Chico, esse lindo

Chico Buarque abriu o show com uma canção inédita que, se o entusiasmo do público feminino em sua maioria me fez entender bem, o refrão afirmava algo como “Nina veio me buscar”. Dito e feito, eu estava lá.

Escuridão total porque eu sou uma péssima fotógrafa. Mesmo.
O Teatro Castro Alves lotou. Para uma quarta-feira, meio da semana, nove de maio, isso só não era surpresa dada a presença do cantor e compositor. Mas também fora um dia estranho, particularmente falando. Era um dia de folga, no qual eu havia comparecido ao cinema (por obrigação), arrastada pelo meu marido na companhia de um amigo nosso. Voltei para casa com sono, e me permiti o privilégio de um cochilo antes de me arrumar lá para as sete e meia, para um show que começaria às nove da noite. Não havia escolhido roupa ainda, mas pensava seriamente em algum vestido já tantas vezes utilizado (e naquele mesmo teatro), até optar pela velha, boa e pouco original combinação entre jeans e blusa fresca, salto alto e echarpe, para me diferenciar do resto dos mortais.

Normal, todo mundo tava assim no teatro.
Não é do meu feitio permitir que tudo fique para a última hora. Mas um anúncio da velhice próxima estava mais do que nítido: pois em mim faltava a ansiedade pela qual eu tanto ansiava, algo semelhante ao que senti no dia em que fui comprar o ingresso e, no entanto, eu não sentia nada, muito pelo contrário, uma tranqüilidade se apoderou de mim, inexplicável, inexprimível. Faltava uma semana para o meu aniversário e, oi? Eu estava prestes a “conhecer” Chico Buarque pessoalmente, olhos nos olhos, quero-ver-o-que-você-diz e, cadê o desespero? Cadê os meus calmantes? Por que cargas d’água eu estava quase entediada pela minha ausência de entusiasmo? Vai saber.
Mas é óbvio que, quando saí de casa, ouvi as batidas aceleradas do coração e o apressar do relógio: oito e quinze. Nessas horas a gente agradece o lugar marcado, e a oportunidade única de armar um barraco daqueles, caso encontre qualquer um no seu assento privilegiado: fila C, poltrona 13, de frente para o palco, visível (a olho nu) aos olhos do artista, e vice-versa. Não me atrasei.
Na entrada do teatro, escadaria repleta de jovens por todos os lados, parecia que o Restart se apresentaria ali, no mesmo dia que o Chico, mas seria um erro crasso pensar dessa forma, pois Chico une gerações. Levei um comprovante de matrícula falsificado, recebido via e-mail, disposta mesmo a utilizá-lo, mas decidi oferecer o meu melhor sorriso ao segurança que, retribuindo sinceramente, não me cobrou documentação alguma, ao saber que o meu ingresso era de meia-entrada. Então, das duas uma: ou eu tenho cara de estudante menor de idade (é uma honra pensar assim, afinal, uma semana depois eu completaria duas décadas de ínfima existência); ou ele se interessou por essa rapariga que vos escreve e imaginou também que seria um es-cân-da-lo procurar confusão com soteropolitanos que pagam R$ 160,00 para ouvir “um velho daqueles” pessoalmente. Mas prefiro imaginar a primeira opção.
No banheiro do teatro, reencontrei uma das meninas que conheci na fila da bilheteria do SAC, um mês atrás. Ela tirou uma foto minha e eu retribuí com um registro dela e suas amigas, todas muito arrumadas e ansiosas para o show. Eu queria documentar tudo, mas já estava tão nervosa que todas as minhas fotos saíram tremidas, graças ao excelente curso de fotografia avançada que eu não fiz e também a pressa de duas baterias AA que me prometiam poucos minutos de diversão, pois já estavam acabando. Fora a máquina em si, que ganhei da minha irmã mais velha meses antes e que me aventurava em sua primeira utilização, de fato. Eu devo ter nascido só para escrever mesmo.

