Brilho opaco da minha mente de vagas lembranças

Segundo estatísticas de fontes pouco duvidosas (como estou repetitiva), a probabilidade de rever indivíduos do seu passado aterrador quando se trabalha em uma livraria é maior do que a de conhecer pessoas novas.
Volta e meia me aparece um ex-colega do ensino fundamental, amigo de uma prima minha ou vizinhos à espreita. Dessa vez apareceu um rapaz com uma “mocinha à tiracolo” para consultar um livro que sua mãe havia pedido e que ele, obviamente, não recordava o título.
Como de praxe, a obra mais duvidosa do que a minha estatística pouco duvidosa não constava no sistema. E, para puxar assunto em plena noite de domingo (um “quero fazer requisições para o meu setor, deixem-me em paz!” expandia e latejava incansável em minha mente), perguntou se eu era irmã de Fabiana. Respondi afirmativamente, imaginando um “ai, que saco, mais um amigo da minha irmã para o qual ela me apresentou e eu não lembro o nome”. Mas o fulano dissera o seu nome e eu me lembrei. Lembrei que ele era infinitamente mais magro, um verdadeiro palito – mas agora deve estar frequentando a academia, porque né? Os rapazes dessa idade não pensam em outra coisa para nos impressionar. Lembrei que já gostei dele na infância, remotos tempos, nos quais juntávamos primos e toda uma vizinhança (porque essa era a posição social dele no meu ponto de vista: ser vizinho da minha irmã). Lembro que ele não podia “brincar de correr” após as oito da noite porque ficaria suado e não quereria voltar para casa a fim de dormir, pois precisaria acordar para o Colégio Militar no dia seguinte, às cinco da manhã. Lembro que o pai dele era bravo e fazia chorar às vezes o garoto mais valente que conhecíamos (aprendi, naquela época, que todo ser humano tem medos e fraquezas). Lembro que ele tinha o mesmo nome desse pai bravo – que, em verdade, nunca soube como se chamava – pois nós conhecemos o seu filho como Júnior – até hoje. Lembro que ele se perfumava todo para as festas de aniversário que aconteciam na entrada/sala de estar da casa de minha avó. E lembro da Camilinha: a menina que morava na casa de chão de pedrinhas coloridas que pareciam mosaico (e que também era apaixonada por ele). Lembro que a Camilinha estudava demais – até nas férias. E lembro que a mãe dela era uma pessoa com o máximo de mediocridade para reconhecer-se superior naquele notável subúrbio. Lembro que a mãe da Camilinha raramente permitia as saídas da filha – e não fazia questão de entreter-se com a vizinhança – sejam nas gentilezas ou comentários de outras vizinhanças, essas sutilezas do cotidiano que nos faz adentrar uma obra de Saramago, às vezes.
Mas eis que a Camilinha era a “mocinha à tiracolo” do Júnior, ali, no shopping, no meio da livraria. E, na mesma proporção que reconheci o moleque, não me recordei absolutamente dela. Mas abracei-a com a mesma cordialidade de uma estranha comum. Ambos foram embora e eu tentei me lembrar dela. Forcei bastante até conseguir e o resultado fora o esboço acima. E olha que costumo me orgulhar da memória de elefante que eu cria possuir até então.

Hatsumomo, personagem interpretada por Gong Li no filme Memórias de uma Gueixa,
Há uma cena crucial no (excelente) filme Memórias de uma Gueixa na qual, em um dos célebres acessos de fúria da personagem Hatsumomo, a mesma queima a casa em que vive, por inveja de Sayuri – sua principal (e única) concorrente na “calçada da fama de gueixas audaciosas”. E então a narradora – uma Sayuri envelhecida – questiona se ambas eram mesmo tão diferentes assim, pois ela poderia ter-se encaminhado na mesma direção da outra.
Fiz a comparação porque havia uma “guerra fria” entre minha persona e a tal da Camilinha. Uma espécie de lúdica disputa de território no período das férias escolares – quando eu passava cerca de quinze dias na casa da minha irmã e era frequentemente requisitada em minha sala de visitas para convites de brincadeiras no pátio. E a Camilinha não saía de casa. E gritava ofensas de sua janela. E eu respondia. E acabei abraçando-a na livraria.
Capa do livro A Intrução dos Amantes, de Inês Pedrosa para a editora Planeta.Como a vida em tudo faz par com a literatura, lembrei-me de Isabel e Cláudia – as versões lusitanas de Gossip Girl para o livro A Instrução dos Amantes, de Inês Pedrosa. Cláudia possuía a virtude de ser bela e desenvolta, do tipo que chama a atenção dos rapazes e coleciona namorados. Isabel é o contrário; escreve para curar as mágoas e se reprime amarga e inutilmente por em nada ser parecida minimamente com a amiga. E me pergunto quem representava quem nesse meio todo. Num livro infinito e repetitivo no qual o destino de terminarmos sem diferenças tal como as duas personagens de Pedrosa me parece impossível ou, pelo menos, distante.
Porque, se ela era uma “mocinha à tiracolo” do Júnior, claramente de mãos dadas com o rapaz, claro também estava o fato dela ser sua namorada. E ambos, provavelmente, estavam dando uma volta no shopping após o cinema. Só percebi que o mundo era injusto no seguinte sentido: ela me abraçou de má vontade (sem dúvida com uma memória mais eficiente do que a minha) e eu só respondi “estou bem” para a pergunta que ele me fez, sobre minha situação atual. Porque eu poderia ter respondido que “casei, estou no emprego dos meus sonhos e SURPRESA: acho que desisti de História para fazer Museologia porque o curso tem pouca concorrência e pouquíssimas pessoas sabem que isso dá dinheiro” ou algo do gênero. Mas não. Respondi atônita com aquela ressurreição da maneira mais errônea e vaga possível. E ficou por isso mesmo. E ambos partiram, com certeza relembrando algumas tiradas clássicas de história em quadrinhos da real life. Esse é o meu clube.

