntamente minha vontade de conhecê-lo melhor. Poucas pessoas sabem, a maioria me teve como uma “criança pop”, mas quase toda a minha adolescência teve o Caetano como trilha sonora, música de fundo, para todas as horas, pelo menos do término de meu ginásio até o penúltimo ano de meu colegial. No início desse namoro, lembro-me bem, pensava que era eu a “menina terra”, por quem o Caetano assumiria estar apaixonado: “signo de elemento terra”, por toda uma questão astrológica (ser taurina, com ascendente em escorpião); “do mar se diz: terra à vista / outros astros lhe são guia”.
Verdade Tropical, de Caetano Veloso, pela Companhia das Letras.Em 1997, Caetano escrevera um livro. Verdade Tropical, publicado pela Companhia das Letras, tornou-se, para mim, uma busca implacável. No ano de seu lançamento, eu era criança, de modo que o mano Caetano não fedia, nem cheirava. Durante três anos, passei a me interessar verdadeiramente pelo livro, em se tratando das opiniões polêmicas do cantor e compositor – seu modo de pensar, suas canções, sua vivência à frente do nosso próprio tempo e também o trecho sobre Gilberto Gil que fora retirado do livro e declamado por seu autor na gravação do DVD de Prenda Minha: “Caetano, venha ver o preto de quem você gosta”, dizia sua mãe, sorrindo ternamente como ela fazia. Era entrar em uma livraria e perguntar pelo título. “Esgotado” – era a resposta de todos os livreiros. Não havia mais reimpressões além da segunda, e senti que o Verdade Tropical, seria, para mim, o equivalente a Lolita, de Vladimir Nabokov: eu procuraria o Caetano, diversas vezes, em sebos, sites especializados, afins. Encontrei-o, certa vez, no Estante Virtual. Entretanto, estava bem além do que eu poderia pagar. E, pelo absurdo do preço, percebi que se tratava realmente de uma espécie de “livro raro” (mais tarde, vim a descobrir que a Companhia relançara-o em versão pocket).
Ano passado, planejei com um amigo nossa ida para uma entrevista/pocket show que o Caetano faria no Teatro Castro Alves – recebendo questionamentos de fãs e atendendo seus pedidos para as canções. Esse planejamento já decorria em um ano: encontrava meu amigo na escola, discutíamos sobre a melhor composição, ouvíamos o novo disco (diversas vezes e não necessariamente nessa ordem). No dia de comprar os ingressos (a preços excelentes, aliás), os mesmos esgotaram-se em uma hora – e olha que chegáramos cedo. Para esse tipo de evento, na maioria das vezes, são distribuídas cortesias para “personalidades baianas” e os jornalistas desocupadamente culturais. Chorei de raiva. Já havia perdido os shows de suas turnês e Zii & Zie (ou “Caetano fazendo rock”), por conta de meu problema de saúde que assustava a minha mãe que, consequentemente, não pretendia me ver dançando, pulando e gritando na frente do palco, sendo empurrada por uma platéia enfurecidamente excitada. E ela tinha razão.
O tempo passou, desinteressei-me um pouco do Caetano para amar Chico Buarque. Porque eu gosto do Caê pela razão filosófica de suas canções – ele me faz pensar. Mas o Chico me ensinou a sentir – sentir amor em cada letra, chorar, sorrir, cantar e me encantar por aquele par de olhos cor de ardósia. Ah! O Chico é outra coisa, talvez completamente diverso do Caetano, e estou em uma fase da qual preciso romancear com minha solidão, pois é minha companhia única desde sempre. Com Caetano, queria mudar o mundo, gritar e pintar meu rosto de verde e amarelo, queria ser Brasil com todas as forças, mas envelheci rápido e zombo de “quando eu era jovem” – aqueles treze, catorze anos…
Recentemente, entretanto, notando uma certa mudança nas estantes da biblioteca próxima à minha casa, precisei perguntar:
– Por acaso alteraram a ordem dos livros?
– Sim. Ordens superiores. Até nós, bibliotecárias, estamos confusas.
De modo que não encontrei o Marcelo Rubens Paiva, com suas obras em novas edições, pela Objetiva, que prometi ler. Então, fui tomada por impulso a caminhar para as biografias – que permaneciam intactas – e lá estava minha surpresa – o grosso volume de mais de 500 páginas do livro pelo qual eu tanto ansiara: Verdade Tropical, digno, diante de mim, assim, tão fácil – só porque eu havia desistido de procurar.
Sondando a bibliotecária, percebi a etiqueta nova no canto inferior esquerdo – sinal de que chegara a pouquíssimo tempo. Também seria a primeira a desfrutá-lo, a perceber-lhe as páginas já amareladas, letras miúdas, enfim. Lembro de uma entrevista que o Caetano concedera ao Jô Soares, na qual ele narrava o processo do livro, dizendo que sempre havia feito música sem que ninguém tivesse dito coisa alguma – nenhum palpite sequer. Então, quando escrevera o livro, o editor foi cortando e cortando diversos trechos, metendo o bedelho. Confessara ainda que escrevera boa parte dele no meio de uma turnê – na qual fazia diversas viagens. Escrevia tudo no notebook e acabara perdendo aquele início. Sobreveio o Chico: “ele leva a sério, faz backup de tudo”. Jô Soares também: sempre imprime várias cópias, deixa salvos os capítulos em diferentes modos de arquivamento. Caetano, no entanto, não gostava de ter compromisso com a escrita. Somos dois.
Verdade Tropical é uma “quase-autobiografia” de um artista que soube se reinventar e que acompanhou o Brasil em suas diferentes e mais importantes fases históricas de meados do século passado. Passa pelo irreverente tropicalismo – toma-o, em verdade, como suporte. Vem o exílio, “as tais fotografias” do planeta Terra (“em que apareces inteira, porém lá não estavas nua, e sim coberta de nuvens”) publicadas em uma revista internacional, que ele visualizou em plena ditadura, que originaram uma de suas mais belas composições; até 97, para o período em que ele escreve o livro.
Tomo esta obra-prima da música popular brasileira e da história de nosso país quase quinze anos após a sua publicação. Por sorte, o extenso livro também traz um capítulo inteiro dedicado a Chico Buarque – que já li com afinco. Retomo as canções do Caetano, para fundo e referência. Capítulos como títulos de música, canções inspiradoras. Recomendo – não pela minha paixão evidente, mas simplesmente por ser um desses livros que deveriam estar nas bibliotecas escolares, desses que necessitariam de estudos e interpretação mais aprofundada nas aulas de História. O Caetano é meio barroco (e sem ele, eu me consumiria – a mim mesma, eternamente – e de nada valeria), incorpora texto dentro de texto, algo visível em suas crônicas, semanalmente reproduzidas em jornais de todo o país. Mete o bedelho onde não costuma ser chamado, mantém confuso o leitor, mas a graça reside aí: nessa interação enigmática que é puro e todo Caetano Veloso, provavelmente, juntamente com Saramago, um dos filósofos de nosso tempo.

