Verei Chico Buarque, muito bonita, em uma das primeiras filas

Naquela sexta-feira, penúltimo dia do mês de março de 2012, senti que a cidade inteira acordava em contramão.
Às cinco da manhã acordei com um objetivo que fez com que eu me entusiasmasse muito mais do que quando levantava cedo, em criança, para fazer algum exame de sangue, em jejum. Sentia obrigação para com o meu compromisso – mas não em um sentido insuportável, e sim antes como uma vantagem, afinal, eu teria de garantir meu ingresso para assistir, muito bonita, Chico Buarque da primeira fila.
Nesse ponto, confesso a enorme vantagem de se trabalhar em um shopping center: pois fui no Serviço de Atendimento ao Cliente perguntar em que horário abriria a bilheteria no dia seguinte. Meio-dia, com senhas a serem distribuídas desde as sete da manhã. Pensei sinceramente em ir pela tarde, mas recordei o fato de que já fazem seis anos que Chico não vem aqui e, apesar dos quatro dias de show – de quarta à sábado – eu não ficaria surpresa se os ingressos esgotassem em uma hora.
O preço, sem açúcar e sem afeto (a entrada inteira mais cara custava R$ 320,00), me fez ter uma discussão daquelas aqui em casa, mas definitivamente eu não deixaria de ir ao show de Chico, mesmo que tivesse de passar fome o mês inteiro (até porque, ele irá cantar a música que fez para mim, lembremos). Entretanto, reconheci o gasto ofensivo e fui ter com a minha mãe uma conversa no melhor tom de pedinte que cobrava seu presente de aniversário (já que as apresentações acontecerão em maio, e eu farei aniversário no dia dezesseis), mas ela só pôde contribuir com R$ 160,00, o que já garantiria minha meia-entrada (e eu ficarei responsável por forjar um comprovante de matrícula de alguma universidade para apresentar no dia do show). Pode ser caro, posso parecer burguesa, mas nada me impediria de estar lá.
Escondi o dinheiro dentro do meu sapato oxford azul da Prússia (temendo um assalto logo de manhã cedo) e tomei o ônibus rumo ao shopping fechado, mas com o SAC aberto. Cheguei pelas seis. Minha senha era a de número dezenove (sete da manhã a distribuição? Hein?). Isso significa que sim: dezoito indivíduos desesperados por contemplar aquele par de olhos cor de ardósia já estavam ansiosos e chegaram mais cedo do que esta humilde fã, que vos escreve. Tudo bem.
Dei uma volta no estacionamento do segundo piso, pois a bilheteria realmente só estaria disponível no horário do almoço, mas não encontrei nenhuma das figuras que compareceram cedo ao estabelecimento comum. Fiquei lendo On The Road, intercalando com um jogo do meu celular, esperando o shopping abrir. Lá para as nove, quando isso aconteceu, corri para o Mc Donald’s e, morrendo de sono, pedi um refrigerante para ver se acordava (detesto café). Às dez fui ao Itaú retirar meu salário, pois era dia de pagamento e, pela fila formada antes do banco abrir, percebi que o dia todo se desencadearia nisso – e olha que eu ainda iria trabalhar, em pé.
Passei na livraria, conversei um pouco com o gerente e, às onze em ponto, desci a praça de alimentação rumo ao SAC e, não sem surpresa, o local estava lotado em seus diversos setores, principalmente na entrada da bilheteria, que permanecia fechada. Na confusão evidente, entre conversas aleatórias e jovens cantando Tipo um Baião, perguntei a um daqueles meninos “posso ajudar?” como seria a organização daquela baderna. Ele questionou:
– A senhora possui senha?
– Sim. – Respondi.
– Pode aguardar sentada, se quiser. Antes do meio-dia formaremos duas filas: uma de pessoas com senha e outra de senhas preferenciais (para idosos).
– E aquela galera ali, sentada no chão?
– Aqueles são os que chegaram atrasados, após a distribuição das senhas. Serão atendidos bem depois.
–  Obrigada.
Descobri que era uma das abençoadas que conquistou uma das sessenta senhas (apenas) distribuídas. Fui procurar uma cadeira. Em meu lado esquerdo havia uma menina loura, com a última biografia do Chico, escrita pela Regina Zappa, aberto em seu colo. Do outro lado, uma senhora com quem logo puxei conversa, tão ansiosa quanto eu, mas que relembrava o quanto era louca pelo Chico, desde adolescente. Ela foi ao último show dele por aqui, seis anos atrás, em um dia no qual faltara luz no meio da apresentação (!) e a atriz Mariana Ximenes estava lá, muito bela e muito branca.
Aos poucos ficamos sabendo de outras notícias que chegavam de amigos dos que aguardavam a bilheteria abrir. No outro SAC, em outro shopping, começariam a chamar primeiro os nomes das pessoas que haviam comprado os ingressos antecipadamente, através da promoção de algum seguro (achei injusto). Um rapaz que havia chegado lá por volta do mesmo horário que eu pegara a senha de número quarenta e seis. Era inacreditável, já que aquele costumava ser o local de venda menos movimentado (mas penso que muitos devem ter imaginado o mesmo, e correram para lá, deixando o SAC no qual eu estava com uma quantidade razoável do que se pode definir como “cheio”). E a bilheteria do Teatro Castro Alves, onde acontecerão os shows de 9 a 12 de maio, continha quase que toda a população soteropolitana, em massa, que aguardava desde a madrugada a abertura da venda de ingressos, conforme se pode verificar nas fotos abaixo, e nesse vídeo aqui. Éramos abençoados e não sabíamos.

