Shuffle

Não temos televisão em casa, às vezes penso que essa é a maior das bênçãos para, no instante seguinte, discordar do meu vazio interior de preencher as vagas horas da madrugada (Jô Soares – você faz falta). Quero retomar aquela trilogia básica de Jornal da Globo com Programa do Jô e filme água com açúcar. Enquanto as “férias” (para a maioria dos brasileiros, é claro) terminam com chave de ouro através da avalanche de bons seriados globais, contento-me em ler revistas nas parcas horas vagas e dominicais do meu trabalho: a verdadeira bênção é ter uma hora de descanso.
Nunca havia parado para ler a Piauí, embora, em raríssimas ocasiões, quando questionada sobre o conteúdo da revista, tenha “admitido” que era interessante, porém não uma de minhas prediletas. Eu sou muito cara de pau para mentir, às vezes. Típica hipster que tenta ser cult pagando pau para revista do gênero. Ainda assim, não tenho responsabilidade alguma para falar dela, pois não compreendo o objetivo de algumas de suas colunas. Mas parece ficção, literatura. Estarei enganada?
O fato é que possuo uma preguiça imensa para recorrer aos conteúdos que alteram meu cotidiano. E, para estabelecer uma nova rotina, decidi que, caso eu chegue cedo no serviço, pegarei uma revista para ler e seja lá o que Deus quiser.
Comecei com a Época porque, de revista “séria”, só conheço Veja e IstoÉ. A segunda não me atrai e a primeira contém em si um vasto currículo de entrevistas de grandes nomes da música popular brasileira com opiniões alteradas por jornalistas gananciosos. Pode significar o mesmo para a frase “O Estado de S. Paulo é manipulado pelo governo”, mas eu não ligo. Até recuso aquele que é considerado o jornal mais importante do país.
Daí que na coluna intitulada “cultura” ou “comportamento”, presente em uma das edições de fevereiro, a Época veio com essa matéria para mostrar que, mais uma vez, eu não estou “de todo só no mundo”.
A revista denomina “jovens de espírito velho” como a “geração shuffle” – aquele botãozinho agradável para “misturar” as músicas de uma playlist, existente no aparelho de som da sua casa, nos programas para ouvir música do seu computador e também nos milhares de “mptrecos” que a alta tecnologia cria e recria a cada segundo.
Interessante como tudo ficou mais antigo enquanto vivemos a melhor fase da era digital. A última moda é editar fotos em programas que consigam envelhecê-las ao invés de deixar nossos rostos absurdamente perfeitos, como cartazes de marca de cosméticos européia com atrizes famosas fazendo pose para os mesmos. Já poderíamos aderir a roupas na cor prata e verde flúor, andar por aí como se tivéssemos acabado de sair de um filme de Spielberg ou obra de Huxley; mas o que realmente importa é com qual vestido florido meio riponga dos anos 60 eu vou trabalhar hoje. Filmes? Qualquer um com Audrey Hepburn é referência – mesmo que nunca tenhamos assistido. Ouvir bandas indie não é o suficiente: o ritmo jamais será o novo grounge e você precisa saber quem foi Bob Dylan e/ou Janis Joplin. E, de quebra, vai dizer que é impossível viver sem ela e Adele. No campo literário, vale à pena Bukowski, Kerouac, e alguns clássicos universais e/ou autores marginais para que sejamos “alguém na vida”. Anos de luta pelos direitos e independência da mulher moderna caem por terra quando tornamo-nos submissa na cama no papel de pin-up’s. Nós, habitantes da perdida e solitária “geração ‘z’” sabemos tudo, mas pecamos feio no quesito originalidade. Pelo contrário: repaginamos. Ou seja.
Naturalmente, isso se reflete em mim. Acho bonito lingerie de bolinha, calça de cintura alta, inclusive isso faz parte do meu guarda-roupa. O ápice da cafonice de terceira idade veio dia desses, quando saí para fazer uma consulta no oftalmologista (finalmente) e passei em diversas óticas, impressionando dezenas de funcionárias com o meu “ensaio sobre a cegueira” de um astigmatismo e miopia de quatro graus cada (nem a médica entendeu como consegui enxergar esses anos todos e ler mais de sessenta livros no ano passado vendo tudo turvo, embaçado – Saramago perde para mim): óculos “retangulares” estão na moda, mas quando eu os punha em meu rosto, enxergava apenas moldura, armação. Na ótica mais meia-boca encontrei a metade da laranja, o colírio dos meus olhos: um par de óculos retrô, de armação vermelha, grande e… bem, a minha cara.
