Ars Armandi

“A biblioteca lembra que há infinitas coisas que não lemos, e que antes de ler Aristóteles é preciso ler Platão, antes de Platão Homero; mas na desordem os livros pertencem ao acaso. O leitor pode aceitar sem culpa o que deparou naquele dia, escolher porque gostou da primeira frase ou do desenho da capa, ou porque custa exatamente as cinco moedas que tem no bolso.”
:: Trecho do livro Os Antiquários, de Pablo de Santis.

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1. Uma jovem de pouco mais de vinte anos, casada, estudando como bolsista na universidade em que trabalha certo dia, ao fazer uma visita para os pais, encontra, pela primeira vez, um velho amigo de quem seu pai muito falara, conversando com o mesmo. A mãe está no quarto, fingindo uma dor de cabeça insuportável e inexplicável para não ver a visita estranha na sala (“eu pego e passo a vista no jornal”, Raul Seixas). A jovem se sente atraída por esse homem mais velho, com idade para ser pai dela, moreno, recém-chegado da França, com ares de indiano e camisa pouco aberta permitindo entrever os pêlos meio acinzentados. E adquire absoluta certeza de que isso não é certo. Israel é capaz de nos dar de presente best-sellers (e você aí, que só conhecia a Natalie Portman, hein?) e, para o caso de Zeruya Shalev, não me deparei com qualquer obra. O livro Vida Amorosa é, basicamente, a história de como o “amor” (sim, entre aspas) pode ser sujo e destruidor. A personagem principal parece ter uma vida estabilizada pelo seu emprego disputado com outra colega de trabalho rumo a uma situação segura em qualquer departamento significante na universidade. Além disso, comunica-se com o marido com apelidos infantis (“touperinha”, por exemplo, WHAT?) entre quatro paredes amareladas (eles erraram na cor) de um apartamento minúsculo, enquanto a melhor amiga de ambos, enciumada, deixa morrer em silêncio o seu amor pelo rapaz agora casado (mas ela tem preocupações maiores: acabara de perder a gata que a nossa protagonista matou). Segue seu dilema à procura do homem que nada anseia dela, mas parte nessa busca como se não houvesse amanhã. Encontra-o em uma loja de departamento, comprando vestidos para a provável amante francesa, mas como assim? Ele não tem uma esposa? Tem sim, de mesma nacionalidade que a ruiva de cabelo curto e piteira ali no provador, mas a “oficial” agoniza em uma cama de hospital, logo ali perto – e pensar que ela já foi tão bela quando jovem. Entretanto, nossa protagonista e sua recente paixonite conseguem sim ter algum tipo de relacionamento (ainda que tempestuoso e marcado pelo ódio e perguntas adolescentes do tipo “por-que-você-me-ama?” e afirmações ainda mais não-pensadas como dizer para um estranho que você conhece em menos de uma semana que, de fato, o ama) e, claro, empecilhos surgem no meio do caminho, como por exemplo: ela precisa defender uma tese na faculdade (da qual tem uma vaga idéia de por onde começar, pois lembrara que o chefe de departamento lhe emprestara um livro sobre Lendas do Templo, que recorda a infância na qual sua jovem mãe lia histórias bíblicas antes que ela dormisse – hábito que terminou depois que sua mãe perdera o segundo filho); seu marido acaba de “inventar” para ambos uma lua-de-mel na Turquia (e é óbvio que ela não vai para o aeroporto a fim de passar a noite com o outro) e surpresa: sua mãe teve um caso há muito tempo atrás com o seu mais recente amante (isso não é surpresa em absoluto, pois está na orelha da edição brasileira da Imago, uma pena).

