Eu não vim aqui fazer um manifesto

Sim, trabalho em uma livraria grande. Obviamente, alguns escritores passam por lá. Não, nunca vi João Ubaldo Ribeiro. É verdade, a Thalita Rebouças fez uma visita relâmpago dia desses.
Contrariando a “ordem natural das coisas”, mapas astrais e afins, nós, os livreiros, não passamos seis horas do nosso dia revezando entre um clube de leitura exclusivo e clientes eufóricos por atendimento. Quer dizer, claro que os clientes estão sempre (e invariavelmente) eufóricos, mas de onde vocês tiraram a noção de que sentamos no chão, entre as estantes, para ler as obras indicadas no vestibular enquanto o expediente acontece e o circo pega fogo no setor de auto-ajuda?  A realidade é outra: horas em pé, andando de um lado para o outro, subindo e descendo escadas com cestas de novidades prontas para habitarem estantes, mesas e demais expositores. O resultado, gratificante ao fim do dia, também se resume em um relatório de dores nos pés. É exaustivo. E é exatamente esse tipo de situação que faz com que eu me ponha no meu lugar.
Não há glamour para quem trabalha em livraria. Não estou querendo reclamar do meu serviço, é sério, não tenho como e nem por quê. Mas eu me sinto uma pessoa cada vez mais diminuída pelo menos um sábado de cada mês, por um fato simples: escritores vários e outros tantos amadores se reúnem na área de eventos para, sei lá, discutir alguma obra, ouvir boa música e autografar lançamentos. É o tipo de evento divulgado entre as pessoas do meio e, ainda assim, faz com que a livraria fique lotada e eu vivo os altos e baixos dessa convivência mensal com a galera de responsa.
Porque eu sou Ninguém, prazer em conhecê-lo. Eu queria que a minha vida fosse uma crônica do Rubem Braga, daquelas que ele sai (apesar de muito reservado) para conversar ali na esquina com os seus melhores amigos Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Vinícius de Moraes. Os escritores que frequentam a livraria não são tão conhecidos assim, mas fazer parte de um clube meio Virginia Woolf talvez seja o ápice literário. Ou não.
Porque respirar livraria também cansa minha beleza. Está sendo maravilhoso realizar esse sonho de quinze anos, mas sentir que estou mais perto dos meus sonhos também me afasta um pouco deles. Pisar em uma livraria e indicar obras diversas para aquela criatura indecisa sobre o que dar de presente de aniversário para o primo da amiga do sobrinho não significa necessariamente que algum editor da Companhia das Letras passará por aqui e dirá: “oi Nina, adorei esse livro que você me sugeriu e li o seu blog, vamos conversar sobre uma possível publicação?”, não é assim na prática, infelizmente. Primeiro que o meu blog não vai para qualquer pessoa, segundo que nenhum editor importante passou por mim até agora.
E daí que vem esse pessoal: uns arrumados, outros descolados, muitos barbudos com camisetas de citações de Bukowski. Você percebe que não é uma galerinha hipster que publica trechos de Morangos Mofados do Caio Fernando Abreu no Facebook. É outro mundo, crianças. É um pessoal que chega na intenção do Guimarães Rosa, não importando se Jogos Vorazes é a sensação do momento. Que despreza Rubem Alves, sem dó. Que desconfia de quem ama Clarice Lispector. Literatura, para eles, não é coisa de momento. Para mim, também não.
Contrariando também os cinco sentidos, a posição dos astros e a previsão apocalíptica dos maias, estou sem tempo para ler, tampouco para escrever – e vocês já devem ter percebido. Quem tem razão é o meu gerente. Ele sugeriu que eu lesse tudo que costumo não gostar, como livros de vampiro (argh!), livros de “efeito Ana Carolina” (ou seja, extremamente comerciais) do Harlan Coben, livros de balzaquianas à beira do abismo que tentam descobrir o verdadeiro amor entre as autoras de Sex In The City e, sei lá, Melancia. E olha que eu ainda nem falei de Nicholas Sparks (aquele lindo que não consegue variar de tema em seus livros). Tenho uma colega de trabalho que diz que sou muito crítica. Mas afinal, o que é ser crítica? Ela não conseguiu ler Cem Anos de Solidão, nem A Menina que Roubava Livros. Tenham dó: o primeiro é um Nobel, o segundo best-seller. Nada mais básico, ainda mais para quem cursa Letras.
Daí que ganhei On The Road no Natal e, com a pressão do filme inspirado no mesmo que chega em junho, eu tinha que ler esse livro, tinha-que-ler-esse-livro, tinhaqueleresselivro. O problema é que tomei o fato como uma obrigação, como se fosse vestibular, como se eu estivesse encarando Quarup. E, como se não bastasse, eu não gosto de escritores americanos. O motivo? Simples. Kerouac é um grande exemplo do que narrarei a seguir.