30 de março de 2012 - fila para a abertura da venda de ingressos para o show de Chico Buarque, em frente ao Teatro Castro Alves.

 30 de março de 2012 - fila para a abertura da venda de ingressos para o show de Chico Buarque, em frente ao Teatro Castro Alves.

Ao meio-dia, começaram a organizar filas, chamando as pessoas que tinham senha de 1 a 10, também do preferencial. Uma menina me abordou e perguntou se eu queria trocar de lugar com ela.
– Qual é a sua? – questionei.
– Treze.
– Mas por qual motivo você quer trocar?
– Estou esperando o meu pai chegar com o dinheiro da compra. Ele foi ao banco.
– A minha é a dezenove. Quer?
– Sim.
Finda a troca, chamaram mais cinco para a fila, e isso me incluía, naturalmente. Conversei com um rapaz à minha frente, estudante de Direito que, assim como eu, nunca tinha visto um show do Chico, ao contrário de uma garota atrás de nós, que iria pela segunda vez. Outra menina, daquelas que aguardavam sem senha, perguntou quantos ingressos eu levaria. Respondi que apenas um. Ela perguntou se eu poderia comprar os seus e concordei. Cada pessoa tinha direito a quatro ingressos. Todos estávamos ansiosos, como se já fosse o dia de ver o Chico cantar. O estudante de Direito pretendia ir ao sábado, mas apostava que este seria o primeiro a lotar, pelo menos nas primeiras filas. Estava certo, mas encontrou lugar na quinta-feira. Na minha vez, escolhi o mais perto possível do palco, de modo que não ficasse necessariamente na fila A, com o rosto para cima o tempo todo. Então, decidi pelo único local vago na fila C: a cadeira de número treze, assim como a senha que eu trocara coma menina que esperava seu pai. Fiquei extremamente satisfeita. Pois estava pagando caro e, se fosse por todo esse esforço, tinha que valer à pena acordar tão cedo para garantir meu lugar na frente do Chico Buarque, com os meus olhos verdes e chorosos naquele par de olhos cor do mar, até ver como ele suportaria me ver tão feliz. E já era impressionante a quantidade de cadeiras ocupadas, em um show que seria em plena quarta-feira, meio da semana. Comprei aquele ingresso como se fosse o último.
Escolhi esse dia para não atrapalhar o meu serviço na livraria, posso tirar uma folga tranquila – e passar o dia inteiro me arrumando e relembrando as canções de seu último disco, que irei ouvir à noite. Chico, com toda a certeza do mundo, ficará emocionado ao notar que o público comparecera em massa, e espero que imagine que muitos de nós fez um esforço enorme para estar ali presentes: economizando por meses o salário, pedindo emprestado, ou em forma de presente de aniversário. E uma felicidade tamanha, pois vale à pena pagar caro para ter a oportunidade única (no meu caso, considero assim) de ver um excelente artista vivo, como ele. Um gênio que poderei apreciar, daqui há um mês, muito bonita, em uma das primeiras filas. Aguardem os próximos capítulos e morra de inveja, Anna Vitória.

