Não me impressiona

Clarice Lispector, escritora ucraniana mais importante do Brasil. Pois é.Não gosto de Clarice Lispector. Pronto, falei. Podem atirar pedras em mim, afirmarem que é um absurdo, que acreditavam cegamente que ela era uma referência literária muito forte em minha vida, que eu não devo desprezar a autora mais importante da literatura nacional (sendo estrangeira, detalhe) e seja lá o que for. Não adianta.
Certamente perderei muitos leitores, mas isso não mudará o fato de que eu não me identifico com o que Clarice escrevera (sinto muito, se não correspondo as expectativas). E pior: quando decidi começar, fiz tudo pelo avesso, tudo errado. O primeiro livro que peguei, no colegial, nas empoeiradas estantes da biblioteca, fora o seu mais complexo e misterioso A Paixão Segundo G.H. Não consegui passar da quinta página com aquela imitação de Shakespeare “ser ou não ser, eis a questão”, aquela “busca implacável” (e interminável) do “eu interior”, da “independência do ser”, todo um papinho místico, cabalístico e auto-ajuda. Desisti do livro – porém, não de sua autora.
Tempos antes, encarei um exemplar de correspondências trocadas entre ela e Fernando Sabino. Mais pelo segundo – um dos autores de minha infância – e percebi uma mulher culta, porém um pouco materialista, um ar “descontraído blasé”, querendo ser Simone de Beauvoir nas mil viagens que fazia. Cansou minha beleza.
Sucedeu que, dois anos depois, tentei novamente com Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Apaixonei-me pela iludida e coitada Lore, fascinada por seu Ulisses, que não via mais do que uma adolescente em dúvida existencial na mulher que o amava. O declínio dessa personagem é fascinante. Mas também não passou daí.
Além do mais, tudo é muito popular, suas frases são divulgadas nas redes sociais (junto com Caio Fernado Abreu) e ela virou “musa” da blogosfera e soberana nos “mais vendidos” da livraria em que trabalho. Mas eu não vejo nada disso.Capa do livro A Paixão Segundo G. H., de Clarice Lispector, pela editora Rocco.
A última menção que obtive quanto a sua pessoa fora um encontro dela e Caetano Veloso, narrado no livro Verdade Tropical, do cantor e compositor. Ele se comunicou por anos com Clarice apenas por cartas e, chegada a oportunidade de vê-la, não conseguiu sentir a felicidade (clandestina?) à qual se havia permitido sonhar, quando lia seus livros, na juventude. Encontraram-se por acaso e ela disse: “Meu filho, eu sou Clarice Lispector”. Isso me pareceu geniosamente superior, semelhante ao personagem (comparação estúpida e sem nexo) Chuck Bass, interpretado por Ed Westwick em Gossip Girl, com a sua frase favorita quanto a querer tudo na vida: “porque eu sou Chuck Bass!”. Ridículo, ou seja.
E hoje, madrugada de quinta-feira, vi no Livros & Afins o teste para saber que personagem de Clarice eu sou (sei). Decidi perder cinco minutos da minha vida para constatar que a minha persona condiz com o espírito livre daquela que não me fascinou nem um pouco: G.H., sua linda.
Retomarei o livro? Quem sabe um dia. Mas, por favor, não me odeiem por isso.

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15 respostas em “Não me impressiona

  1. nina, gosto muito das crônicas de clarice e não gosto dos romances por ela escritos. e abomino muito autor consagrado e venerado por aí… e daí? acho que ninguém deve criticar ninguém pelos seus gostos. cada um sabe o que lhe apetece. e acredito que o que nos faz únicos, cada um de nós, é justamente a mistura variada e dinâmica de tudo que nos compõe. =)
    bonita essa liberdade.
    tenha um dia leve!
    iza

  2. Ninguém tem a obrigação de gostar da Lispector. As pessoas acham que só porque consideram algo “perfeito”, esta é a verdade absoluta do mundo e todos tem de concordar. Não é assim! Eu também não acho a última Coca Cola do deserto, sendo sincera. Não poderia concordar mais com você. Adorei o livro Perto do Coração Selvagem, é inovador (para mim), profundo, sensível, mas nada perfeito. Supervalorizam a Lispector, essa que é a verdade.