On The Road é um livro que tentei ler em PDF (aff, juro) ano passado e não deu certo. Daí que, quando a L&PM lançou O Manuscrito Original, bati o pé que queria porque queria e o maridão me deu. A história, todo mundo já conhece: garoto sem lenço nem documento quer porque quer viajar o Estados Unidos para encontrar os amigos em uma cidade bacana qualquer, como se não houvesse amanhã. O problema é que Jack Kerouac comete o mesmo erro de todos os outros autores americanos: diz o nome do lugar, como se nós, meros mortais, já tivéssemos passado por lá (isso é mais frequente nos livros policiais, o que é perdoável, já que a sequência de fatos determina o ápice da trama, mas em um romance é devastador). Não me importa se a trajetória do ser humano, se o objetivo da sua vida é ir para Denver ver o seu amigo louco que casou com a guria de dezesseis anos e está comendo outras duas. Eu não sei onde fica Denver, como ela é, o que tem de bom lá e sim: neurótica que sou, isso me fez desistir do livro.
Mas até que eu cheguei lá… em Denver. Era um lugar interessante, onde ele encontrou seus amigos e, quando estava prestes a sair, cansei daquela narrativa “nossa, estamos aqui, mas temos de ir e, no entanto, queremos ficar”, como se tudo fosse muito difícil nessa vida e road-movie fosse a idéia mais original da literatura (Nabokov, eu te amo). Senti que estava menosprezando Kerouac só porque exijo muito daquilo que leio – e isso é injusto, pois ele foi um bom autor. Eu que não tenho paciência.
É diferente quando você lê sobre Paris, por exemplo. Porque a capital francesa exibe requintes específicos e sabemos aos trancos e barrancos como ela é, mesmo sem ter pisado lá. Entretanto, Jane Austen seria um lixo caso passasse por Devonshire e não explicasse detalhadamente o ambiente, seus castelos e as pessoas e costumes do local. Detalhes fazem a diferença. Intenções demais ficam apenas para seus personagens. On The Road é um livro repleto de intenções, de precipitações, mas pouco detalhista. E ponto final.
Mas sequer Jane Austen me foi satisfatória. Tentei ler Emma dia desses e, Deus do céu, quanta chatice a persuasão daquela personagem. E, se Emma e On The Road são obras consagradas da literatura universal, mesmo sem surtirem efeito positivo em mim, tio Sartre, o inferno não são os outros.
Então é isso. Quero espanhóis e latino-americanos. Uma literatura mais suja e realista. O problema é que “tenho minhas obrigações” para com a leitura dos clássicos, mas estou sem clima, e isso é um grande dilema da mulher moderna, e tema fascinante para o próximo livro da Sophie Kinsella: a história de uma livreira que, perdida em uma livraria, entre tantas opções, já não sabe o que deseja ler. Só que não.
Nesse caso, não tenho coragem alguma de encarar a reunião mensal de um grupinho que sabe o que quer, sabe quem é, qual a posição da Lua sobre Saturno, a nota musical sem oscilações que a sua voz permite e qual o seu significado no mundo. E fico ali, no andar inferior, observando a festa, os risos, as piadas internas, os títulos a serem autografados, os discursos completos. Tento emitir pequenos sinais de fogo da minha ínfima existência, mas consigo a proeza de passar o dia inteiro divertindo a minha solidão com os ataques invejosos que pairam sobre a nuvenzinha cinza que a minha pessoa representa. Ninguém sabe que eu sou a Hillé, por exemplo. Exatamente porque eu não sou a Hillé. Mas se eu fosse, seria legal. Eu também poderia ser uma ghost-writter e guardar o segredo de que Chico Buarque teria se inspirado em mim para criar seu mais famoso livro que, pasmem, já está na lista (atualizada) dos 1001 Livros que Você Precisa Ler Antes de Morrer, mas eu já tenho uma valsa russa dele, e isso basta. Acontece que não sei o que fazer da minha vida, não sei o que fazer da escrita e, se já casei, porque não compro uma bicicleta? Mas não se pode querer tudo no mundo, e um garoto já teve a idéia, antes de mim, de espalhar marcadores de páginas com pequenos versos de sua autoria nas livrarias da cidade. E se García Márquez não veio aqui fazer um discurso, quem sou eu para conceber um manifesto sobre a minha falta de senso para escolher livros, escrever bobagens como essa e participar (sem ter sido convidada) de uma reunião séria? Já chega, vou calar a boca.