As "chiketes" e o teatro lotado.
Puxei conversa com o garoto que estava sentado ao meu lado. Ele se definiu, humildemente (ou não), como um verdadeiro boêmio, mas também era a primeira vez que estaria diante de Chico – e me mostrou, em seu celular, as (vinte e seis) músicas que estavam previstas para aquela noite. Nesse ponto, tenho um reclame a fazer: a turnê (ou o teatro, vai saber), não disponibilizou uma lembrança sequer daquela noite, como um pequeno catálogo de fotos, créditos e canções que é costume do TCA distribuir em qualquer apresentação, pequena ou grande. E, com um show desse porte ficou um tanto quanto estranho a ausência dessa lembrança. E encarei mesmo como uma falta de respeito. Isso não se faz.
A última chamada para o início da apresentação se deu cinco minutos antes das nove, e com isso desceu o telão com as regras comuns do teatro, e seu sistema de segurança caso ocorresse algum empecilho. Eu já previa que a maioria pretendia desrespeitar a regra do “não tire fotos se não estiver autorizado” – algo que não precisa ser dito por que, na prática, não funciona. É Chico Buarque, minha gente. Todo mundo quer provar que esteve lá.
Chico entrou no palco pontualmente (ainda bem) e eu, claro, gritei absurdos como “lindo”, “gostoso” e por aí vai. Assim como todas as mulheres, de quinze a cem anos de idade (se duvidar) gritavam. E me considerei normal, por estar perto dos meus vinte anos-luz realizando o sonho de encontrar o artista que melhor desvenda a alma feminina até hoje. E querem saber de uma coisa? Amar Chico Buarque é absolutamente normal.
Aquele lindo surpreendeu o público com interpretações marcantes, embora o samba tenha servido de base e pretexto para permear o fôlego do show. Geni e o Zepelim fora lembrada em novo arranjo, assim como Ana de Amsterdã, uma de minhas prediletas – que ele mesmo recordou tê-la cantado, anos antes, naquele mesmo palco, ao lado de outro querido nosso, Caetano Veloso, em registro para o disco Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, de 1973. E, até o dia seguinte, todas nós seríamos “Ana’s”, até que Nina chegasse, pelo menos.

Tirei essa foto só para mostrar o cenário (prestem atenção no cenário!).
Depois de Essa Pequena, uma das favoritas do público, presente no seu disco mais recente, o Chico romântico pediu a vez e emendou com Se Eu Soubesse, canção composta para sua namorada, a também cantora Thais Goulin. O cenário ao fundo, que antes mostrava uma espécie de baile em que casais felizes dançavam, deu lugar a uma fita de cetim, como um elo ou aliança, dando ênfase ao Chico que redescobre o amor em idade avançada. Aliás, é até pecado falar assim, pois fiquei surpresa com a jovialidade de Chico: ele é exatamente como nas revistas e jornais – sem maquiagem, sem qualquer efeito que o transforme em uma caricatura de si mesmo. O Chico é lindo, e não digo apenas por ser uma fã enlouquecida, mas pela veracidade de alguém que tanto viveu e ainda se conserva naqueles olhos cor de ardósia que eu pude apreciar, pessoalmente, até melhor do que imaginava. O Chico é a pessoa mais jovem que eu já vi.
Quando ele chegou à minha canção, Nina, cantei junto, ignorando os reclames de uma senhora (in-su-por-tá-vel e de cabelo ressecado) em minha frente que dizia: “eu vim aqui ouvir o Chico e sou obrigada a ouvir esse povo cantando”. Por aí bem se vê quem freqüenta o teatro apenas por status – e não pelo valor sem preço da ocasião. A platéia fazia um coral justo e sem medo e, além de tudo, digno. Para os que detestam que o público acompanhe o artista, tenho um conselho: ou paga milhões no intuito de vê-lo reservadamente ou paga por uma apresentação do João Gilberto. Dá no mesmo.
Ao término de Nina, Chico veio com outra surpresa: uma nova interpretação de Valsa Brasileira – que combinou perfeitamente com a canção anterior. Faço dessa letra uma verdadeira análise, por ser uma das que mais aprecio e que serve de resposta. Se em Nina ele canta a história de uma jovem que deseja conhecê-lo em breve, na qual ele imagina todos os gestos, quando ela lhe escreve, sabendo que já chorou por amores outros e feito viúva; na Valsa Brasileira ele contrapõe a perspectiva de um homem mais velho, que (num desfecho) responde que viria buscá-la porque, pensando nela, corria contra o tempo. Saltava as noites sem se refazer, contava as horas para trás e até roubava um pouquinho da crueldade de um tempo que passava e não permitia o encontro entre ambos. E os personagens são naturalmente atemporais, apesar de Nina ter “nascido” muito tempo depois. Mas ele ajustava o seu caminho para encontrar o dela.
E surpreendia o sol, antes do sol raiar, subindo uma montanha (que seria seu maior obstáculo), não com o próprio corpo, mas um sentimento. E, pela porta de trás, da casa vazia, ele ingressaria – e a veria – confusa por lhe ver, chegando assim, mil dias antes de lhe conhecer.
Agradeci em voz alta por aquele momento, inclusive levantei para fazê-lo e recebi um aceno. Mantemos um diálogo sincero e escondido, como um segredo. Às vezes penso se o Chico imaginava que uma Nina verdadeira estaria ali, para vê-lo, e se a canção que ele compôs significaria tanto a ponto de eu afirmar, sem precisar convencer muito quem quer que seja do fato de que aquela música fora composta em minha homenagem, pois é exatamente isso que eu digo e com tanta freqüência, até que eu esqueça a mentira e a tome como verdade absoluta. Ao menos gosto de pensar assim, já que a letra tanto se assemelha a minha pessoa. Ou seria a famosa Lei da Atração, pois durante anos desejei uma música dele feita para mim, com o meu nome, e que me descrevesse. E o resultado fora um presente mais que inesperado. Essa era a minha razão para estar naquele show.

