Um tempo sem nome

Recebi por e-mail, através da escritora Normalice Souza, esse texto excelente de Rosiska Darcy de Oliveira, publicado no site O Globo, em janeiro deste ano, tratando do namoro de Chico Buarque com a (trinta e poucos anos mais nova) cantora Thais Gulin. É claro que eu já pensei inúmeras coisas desse namoro, movida pelo ciúme do meu par de olhos cor de ardósia que ele me deu para que eu tomasse conta mas, confesso, o texto abaixo (inspirado pela canção Essa Pequena, composição de Chico para ela) me desarmou. Por completo.

Chico Buarque, cantor e compositor.

“Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Hollanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando ‘eu sou tão feliz com ela’ sem encontrar resposta ao ‘que será que dá dentro da gente que não devia’.
Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida.
Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo ‘um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho’, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.
A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.
Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.
Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.
A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.
‘Meu tempo é curto e o tempo dela sobra’, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.
Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.”

Thais Gulin, cantora. Mais conhecida como "a namoradinha de Chico Buarque".

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7 respostas em “Um tempo sem nome

  1. Acho que todo o tipo de amor é válido, não é mesmo? Lembro de ler uma matéria sobre a garota cor de abóbora em uma revista aqui de Curitiba – se não me engano, ela nasceu ou morou aqui – e gostei muito do que li. Não me parece uma menina deslumbrada nem nada disso, parecia muito querida e delicada. E se ela o faz feliz e vice-versa, é isso o que importa. Mas sempre haverá gente olhando torto para o que os dois tem, isso não é dúvida. =/

  2. Nina, venho tentando comentar aqui mas anda difícil.

    Nem li esse texto, o comentário que eu ia fazer era do outro. De qualquer jeito, saiba que estou sempre aqui, te lendo. Uma das únicas blogueiras q me faz ler textos enormees sem eu reclamar em nenhum minuto.

    Adoro!

    Obs: e a Flá Costa do http://www.dentrodelatem.blogspot.com

  3. Amor não tem idade…
    E as pessoas preconceituam porque não aconteceram com eles ou são ignorantes mesmo. Sentimento é coisa boa pra ser compartilhada. O importante é dispersar e espalhar a felicidade. Seja com quem for, na idade que seja.

    Texto muito lindo mesmo.

    Beijão!

  4. Ótimo texto. Mas olha, nunca torci o nariz pra eles por causa da idade, acho que não tem nada a ver e concordo inteiramente com as palavras do post. Torço o nariz porque o Chico é só meu e da Marieta. Divido com você também, ocasionalmente. E só! HAHA

  5. Ah, já ouviu Envelhecer, do Arnaldo Antunes? Se não, ouça! E preste atenção na letra, que é demais.

  6. Eu não gosto de Chico Buarque (todas chora). Calma, não me ignore de agora em diante, juro que sou uma pessoa legal, que me esforço e – quiçá – posso gostar dele um dia.

    Como já disseram aqui nos comentários, amor não tem idade. Ponto final. O que basta é fazer e ser feliz. Um casal tem que se completar, nada além disso. Eu mesma não suporto os homens da minha idade – não adianta, eles demoram muito mais pra amadurecer! Meu namorado tem quatro anos de diferença, e eu ainda acho pouco. Sempre quis namorar um trintão e tanto! Tudo se resume a conversa, isso tem que funcionar. Se um casal não consegue sintonizar as opiniões e a visão que tem do mundo, sinceramente, é melhor se separar antes que um pegue raiva do outro e comecem a se machucar pra valer.

    PS: Ganhei a semana com você preferindo a ~minha~ Violeta!
    Beijos

  7. Eu já levei tanto na cabeça de julgar as pessoas… Hoje já não o faço. Não me sinto no direito de ditar o que esta certo ou que esta errado.
    Penso apenas no justo!
    É justo ter chances no amor, né?!
    E daí que tem uma distância entre idades? O que temos com isso?
    Cada um corre atrás de sua felicidade… ou daquilo que lhe convem!
    Kiss

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