Felicidade conjugal

“- Tenho o direito de saber quem é – disse. E então ele contou tudo, sentindo que tirava de cima de si o peso do mundo, porque estava convencido de que ela sabia e de que só lhe faltava confirmar os pormenores. Mas não era assim, é claro, de maneira que enquanto ele falava ela voltou a chorar, não com soluços tímidos como no começo, e sim com umas lágrimas soltas e salobras que lhe escorriam pelo rosto, e lhe ardiam na camisola e lhe inflamavam a vida, porque ele não tinha feito o que ela esperava com a alma por um fio, e era que ele negasse tudo até a morte, que se indignasse com a calúnia, que cagasse aos gritos nesta sociedade filha da mãe ordinária que não tinha o menor escrúpulo em pisotear a honra alheia, e que se mantivesse imperturbável mesmo diante de provas as mais demolidoras da sua deslealdade: como um homem. Depois, quando ele contou que tinha estado à tarde com o confessor, teve medo de ficar cega de raiva. Desde o colégio tinha a convicção de que gente de igreja carecia de qualquer virtude inspirada por Deus. Esta era uma discrepância essencial na harmonia da casa, que tinha logrado contornar sem tropeços. Mas que o marido tivesse permitido que o confessor se imiscuísse a esse ponto numa intimidade que não era apenas dele, mas dela também, era coisa que ia mais longe que tudo.”

“- A pior desgraça desta casa é que não se pode dormir. Então rolava na cama, acendia a luz sem a menor clemência para consigo mesma, feliz com sua primeira vitória do dia. No fundo era um jogo de ambos, mítico e perverso, mas por isso mesmo reconfortante. Mas foi por causa de um destes brinquedos triviais que os primeiros trinta a nos de vida em comum estiveram a ponto de acabar porque um certo dia faltou sabonete no banheiro.”

Sempre considerei García Márquez um escritor excelente para contos, talvez daí eu aprecie tanto suas histórias breves (a exemplo do romance Memória de Minhas Putas Tristes), e constate o meu cansaço diante de Cem Anos de Solidão, por se tratar de um enredo longo, confuso, enlouquecedor. Furto o título de Tolstói e, apesar dos trechos acima serem do livro O Amor nos Tempos do Cólera, acho-os apenas divertidos, pois não se parecem em nada comigo. Sempre duvidei da convivência a dois, e fui daquelas típicas que assinavam embaixo da afirmação “nunca irei me casar”. Todos se surpreenderam, entretanto, quando saí de casa – e confesso que fui a primeira a ficar nesse estado –, mas isso tampouco fez efeito sobre mim, pois estava fazendo o que queria e sem consultar terceiros, pela primeira vez na vida e antes dos vinte anos. Tomei a decisão importante de ser acordada, todos os dias, por quem me quer bem. Levantar e ligar a televisão na MTV, ler pela manhã, escrever à noite, compartilhar conhecimentos com quem sabe conversar quando não se precisa discutir, deixar os meus livros dispostos no chão da sala, receber cuidado e carinho: tudo, enfim, que eu não possuía quando morava com os meus pais. A vida atual não permite mais que nós, mulheres, sejamos como as personagens de García Márquez: somos independentes o suficiente para escolher quando teremos um relacionamento sério, se teremos ou não filhos, até estudar (que é o mínimo para qualquer pessoa) ficou mais fácil. Trabalho, em breve farei minha faculdade, alcançarei outros horizontes que, no momento, vejo de longe. E não me prendo. Não há quem me prenda. Não confundam casamento com ausência de liberdade. Um não depende e nem precisa prestar contas ao outro. Gosto do cotidiano que levo e não o troco, no momento, pelas inúmeras farras de solteira das meninas de minha idade. Preservo meu bom senso e anseio pelo que é duradouro. A casa ainda não tem muita coisa: um armário de cozinha, uma televisão, computador, microondas, cômoda, sofá, cama – tudo presente, anteriores e posteriores a mim. Vim de uma casa que, materialmente falando, continha tudo que alguém precisa, mas um pouco desse vazio, desse espaço aberto, vale mais à pena, é do que preciso agora.

Minhas bolsas no chão e os nossos sapatos.

Nossas (mini) bibliotecas.

A televisão que mal deixamos ligada.

O armário na cozinha e os meus lenços no banheiro.

