Travessuras da menina má

Ele me deu o ideal anarquista de que, “se nada mais der certo”, compraria uma água-furtada em Paris. Mas fora capaz de decepcionar-me com a paixão tórrida da versão masculina de Lolita por sua madrasta. Meu colega de trabalho considera-o pedante quanto ao seu posicionamento político. E a escritora Normalice Souza mencionara o agrado de um de seus livros, mas rejeita aquele que, futuramente, seria um de meus prediletos.
Estabeleci com o prêmio Nobel Mario Vargas Llosa uma relação de amor e ódio ao mesmo tempo. Quando as principais obras latino-americanas traduzidas para a língua portuguesa chegaram ao Brasil através da editora Alfaguara, eu ainda estava no colegial lendo Benedetti, e tendo uma vaga noção de quem era José Saramago. Fui gostar muito de seu primeiro romance, A Cidade e os Cachorros; e de uma ficção biográfica cujo título era Tia Júlia e o Escrevinhador. Mais tarde, apaixonei-me pela capa de Elogio da Madrasta – mas fora uma paixão tão leviana e insensata, que jurei nunca mais julgar um livro pela embalagem. Em vão.
Capa do livro Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, pela edtora Alfaguara.Porque a capa de Travessuras da Menina Má também possui sua beleza determinante, acrescida de mistério. Naturalmente, o título fora o primeiro atrativo que me chamara atenção. É provocador. Porém, na primeira ocasião em que travei conversa com Normalice Souza, na livraria em que trabalho (ela foi até lá só para me visitar, que honra, sinto-me tão digna!), a mesma elogiou bastante Conversa na Catedral. Mas considerou impossível o romance do livro que eu tinha guardado em casa, comprado na última Bienal por um preço elevado. Me alarmei. Senti que tinha gasto dinheiro à toa, pois estava ouvindo a conclusão de uma exímia escritora, porém, quando tive tempo, devorei-o.
Porque, assim como eu perseguia Dolores Haze aqui e ali, também procurava por Lily (atenção, contém spoilers): uma menina que sempre mudava de nome e fazia um alvoroço nos cinco continentes e que eu sempre perdia de vista nas bibliotecas e livrarias mundo afora.
Ricardo Somocurcio encontra a “chilena” Lily no bairro em que mora, quando então adolescente. Ela é uma garota singular, de beleza notável e por quem ele se apaixona à primeira vista, declarando seu amor de imediato, mesmo após as recusas de sua adorada. Porém, logo descobre ser uma farsa a identidade de Lily – que não é chilena coisa nenhuma – e some do mapa, sem deixar vestígios. Anos depois, o jovem tradutor que almeja secretamente a vida de poeta, reencontra em Paris a camarada Arlette: a menina que recusara suas propostas de namoro quando pequena, fingindo-se de outro país. A dita cuja está na França temporariamente, no intuito de tornar-se uma revolucionária no Peru. Ambos passam dias na cidade-luz, mas separam-se quando Arlette viaja em função de um treinamento secreto. A única notícia que Ricardo (o “coisinha à toa”, como ela costuma dizer) recebe dela é que esta envolveu-se com um comandante, enquanto treinava no Peru. Mas a danada retorna à França, anos depois, e casa-se com um legítimo francês, tornando-se assim a senhora Robert Arnoux.
A moça, apesar de casada, encontra o jovem tradutor vez ou outra. Os amantes, até então, vivem uma das épocas mais distintas da vida parisiense: em plena década de 60, no famoso Quartier Latin, frequentam cafés e acompanham a política, o maio de 68, a vida em sociedade. E logo a menina má vai embora outra vez, abandonando seu marido (furtando o cofre de sua conta no estrangeiro) e seu eterno amante.
Ricardo Somocurcio é um homem persistente, mas já se sabe condenado às idas e vindas que esse amor lhe causará. Tanto é que reencontra a donzela na Londres de 1970, na companhia de um marido obcecado por cavalos de corrida, mais rico que o francês que ela deixara em prantos, enquanto Paris sai de moda e a terra dos Beatles vive o seu ápice hippie. Novamente tornam-se amantes, mas ela sabe o quanto seu marido é perigoso e ciumento.
Ricardo passa a vida inteira declarando-se repetidas vezes para a menina má, à medida que vão se encontrando quando permite o destino. Mas ela recusa e pisa no seu coração, afirmando categoricamente que se casa por dinheiro – jamais por amor. Mas também não resiste aos encantos que ele diz – ao que chama de “bobagens”, mas implora por serem repetidas. A história de ambos, contada dessa forma tão pouco atrativa que estou narrando, também parece um círculo vicioso: e é. Porém, isso não estraga muitas das surpresas presentes no livro e, além de tudo, nada se perde no foco narrativo de Vargas Llosa, e o livro não se torna dramático ou versão peruana de novela mexicana. Nada disso.
Porque, como se não bastasse, outra vez a menina má apronta das suas e vai embora. Porém, em uma situação inimaginável, Ricardo Somocurcio viaja até Tóquio após receber uma saudação com sua assinatura em uma das cartas de seu amigo tradutor. Faz de tudo para conseguir trabalhos no Japão, enquanto recebe notícias de sua amada. Ela está morando com um homem muito mais velho, que possui negócios misteriosos (e ilegais) que ele imagina ser um dos chefões da Yakuza, mas levando uma vida de gueixa. Entretanto, uma situação traumatizante para Ricardo acontece – e, sendo culpa de sua ingrata amante, acaba desistindo de encontrá-la, mesmo sabendo o quanto irá doer essa situação.
O retorno vem com Paris. Na realidade, a menina má telefona por anos para Ricardo, mas ele desliga todas as vezes que ouve sua voz. Contrariada, ela continua ligando, e ligando, e ligando. Até que um garoto, vizinho dele, atende o telefone enquanto o dono da casa está viajando a trabalho, fala com Lily e deixa o recado. Este fica impressionado. Não com as saudações de sua amada, mas com o fato de que o garoto provavelmente falou com a menina má. O menino não falava até então. Fora adotado quando pequeno pelos vizinhos estrangeiros de Ricardo, e sofrera algum trauma para ter-se negado a pronunciar qualquer palavra. Ricardo entende este fato como um presente – e fica também honestamente curioso para saber como a menina má conseguira tal milagre – e se ela de fato o conseguira. Ela pede um encontro. Ele aceita. Ela volta com uma depressão profunda e magreza ímpar, ao ponto de desmaiar. Ele percebe o quanto a “chilenita” necessita de auxílio e passa a lutar pela sua vida.
A moça retoma o equilíbrio emocional, casa-se com Ricardo (apenas para adquirir nacionalidade francesa e regularizar sua documentação, ela afirma), consegue um trabalho dignamente interessante e o livro bem que poderia terminar aí, com um “felizes para sempre” triunfante diante às imprevisibilidades do destino. Qual o quê. A “niña mala” logo se cansa da vida parisiense de esposa fiel e foge com o marido da moça de quem era sócia. E, se não fizesse isso, não seria a Lily que Ricardo anos antes conhecera.
Os anos passam. O coração de Ricardo já evita pesares maiores, e suas condições de trabalho resumem-se apenas a traduções literárias. Até conhecer Marcella, uma italiana em plena Espanha, que lhe dedica tempo e capacidade para aprendizagem, muitos anos mais nova. Entretanto, a redescoberta do amor não é o suficiente para afastar a menina má da sua mente e, talvez por isso, ela retorna.
Quando terminei o livro, compreendi a posição de Normalice: eu mesma tenho buscado por uma literatura cada vez mais sólida, pé no chão, de verdade, mesmo enquanto ficção. Gosto de romances por não serem pesarosos e sujos. Mas a minha única condição para esse estilo é que, pelo amor de Deus, pareçam-me reais. Pareçam com histórias de gente que eu veja na rua, minha vida passada, ao mesmo tempo que se utiliza de recursos cinematográficos – sem saber. Por isso abraço fortemente a literatura latino-americana, que me é palpável. Mas Travessuras da Menina Má não parece mesmo verídico – e, em verdade, não deveria sê-lo. Uma narrativa tão singular não merece a mediocridade do mundo em que vivemos. Apenas a admiração do suspiro e pensamento de que “poderia ter acontecido comigo”, mas se acontecesse comigo, eu teria agarrado o Somocurcio desde o início e, certamente, não seria uma personagem tão singular como a menina má.