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7 respostas em “Sem ti, me consumiria

  1. Devorei seu texto, assim como faço com a maioria de seus escritos. Já li Chico Buarque, masn nunca Caetano Veloso. Não sei se era essa sua intenção, mas fiquei com vontade de correr ali na biblioteca do campus e achar “Verdade Tropical” pra ler.

    Um beijo

  2. Olha, me identifiquei demais com o texto, na parte das paixões por Caetano e Chico. Dois lindos. Só muda que descobri os dois depois de “velha”… engraçado como os gostos mudam com o tempo. Acho os dois fenomenais e tenho adorado mergulhar nas letras do Caetano.

    Beijo!!

  3. Preciso ler esse livro. Não, nunca quis lê-lo antes, mas agora virou necessidade.
    Meu relacionamento com Caetano não chega ao mindinho do pé daquele que tenho com o Chico (olha eu fazendo a íntima). Dele escuto só o Prenda Minha, que surrupiei da minha mãe, e mesmo assim bem vez ou outra, e só a primeira parte. Não gosto muito da segunda metade dele não, viu? Sei lá o que eu tenho contra ele, Caetano me irrita um pouco e acho que isso é um vestígio da antipatia enorme que minha avó tem por ele e que acabou me contagiando. Como já babava colorido pelo Chico antes de saber que ela antipatizava com ele também, não fui pega pelo veneno mas com Caetano foi diferente.
    Vou procurar o livro por aqui e ver se quem sabe começo a gostar dele.
    Beijo

  4. Se tem uma coisa com a qual não me identifica é isso, essa espécie de vertente cultural brasileira. Não ligo pra Chico, nem Caetano e nem nada disso. Só para Milton Nascimento, que foi um dos caras que embalaram minha infância – meu pai e seus vinis me fizeram uma lavagem cerebral. Acho que é exatamente por isso, pela criação que tive e as músicas que escutava enquanto crescia, que todo esse lado musical brasileiro não conversa em nada comigo. Sei que fizeram parte da história do nosso país, com toda a história da Tropicália e tal, mas não exerce fascínio sobre mim.
    Beijo, Nina!

  5. Não sei desde quando ouço Caetano e Chico. Talvez desde sempre, por causa dos meus pais. Adoro Chico Buarque, já Caetano faço questão de ter uma birrinha com ele, porque ele é o mais birrento músico que tenho notícia. Mas gosto das músicas dele.

  6. como leitora: sempre ouvi canções d chico e caetano. sempre, pq, desde sempre, se é q me entende. acho q sim.

    e as prosas dão outra oportunidade para lêr… e ver. ainda não chegei nelas. mas, quem sabe, um dia.

    chico tb tem prosas.

    um xero carinhoso

  7. Pingback: Retrospectiva literária 2011 « #sobrefatalismos

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