Três

Ocorre que ele nos visita todos os sábados (re-li-gi-o-sa-men-te) e passa horas conversando, sem dar trégua. Parece ter algum tipo de autismo ou alguma doença psicológica, mas o bacana é que suas conversas são extremamente instrutivas, pois é um rapaz muito inteligente e que sabe conversar. O único problema é que estamos trabalhando (oi?), sábado é “um dia punk” lá na livraria e, obviamente, não é dia certo para diálogos longos e aprofundados. Ele entende. Dá uma volta, faz um lanche no café e se despede. Eu me sinto culpada porque vejo que, uma pessoa dessas, não deve ter muitos amigos. Aliás, ele menciona pouquíssimos amigos de colégio e só sabe reconhecer a própria mãe, que para tudo (e contra todos) é sua conselheira fiel. Às vezes acredito conversar com ele por piedade. E foi então que me identifiquei com a Maddy:

“Madeleine Hanna tem dois pretendentes. Um gênio com sérios problemas e um gênio com dúvidas sérias. Enquanto um deles lida com todos os tipos de fantasma e o outro sofre toda espécie de angústia, ela ainda precisa se formar em Letras e defender uma monografia que trata, entre todos os assuntos possíveis, justamente de romances em que a protagonista tem dois pretendentes; romances que se resumem à pergunta ‘quem ela vai escolher?’”

Capa do livro A Trama do casamento, de Jeffrey Eugenides, para a editora Companhia das Letras.Ledo engano quem pensa que A Trama do Casamento, novo romance de Jeffrey Eugenides é apenas isso. Mas antes de tudo, vamos à história que antecede a chegada dessa esperada obra. Jeffrey publicou, em 1993, seu título de estreia, As Virgens Suicidas (que tornou-se também o primeiro de muitos sucessos cinematográficos da Sofia Coppola, aquela linda). Em 2002, o moço recebeu o Prêmio Pulitzer por sua segunda publicação: Middlesex. E agora, dez anos depois, ele chega com A Trama do Casamento. Ou seja: fato é que existe um intervalo muito longo entre as suas obras, mas acreditem que a espera vale à pena.
Porque eu colocava a maior fé nesse livro e estava com muito medo de me decepcionar, como geralmente ocorre ao nos confrontarmos com a espera de qualquer coisa. Sem contar que o livro engana sobre muitos aspectos, a começar pela capa da edição brasileira, cuja editora Companhia das Letras é a responsável: uma torradeira (pode parecer estranho, mas explica tudo, desde o início do livro) seguida de letras cursivas em tons de laranja e cor-de-rosa. Se eu não conhecesse o Jeffrey, certamente imaginaria que seria mais um “livro para mulherzinha” com pretensão de ser Jane Austen. Ainda é Jane Austen (mais uma vez, aliás), mas nos tempos modernos. Aí reside a maravilha da obra.
Madeleine, a nossa heroína (tal como Elizabeth Bennet em Orgulho e Preconceito) é uma jovem que cresceu feliz, está saindo da faculdade e dividida entre dois amores: seu melhor amigo Mitchell (um descendente de gregos com sobrenome Grammaticus, cuja pretensão é viajar para a Índia no objetivo de encontrar tanto Deus quanto a si próprio, além de ficar longe de Madeleine, que ele ama “em segredo”) e seu namorado Leonard Bankhead (o oposto de Madeleine: veio de família desequilibrada e foi diagnosticado como maníaco-depressivo. Em compensação, sabe conversar, é muito inteligente e, aparentemente, um bom amante). A história se passa no início dos anos 80, mas o livro mescla passado e presente para narrar a história de Madeleine (sem deixar a narrativa confusa, é bom frisar). Como, por exemplo, o fato de que ela conheceu Leonard em uma aula insuportável que ambos tinham em comum, e que ela só frequentava porque era leiga no que se referia a Barthes e Derrida (o primeiro, aliás, ela sequer sabia pronunciar). Madeleine decidiu cursar Letras porque gostava de ler. O que corresponde ao pessoal que faz Jornalismo porque ama fotografia (vide aqui) e, por isso, é fácil identificar-se com a protagonista, que é fã assumida de obras que permeiam a Regência e a Era Vitoriana. Leonard era o conquistador da universidade, pois todas as estudantes “prepararam-no” para quando Madeleine chegasse. Mitchell é um zero à esquerda. Apesar de ter conhecido Madeleine antes de Leonard, isso não lhe confere um bônus adicional. Pelo contrário. A convivência fez com que ele fosse visto, aos olhos de sua amada, como o eterno melhor amigo. Pelo menos foi assim quase sempre, mas, ao ler boa parte do livro, acabamos torcendo muito mais pelo Mitchell.
Porque, enquanto Mitchell está na Europa rumo à Índia, Madeleine e Leonard moram juntos em Pilgrim Lake, onde ele faz estágio em um laboratório e ela passa o dia inteiro sentindo a solidão colocando-a contra a parede, confrontada também pela doença de Leonard, que muito atrapalha o cotidiano dos dois. O rapaz esconde de seus colegas de trabalho a problemática de seu comportamento; passou a engordar absurdamente e adquiriu mal-hálito devido as doses de lítio, receitadas por seu psiquiatra. Madeleine sente que Leonard não é mais o mesmo (o fatalismo de todo casamento) e começa a detestá-lo, apesar de acompanhar pacientemente seus avanços e declínios. Acredito que é mais ou menos por aí que enxergamos o quanto Mitchell seria um bom partido para ela, pois, de certa forma, ambos combinam e suas vidas se distanciam de traumas. Entretanto, se esse fosse o caso, não haveria livro.
Leonard é um protagonista com pretensão de ser vilão. É fechadíssimo e sedutor, tal como Mr. Darcy, mas impossível de ser atrativo na busca por um final feliz. E olha que eu estou fazendo resenha de um livro que ainda não terminei de ler.
A Trama do Casamento é como Anna Karenina, só que não. Digo isso porque a própria Madeleine utiliza a obra de Tolstói para compará-la à sua vida: é um livro muito difícil de ler, mas empolgante como um todo. Tem pouco mais de 400 páginas, mas o dramalhão russo está na minha vida mesmo. Ando atarefada, cansada e troquei a boa companhia dos livros por madrugadas online (que pecado). Já faz um mês que o Jeffrey me acompanha, mas esse não é, de forma alguma, um livro chato. A vantagem dele é que você transita um pouco na história da literatura e percebe o quanto a obra influencia e se assemelha com nossas vidas. Pelo menos foi assim comigo. E talvez o maior defeito seja o fato de que o livro não é narrado pelos seus personagens, mas a sagacidade de Eugenides o complementa. Agora, para vocês, um dos melhores trechos do livro, um diálogo entre Leonard e Maddy:

