Os escafandristas virão

Aquilo que, nesse momento, se revelará aos povos, surpreenderá a todos – mas não por ser exótico –, somente pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio: os escafandristas virão.

Caetano Veloso e Chico Buarque.
Digo isso porque, em Verdade Tropical, Caetano faz uma comparação rebuscada entre sua canção Alegria, Alegria e A Banda, de Chico Buarque. No inesquecível festival da TV Record de 1967, ambas as canções (se não me engano, ou Chico apresentou um ano antes A Banda, não me recordo) foram apresentadas: a primeira interpretada por seu compositor e a segunda, de Chico, na voz de Nara Leão. Sucede que o Caetano exibe o pensamento do quanto as canções são parecidas – apesar de Alegria, Alegria ter sido considerada uma “anti-A Banda”. Pois “caminhando contra o vento / sem lenço e sem documento” rima com “estava à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar / cantando coisas de amor”. Acontece que, naquela época em que Chico já possuía uma importância considerável na música popular brasileira e Caetano era apenas um novato (porém não “mais um”) rebelde nordestino gerando o movimento tropicalista, Chico possuía a certeza de estar lançando uma obra menor, se comparada a Pedro Pedreiro (da mesma época), por exemplo. A Banda tratava-se de uma marchinha leve para ser cantada do carnaval ao resto do ano, com a pretensão de divertir, fazer acordar corações, para depois tudo voltar ao normal, feito desencanto, como manda o figurino presente ao findar da letra. Alegria, Alegria, não. E Caetano jamais poderia imaginar que o impacto que essa composição/interpretação causara ali, naquele festival, remotos anos atrás, perpetuaria por gerações inteiras, tornando-se hino de diferentes épocas decisivas no país em que vivemos. O trecho abaixo é o que mais intensifica isso:

“‘Alegria, Alegria’, seu bordão da temporada (ele lançou muitos que entraram na linguagem cotidiana) [trata-se de Chacrinha], se tornou o título dessa minha canção projetada para ser um mero abre-alas mas que se tornou o sucesso mais amplo e mais perene entre todas as minhas composições. Isso dentro do território nacional, uma vez que os estrangeiros – mais próximos de mim neste caso – não lhe percebem tanta graça. Sendo que os brasileiros, que nunca a esqueceram, jamais se acostumaram com o título, referindo-se a ela na maioria das vezes, não pelo primeiro verso, nem pelo último, nem mesmo pelo quase-refrão ‘eu vou’, mas pelo pregnante ‘sem lenço, sem documento’, que surge duas vezes, e em posições assimétricas, na mesma letra.”

Caetano reclama de duas coisas: da rivalidade que a mídia criara em relação a ele e Chico Buarque (rivalidade esta que, em suma, nunca existiu); e do fato de que Chico jamais ficará conhecido como “aquele cara que fez aquela música”, tendo em vista que Alegria, Alegria causou uma comoção grandiosa e de acordo com aquele período. Segue o trecho:

“Eu não estava plenamente consciente de todos os seus aspectos e implicações, mas sabia vagamente que ‘Alegria, Alegria’ era, entre outras coisas, uma espécie de paródia de ‘A Banda’, um aproveitamento mais descarado da oportunidade do festival, trazendo a um tempo mais crítica e mais aceitação do fenômeno TV. Hoje considero muito revelador (mais de minha ingenuidade do que de minha lucidez) o fato de Chico ter se livrado de sua canção-cartão-de-visita como eu não pude livrar-me da minha. Estou certo de que ele não se sentiria especialmente feliz se as pessoas ainda lhe repetissem que ‘A Banda’ é sua melhor música, ou que ligassem seu nome exclusivamente a ela, como frequentemente fazem comigo.”