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8 respostas em “Travessuras da menina má

  1. Ei Nina! Eu li esse livro no começo do ano passado, devorei, e amei, amei cada linha dele. Achei fantástico. Fiquei com raiva do Ricardo e da Lily, mas no fim das contas, admito foi que fiquei apaixonada. Pelos dois. Mas mais por ela, que apesar de todas as travessuras, é uma das protagonistas mais encantadoras que conheci. E eu nem sei explicar o porquê.

  2. Muito surreal esta história. Talvez ele se valha mesmo deste leque que a escrita permite, desdobrando-se por vias incomuns. Porque é um enredo bem peculiar. Ela se respalda na ficção mesmo. Por ser singular, destoa tanto do que é real. Embora um livro não precisa seguir necessariamente esta linha. De qualquer forma, e apesar de ler poucos livros, sou do tipo de que sente necessidade de ler uma trama, quando se tratando de romance desse gênero, que margeie um pouco as possibilidades reais de acontecer. Porque ao meu ver, é belo nos espelhar nos romances. O encanto surge aí. E não vejo como conseguir acreditar em algo assim, por mais que pareça desatino pensar assim. O limiar entre o possível e o impossível, neste livro é de uma dimensão inimaginável… Qualquer conto de fadas ainda é mais verídico do que esse aí… *risos.

    Beijo carinhoso!

  3. quase não conheço tal autor, só me lembro de minha ex-namorada lendo esse livro. mas concordo plenamente quanto ao “parecer estória de gente que eu vejo na rua”. isso é fundamental.

  4. Adorei esse post, Nina. Fiquei morrendo de vontade de conhecer as Travessuras da menina má. Assim, sem ler o livro, admito que talvez não vá gostar tanto dessa Lily, por ela ser fujona e partir tantas vezes o coração de Ricardo. Porém, só terei certeza disso, quando o ler. Obrigada pela dica de livro.
    Beijo!

  5. Adorei esse post, Nina. Fiquei morrendo de vontade de conhecer as Travessuras da menina má. Assim, sem ler o livro, admito que talvez não vá gostar tanto dessa Lily, por ela ser fujona e partir tantas vezes o coração de Ricardo. Porém, só terei certeza disso, quando o ler. Obrigada pela dica de livro.
    Beijo!

    http://ericaferro.blogspot.com.br/

  6. Sabe, Nina, não tem uma vez que eu venha aqui e não saia com um sorriso carimbado no rosto. Amo as tuas publicações.

    Beijos

  7. Pingback: Retrospectiva literária 2012 | Sobre Fatalismos

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