    Ah, seus elogios no meu blog, Nina… Eu fico me sentindo a cereja do topo! Admiro muito você, sua escrita, seus pensamentos, e por isso é maravilhoso saber que você gosta do que faço! Alguém tão inteligente assim aprovar meus textos, nossa, eu ganho o dia! Muito obrigada, de coração :)

  3. Acho que peguei essa ‘desgostança’ da autora de tanto ver frases por ai… as pessoas, às vezes, não gostam simplesmente, fazem disso uma ‘filosofia de vida’ (?!)
    Não leria (atualmente… futuramente, quem sabe?) algo dela. #prontofalei haha

  4. Ah nem. Nunca vou te odiar. (talvez por ter esquecido de mim rsrs) Afinal de contas meu anjo, essa questão de leitura, de autores, é muito particular. Eu mesmo leio poucos livros e não tenho quase nada de referências literárias, tirando um pouco por Vinícius e suas poesias com a qual me identifico. No mais sou meio a parte de tudo, embora eu acho que devo mudar um pouco esta situação.

    Bem, não fique assim. Tu não deve se sentir no direito de gostar da moça não. Principalmente porque a maioria gosta ou se utiliza de frases dela, sem mesmo lerem suas obras, para entenderem o contexto.

    Adoro você e tua franca forma de ser de não ter amarras para dizer o que pensa e sobre o que gosta e o que não gosta. Não é por acaso que me tornei seu amigo. Tu és uma pessoa de personalidade. Adoro isso em ti.

    Beijo saudoso…

  5. Eu li seu texto todo assim: MAS COMO ASSIM ELA NÃO GOSTA DE CLARICE LISPECTOR? É tipo não gostar de Beatles. Tá, eu continuo a gostar de você assim mesmo.

  6. Amei a comparação com o Chuck Bas ponto final.
    HAHAHHAHAHA
    Gosto de Clarice porque tive que ler “Felicidade Clandestina” pro vestibular e meu professor explicava tão delirantemente bem que era impossível não gostar. O conto homônimo é maravilhoso, mas a belezura mesmo está em “O Ovo e a Galinha”. Não sou mega fã da moça, mas acho ela uma ótima escritora e tenho vontade de ler mais alguns de seus livros.
    Abraços!

  7. (acabei de fazer o teste e disse que sou G.H também, devo ler o livro?)

  8. Primeiro de tudo, eu gosto do Chuck porque de todos aqueles filhos de uma égua de Gossip Girl, ele é o mais honesto: é sacana mas não esconde.

    Então, eu também não morro pela Clarice. Li A paixão segundo G.H, e só li porque nas sinopses da vida a gente lê que a mulher come uma barata. Eu só quis ler porque a mulher ia comer uma barata no livro. Acho que eu fazia 8ª série, na época, mas até hoje lembro de uma parte que ela vai no quarto da empregada e vê um desenho tosco dela na parede. Foi isso que ficou em mim desse livro.
    Também li A hora da estrela, mas esse me deixou perdida, perdida e sem recordação alguma =s
    E tô com Laços de família e a Cidade Sitiada para ler, mas cadê ânimo? Não vou te odiar por não babar a Clarice porque eu também não babo por ela. Eu até gosto assim, mas ela tá em outro nível que eu não cheguei, HAHAHAHAHA. Prefiro bem mais o Caio, tanto que já li quase todos os livros dele.

    E mais uma vez: Chuck Bass \o/ HAHAHAHAHAH
    :*

  9. li muito pouco da clarice, mas certamente tenho uma implicância muito grande com todas as citações imbecis de pessoas sem cérebro em twitter e afins.

  10. Aê. Também não gosto de Clarisse Lispector. Oremos.
    Nem morro por Beatles.
    Não sou viciada em coca-cola.

    Mamãe tava certa quando falou que eu sou do contra.
    Bom, pelo menos eu gosto de futebol.
    (P.S.: Larguei felicidade clandestina, que todo mundo bota acima de deus, então, acho que não preciso insistir mais né?)
    Bom comentar aqui de novo. *–*

  11. Então, já me chamaram de Clarice e não sei até onde gostei. Mas eu gosto dela. Muito. Além do que gostaria. Mas sabe, ninguém precisa gostar do que supostamente todo mundo gosta.
    E A Paixão Segundo G. H. foi uma realção de amor e ódio. Tive vontade de jogar o livro na parede várias vezes… ainda não sei ao certo por ser tão existencial, ou por eu ter me identificado tanto. É.

    Beijo

  12. Até que enfim! rsrs
    Também não gostei, o primeiro livro que li foi um de contos, todos muito viajantes, sem nada que me atraísse e fizesse terminar o malfadado volume.

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