Solidão, sentimento do mundo

Os meus pais estão em um “processo de divórcio” há tempos. Para resumir a história, ele havia se acomodado em fazê-la de escrava enquanto ela reclamava da vida planejando fugas heróicas ou esperando que eu finalmente terminasse os meus estudos. Como sabem, dei-lhes a carta de alforria este ano, já que havia furtado suas liberdades há quase duas décadas.
Ocorre que minha mãe arranjou, sei lá como, um namorado. Eu já sabia. Havia meses. Em verdade, sempre desconfiei de um caso extra-conjugal de sua parte – e a desculpo absolutamente por isso. Se eu estivesse casada com um homem igual ao meu pai, certamente teria feito o mesmo. Mas, por sorte, não tenho a mesma falsa integridade que a dela. Herdei a honestidade paterna.
Desde o início de meu casamento, devia uma conversa franca com os meus pais. Adiei este momento o quanto pude até que, em um domingo de folga, precisei fazer o caminho de volta, também no intuito de organizar alguns livros. Receberam-me com uma cordialidade incomum. E a conversa teve início com a indagação do meu pai, querendo saber o motivo de eu ter indo embora sem explicação aparente.
Era a primeira vez na vida que eu me sentia sem palavras. Nas milhares de vezes em que discutimos, acostumei-me a vomitar tudo, com o coração aos pulos (recordo-me da ocasião em que fui parar na emergência por conta disso), sem medo dele ou vergonha de que os vizinhos ouvissem. Agora, no entanto, com a dor amenizada e uma angústia mútua, não havia resposta mais correta do que o silêncio e as lágrimas na beira dos meus olhos. Então ele compreendeu. Compreendeu tudo. Acredito ter sido a primeira vez na vida que ele percebera que eu sou um ser humano. Com sentimentos. Feridos, por ora.
Antes de eu ir embora, com o cachorro no meu pé, os livros dispostos em cima da cama, já limpos (para que minha mãe, futuramente, os colocasse em uma caixa e me enviasse), ouvi dele talvez a demonstração de afeto mais caridosa: havia dito que, depois que eu saí, a casa se encheu de uma tranquilidade benigna, mas também ficara mais triste, porque eu estava ausente. Talvez a minha presença signifique alegria para alguns. Entretanto, jamais imaginei que, para o meu pai, motivasse mais do que indiferença. Eternamente serei grata por isso.
Então, por esses dias, minha mãe decidiu revelar ao meu pai que estava em um novo relacionamento. Disse que ele chorou feito criança, e não parava de repetir “perdi minha família, perdi minha família”, até dava pena. Só de ouvi-la contando, senti um abatimento muito forte. Porque eu já tive problemas demais com o que quer que significasse minha adolescência. E acredito não ter cuidado o suficiente dos meus pais. Isso sublinha o meu egoísmo nítido. Talvez eu pudesse ter evitado uma situação dessas. Quando vi o meu pai, ele estava abatido, cabisbaixo, porém não mencionara o assunto e conversara comigo como se nada tivesse acontecido. Também herdei dele a arte de ocultar sentimentos.
Ao longo do dia, recapitulei nossa última conversa em família. Ele não admitia que minha mãe saísse de casa, chegou até mesmo a declarar um amor nunca antes visto, o que me fez indagar qual será a concepção afetiva que ele tem para com as pessoas mais próximas. Eu não compreendo, nem ela. Mas tirei a conclusão de que ele teme o abandono. E eu temo o abandono dele também. Porque passei quase vinte anos sozinha, mas não gostaria de me vingar praticando indiferença. Pode doer o bastante, mas tenho compaixão pelos meus pais.
Já pela noite, passei horas assistindo filme e lendo na sala. Com a luz acesa, incomodei o sono de meu marido, que precisaria acordar cedo na manhã seguinte. “Vulnerabilidade” era a palavra do dia. Fui dormir na mesma hora em que ele havia reclamado e, pelas lágrimas silenciosas que já se anunciavam no meu rosto, percebi o quanto continuo frágil, apesar de tudo. Controlei até onde pude, mas quando ele me abraçou, desabei de vez. Chorei alto. Ele perguntou o que estava acontecendo e, após muitas respirações ofegantes com a voz entrecortada, consegui dizer uma palavra: solidão.
Solidão expressa tudo. Parece saudade, uma palavra só nossa. Ou “délibáb”, um sentimento pertencente aos húngaros. Eu me sinto sozinha às vezes, como qualquer outra pessoa aparentemente feliz no mundo. Tenho tudo que quero agora mas, apesar de ter tomado a decisão que julguei mais sábia para todos nós, sinto que estou perdendo os meus pais, ao mesmo tempo em que sou injusta por não deixar o meu marido dormir. Eu me sinto um monstro, em muitas ocasiões. Ultimamente, dei para notar que pratico mais erros ao longo do dia, ao mesmo tempo que ambiciono a medalha de “honra ao mérito” enquanto as horas passam. Ou sinto pena de mim mesma. E que diferença faz? Haja mediocridade.
Estranhamente, ao colocar os pés para fora de casa, percebi ter ficado mais próxima dos meus pais. Afinal, algum laço nos une. Minha mãe também irá embora, mas pretende vê-lo todos os dias. Eu prometi a mim mesma que, todas as vezes que tomar o ônibus da volta do trabalho, passando pela casa dele, descerei para vê-lo, é o mínimo. E ele, enquanto isso, cuida dos cachorros e da sua solidão, que também é a minha, sentimento do mundo.