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12 respostas em “Verei Chico Buarque, muito bonita, em uma das primeiras filas

  1. AH, achei pesado falar isso pra Anninha no final, hein?
    É tão legal quando a gente consegue algo que quer muito.. lembrei que não consegui comprar ingresso pro show do U2 ano passado e fiquei muito chateada.. :/
    Beijo!

  2. Posso ser sincera? Você até pode me ignorar depois dessa revelação, mas tenho que dizer: Não gosto nem um pouquinho do Chico. Não dá. Não desce. Mas não por isso deixo de elogiá-lo e concordar que sim, ele é um artista renomado. Sabemos que existe coisa pior por aí hahaha

    Sei como é desejar tanto um ingresso e conseguir comprá-lo! Deixe que os outros falem, jamais irá entender. O importante é garantir sua felicidade! Espero que você aproveite cada pedacinho do show, que concordo ser um acontecimento único, e depois venha contar pra gente por aqui!

  3. Achei curioso esse texto pois lembrei um que li aqui uma vez que comparava Chico com Caetano, algo assim e você dizia que gostava mais do Caetano, então quando vi tudo que passou para conseguir ir ao Chico comecei a imaginar o que faria caso fosse o Caetano por aí hahah
    Eu adoro o Chico, mas não tanto quanto você! Digo isso porque ele veio aqui no fim do ano passado para quatro dias de show e como era caro e não ia conseguir ir mesmo, nem tentei mendigar por aí ou qualquer coisa do tipo, aceitei e não fui. Tenho esperanças de vê-lo algum dia na vida ainda e torço para que seu show seja fantástico, depois de toda essa batalha ele tem que ser!
    Sinto pena de não poder vir aqui frequentemente, mas a vida anda corrida demais… O que importa é que ainda gosto muito dos seus textos e continuo torcendo para que tudo dê certo em sua vida :)
    Abraços!

  4. nina, amo suas narrativas.
    e AMO o chico também.
    aproveite o show por mim!
    beijo
    iza

  5. Muito bonita mesmo! Tou numa fase que só me permiti trazer Chico e Caetano de música brasileira pro Chile e queria muito ver uma dessas apresentações da turnê do Chico =((
    Aguardo o relato do gran día.

  6. Rá! Como imagino a sua felicidade. Tu adora Chico mesmo.
    Ei, registre o máximo o show. E curta muito. Tenho certeza que serás inesquecível.

    Beijos querida amiga!!

  7. Geeenz, eu me sinto muito deslocada nessa blogosfera quando começam a falar do Chico e de Los Hermanos. Porque eu não gosto deles. Do Chico só conheço uma música: Beatriz, e acho linda linda, mas confesso que só tive paciência para ouvir porque ouvi na voz da Ana Carolina.
    Repito que me sinto muito deslocada quando começam a falar sobre este ser que eu não conheço. Mas cada um divaga sobre o que gosta, né? Essa é a graça das coisas. :**

    (fazia muito, mas muito tempo que eu não vinha aqui Oo’)

  8. Morrerei mesmo, Nina, mas me sinto representada por você lá! Curta, chore, se derreta em dobro, porque ficarei só na vontade.
    Beijo!

  9. Pingback: Chico, esse lindo « #sobrefatalismos

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