O contrário das irmãs Bennet

Jane Austen, perfil.Jane Austen é uma das escritoras mais procuradas na livraria em que trabalho, e por um público alvo pouco provável: os adolescentes. Muitos rapazes estão descobrindo os clássicos segundo a referência cinematográfica, enquanto as meninas são influenciadas pelos best-sellers atuais. Dessa forma, travei um diálogo interessante (e marcante) até pouco tempo atrás, quando uma menina de aparentemente treze anos veio até mim e perguntou se eu tinha Orgulho e Preconceito. Respondi afirmativamente, entreguei-lhe o livro, ao que ela questionou, inocente: “e esse é o primeiro da saga?”.
Às vezes Stephenie Meyer é uma bênção por fazer essa geração ler. A obra mais importante de Jane é citada no primeiro livro da saga Crepúsculo – e por isso recebo tantos pedidos ansiosos por ele. Isso só confirma uma teoria que, há muito, eu tinha em mente: a literatura de Jane Austen é atemporal – apesar de parecer contrária a isso. Quando eu era menina, encantava-me com os filmes nos quais Alicia Silverstone protagonizava. As Patricinhas de Beverly Hills foi um clássico de Sessão da Tarde repetido inúmeras vezes e, anos depois, descobri que a inspiração viera de Emma –, considerada a obra mais madura de Jane. A versão mais recente de Orgulho e Preconceito redefiniu o conceito de filmes de época: quem antes detestava o drama instalado na sociedade inglesa, deparou-se com uma comédia de costumes inesquecível.

Alicia Silvestone, em cena para o filme As Patricinhas de Beverly Hills.
Por outro lado, os leitores mais fiéis a Jane também frequentam a livraria. E, tendo lido tudo (ou boa parte) da literatura desta, procuram livros que sejam “parecidos” com suas obras – e então eu, como livreira, preciso usar a imaginação.
Não sou de confiar nos escritores norte-americanos. O cinema e a música que fazem são espetáculos para todos os sentidos mas, com exceção de Philip Roth, a literatura dos Estados Unidos deixa muito a desejar. Porém, surpreendi-me com Jeffrey Eugenides, em sua obra de estreia intitulada As Virgens Suicidas – que também marcou a estreia de Sophia Coppola como uma das diretoras mais célebres desta geração, ao levar para o cinema o cotidiano das irmãs Lisbon – cinco, no total. Só esse fato já me fora suficiente para ligar os pontos.

Kirsten Dunst, em cena para o filme As Virgens Suicidas.
Não cheguei a assistir ao filme, mas o livro – muito bem escrito –, torna-se mais do que uma empolgante ficção policial. As irmãs Lisbon, moradoras de mais um (pouco criativo) subúrbio londrino parecem instituir para si um pacto após o primeiro suicídio da mais nova. Os meninos do bairro, curiosos, percebem a verdadeira entidade que se estabelece entre elas. As irmãs, invejadas na escola pelas meninas e adoradas (porém inalcançáveis) para os garotos, confundem cada vez mais a todos: uma parece com a outra, impossível distinguir um nome diante do rosto desta ou daquela. Cada vez mais distantes do mundo e próximas de seu estado de espírito único e mútuo, cometem atrocidades de todo tipo para chamar atenção, até conseguirem que seus pais tranquem-nas em casa, para todo o sempre. Começa uma nova fase no livro, que desde o início é narrado por um senhor que já fora um menino encantado pela beleza das vizinhas exóticas: grama sem aparar, odor de lixo vindo da casa, aparições momentâneas nas janelas do primeiro andar, código Morse. As meninas, tão fiéis e unidas quanto personagens de Jane Austen, porém com uma carga emocional ainda maior e mais depressiva, tomam a decisão de saírem deste mundo, sem explicação aparente.
Briony Tallis, por outro lado, tenta reavivar seu crime.

Saiorse Ronan, interpretando Briony para o filme Desejo e Reparação.