Quando arrumei uma das mesas de Dia dos Namorados da livraria, tomei a liberdade de expor o clássico do García Márquez, apenas como recordação de uma Fermina Daza que eu poderia ter sido, mas ainda bem que não. Prefiro a solidez da convivência a ilusão de uma esperança. Só funciona bem com a literatura, mas não no que se define de “vida real”. Outro dia conversamos sobre reencarnação. E eu, por mais que tentasse não me recordava de tê-lo visto em uma vida anterior. Afinal, não temos a menor semelhança, muitas vezes. “Nem tudo é reencontro, às vezes é encontro”, ele dissera. E eu concordo. Para a vida que virá, tenho apenas um desejo: que eu possa ter consigo a felicidade que tens agora comigo. E vice-versa.

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24 respostas em “Felicidade conjugal

  1. Adorei o comentário, fiquei muito feliz por saber que alguem leu o meu texto com gosto! Muito obrigada mesmo (: É será uma honra recebe-la de volta no meu blog !
    Ps: É lindo o seu blog!

  2. tb recém-casada, meu desafio tem sido aprender a lidar com a ausência física do fred, que passa um mês trabalhando no pará e uma semana aqui.
    concordo contigo sobre a questão da liberdade e boto fé que a vida a dois é terreno fértil para o execício da liberdade de escolher.
    e não há receita, não é nina? se houvesse, a gente mudaria. rs!
    beijo!

  3. obrigada por todos os comentários, para mim é muito importante receber essas palavras e sentir o carinho. obrigada :)
    beijinhos*

  4. Seu primeiro dia dos namorados? *w* Eu,quando mais jovem,tinha um pequeno sonho de passar a vida com o meu primeiro namorado (mas,acabou não rolando…história longa).

  5. Eu hoje só peço conseguir seguir em frente. Muito obrigada.

  6. Bem, o que leste no meu blog foi parte de uma história que eu estou a escrever. é uma história verídica. O que ali está exposto, naquele texto, já não é propriamente o que sinto pois passados um ano e tal o meu amor deixou de ser correspondido e agora tornei-me uma fonte de magoa…
    Beijinhos e obrigada, felicidades!

  7. Deve ser uma delícia montar o ninho de amor! Se bem que “ninho de amor” é uma expressão meio brega… Mas agora já foi. Bom, acho que hoje em dia casar “de papel passado” é desnecessário. A cerimônia não deixa de ser bonita (dependendo do gosto do casal, né), mas morar junto sempre foi o suficiente pra mim. Muito amor à vocês :)

  8. Obrigada pelo seu comentário, gostei por ter “completado” o texto :)
    Eu não posso mesmo acreditar em tais promessas daqui para a frente…
    Muito obrigada por me seguires também.
    Beijinhos

  9. Não consigo me imaginar casado, de jeito nenhum. E não é pelas farras de solteiro nem nada, eu só não imagino. Talvez daqui há anos isso mude, sei lá.
    O amor nos tempos dá cólera, já ouvi falar muito nesse livro, mas nunca parei pra ler.

  10. Tem tempo já que eu vivia dizendo que “casar não é pra mim” e que eu não iria unir as escovas-de-dente nunca, se possível. Claro, tive esses pensamentos ainda muito nova, e ainda sou nova, o que faz com que as chances dele perdurar sejam grandes. Só que… não. Quando a gente se apaixona, isso muda. Muitas ideias mudam, na verdade, e não só quando você está namorando, mas até mesmo com o término, com a experiencia que veio do relacionamento. Você passa a ver as coisas de uma forma diferente… Casamento não é prisão, a não ser que ambas as partes achem isso, e, por mais amor que haja, casamento sem liberdade não dura. É preciso independência para o bem de uma relação.

  11. não conhecia esses versos, mas adorei. de facto, temos de aproveitar bem o tempo que temos, enquanto o temos :)

  12. eu acredito, mas o tempo aqui não é nada bom .. era suposto estar calor, estar sol e não está |:

  13. Não conheço García Márquez, só ouvi falar – pelo meu namorado. Mas parece que tudo que você coloca nesses seus posts fica interessante (ou talvez seja só questão de ter bom gosto mesmo. rs)

    Achei muita coragem sua, sair de casa assim, antes dos vinte anos e pra ficar com alguém que se gosta. É admirável.

    Felicidade pra vocês. Abraço!!

  14. Adorei o seu texto. É bem leve e transparente. Sabe, meu maior sonho é sair de casa (sempre quis isso e continuo querendo), acho que é uma experiência incrível. Invejinha de você! Ainda mais por ter ido morar com a pessoa que você gosta. Beijinhos

    http://www.hiperbolismos.blogspot.com

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