Chico, acompanhado de seu amigo e parceiro musical Wilson das Neves.
Após outras interpretações excelentes (como Choro Bandido e Sob Medida, além da presença de Wilson das Neves cantando com ele Teresa da Praia, de Jobim), Chico terminou com Sinhá, última música do disco, também uma das mais esperadas pelo público, da qual ele escorregou um pouquinho na letra (mas tudo bem, a gente perdoa) e se despediu da platéia, retornando em seguida, para o bis.
Nessa hora, como era de se esperar, todos aplaudiram e correram para frente do palco. Sou dessas. Ele cantou a linda Futuros Amantes e correu de uma ponta a outra do palco, fingindo que iria se jogar e passando a mão entre as mãos dos fãs (Chico, o popstar). Mas, na minha hora, consegui segurar sua mão direita por cinco segundos e esse foi o ápice para mim, ganhei a noite.
Em uma das saídas, à esquerda, aguardei junto com um grupo de cerca de dez fãs, para ver se o Chico apareceria ou não. Muitas pessoas subiram ao seu camarim, com a permissão dele e do teatro, alguns jornalistas também. Nós, os fãs, aguardamos até depois das onze e meia, chegamos a implorar para um dos supervisores do teatro, mas ele mesmo fora informado de que Chico atenderia o público apenas na última noite, o sábado. Alguns ficaram de retornar.
Ainda repletos de esperança, porém, aguardamos até meia-noite porque né? Milagres acontecem. Mas, nesse caso, não foi possível e, apesar de termos cantado quase todas as canções do Chico, na positividade de que ele apareceria para acenar ou reclamar do barulho (tanto fazia), nada aconteceu, nem sombra do dito cujo, e todos entendemos que era hora de recolhermo-nos para nossos humildes aposentos. Peguei carona com uma menina (e o namorado dela, que não foi ao show, mas dirigiu para ir buscá-la), estudante da UFBA e senti meus olhos pesarem enquanto conversávamos. Combinamos um encontro que provavelmente aconteça da próxima vez que o Chico voltar e nos despedimos, cada qual com a certeza de que aquela noite, de alguma forma, contribuiu para quem somos hoje, aquilo tudo valeu à pena.

Fim!

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8 respostas em “Chico, esse lindo

  1. EU AMO ler relatos de show. Amo. Sempre consigo sentir um pouco da emoção de quem escreveu, e senti muito a tua, Nina! Da sua paixão por Chico eu sempre soube, em cada linha, então me entreguei nesse post! Me irritei com a velha falando que tinha ido ouvir o cantor cantar. Odeio isso, gente. Ela que ligue o CD e fique ouvindo sozinha numa ilha, porque em show, gente, o que arrepia é o coral! Quando fui ao show da Colbie, em 2008, no Credicard Hall em São Paulo, os vídeos e fotos, obviamente, também eram proibidos. O que tornou mais óbvio ainda o fato de que ninguém ligou pra essa regra. Eu filmei várias músicas. Mas quando cheguei em casa e fui ver, gente, no Bubbly, Colbie ficou muda, e de repente aquele coro inteiro: “Wherever it goes, I always know”, e foi lindo, lindo de morrer!
    Espero que você ainda dê um abraço em Chico! Anna também! E vá, eu também quero! Não sou apaixonadamente fã como vocês duas, mas Chico é Chico. E ponto!

  2. Que lindo!!!!!! Adoro esses textos sobre shows de ídolos, deve ser uma sensação pra lá de incrível que pretendo vivenciar algum dia da minha vida! Ver Chico Buarque olhos nos olhos… ai que sonho! Fico feliz em saber que tudo foi perfeito! aahhhhh *-* Invedja master, rs.
    Abraços

  3. shows são sempre ótimos, a gente sai deles como se fôssemos outras pessoas!
    mas ainda mais o chico… que lindo!

  4. Imagino que tudo valeu muito a pena, hein?
    Me senti assim quando fui pro show do Jorge Vercilo!
    Beijinhos

  5. Ai, que relato mais LINDO, Nina!
    É tão bom a gente poder ir num show de quem amamos tanto assim, né? E fã que é fã só fica satisfeito de conseguir tocar, conversar, abraçar. Ou nem assim.
    Não curto o Chico, mas concordo que ele faz sim músicas lindas (se é que isso faz sentido).
    Beijo, moça.

  6. não me mate!, mas .. eu não morro de amores pelo chico. acho ele um ótimo letrista, um ótimo compositor e arranjador, mas quando junta tudo… não sei explicar, simplesmente não gosto do produto final. fora aquele olhos! *-* gosto de muitas músicas dele, lógico, o cara é um gênio, e eu gritaria “lindo, gostoso” sem dúvida, se encontrasse ele. mas morrer de amores… isso não (:

  7. Nina querida, que coisa mais linda. Meu recalque já passou e posso dizer com sinceridade que fico feliz demais que você pode ter seu momento com ele e que valeu tanto à pena como você estava esperando. Feliz mesmo.
    beijo

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