Esta é a personagem-chave de Ian McEwan no livro Reparação – também adaptado para o cinema, pelo mesmo diretor da última versão de Orgulho e Preconceito – Joe Wright. O livro, clara e escancaradamente inspirado em Jane Austen, é dividido em três partes e um epílogo. Na primeira parte, temos como cenário o dia mais quente do verão de 1935, quando a tradicional e rica família Tallis está para receber, de volta, seu filho Leon, que traz, a tiracolo, um amigo ainda mais rico, dono da fábrica de chocolates que mais lucrará nas próximas décadas. Briony, uma menina de treze anos que anseia tornar-se escritora, decide escrever uma peça para comemorar o retorno de seu irmão mais velho. E pretende encená-la. Para tal, usa os primos gêmeos e sua irmã adolescente e hostil para interpretarem seus personagens, já que estão hospedados em sua casa por tempo indeterminado, graças ao futuro divórcio de seus pais, e com todo o tempo livre disponível. No meio de tudo isso está Cecilia – sua irmã do meio –, que não faz outra coisa na vida além de bagunçar o próprio quarto em busca de cigarros e pensar em Robbie Turner, o filho de uma das empregadas da família, seu vizinho. Então está armado o drama familiar típico para os leitores de Jane.
Acontece que Briony é uma criança curiosa, do tipo que faz tudo para chamar atenção às suas prendas pouco comuns numa garota de sua idade. Nesse dia, ela vê da janela sua irmã despir-se para Robbie e entrar no lago do jardim. Ela acredita que Cecilia está em apuros, sendo, de alguma forma, chantageada por Robbie para fazer o que não é de seu feitio e sequer prazeroso para os costumes da época. O que ela não sabe é que Robbie quebrara levemente a ponta do vaso mais importante da família, de valor e afeição inestimáveis, cujo pedaço fora cair no lago. Cecilia, brava, tirara a roupa para buscar o dito cujo, enquanto Robbie, atônito, observava. Estabelecera-se ali o descobrimento do amor dos dois. Pois, desde então, um fora incapaz de esquecer o outro, e vice-versa.
Robbie Turner pensa no absurdo que é apaixonar-se pela vizinha com quem crescera, e que sempre considerou uma irmã, mesmo após a rejeição de Cecilia pela sua pessoa depois que entraram na faculdade – ela jamais desperdiçaria sua atenção no mero filho da empregada. Mas estava apaixonado, estava perdidamente apaixonado e, para distrair e ocupar a mente, decidiu escrever um pedido de desculpas pelo vaso, que já seria um bom início, enquanto Briony confessa a Lola, sua prima ruiva e hostil, o que vira há poucas horas. Robbie escreve também um poema, contendo uma palavra rude, porém sensual, sobre o sexo de Cecilia. Sorri, deixa o poema sobre a escrivaninha e vai tomar um banho para o jantar de Leon. Quando retorna, pega o bilhete, põe no bolso e caminha rumo a residência dos Tallis. Ao encontrar Briony próxima da casa, pede-lhe que entregue um recado para sua irmã. A menina, naturalmente, o lê – e se depara com a palavra horrenda aos seus olhos, pois Turner cometera o crime de passar-lhe o bilhete errado.
Aterrorizada, Briony percebe que precisa proteger sua irmã, de qualquer forma. Entrega-lhe o bilhete, já amarrotado, no que Cecilia lê e se desespera, ao constatar que Briony violara sua correspondência antes. Turner chega à residência dos Tallis e encontra Cecilia, que o convida para uma conversa na escura biblioteca. Eles transam. Briony vê, e então o inferno começa.
No meio do jantar feliz, os primos gêmeos, há muito zangados por estarem em uma casa que não lhes confere nada em familiar, pedem para se retirarem. Todos percebem que Lola está com manchas em todo o corpo, e ela culpa seus irmãos por tal estrago. Briony, Cecilia e Robbie estão tensos pelo segredo que escondem. Leon e seu amigo, Paul Marshall, conversam animadamente com a sra. Tallis. Então Briony percebe que os gêmeos deixaram um bilhete em uma das cadeiras, que anunciava a fuga de ambos.
Acontece que, no meio dessa busca pelos garotos no enorme jardim da família, Robbie some, enquanto o restante procura. Briony enxerga um vulto negro levantar de uma moita e sair correndo. Chegando lá, ela encontra sua prima Lola, no chão, em lágrimas. E pergunta se havia sido Robbie que a violara (afinal, na cabeça dela, ele era um pervertido que merecia punição), ao que ela afirma. Robbie vai preso, apesar de ter sido o último a retornar (com os gêmeos ao lado). E então vem a segunda parte: a guerra.
Cecilia se distancia dos Tallis e não perdoa o depoimento vago e pouco confiável da irmã. Acreditando que ela estava mentindo todo o tempo. Muda-se para a cidade e torna-se enfermeira. Troca cartas com Robbie, que é um soldado tentando sobreviver até encontrar o seu amor. Na terceira parte, Briony é uma estagiária na área de enfermagem em um dos vários hospitais pela qual sua irmã passou. Ela deseja encontrar Cecilia para alterar seu depoimento, pois admite ter reconhecido seu erro. Conseguir o perdão da irmã, no entanto, não será fácil.
Briony consegue o endereço de Cecilia e encontra-a morando com Robbie, perto de uma estação de trem. Este, querendo matá-la, termina por dizer tudo o que ela deve fazer para reparar o seu crime, ao que esta consente. Mas o final do livro não é tão feliz assim – pelo contrário: é deveras surpreendente.
Jane Austen está em todos os lugares, nos mínimos detalhes, por mais que muitos não reconheçam o seu valor (Borges, por exemplo). Mas é certo o fato de que ela permitiu inteligência às suas personagens femininas e cativantes, criando convicção e independência para o rumo das mesmas. O casamento até que poderia ser o único futuro para uma moça de sua época, mas a própria Jane escolhera apenas escrever, deixando o matrimônio para a liberdade de suas adoradas heroínas, com aceitas e recusas. Depois dela, a mulher dos séculos XVIII e XIX ganhou expressão e voz, ao menos na literatura, o que já foi um belo pontapé inicial para o que somos hoje.