Acho que, no mesmo dia, vi um fusca cor-de-rosa num ensaio dantesco de concesionária. Entrei, fingi fazer um test-drive e me apaixonei pelo negócio. Eu pretendia seriamente ficar rica e mandar fazer uma carruagem dourada no estilo dos filmes de época que a Keira Knightley interpreta, porém, se nada mais der certo, acredito conseguir adquirir pelo menos aquele fusca.
Voltando ao assunto “não-tenho-televisão-em-casa”, cada vez mais fica difícil acompanhar as notícias do dia-a-dia. O Brasil inteiro sabe que, aqui na Bahia, os “competentíssimos” policiais decidiram fazer greve. Greve esta que tornara-se motim em pouco tempo. Eu e o meu marido só ficamos sabendo porque um amigo nosso telefonou avisando que desmarcaria o nosso encontro por esse motivo. Em seguida veio a morte de Wando e Whitney Houston – ambas tendo sido anunciadas pelo quarentão que vive comigo e navega o dia inteiro na internet.
Sinto uma saudade imensa do Arnaldo Jabor e suas reflexivas reflexões de reflexo e caráter político ao fim da noite, início da madrugada. Do charme (e cabelo branco) de William Waack e das piadas do Jô (e de uma porrada de escritores bons que vão lá para serem entrevistados e EU NÃO ESTOU ASSISTINDO!). Em contrapartida, apesar do cansaço pós-trabalho, chego em casa e assisto Californication – uma série legal com nome de música do Red Hot (que marcou a minha infância), de um escritor em crise de processo criativo (infrutífero) que pega um monte de menininhas nada frágeis e balzaquianas problemáticas, apesar de saber-se ainda apaixonado pela ex-mulher que está para casar com um cara que ele considera um babaca (e, no fundo, é mesmo). Rola muita cena de sexo e isso, para um fim de noite é, no mínimo, estimulante. Mais excitante ainda foi descobrir, recentemente, que eu sou uma bissexual que ficou muito tempo dentro do armário e só agora, depois de ter encontrado o homem que dá sentido ao nascer do sol de cada dia em minha vida, possuo interesse por mulheres num ménage que sonho ter, um dia (e pensar que tive inúmeras oportunidades de beijar uma garota – e fazer coisas piores – durante o ensino médio, mas, como “era moda”, eu me sentia privilegiada em ser exceção nessa regra).
Hoje é domingo e eu sempre me condeno por escrever durante as horas lunares quando, na verdade, deveria estar descansando. Existem centenas de brasileiras que desejam fervorosamente que seus maridos saiam de casa enquanto seus amantes entram pela janela, mas quando o meu não está aqui, quase tenho um orgasmo por poder escrever na santa paz de Deus (estou utilizando nome d’Ele em vão?) e Hilda Hilst, minha musa, que tem me deixado muito safada nos últimos tempos. Acontece que, uma das atividades mais gratificantes do nosso convívio são as nossas conversas. Eu gosto de conversar com ele. E a escrita não tem vez quando ele está em casa. Porque conversamos. Porque sempre temos um assunto diferente e, por isso, o relacionamento não cai no ego da rotina, de ser exatamente o que ela é: insuportável. Caso eu me atrevesse a escrever roteiros para filmes americanos, intitularia minha obra-prima com o nada original “se escrever, não case”. Mas troco um punhado de frases bem construídas por orgasmos múltiplos sem medo de ser feliz. O meu marido não aprova muito o que escrevo. Por exemplo: ele deve estar lendo tudo isso agora e, com certeza, está detestando as palavras “orgasmo” e “bissexualidade”, nunca antes expressadas nesta mal fadada tentativa de diário. O que me parece um bom motivo para discutirmos a relação e reconciliarmo-nos logo após, com sexo, é claro. Ops, perdoem-me. Até.

