Comercial de margarina

2012 é um ano do qual desconheço as férias. No tempo do recesso de ano letivo, era fácil desfrutar dos livros que eu comprava o ano inteiro para distrair minhas horas mortas. Agora, porém, não existe mais isso.
Engana-se quem pensa que trabalhar em uma livraria significa que você terá ao alcance das mãos todo o acervo ali existente. Primeiro é necessário tempo. Durante o Natal, numerosos clientes me procuravam para dicas de livros, enquanto muitos outros caçavam best-sellers. Vi as estantes ficarem vazias, aos poucos. Lembro que desci com muitas cestas de livros – e Nickolas Sparks ainda vende que nem água. Biografias de Boni, Steve Jobs e Glauber Rocha fizeram o maior sucesso. Também auto-ajuda, como sempre. Foi um período difícil para quem não estava acostumada. Passei a trabalhar oito horas sem direito a folga. Trabalhei de madrugada acreditando que seria a maior das diversões, mas cometi o erro de não ter conseguido dormir durante o dia e, por isso, adquiri o pior dos humores. Devo ter “espantado” alguns leitores.
O lado positivo era que tirávamos uma hora de almoço, ao invés de quinze minutos (como acontece para quem trabalha seis horas). Nunca fiz compras de Natal em tempo tão recorde. Precisava muito de roupas – e descobri que o amor faz com que abandonemos o preto total por vestidos longos com estampas de flores. Voltei a ser hippie. Tudo que tem flores miúdas em fundo claro torna-se meu desejo de consumo. Nova fase.
Na minha lista de presentes, livros não poderiam faltar. Funcionários da livraria, obviamente, compram com desconto. Resolvi ME PRESENTEAR. Porque, em 2011, fiz tudo direitinho, realizei um sonho grande de trabalhar com livros, fiquei imensamente feliz. Daí que comprei um box de livros da Virgínia Woolf, pela editora Novo Século, que contém seis de suas mais importantes obras. Também dois Saramagos, um Jane Austen e um Vargas Llosa. O Professor de Filosofia presenteou-me com um Kerouac – On The Road, O Manuscrito Original, recentemente lançado pela L&PM Pocket (na livraria concorrente, mas tudo bem).
O meu trabalho tem um projeto muito bom de incentivo à leitura. Os funcionários podem levar para casa dois livros a cada quinze dias. Isso é ótimo para dar dicas aos clientes e acompanhar “as tendências do mercado editorial”. Percebi que tenho uma lábia muito convincente para a coisa. Eu amo o que faço.
Agora mesmo peguei um livro da Hilda Hilst (aquela gatíssima pornográfica) e outro do Cristóvão Tezza. Porém, desde que comecei a trabalhar lá, perdi o hábito da leitura. Chego em casa muito cansada. Durmo para acordar quase na hora do almoço. Vejo os livros se amontoarem no chão do quarto e eu só preciso de mais de vinte e quatro horas por dia para dar conta. Ser livreira é desgastante: são seis horas em pé – e sem ficar parada (se bem que ficar parada é pior, a pressão cai). Às vezes atendo cinco pessoas ao mesmo tempo, enquanto desço livros, enquanto arrumo prateleiras. Mas gosto dos meus pés cansados no fim do dia – sinal de esforço. Fico satisfeita.