“Uma história era uma forma de telepatia. Por meio de símbolos traçados com tinta numa página, ela conseguia transmitir pensamentos e sentimentos da sua mente para a mente de seu leitor.”
:: Trecho do livro Reparação, de Ian McEwan.

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12 respostas em “O contrário das irmãs Bennet

  1. Ei Nina! De Jane eu li Orgulho e Preconceito, e Emma. E fico muito brava quando (geralmente meninos) as pessoas vem criticar, falando que é um melodrama ridículo que faz as mulheres ficarem a vida toda esperando um homem perfeito (!). Acho bem o contrário, isso sim. Emma e Lizzie acharam o homem perfeito? Sim. Dentro do imperfeito. Porque Mr. Darcy e Mr. Kneightley eram total e completamente cheio de defeitos. E elas acharam o que de bom e encantador existia ali. Acho poético e lindo.
    As virgens suicidas eu gostei tanto que sonho em encenar uma peça adaptada sobre esse livro! Queria montar agora, no época, mas acho que a professora não curtiu muito, então, dancei. Mas a vida é longa!
    Reparação eu ainda não li, mas tem tempo que quero ler, apesar de nunca ter lido uma sinopse sobre! Agora fiquei com mais vontade!
    Beijos!

  2. aqui em fortaleza as livrarias são entupidas com livros da jane austen. é cada edição mais linda do que a outra. confesso que preciso me dedicar mais à literatura dela, principalmente com emma, livro que sempre quis ler.

  3. Jane AustzZZZzzz…

    Brincadeiras a parte, ainda sou iniciante na obra de Austen. Só por isso prefiro não opinar muito nem reclamar também. Nós duas tivemos um começo confuso e sonolento, mas ainda não desisti de descobrir tudo o que Jane pode me oferecer! Quem sabe ‘Orgulho e Preconceito’ me ajude nessa luta literária.

    “e esse é o primeiro da saga?” – tô rindo até agora!

  4. Ai… sobre seus assuntos eu leio, leio rápido e tento assimilar as palavras, autores e livros mas, confesso que pra mim é muito complexo. Prefiro vir aqui dizer um oi pra retribuir … gestos de gratidão.
    Kiss

  5. Confesso tristemente que nunca li Jane Austen. É que mesmo que eu deseje seus livros, no momento não consegui alcançar nenhum. Questão monetária afetada… rs

    Enfim, adorei os outros dois títulos, vai para a minha já absurda e imensa estante de desejados!

    Beijos.

  6. Nina, gostei particularmente desse texto porque tu faz uma viagem incrível entre personagens de vários livros. Uma viagem bem cadenciada, sabe. Que eu nem sei se consigo fazer, não sei se é por ler livros de estilos tão diferentes (teóricos, jornalistinhas, romances e etc). Talvez também porque tenho prestado muita atenção no texto, mais do que nos personagens às vezes. Estoy louca, prestarei mais atenção nisso.
    No mais, já li dois da Jane Austen e acho muito legal, mas não é algo que me convence tanto como literatura. Talvez porque esteja com um certo preconceito contra os europeus. E também tenho isso contra os americanos, mas sinto que preciso ler As virgens suicidas. Quem sabe no segundo semestre.
    um beijo!

  7. a literatura americana tem muita coisa fantástica. bukowski, fante, salinger, todos entre meus escritores preferidos. e toda a geração beat. inspiração infinita.

    e o único grande favor que a stephane meyer podia fazer era criar uma máquina do tempo e não escrever aquele lixo todo!

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