O meu primeiríssimo contato com Chico Buarque se dera através de um livro didático de segundo grau, de Língua Portuguesa, que minha mãe trouxera para casa, em razão de ter retomado os estudos após ter cuidado de minha educação até meus quatro anos de idade. Ela estava a estudar interpretação de texto, e eu estava sendo alfabetizada em casa, pela minha avó paterna, que fora professora. Logo, era natural que gostasse de abrir qualquer livro em qualquer página e passasse a ler qualquer coisa. A Banda estava ali, estampada em estrofes de quatro versos (ou versos de quatro estrofes, pois juro que nunca cedi mais do que cinco segundos ao entendimento poético – apenas gosto – o que me torna ignorante diante da estrutura de um soneto, por exemplo), e eu lia devagar, para captar a dicção e compreender melhor, quando minha mãe começou a cantar, com ritmo e desenvoltura o que eu narrava com dificuldade e sem declamações.
Mas cresci ouvindo Caetano, que mais combina com minha personalidade libertária, apesar de ofuscar-me em todas as canções (Chico, ao contrário, permite nossos duetos, alcanço a sua voz). E sucedeu que, um dia, me vi diante de uma verdade irrefutável: não posso viver sem esses dois. Ambos foram – e ainda são – necessários para o Brasil que fomos, somos e haveremos de ser. A compreensão da musicalidade de Chico Buarque e Caetano Veloso vai muito além de épocas determinadas – o que os torna atemporais. Gosto mais do Caetano, é verdade: por toda a sua ousadia – característica ímpar que Chico, infelizmente, não possui, sempre apresentando “mais do mesmo”, enquanto o Caetano sai do samba e volta rock’n’roll, de uma maneira que ninguém esperaria.
Anna Vitória detestaria me ouvir cantar, como faço, enquanto lavo os pratos da cozinha, a belíssima Futuros Amantes, que já fora tema de uma crônica sua. Digo isso porque assumo um inevitável sotaque carioca ao afirmar que “os escafandristas virão explorar sua casa / seu quarto / suas coisas / sua alma / desvãos”, porque sai ao modo buarquiano de se cantar, ou seja: “os essscafandrissstas virão exxxplorar sua casa / seu quarto / suasss coisasss / sua alma / desvãosss”. E pior é que eu canto assim desde sempre, o que levara meu professor do coral a reclamar do excesso de “esses”, apesar de elogiar a grandiloqüência e firmeza da minha voz. Esses duetos que pratico com o Chico religiosamente aos fins-de-semana é que podem ser considerados culpados de minha nervosa dicção. Mas não me importo, não pretendo brilhar nos palcos por esse meio.
Daí que, tal como A Banda é plural em relação a Alegria, Alegria, também considero o fato de que Um Índio, do Caetano, é quase idêntica a Futuros Amantes, de Chico. Com a leve diferença de que a primeira traz um âmbito social, enquanto a segunda trata de um amor que se perpetua tanto quanto o trecho “sem lenço, sem documento” que intensifica a trajetória do Caetano.
Ambas parecem ficção científica. O fato de que um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante em um futuro próximo do qual haveremos de arrependermo-nos pela civilização imposta através da expansão marítima de países europeus em busca de riquezas nos trópicos (séculos atrás), intensifica o fato de que vendemo-nos cada vez mais a uma cultura que nos julga indiferente: aquela que é mais americana ou japonesa possível. Esse futuro de Um Índio já existe – a cada dia que passa, tornamo-nos cada vez mais dependentes da tecnologia, de tal forma que a nova geração (a minha, em verdade) não saberá sobreviver sem ela, por já ter nascido com ela. Em meu período de colegial, meu excelente professor de História do turno noturno frequentemente afirmava um fato: não existem culturas superiores e/ou inferiores. Os franceses não são melhores do que os americanos e estes não são piores do que nós. E nós não somos melhores do que a África, por exemplo. No meio disso tudo, claro, há controvérsias. Mas não posso fazer, por exemplo, o que muitos evangélicos fazem aqui na Bahia: constroem um templo em cada esquina e condenam – ao mesmo tempo em que massacram, deliberadamente – o candomblé. Detesto ouvir alguém dizer que “português é burro” e que tal evento é “programa de índio”: porque a troça da resposta é o que somos – descendemos de índios e portugueses, isso explica o sobrenome de minha mãe e os olhos claros que herdei – não há como negar nosso próprio berço.
Futuros Amantes traz-nos um amanhã mais que distante: para quando a vida humana for extinta e o nosso amor continue a existir através de fragmentos que certos alienígenas descobrirão em um Rio de Janeiro debaixo d’água (imaginem). Esses intrusos virão em causa de pesquisa, e serão escafandristas a explorarem contextos acima de sua compreensão: a capacidade que uma pessoa tivera de esperar por outra, durante tanto tempo, pois a interpretação que a música apresenta é de que o amor chega para todos nós, portanto, não há necessidade de se afobar “que nada é pra já / amores serão sempre amáveis / futuros amantes, quiçá / se amarão sem saber / o amor que, um dia / deixei pra você”, um romance guardado a sete chaves, em forma de diário, em páginas de livros, resquícios de perfume, cartas, lembranças. Talvez, por isso, sempre achei essa canção meio adolescente, embora ela não tenha me consolado no período do amor primeiro, quando mais precisei.
Cerca de um ano atrás, estava em um bairro nobre daqui de Salvador, apinhado de restaurantes e hotéis, além de residências de alguns famosos e empresários, quando, ao findar da tarde, tomei um ônibus que passaria pelo trânsito próximo da orla marítima, e então recordei Futuros Amantes. Naquele dia, decidi que, assim que pudesse, compraria um carro, aprenderia a dirigir e faria todo aquele percurso: com o mar servindo de paisagem e ocular testemunha, ouvindo o disco que traz essa canção, ouvindo-a, repetidas vezes, atrevendo-me a dirigir de olhos fechados, sentindo o vento salgado de maresia no meu rosto – com as janelas abertas (“percorrer correndo corredores em silêncio”) ou, se eu tiver muita sorte e ficar rica, haverá de ser um conversível (vermelho, é claro). E estarei a dirigir rumo ao infinito (o que, certamente, me sairá semelhante a essas propagandas de carro, que abusam de intuição e/ou instintos humanos para vendê-los), provavelmente serei levada até alguma cidade submersa, ganharei roupa de escafandro e meu carro transformar-se-á em submarino. E verei minha casa, adiante: situada em um Rio de Janeiro que desconheço, mas repleta de minhas peculiaridades. E sentirei saudades: dos diálogos inacabados e daqueles que jamais existiram, também de uns papéis de carta debaixo do colchão e algumas embalagens de chocolate que determinem um momento marcante. Considero estranha a idéia de explorar minha própria vida, ou de tê-la explorada por outros. Mas penso que isso só demonstra o quanto somos supérfluos, efêmeros diante da magnitude que é o eterno – mesmo quando o eterno é utópico, em sua maioria. Recordando outro trecho de música, “o verdadeiro amor é vão”, e talvez eu já o tenha vivido, sem notar. Se não, ao menos resta-me o consolo de um Chico que me põe no colo e corta meus soluços, porque nada é para já, o amor não tem pressa e ele pode esperar, mas nunca em silêncio: sempre haverá esse par de olhos cor de ardósia para fazer-me companhia. E, se ele vier a faltar (Deus queira que não), ainda tenho o Caetano, que me sacudirá pelos ombros fazendo-me acordar. São eles os meus verdadeiros amores. E meus futuros amantes, quiçá.