“’O meu objetivo na vida é virar adjetivo’, Leonard falou. ‘As pessoas iam ficar dizendo: ‘Aquilo foi tão bankheadiano’. Ou ‘meio bankheadiano demais pro um gosto’.
‘Bankheadiano soa bem’, Madeleine completou.
‘É melhor que bankheadesco.’
‘Ou bankheadélico.’
Élico não tem salvação. Tem joyciano, shakesperiano, faulkeneriano. Mas quem é élico? Tem alguém que seja élico?’
(…)
‘Bankheadiano ia significar o quê?’
Leonard pensou um segundo. ‘Relativo ou característico de Leonard Bankhead (Estados Unidos, 1959), caracterizado por introspeccção ou preocupação excessivas. Sombrio, depressivo. Ver maluco.’
Madeleine riu. Leonard parou e segurou o braço dela, olhando-a com seriedade.
‘Eu estou te levando pra minha casa’, ele disse.
‘Como?’
‘Esse tempo todo que a gente está andando? Eu estou te levando de volta pro meu apartamento. É assim que eu faço, aparentemente. É uma vergonha. Uma vergonha. Eu não quero ser assim. Não com você. Aí eu estou te contando.’
‘Eu tinha visto que a gente estava voltando pra sua casa.’
‘Tinha?’
‘Eu ia te fazer admitir, quando a gente chegasse mais perto.’
‘A gente já está perto.’
‘Eu não posso subir.’
‘Por favor.’
‘Não. Hoje não.’
‘’Hannesco’, Leonard disse. ‘Teimoso. Dado a posições inamovíveis.’
‘’Hannariano’, Madeleine adicionou. ‘Perigoso. Melhor tomar cuidado.’
‘Valeu o aviso.’”

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32 respostas em “Três

  1. O layout mudou de novo. Eu achei lindo e, se vocês não gostaram, fiquem caladinhos sem reclamar, ok? Uma dica: pressionem as teclas “Ctrl” e “+” para aumentar o tamanho da letra, seus míopes.

  2. Ah, acho que é a primeira vez que estou aqui e, após esse comentário seu, senti a necessidade de opinar sobre o layout: está lindo! Mas não faço comparações, pois acredito que é a primeira vez que venho aqui, como disse. A Keira ali é uma doçura <3. Os livrinhos desenhados, ao fundo, também. Só não consegui enxergar muito bem o título do blog, já que está na cor branca.

  3. Estou perdidamente apaixonada pela sua escrita. Não tenho ideia de como é sua voz, mas criei alguma por meio da imaginação e li esse texto rapidamente, de tão natural que estava sendo. O objetivo da persuasão foi alcançado, e suas palavras despertaram curiosidade e consumismo por novas literaturas. Nunca li nada de Jeffrey Eugenides, na verdade nunca escutei sobre. A despeito dessa minha ignorância, gosto de aprender mais, e você deu uma dica legal. Obrigada :3

    E obrigada também pelo comentário (e visita) no blog. Sim, “dias melhores virão.”, só estou vivendo ainda por causa dessa única premissa que estão me dizendo tantas vezes que acabei acreditando.

  4. é preciso ter esperança, mesmo quando as forças se esgotam, mas é complicado. dói mesmo no fundo no coração.

  5. Eu notei a mudança no layout xD
    E já dei CTRL e + há um tempo

    Sobre o livro…que vontade absurda de pegar para ler depois de ter lido a sua resenha. Aliás, se me permite dizer, gosto muito da forma como escreve. Não é enfadonha ou cansativa.