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7 respostas em “Solidão, sentimento do mundo

  1. que bonito o dinamismo da vida nas suas palavras, nina.
    e que bonito vc passar por cima de rancores e mágoas acumuladas e sentir o desejo GENUÌNO de cuidar um pouco do seu pai.
    muito bonito. me tocou aqui do outro lado.

    beijomeu

  2. Eu não acho que você tenha a obrigação de cuidar dele ou de sua mãe, assim como não tinha quando era apenas uma adolescente, uma menina!, que sequer podia cuidar de si mesma com decência. As pessoas colhem o que plantam, sejam pai ou não. Você precisa cuidar de si e de seu futuro (ao lado do seu namorado ou sozinha ou com quem quer que seja), não pode ficar revivendo sentimentos passados e esperando que seus pais sejam o que deveriam ter sido quando você precisou. Eles não serão. Desista. É duro, muito duro, mas a pura realidade. Seu pai jamais conseguirá ser o que você quer que ele seja (e o que ele deveria).

    É claro que você tem sentimentos nobres e se preocupa com o sangue do seu sangue, mas não pense que a culpa é sua, que você poderia ter feito algo mais ou diferente e que é egoísta; percebe que está transferindo a culpa DELES pra você? Numa tentativa de livrá-los e protegê-los. A responsabilidade pesa, linda, mais cedo ou mais tarde; e eles vão ter que aprender a conviver com isto.

  3. Às vezes eu penso que somos responsáveis pelos nossos pais. Talvez esse meu pensamento venha justamente do tipo de criação que eu tive e das barras que tive que aguentar enquanto ficava entre os dois nas inúmeras discussões. Exercemos o papel errado nesse teatro e talvez seja por isso que você (e eu) temos essa sensação estranha ao ver algo assim acontecendo.

    É tanto tempo vivendo nesse papel que, quando as coisas mudam, não conseguimos ir muito além de uma solidão ou de um sentimento pesado. E fico falando no plural porque me identifiquei com o teu texto, demais até.

    O que é preciso pensar é que a culpa das mazelas dos nossos pais não é nossa. Você fez o que pode e continuará fazendo, não o abandonado, mas os caminhos seguem apesar de.

    Sei lá, talvez eu não tenha falado coisa com coisa. O que importa é que gostei do texto.

    Beijo!

  4. Amiga, grandes relatos foram feitos aqui, creio eu que nunca antes mencionado, fico meio me sentindo fora da tua vida, sei que vc nunca foi lá muito de expressar seus sentimentos, mas confesso que como amiga não fui lá muita atenta a indícios de que vc estava se sentindo tão sozinha, tbm confesso que percebi que há muitas coisas de vc que eu não sei, mas isso não vem ao caso, o que realmente importa é que percebi que a minha amiga mudou muito, amadureceu e aprendeu a valorizar seus sentimentos, enfim quero dizer que me sinto orgulhosa de ser sua amiga e de ver que vc tem aprendido muito com a vida. Parabéns por mais um ano de blog, felicidades gúria.

  5. Eita, Nina, que vida louca, né?
    Mudanças que, num primeiro momento, parecem simples, mas que, com o tempo, se mostram doloridas e fazem brotar sentimentos vastos, como o de tristeza, de saudade, de solidão.

    Espero que tudo fique bem por aí, viu?

    Um beijo!

    http://ericaferro.blogspot.com/

  6. Post difícil, Nina. E, consequentemente, comentários difíceis também… Às vezes me vejo no dever de ajudar a disfarçar para alguém que esse alguém se criou numa existência um tanto vazia e acho que é um pouco parecido com o que estás passando agora.
    Suerte! E força!

  7. É algo que aperta no fundo. Chore mesmo anjo. Não deixe o peso fincar na alma, que é pior. Não se amenize, não se reprima e não se crucifique por ser humana. São aflições que por mais que se escondem acabam vindo à tona. Às vezes varremos o pó pra debaixo do tapete e chega uma hora que se acumula de uma forma que não dá. Acontecimentos assim acabam contribuindo.

    É difícil não se sentir assim. Mas as coisas acontecem não é? E não dá pra mensurar exatamente a dimensão de como ela afeta nossa vida. Simplesmente causa um alvoroço. E serve para desarmar, permite que algumas coisas, antes fechadas se abram. O teu pai parece sentir este medo mesmo. Me parece que ele é uma pessoa difícil, mas tudo é uma defesa. Ele criou a pessoa que és. Mas no fundo ele sente o medo, ele tem a insegurança. Por mais que ele tenha agido indiferente ou não tenha sido a melhor pessoa, no fundo, pelo que vejo ele sente. Embora claro, moldado à maneira de como ele se afunilou em si. Ele se prendeu em si. O medo fez com que ele abrisse as portas e pudesse enfim dizer o que não dizia. É uma pena que tenha preciso uma conjunção de coisas.

    Acho admirável a forma de pensar em relação ao seu pai. O fato dele ter te tratado com indiferença há muito tempo não faz com que tu fizesse o mesmo. Bonito você independente de tudo agir por si, pelo o que acredita e sente. Não entro na questão se ele merece ou não, mas na tua personalidade de agir conforme o que pensa, sem que isso tenha sido influenciado pelo tratamento nesses anos. Bonito da sua parte. Eu acho que se você quer, se você se sente bem em fazer, eu apoio. Bonito é o sincero, é o que é feito por disposição. Não é questão de ser obrigação ou não, é questão de que você considera ser uma necessidade sua de agir assim. Você é inteira e sei que só falas e age quando sente, quando é apenas verdadeiro.

    Estes momentos nos remetem à solidão mesmo, mesmo tenhamos pessoas do lado. Não é algo muito fisício, mas de alma, lá no fundo, porque confronta emoções, que dispersas na alma não encontram porto seguro…

    Fica bem.

    Beijo carinhoso do seu grande amigo,
    Alexandre.

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