“Eu já sabia então que as canções têm vida própria e que outros podem revelar-lhe sentidos que seu autor não teria suspeitado.”
:: Do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso.

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6 respostas em “Os escafandristas virão

  1. Fazia muito tempo que não vinha aqui e me senti muito culpada por isso, mas andei atolada de afazeres e peço para que me perdoe.
    O fato é que quando cheguei na terceira linha do texto arrependi-me ainda mais, tendo em vista que você realmente me encanta com seu modo de escrever. Parabéns.
    Além disso, Chico e Caetano são meus grandes amados da música nacional. Certamente compartilham meu amor com Vinícius e Tom, mas entre os vivos ganham longe de qualquer outro. Cada um com sua peculiaridade e singularidade que os tornam essenciais para a propagação de uma real cultura brasileira, cada dia mais escassa perante a quantidade de informações estrangeiras que recebemos. Eles são ótimos. Mas devo ressaltar que gosto mais é do Chico, por causa de seus cd’s antigos, da época da ditadura. Acredito que ele revolucionou muito do país com sua arte e deveria ganhar prêmios maravilhosos e ser renomado e todas as pessoas do país deveriam conhecer suas músicas e entender as metáforas nelas contidas. Mas Caetano não fica muito atrás não. Não mesmo.
    Tentarei ler todos os textos que perdi e provavelmente comentarei em alguns! Fiquei feliz ao ler seu blog e ainda acho que você deveria ser jornalista remunerada. Merece.
    Beijos, Mayra.

  2. Pedro Pedreiro é de uma perfeição imensa. Cito sempre em meus textos. Pedro Pedreiro.

  3. Me sinto mal de dizer isso, mas a verdade é que do Chico conheço algumas poucas músicas e que do Caetano conheço menos ainda. Fica para 2012, com tantas outras coisas.
    Bjs!

  4. Nina querida, que crônica sensacional! Pode tatuar nas costas?
    Me perdoe a demora para vir lê-la; queria fazer isso com tempo para apreciar cada palavrinha sua colocada de forma tão esperta e bonita, e o tempo me estava faltando.
    Agora que já li e reli, posso pedir para que você nunca para de escrever sobre esses nossos amores?
    Assisti Uma Noite Em 67 e me lembrei muito de você. Se ainda não viu, CORRE!
    Beijo

  5. Que texto bonito, Nina! Nunca fui muito de ouvir Chico e Caetano, mas gosto muito dos dois. Outro dia na aula de cultura brasileira li um texto baita sobre tropicália e antropofagismo e deu muita, mas muita vontade de estudar mais sobre a música do Caetano.

    um beijo!

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