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2. Capa amarela (na intenção de ser parda), pequenos alfinetes sangrentos cortando um tecido – mais uma excelente apresentação da Alfaguara para um livro de humm… digamos que, “vampiros”. Não é bem por aí. Os Antiquários, do escritor argentino Pablo de Santis (atenção: ele é uma espécie de Edgar Allan Poe do nosso tempo) narra a história de um rapaz que, na intenção de mudar-se para a capital e ser “alguém na vida”, é recomendado ao tio e passa a consertar máquinas de escrever. Logo, o seu benfeitor percebe que aquela oficina é pouca para o rapaz e lhe encaminha a redação de um jornal famoso e tradicional da Buenos Aires de meio do século passado, onde ele fará o mesmo serviço. Este jovem, de nome Ricardo (vai lembrar o Somocurcio de Travessuras da Menina Má, do Vargas Llosa, só que ao contrário) passa a conversar com os vários jornalistas, antes que estes morram por qualquer motivo (quase sempre os excessos: de café, de trabalho, etc. E então há uma tradição no jornal: cada vez que um jornalista morre, embaixo de sua máquina de escrever é colocada sua data de nascimento e de morte, junto com o seu nome), fica amigo de todos e acompanha alguns dos segredos da redação. Um deles é o fato da misteriosa coluna de uma espécie de guru que mescla horóscopo com investigações de supostos farsantes que tentam se passar por cartomantes ou gente que possui máquinas que viajam até o futuro. É uma coluna surreal, que desperta a curiosidade de Ricardo, pois é assinada por um pseudônimo peculiar. Ele indaga o mais próximo amigo seu, um jornalista (que vê suas palavras-cruzadas terem seu espaço diminuído através dos anos graças a essa coluna misteriosa), sobre a verdadeira identidade daquele, mas tudo que se sabe é que um envelope pardo chega ao jornal pontual e diariamente, para ser entregue nas mãos do diretor. O tal jornalista das palavras-cruzadas morre, com a cabeça enfiada em sua máquina de escrever e Ricardo passa a ocupar o seu lugar – o que significa também dizer que passará a escrever a coluna do guru, tendo em vista que o que falecera e o que nunca se identificava eram a mesma pessoa. Ricardo logo é convidado a participar de sua primeira reunião com o que quer que seja “sobrenatural”. Um médico-professor solicita sua presença em um hotel abandonado no centro da cidade, para que este veja, com o seu grupo, a aparição de um Antiquário: um indivíduo imortal, colecionador de velharias (livros, por exemplo) que, quando olhamos nos olhos, temos a impressão de estar visualizando alguém de nosso passado, que há muito morrera. Os Antiquários se alimentam de sangue e só vão embora através de uma morte muito violenta, causada por incêndios, armas de fogo ou semelhantes (e é exatamente isso que vai acontecer). Ocorre que Ricardo apaixona-se pela filha do médico-professor, que está noiva do maior seguidor de seu pai. Paralelo a tudo isso, Ricardo passa a visitar um sebo, no qual conhece seu dono, Calisser, um francês, com quem conversa quase que diariamente. Porém, uma bela noite, acaba sofrendo a perseguição de um aparente policial escroto que só ele vê (isso me recorda o filme Uma Mente Brilhante) e que o manipula de tal forma que termina por levá-lo a uma armadilha de cortar os pulsos da qual para a morte não existe salvação. Mas ele acorda na pele de um Antiquário e isso o surpreende. Calisser, seu mais recente amigo, fizera uma transfusão sanguínea para que Ricardo vivesse. E sua vida (ou será morte?) muda completamente: dado como desaparecido, sua aparência altera para a imagem de alguém há muito velho, e ele se muda para o sebo, passando a trabalhar com Calisser. Mas uma imagem o atormenta: a da filha do médico-professor, por quem, definitivamente, se apaixonara. Entretanto, na atual condição em que se encontra um amor entre ambos é impossível, tendo em vista que ele necessita de sangue para sobreviver e, em pouco tempo, sua sede acabaria com a vida da moça. Mas ele não desiste. Principalmente após a descoberta de um livro secreto e nunca antes encontrado  que contém o feitiço que quebra a maldição de um Antiquário que não pode amar – o “Ars Armandi“. E então começa a sua incessante busca por esse exemplar único, que pode estar nas mãos de um dos conhecidos de Calisser. Muito mais do que uma história de vampiros (aliás, isso só fica definido lá para o meio da obra), Os Antiquários ultrapassa qualquer best-seller de Anne Rice e narra uma história de paixão para com os livros. E eu, na posição de livreira, não me canso de ler sobre o meu próprio cotidiano. Pablo de Santis muito acrescenta aos meus estudos literários e não há nada que eu recomende tão bem este ano.