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13 respostas em “Shuffle

  1. nina! =)
    ai, que texto rico, gostoso, sincero, variado e simples. exatamente como as melhores coisas da vida.
    ó, vivo sem tv há quase dois anos e te digo que hj não me faz falta NENHUMA. Informações pela net e muito mais tempo livre para a leitura e para a escrita. É lindo.

    boa sorte na vida boa a dois. =)

    beijoóculosvermelho

    Iza

  2. Ai que saudade de ter tempo pra comentar no seu blog. (Eta carnaval maravilhoso!)

    Geralmente eu minha consciência estaria um pouco pesada em ser igual a todo mundo, mas tive a sorte de nascer assim!♥.♥
    Meu sonho de infância era ter uma polaroid depois que vi na reprise do Xaveco, e ~quase tudo~ o que é considerado vintage.
    E se o roteiro do filme fosse meu ele se chamaria “viva, procure assunto, e depois não faça mais nada, acredite, se você escreve, TUDO atrapalha” Kkkkkkk’amei o post.

  3. Amei Nina! E não importa o tempo, o importante é SER feliz com as próprias escolhas e aproveitá-las sem televisão mesmo… Pra falar a verdade, eu até esqueço que ela existe. A coitada sempre fica sozinha quando a ligo. Gosto de saber que ela está lá, funcionando, mas quase nunca presto atenção nela.

    Beijos

  4. Analú acertou a palavra. Esse teu texto parece irreverente mesmo! Dá pra notar uma certa mudança nos teus posts, uma mudança que acompanhou as reviravoltas da tua própria vida, né.
    Mas é sempre bom criar novos hábitos. Como esse de ler revistas. Tou precisando de uns novos também. Quem sabe em Santiago! Quanto à Piauí, é uma revista ótima. Menina dos olhos para os estudantes de jornalismo. E uma das graças dela é justamente estar entre o jornalismo e a literatura, tem das duas coisas ali.
    Outra revista bacana é a Trip, conhece?

  5. E eu que não sei se meu comentário foi? Me avisa? hahahaha

  6. hahahahahahahahahahaha

    Nina, seus textos sempre merecem uma 2ª lida.
    eu sou uma anta mesmo, e isso é quase sempre.porque eu tenho a mania de trabalhar com a hipótese do “pode ser que não funcione/dê certo/seja tão bom quanto eu pensei”, e assim saboto a minha vida e mais, dou conselhos – quando me pedem, de que é bom ter coragem pq a vida dá voltas.
    e como eu já fui criticada por isso, sem perceber que enlouqueci certas pessoas mostrando a elas a possibilidade de não dar certo. o certo é se entregar as possibilidades. porque no fundo, não existe “dar errado”.

    isso eu estava pensando em relação ao nosso rapidíssimo papo na minha última ida a Saraiva.
    eu estou num processo de elaboração da vida. isso requer tempo, flexibilidade, pensamento, divagações, conversas intermináveis e papos inextinguiveis. com gente do bem, claro. porque uma parte não entende e nunca entenderá, o que é tão simples de ver.
    eu sempre digo que te admiro, porque mesmo sendo bem mais nova que eu, (na idade que ainda estamos 5 anos faz diferença), você tem um tudo de pessoa experiente, você não teme nada. e realmente, não há o que temer. por isso que digo sempre que você é linda, não apenas pela estética, que é realmente impecável, mas pelo seu coração ser grande, sublime, divino, cheio de amor pela vida. fico pensando em Deus, e nos Seus desejos. que sejamos humanos, e que expressemos nossos comportamentos. afinal, ele fez cada um com peculiaridades, e não, não podemos ser iguais.

    um beijo, de uma eterna fã, e melhor ainda, amiga.

