Enquanto as adormecidas belas dormem

Eu não conheço Mia Couto. Nem Coetzee. E, ultimamente, dei para ler ensaios.
Capa do livro Mecanismos Internos, de Coetzee. Edição brasileira da companhia das Letras.Mecanismos Internos é um título interessante para o livro de ensaios sobre literatura do sul-africano Coetzee. Ele é o responsável pela obra Desonra – bastante vendida na livraria em que trabalho, mas que nunca cheguei a ler, por sempre faltar no momento em que preciso. Mecanismos Internos critica astutamente algumas das obras mais significativas da literatura mundial. Porém, o único texto que me interessou de verdade (e que pude ler na minha hora de intervalo do último domingo) trata-se de comparativos interessantes em Memória de Minhas Putas Tristes, do Nobel García Márquez.
Fora o terceiro livro do Gabo (haja intimidade) que eu li (antes vieram Doze Contos Peregrinos e Cem Anos de Solidão – e agora estou lendo O Amor nos Tempos do Cólera). E juro que conhecia a obra apenas de título, o que não me fez ficar surpresa, afinal, García Márquez sabe intitular, como ninguém, os seus trabalhos (Crônica de uma Morte Anunciada é outro grande exemplo – e, hoje em dia, é quase um ditado popular).
Capa do livro Memória de Minhas Putas Tristes, de Gabriel García Márquez, pela edição brasileira da editora Record.Para quem não conhece, Memória de Minhas Putas Tristes é uma crônica breve, porém não diminuta, de um senhor que, prestes a completar noventa anos de idade, decide dar-se um presente: passar a noite com uma puta virgem. O desejo incomum tem justificativa nos hábitos deste idoso: seu único relacionamento duradouro fora com uma empregada da sua família que, após a morte de seus pais, continuou a cuidar dele (esta também senhora, quando moça, permitia que seu jovem patrão manifestasse suas vontades “por trás” e, então já velha, talvez tão idosa quanto o homem de quem cuida, confessa uma virgindade impossível de se acreditar – vaginal, no caso – , analisando o fato de que só se entregara ao patrão – da forma que ele necessitava). O velho vive com uma pensão dos pais falecidos, morando na mesma casa em que nascera, dormindo em cima da mesma cama sobre a qual fora concebido. Além dessa renda, existe o dinheiro que recebe do jornal, pela função de cronista. E passou a vida inteira pagando às mulheres com quem dormia, jamais amando alguma. Logo, a explicação para apetite tão incomum (será incomum mesmo?), deve-se a solidão de seus dias idosos, pesarosos e passivos.
Então nosso herói (por ora, digno de pena), comunica-se com uma velha amiga e cafetina, Rosa, encomendando dela o capricho momentâneo. Ela lhe retorna a ligação avisando que tudo fora arranjado: para aquela noite, terá o seu amigo a virgem que merece: uma adolescente de catorze anos, pobre, que trabalha pregando botões em uma fábrica e precisa sustentar os irmãos mais novos, a todo custo.
Ocorre que este velho nada consegue com a criança, no intuito de querer manter-lhe a inocência. Passa a noite admirando seu corpo, aroma e entorpecimento mental, mas não procura penetrá-la. Acredita até que não será capaz de fazê-lo, por questão de idade (já não se considera potente como antes). Rosa, inconformada, pede que ele retorne na noite seguinte. Ele atende – e descobre-se apaixonado por Delgadina – assim denomina a criança, por considerá-la esguia e elegante. Aos cuidados de Rosa, ambos encontram-se quase todos os dias: o velho passa a levar discos de ópera para que a menina escute (embora ela aprecie os boleros de rádio, como ele pôde constatar, certa vez) e lê para ela alguns clássicos para, em seguida, beijar e acariciar todo o seu corpo. Mas o que este senhor mais aprecia em sua pequena é enquanto ela está adormecida (que vem a ser um “plágio” nítido e confesso de Kawabata, em A Casa das Belas Adormecidas – mas essa é outra história).
Acontece que, no ensaio de Coetzee, o que me chamou a atenção fora a sua discreta defesa em razão da pedofilia. Não pretendo criar polêmicas absurdas com tamanha temática, mas refiro-me ao contexto verdadeiro da palavra.
Começando pelo fato de que a pedofilia, em si, não deveria ser considerada um crime. Crime, de fato, é abusar sexualmente de menores de idade – sem o consentimento deste. E isso não é novidade. Séculos atrás era frequente (e, portanto, normal) que uma menina ainda em estado de puberdade casasse com um senhor de idade avançada, inclusive com total aprovação de seus pais. Qualquer adolescente pode apaixonar-se perdidamente por um indivíduo que não é de sua faixa etária, ser correspondida e arriscar-se no que pode (ou não) dar certo. Um homem mais velho pode ter desejos por menores de idade sem ser considerado um psicopata. Amar, de qualquer forma, não é crime. Abusar sim. Abusar é tema para Nabokov (grande inventor da pedofilia – que, estranhamente, não chega a ser citado por Coetzee), mas essa também é outra história.
Eu defendo o amor que o protagonista de García Márquez sente por sua ninfeta protegida. E por ser correspondido também. Não há limites para um convívio que se mostra no caminho certo. Não há erros e defeitos naquilo que escolhemos para nós mesmos e sabemos correto naquele instante. Talvez, para muitos, seja inimaginável (ou inconcebível) o romance entre um senhor de noventa anos e uma jovem de catorze. O livro inteiro, em si, mais parece uma fábula: um conto-de-fadas atemporal, tipicamente latino, porém adaptado de uma Aurora européia. Coetzee, em seu ensaio, deixa uma dúvida (de constatação) no ar, e questiona: “o que acontece à Bela Adormecida quando ela acorda?”. Bem, talvez o amor se desfaça, Delgadina fique viúva (este último seria o mais óbvio e ligeiro), mas haverá de ser eternamente grata pelos cuidados de seu velho amante – que lhe deixa todos os bens para um futuro promissor, quando vier a falecer. Ao término de Memória de Minhas Putas Tristes, o leitor adquire uma sensação tranquila, semelhante a despreocupação instalada após a leitura de Cem Anos de Solidão, pois passa a acreditar no amor pleno e confuso, em um enredo simples e criativo, de fábula latina.