3. A Folha de S. Paulo está, desde a segunda quinzena do mês de abril, com a coleção Folha Ibero-Americanos. Isso vem a ser uma iniciativa exemplar – e não duvido que a idéia tenha sido inspirada por José Saramago, que consta na lista de autores. Trata-se de, semanalmente, por apenas R$ 16,90 (em São Paulo, e R$18,90 nas demais capitais), o leitor possa adquirir (em quaisquer bancas de revistas ou livrarias que vendam periódicos) livros de grandes autores de Portugal, Espanha e América Latina. É uma oportunidade maravilhosa de levar para casa Hilda Hilst, Roberto Bolaño, Borges, Neruda, Ricardo Piglia, Moacyr Scliar, entre outros. Sem contar que os livros estão por um preço bacana. O exemplar de Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mario Vargas Llosa, por exemplo, custa mais de quarenta reais nas grandes livrarias, sendo que você pode levar por menos da metade do preço através dessa coleção. O mesmo acontece com Enrique Vila-Matas e António Lobo Antunes, por exemplo. Os livros são de capa dura, ótima diagramação, fácil leitura. Sem contar a proposta: é bastante difícil termos uma coleção tão específica assim. A maioria envolve apenas os clássicos universais. E, para quem não conhece ainda a literatura moderna ibero-americana, pode tirar proveito da situação para se aprofundar mais (e melhor) nesses autores. E se você perdeu algum exemplar, não se preocupe: é possível ainda encontrá-los em uma livraria mais próxima, até que a 25º e última obra seja publicada. E também pelo site da coleção, no qual você pode se informar melhor sobre as publicações e ler as resenhas. Fica a dica. A Folha está garantindo uma literatura de qualidade e muito mais acessível. Já estou montando minha biblioteca, e você?

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18 respostas em “Ars Armandi

  1. Apaixonada por Os Antiquários só pelo trecho que você deixou ali em cima. Quero ler JÁ.
    beijo

  2. Nina, você é um amor resenhando livros para nós, reles leitores! Preciso dizer que me interessei muito pelos dois, embora “vida amorosa” seja um título que jamais chamaria a minha atenção, e eu sequer iria querer saber a sinopse desse livro. Sou dessas que julga pelo título (e constatemente, quebro a cara).
    Vou dar uma olhada nessa coleção da Folha, quem sabe acho algum que realmente me interesse (e se encontro também numa banca de jornal decente, aqui nessas bandas todas estão longe.)
    Adicionando já ao ‘vou ler’ do skoob (a fila tá crescendo, e eu vou passando outros na frente, hoho).

    :*

    Ah, eu achei muito fofinha a mocinha das novas imagens do layout, embora eu ainda prefira aquela descabeladinha, haha.

  3. adorei as resenhas!
    e quero demais essa coleção da folha. ela é maravilhosa!

  4. Fiquei com muita vontade de ler Os Antiquários, principalmente pelo trecho que você colocou no início do post.. também achei interessante a história do primeiro e por ser uma autora israelense!

    Gostei do blog ;)

  5. também fiquei com água na boca de ler “os antiquários” e botei a maior fé no livro de cabeceira. estou lendo “os mensageiros”. muito bom. gosto do caminhar dos livros do andré luiz, daquele vocabulário acolhedor…

    e á, você tá linda nas fotocas! =)

    beijo!

    iza =)

  6. Primeiro, adorei o design do teu blog! Bem básico, lindo demais. Depois, sou apaixonada por livros, assim como você. Adorei a simplicidade dos teus textos e resenhas, são muito bem feitos.
    Beijinhos

  7. nunca acompanhei essas coleções da folha, infelizmente. várias vezes cheguei a comprar o primeiro exemplar e parei. um criminoso, eu.

  8. Nossa, quanta informação! rs
    Adorei as resenhas, sério. A frase de início já desperta uma enorme vontade de ler. Achei o blog muito interessante e cheio de cultura.

    Beijo!
    ps: Estou seguindo. :)

  9. Quero ler todos. E preciso parar pra ler o que quero. Ultimamente anda difícil ter vontade pra ler até o que me dá prazer.

    Um beijo

  10. Ótimas resenhas, moça. Já posso dizer que fiquei interessadíssima em “O antiquário”, parece-me fascinante.

    (seu blog é muuuito bacana, voltarei mais vezes. =))

    Beijos!

  11. muito obrigada, a sério. já ouvi falar da autora, mas ainda não tive a oportunidade de ler nenhum dos seus livros. irei lei, e de certeza gostar.
    sigo o blog, beijinho *

  12. volta sempre que quiseres, há lugar no meu cantinho para ti. muito obrigada pelo comentário.

  13. Gostei das resenhas. Já fiquei cheia de vontade de ler os dois livros, mas acho que escolheria Vida Amorosa para ser o primeiro.

    Já tem um tempinho que não compro livros (vou anotar esses na minha listinha de compras :D). Ah, e já estou aqui olhando o site da coleção da folha…

    Beijo

  14. Pingback: Retrospectiva literária 2012 | Sobre Fatalismos

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