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10 respostas em “Brilho opaco da minha mente de vagas lembranças

  1. Se tem uma coisa que eu tenho aflição é de reencontrar semi conhecidos ou gente que eu não vejo há muito tempo. Nunca lembro quem é, não tenho assunto e depois ainda fico pensando na pessoa por horas. Não tenho estrutura haha

  2. apesar de achar memórias de uma gueixa um filme tremendamente ruim, o mundo é assim mesmo, cheio de reencontros indesejáveis. não só em livrarias.

  3. Sobre fazer faculdade de História eu tambem estou num impasse, na mesma hora que parece que ninguém faz esse curso, as provas mostram o contrario.
    Seu emprego dos sonhos é o mesmo que o meu, mas aqui na minha cidade mal tem uma livraria quanto mais uma que preste.
    Quanto a encontrar pessoas esquecidas e indesejáveis, é sempre o mesmo, o mundo dá voltas e por ser tão pequeno essas coisas acontecem…

  4. Ué, casou? Acho que não venho aqui há alguns posts-luz. Que post curto, por sinal, quê que houve? (: Esperava encontrar algo sobre a cidade fantasma na qual estamos vivendo esses dias; passei às 21 na frente do seu shopping hoje e estava deserto. Esse emprego é mesmo perfeito pra você. Sucesso! Beijos.

  5. É verdade que você casou? Fiquei tempo demais por fora daqui, de novo! e Museologia parece ser muito legal! Queria estudar isso, mas não tinha na universidade daqui e não me deixaram mudar, infelizmente. Quem sabe um dia… Sobre a Camilinha… Essa história me fez repensar o meu desejo de trabalhar em bibliotecas/livrarias, não fui a pessoa mais querida ao longo da minha infância e tudo bem que me mudei trocentas vezes, mas não saberia o que fazer caso encontrasse alguém tão dos velhos tempos assim. Eu vivo no passado. Minha memória quanto a pessoas não costuma falhar. Eu ia era dar um jeito de eles serem atentidos por outra pessoa, tudo para evitar um abraço falso, sorrisos amarelos e inconveniências do tipo.
    Fico feliz em ver que você anda bem consigo mesma! Parabéns! Abraços!

  6. Acho que conheci muitas Camilinhas na minha vida, algumas já revi, outras não. E no final sempre fico pensando que “eu podia ser só mais uma”, talvez eu até seja “só mais uma”, mas estou buscando ser do meu jeito. Não faço ideia se esse é o “caminho certo”, mas guardo uns sorrisos no final do dia, e penso que a vida ainda deve guardar algumas boas surpresas.
    Bom ler sua felicidade, e bom que a Camilinha conseguiu o que queria, afinal, você também está vivendo seu sonho.

    Beeeeijo!

  7. Gostei desse post cheio de memórias, mesmo que forçadas pela situaçao. Outrodia estava com um paquera (já que estamos falando de coisas antigas) num bloco de carnaval e descobri que ele e amigos dele moravam no meu bairro, que era essencialmente residencial e todos viviam na rua. O próprio paquera morava muito perto de mim e a gente nunca se esbarrou. Porque eu mesma era uma espécie de Camilinha. Vivia estudando e quase nao saía de casa, no máximo ia na casa de umas vizinhas cujas maes eram amigas da minha mae. Que coisa.

  8. Às vezes é tenso você rever pessoas do passado e não lembrar muito, principalmente nome. Eu sou um desses. Por isso prefiro nem reencontrar, justamente por conta disso, parece que o diálogo não cruza, não se forma e fica um constrangimento notável.

    Mas é assim Nina, as pessoas vem e vão, surgem e somem. Voltam e trazem consigo lembranças de um ontem recente. Às vezes que não queremos lembrar ou que gostamos um pouco…

    Faz parte.

    Ah, senti saudades gigantescas de ti…
    ps: voltei de férias! =)

    Beijo carinhoso!

  9. é doidera mesmo. mas é isso aí. talvez até se vc se mude pra Jupiter, encontre alguém conhecido ;D o mundo é desse tamanhico. às vezes queria q fosse diferente. e um dia estar em um lugar com pessoas completamente desconhecidas. na índia, talvez, seja mais difícil encontrar um rosto familiar ;D xero no coração. ahh, t add no face.

  10. fiquei pensando se vc não teria dado um abraço a contragosto se tivesse se lembrado dela na hora, rs. eu teria ; )

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