Sim, quando se trabalha em uma livraria, temos a oportunidade excelente de conhecer pessoas interessantes. Todo mundo que trabalha comigo é bem legal. E os clientes tornam-se amigos de infância. Como, por exemplo, um senhor que só lê Tolstói e Dostoiévski; um psicólogo que ama biografias nacionais; um guri que me procura com uma lista imensa de literatura e uma mocinha que se entrega aos romances mais bobinhos.  Conheci um Escritor de Verdade. Eu nem sabia. Acontece que ele visitava sempre o setor literário. E sempre conversávamos. Um dia, o rapaz do estoque pediu que eu colocasse alguns exemplares do lançamento dele na mesa de literatura nacional. Então descobri. Cerca de uma semana depois, ele me dera seu livro de poesia de presente – e autografado. Virei a noite lendo. Gostei muito.
Muito tempo atrás, recebi aqui no blog a visita de uma escritora que poucos de vocês conhecem, mas que muito aprecio. Normalice Souza deixou-me um comentário que jamais esqueci, em relação a um trecho de seu livro, Canção Inglesa, que eu havia publicado. Ela retornou recentemente a este espaço – e passamos a comunicarmo-nos via e-mail. Ela acaba de me mandar um conto lindo (que irá para o seu novo livro) e pediu minha opinião. Eu nem sei o que dizer. ela diz que lhe massageio o ego, mas a verdade é que fico paralisada quando sei que a literatura é boa, que vale à pena escrever para aliviar muitos pesos, que este é o caminho certo para nós duas. Contei-lhe onde trabalho. E, embora seja frequentadora assídua do espaço, foi lá só para me ver. Está lendo Claraboia, o livro póstumo de Saramago. E levou um Benedetti que lhe indiquei (espero que esteja gostando). Normalice é uma senhora bonita, com bastante vitalidade e um par de olhos recheados de esperteza. Mais um dos presentes maravilhosos que recebi no ano anterior.
O Gerente Sênior da minha livraria está acompanhando este blog. Ele elogiou, dizendo que possuo uma rqueza de detalhes muito grande, que dá vontade de continuar lendo. Com isso tomo muito cuiado – pois bem sei o tamanho gigantesco dos meus textos. É estranho saber que o chefe sabe o que você está pensando – e esta crônica bem pode parecer uma “puxação de saco”, mas não é. Não sei mentir enquanto neste espaçço. E fico contente que ele apareça aqui.
O meu namorado diz que o meu trabalho é cor-de-rosa, feito comercial de margarina: aquele no qual tudo é perfeito. Não é bem assim. Naturalmente, como em qualquer local de trabalho, lidamos com pessoas e hábitos que desconhecemos. Mas cada pequena dificuldade vai sendo aos poucos superada. E repito: amo o que faço. Amo, e espero continuar nisso.