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8 respostas em “Eu não vim aqui fazer um manifesto

  1. Às vezes é muito mais interessante, entre tantos livros e tantos autores, ler bulas de remédio. Até porque ler a bula de remédio, diferentemente de alguns livros, não tem efeito colateral.

  2. Eu pensei em muitas coisas pra comentar enquanto lia, Nina, mas acabei me fixando quando você disse que não gostou de Emma. Gente, eu amei esse livro! De paixão! (Tomei um susto quando você disse que era a Hillé, hahaha)

  3. Ai Nina, querida, eu sei como é. As vezes a gente se sente um nada, acha que a vida perdeu o prumo, culpa o mundo e especialmente nós mesmos, sendo que muitas vezes ninguém pe realmente culpado. Enfim, sei como é entrar numa fase que tudo quanto é livro vira chatisse. No final de fevereiro peguei a biografia de “Steve Jobs” pra ler e não consegui passar da página 120, e peguei um outro livro que nem lembro o nome e acabei abandonando também.

    Agora voltei a ter foco, tô lendo Tocaia Grande do Jorge Amado e amando. Ando numa fase latino-americanos também. A propósito, o que você acha do Llosa? Eu gosto demais.

    Acho que é isso. Beijinhos.

  4. “ninguém sabe que eu sou a Hillé, por exemplo”. Sim, sim, quase tive um treco! HAHAHAHA

    E assim como a Aninha, pensei em um monte de coisas para comentar (porque você faz isso com a gente, você muda o rumo das coisas que a gente tá pensando usando apenas o mesmo texto), vou tentar listar:

    # pés doendo? não tem glamour? os dias são passados arrumando prateleiras ou andando pra lá e pra cá? velho, eu quero sentir por mim mesma. sempre quis trabalhar numa livraria ou biblioteca *.*

    # como assim a guria não conseguiu ler cem anos de solidão e a menina que roubava livros. DOIS MARAVILHOSOS LIVROS. Como assim, braseol, como assim?

    # peguei On the road pra ler em PDF. e não consegui. mas ainda não desisti. vou tentar novamente o/

    # Budapeste é um dos livros que vc tem que ler antes de morrer? Pff, também não consegui terminar de ler =~~

  5. Estou muda, mas achei justo comentar alguma coisa, já que gostei tanto do texto. Parece um universo paralelo ao meu, esse dos livros. É claro que leio, não sou das mais irrelevantes. Mas há tanto não leio livros de história (ou estória), livros por gosto e estilo, há tanto não escolho um livro que mexa com emoções. Leio por estudo, leio para entender por que letra serifada é diferente de sem serifa ou como prover uma experiência melhor aos usuários em um site de e-commerce. Gostaria de voltar à Virginia Woolf e Vinicius de Moraes, em algum dia próximo, de preferência.

    Boa sorte com as prateleiras, com as leituras, e com as dores nos pés, pois estar mais perto dos sonhos nos afasta um pouco deles, sim. Deve ser Hollywood o culpado, que não contou que a moça teve dores de cabeça terríveis de tanto treinar antes de chegar em frente ao grande público e se revelar boa advogada.

  6. Ainda acho que trabalhar numa livraria deve ser mágico. Os livreiros da “Livaria Cultura” aqui de Curitiba são TÃO legais e parecem tão leitores de todos os livros legais do mundo que eu MORRO de inveja deles, de verdade. Quero muito ler “On The Road” e ao contrário de você adoro ler sobre lugares desconhecidos e não acho que isso interfira muito na leitura, tipo Harry Potter que é fantástico mesmo eu não sabendo onde Hogwarts fica e “O Senhor dos Anéis” que me faz imaginar uma Terra completamente diferente. Acho que gostarei do “on the road” porque um dos meus livros preferidos é “na natureza selvagem” que segue mais ou menos a mesma linha. Devo concordar, porém que os escritores brasileiros e latino-americanos têm um senso de realidade tão puro, tão deles que torna absolutamente impossível desprezar suas obras. No entanto, acredito que devias seguir a dica do seu diretor e ler coisas que fugissem da sua zona de conforto, não para participar dos grupos da livraria ou qualquer coisa assim, só pela sensação de experimentar algo novo mesmo! No mais, se nunca derem bola pra sua escrita são uns bobos.
    E você passou no meu blog e disse que nunca tinha ido lá, claro que tinha! Sou a Mayra, você deve lembrar de mim, vim bastante aqui ano passado… é que mudei completamente o jeito do blog e tal, mas você já tinha visitado!
    Enfim, um grande abraço!

  7. Eu sei que não tem glamour. Mas ainda assim, te vejo rodeada de literatura, se chamando toda hora. haha Adorei seu relato. É um trabalho bonito também, você fazendo indicações. Você está fazendo a diferença.

  8. kerouac é sujo e realista, mas a beat generation constantemente repete a geografia dos estados unidos de forma insana – talvez porque sejam road books. mas o importante é não se render aos livros de vampiro.

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