  7. ah, o texto!
    somos todxs safadxs mesmo haha e isso é bom, e o melhor é exercitar a safadeza sempre que puder.
    essa coisa de pessoas do mesmo sexo tb sempre me interessou, não sei se por fetiche, curiosidade, ou algo do gênero, não tive oportunidades, nem as busquei, quem sabe um dia, isso aparece p mim, e vamos ver como me saio.

    ASTIGMATISMO DE 4 GRAUS? Ae colega, bate aqui, e em vinda ao clube das que eram cega e não sabiam.
    O meu médico disse que o meu olho se acostumou a não ver tão bem mesmo. 4,0 em um olho, e no olho esquerdo, 4,5. Armação vermelha é luxo!!! Oh Nina, morri de procurar aqui na city, e não achei nenhuma #chorandolitros comprei uma lilás mesmo, não desisti da vermelha, mas deixa pro ano que vem.

  8. Que saudade de te ler. Sumo um pouquinho e veja no que dá. Na verdade preciso saber mais como andas, para compensar os pecados da minha ausência por aqui. Mas me perdoe, estive de férias (risos). No mais, tenho admirado bastante esta tua nova fase. É evidente o quão esteja bem, na maneira que se deixa fluir nas palavras, tão quanto antes, que já era imensa verdadeira, autêntica. Te sinto mais liberta, menos presa e arraigada a processos de uma alma tão avançada e culta como a sua. Não que isso fosse ruim antes, mas o que digo é que estás plena e mais prazerosa no modo de escrever. O humor está mais afiado, o despudor está mais claro, embora tudo esteja num nível em que a tua personalidade te torna quem és, uma pessoa inteiramente verdadeira, que demanda ostracismo saudável de certas coisas que lhe cercam. E deixa claro a saudade que poucas coisas boas que se pintam pelas calçadas externas, evidencia bem os desejos nada pueris de uma alma que se mostra a cada dia mais bonita do que sempre foi antes.

    Adoro tuas crônicas, porque dá pra delinear bem as belezas que pintam tua alma em tons de puro amor. E rio demais das tuas sutis ironias, tuas piadas tão bem colocadas, mesclando teu cotidiano com tuas opiniões às vezes tão ácida. Ainda me perco nas tuas indagações, nos teu trejeito tão cultos, na tua inteligência tão discrepante, na tua maneira de ser menina, e mesmo sendo nova, denotar às vezes ser mais velha que muitos.

    Não sei se percebeste, mas eu sim. Tua alma está vivaz, com outras cores. Sua matiz está encantadora. É bom te ver assim, te perceber assim. Me faz bem em saber. No mais é bom saber que estejas bem, e não caindo numa rotina. Que esta vida a dois tenha seus avanços, suas qualidades frutíferas, seus “orgasmos múltiplos” (risos).

    Daniele, foi bom ter matado a saudade, por agora. Depois volto… Sempre volto. De tantos na web, conto nos dedos as especiais. E você é uma. Sempre será. Não apenas por ser blogueira, mas essencialmente por que te considero uma amiga mesmo… Pena que tenhamos nascido longe um do outro. Ia adorar zoar de ti… haha! =P (só pra descontrair rs)

    Te cuida viu. A alegria que andas ao teu lado, o bonito nascer do sol de cada dia hoje, é o que sempre desejei a ti.

    Beijo carinhoso de quem sentia falta de comentar aqui…
    =)

  9. Pingback: Estrelinha de bom post. « Eu de perto

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