Anúncios

4 respostas em “Enquanto as adormecidas belas dormem

  1. mia couto é uma maravilha de ler. fico encantado quando reservo um tempinho nos dias duros pra me dedicar às palavras tão belamente escritas.

    teu blog cada vez mais interessante, principalmente as tuas ideias sobre livros lidos e etc. ótimas escolhas, as tuas.

    :)

  2. haha!
    eu li “memórias…” qdo namorava um figura 30 anos mais velho. dá pra imaginar como me senti, né? as pessoas estranham mto mesmo um casal em q as pessoas tenham idades tão diferentes…

    o namoro acabou. ñ sei se encaro novamente um relacionamento com alguém tão mais velho, pois, realmente, as diferenças d idade podem atrapalhar em mtas coisas, principalmete no diálogo, pois as referências d cada um são d gerações distintas. distantes, talvez…

    qdo terminei d ler, dei d presente o livro pro meu namorado 30 anos mais velho. ñ sei no q deu a leitura, pois foi perto da nossa relação acabar. mas eu me senti “acalentada” qdo li “memórias…”

  3. Eu já li Desonra, e nem agradei muito. Não é um livro ruim, mas um livro que eu esperava mais. Muito interessante seu texto.

  4. Eu acho fascinante o trato sem pudor de assuntos assim. E acho que é bem como falaste, o amor pode se encontrar em todos os cantos, independente de idade. “Memórias” tem esta eloquencia sutil em delinear um amor aparentemente impossível, ou um tanto criminoso, por conta das idades um do outro, mas que de alguma forma suscita bem a nossa reflexão. É fácil se ver em cima de questionamentos a cerca de casos assim.

    A tua escrita nos faz pensar um pouco. Nem entro no mérito de discutir, porque é algo que ainda não consigo mensurar com inteira percepção, mas compartilho um pouco do que tu pensas. Porque creio que é preciso mais leveza e flexibilidade para definir tudo o que envolve sentimos, seja verdadeiros ou banais…

    Beijos querida!

    ps: adoro tuas citações de músicas nos comentários. Sempre estão no contexto. Depois cito Chico Buarque no início de um texto meu tá? (risos)

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s