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12 respostas em “Comercial de margarina

  1. Ah, Nina, como é lindo ver quando as pessoas estão felizes. Consigo imaginar o brilho nos seus olhos escrevendo o post, e trabalhando, indicando livros, conhecendo pessoas maravilhosas, e cheia de florzinhas.
    Estou aqui planejando coisas para escrever, tentando aprender francês, e ainda não comecei a ler nenhum dos livros na caixa implorando para ser aberta… uma vergonha!

    Nem sei o que falar direito, mas é só pra dizer, fico feliz de ver você tão feliz assim. <3

  2. Nunca duvidei da minha escolha profissional (sou professor), embora, ultimamente, eu tenha tido uma vontade incontida de ter sido jornalista, de hoje trabalhar, pelo menos, num suplemento de cultura de um bom jornal e tal. É aquela história das outras vidas possíveis, mas só se vive uma vida (fisicamente) de cada vez. E eu também gosto do que faço.

    Que bom que você gosta do que faz – isso é perceptível nos seus textos aqui. Você ama os livros e a leitura, como não amar? E amar faz um bem danado, seja um livro, um homem, um peixinho dourado ou um cacto. É amor igual. Que bom que descobri este espaço, é uma delícia.

  3. O mais importante é que, apesar do cansaço, você está gostando do seu trabalho. E isso definitivamente não tem preço! Beijos

  4. Puxa Nina, apesar do cansaço, deve ser mesmo maravilhoso trabalhar em uma livraria! Eu tenho muita vontade! E essa de poder pegar 2 livros a cada 15 dias, que maravilha!
    Aproveite muito!
    Beijoss

  5. Você sabe que eu tenho uma invejinha boa de você, por trabalhar em livrarias né? eu sou louca por livros e literatura, Saraiva e Livraria Cultura aqui são o supra-sumo do meu descanso e ah… vendo você falar assim, que ama tanto o que faz só faz aumentar a minha vontade.

    beijos e feliz 2012

  6. Trabalhar em livraria e perder o costume de ler: irônico, no mínimo. Mas tem aquele ditado, não é? “Em casa de ferreiro, espeto de pau”

    Não consigo gostar de Virgínia Woolf! Tem algo em mim que diz: Goste dela! Mas, gente, não dá. Acho que sou muito turrona com todas as coisas e me fecho pra novidades, deve ser isso. Mas vamos lá, continuo tentando. Quem sabe um dia!

    Eu acho que todo o elogio que você recebe é merecido! De verdade. Já lhe disse que tenho até vergonha de me denominar “escritora” após ler um texto seu! Você ama o que faz porque tem o dom. É uma delícia ler o seu blog, e por mais que o texto seja sobre coisas simples, você consegue torná-lo sensacional! Bem naturalmente, sem esforços. Consigo perceber!

    Muitas vezes eu penso em contratar você como, hum… vejamos, personal literária ou qualquer coisa assim hahaha morro de vontade de ler todos os livros que você cita (ok, nem toooodos, mas uma grande parte)!

    E se afastou alguns leitores, pelo menos eu tô por aqui ainda :D
    Beijos

  7. imagina só, você de vestido longo e floral, deve ficar um arraso.

  8. Olá Nina,
    Que delícia de texto. E mais delícia ainda poder fazer o que se gosta todos os dias.
    Seu post me deixou com uma pulga atrás da orelha com algumas questões pessoais que ultimamente venho ponderando (sobre isso de gostar do que se faz x fazer algo que dê um sustento). Quanto a isso a sua situação atual me parece ideal: sustento e prazer.
    Um grande beijo!

  9. bom, o comentário anterior, foi só pra pontuar uma coisa rs
    agora vamos para o comentário sério (uhauahua)

    acho tão legal você dizer que ama o que faz. sendo que em momento algum você comentou sobre dinheiro. “ó, eu não ganho o suficiente…” ou então “o salário me satisfaz”. ora essa, não é que não tenha importância, mas o sonho, o gosto, a experiência, o depois, o contato ainda mais íntimo com os livros, e agora também, com seus autores, vão enriquecer sua vida, e dar mais certeza do que você procura/pretende pra si. Nina, continua. saber cedo o que se quer faz bem pra alma.
    desconstruir pensamentos antigos (como eu vivo) é custoso.
    é bom ver que você em momento algum pensou: “e se… e se não der certo? e se o caminho for outro?”

    continua e voa, Nina. acredito em você. Beijos

  10. Nina, essa não é a primeira vez que visito seu blog. Adoro me deliciar com a maioria de seus textos e fico contente quando venho aqui e percebo que tem uma coisa nova para ler. Eu preciso dizer que te invejo: por você saber escrever tão bem; por você tornar acontecimentos contianos tão maravilhosos; por você amar o que faz; por você, diferente de mim, ser apaixonada por literatura (pois é). Sou eu ler suas postagens, fico maravilhada com a simplicidade e a magia das quais você se utiliza ao relatar fragmentos de sua vida. Mesmo sem te conhecer nem ter algum vínculo afetivo contigo, me animo e me orgulho ao ler o seu “eu amo o que faço”.

  11. Que nova fase mais empolgante!

    Tenho paixão por livrarias desde pequena, graças a boa influência dos meus pais…
    Nunca trabalhei em uma, mas como trabalho ao lado do shopping, vou a uma com freqüência.
    Entendo quando você se refere a falta de tempo nas férias – que no meu caso são só letivas. Parece que chego em casa tão cansada, me faltam as forças. Durante as aulas parece que “dava conta” disso e até mais, agora não consigo.

    Bom passar por aqui…

    Feliz Ano Novo (atrasado)!
    ;D

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