  6. muito obrigada pelo comentário, acho que sim, é bem verdade :)

  7. Eu gostei do novo visual por aqui! É sempre bom mudar pra escrita continuar inspiradora.

    Confesso, sem um pingo de vergonha, que passei os olhos por essa capa e pensei: “mais um lançamento pra mulherzinha com, no máximo, 130 páginas e um enredo sobre nada”. Resultado? Nem me deu ao trabalho de ler a sinopse e saber quem era o autor ou autora. Tudo bem. Após ler sua resenha, estou aqui dando chicotadas em minhas costas. Não conheço o escritor, mas é alguém que sempre quis ler, justo por “As Virgens Suicídas”.

    Fazer o quê? Vai, finalmente, pra lista de leitura! (:

  8. obrigado pelas suas palavras e já está tudo bem, felizmente! :)

  9. Primeiramente, o layout do blog tá lindo, adoro blogs limpinhos! :) Enfim.

    “As virgens suicidas” é um livro que já está há um tempo na minha listinha de leituras e que ainda não tive a oportunidade de comprar. Após ler sua resenha, fiquei doida de vontade de ler esse livro também, mas confesso que, como a Del, não me dei ao trabalho de ler a sinopse e achei bem estranha a capa do livro e estou super arrependida de não ter dado importância. Mas na minha próxima oportunidade, já irei de encontro ao livro. Ótima resenha!

    Beijo :)

  10. Nossa, fiquei muito interessada no livro. Adorei o trecho que você postou e isso me fez querer ainda mais! Será que tem em Sebos? Vou procurar quando passar por uma com certeza. A Trama do Casamento acabou de fazer o topo da minha lista de leitura!

  11. mas e quando amamos tanto que nao conseguimos desistir disso ? mesmo que doa demais. o que se deve fazer ? :s

  12. Tem Maquiavel! Maquiavel era ‘élico’. HAHAHAHA

    Nina, juro que fiquei com vontade. Esse tipo de escrita é muito gostosa de se ler! vir no seu blog é garantia de que a lista no skoob vai aumentar^^

    e o layout tá lindo, sim, só não dá para ver o título, mas quem precisa dele,né?
    :*

  13. Muito obrigada e tens toda a razão, só o tempo irá curar esta dor. Mas sabes? o tempo cura e ao mesmo tempo magoa, irónico né?

  14. Mais uma vez obrigada peli comentário, é um orgulho receber comentários assim :)

  15. Hey, já ouvi falar do primeiro livro desse autor, e esse A trama do casamento com certeza me interessou; amei a resenha super detalhista e que nos traz um pouco sobre como é o livro <3

    Beijos
    Meu outro lado

  16. Antes de mais nada: ADOREI o visual novo :)
    E olha, toda vez que venho aqui e leio essas suas resenhas, morro de vontade de sair correndo de casa e ir comprar o livro pra ler… acho que já devo ter dito isso. É.
    Beijo procê.

  17. Já amei, Nina!
    Sou fã do Eugenides desde As Virgens Suicidas, um livro que eu suspirei, amei, sofri, me derreti e quase morri por. Desde qe foi anunciado esse novo lançamento já fiquei por demais ansiosa, mas nem sabia qual a história. Agora que sei -e ainda tenho seu respaldo – ele está no topo da lista de desejos.
    E o Middlesex, cê já leu?
    beijos

  18. Gente, essa história me pareceu bem envolvente, mas ao mesmo tempo super complexa!
    Acho que só quem já foi companheiro(a) de uma pessoa com problemas psiquiátricos poderá entender a dimensão por inteiro que a doença alcança na vida de um casal, mas essa narrativa parece mostrar bem pra quem está de fora disso tudo o quanto o problema pode interferir não só na relação deles, mas também na saúde psiquíca do outro.
    Enfim, fiquei com vontade de ler =]
    Te indiquei para um meme lá no blog!

  19. Fico imaginando como você resenharia (?) o livro se já o tivesse terminado, se conseguiria fazer a vontade de ler tão grande como sem ter lido todo. Desculpa, eu sou do tipo que se ilude com boas resenhas…o bom é que não costumo deixar passar nenhum livro (pq sempre haverão de existir resenhas positivas), ou não, né? Enfim, estou fazendo o caminho inverso com ‘Virgens Suicidas’: assisti ao filme, adorei e comprei o livro para ler mas ainda não li. Agora vai mais um pra minha gigantesca lista de livro para ler. <3

    Beijos

  20. CHATIADA porque não li um livro dele. Estou atrasadíssima nas minhas leituras e lá vem você me fazer adicionar mais três na minha lista. Agora vou ficar morrendo de vontade, aff.
    [Mas não posso passar mais ninguém na frente de The girl with the dragon tattoo, é palhaçada].

  21. No começo, fiquei curiosa sobre o rapaz dos sábados e com vontade de conversar com ele também. Deve ser interessante.

    E sobre o livro, assim como o rapaz, deve ser interessante também. Fiquei curiosa e acredito que acabei de colocar ele na minha wishlist literária.

    Beijo!

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