Não os abandone

Eles cresceram em Hailsham, um orfanato sob o belo disfarce de internato, tipicamente inglês, com suas tarefas a serem cumpridas e habilidades artísticas cada vez mais exploradas. Também haveria espaço no esporte, caso algum talento se manifestasse. Dos três, Tommy era o mais afastado, o que menos se adequava aos outros alunos. De temperamento explosivo em situações com as quais não conseguia lidar, provocava o riso de seus colegas. Isso despertou a compaixão de Kathy que, pouco a pouco, se aproximou do garoto o suficiente para comprovar que ali estava o seu primeiro amor. Mas a sua melhor amiga, Ruth, o beija – decidindo que, da noite para o dia, havia se apaixonado também pelo garoto desajeitado. Existe um coração partido, mas não há amizade desfeita. E essa história não trata apenas de mais um triângulo amoroso em época vitoriana, tampouco pode ser considerado como literatura de entretenimento.
Distopia faz o meu gênero. A visão realista, apesar de brutal, me atrai. Tirando a obra mais importante de Bradbury, eu gostei, por exemplo, de 1984 (do Orwell). Eu gosto dessa ausência de fé no futuro. Entretanto, admito ter cometido o erro crasso de ver o filme antes do livro, porque a minha atriz predileta e queridinha do hemisfério oposto (meramente “apática” na visão daqui) estava nele. Fora o fato de que eu nunca adivinharia que Não Me Abandone Jamais também é um livro do Kazuo Ishiguro (de quem eu ouvira falar, apenas).
Capa do livro Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, pela Companhia das Letras.O estranho desse filme, cujo livro eu provavelmente JAMAIS conseguirei ler (a edição brasileira da Companhia das Letras está esgotada – e eu ainda não confio em compras pela internet, apesar da disponibilidade deste produto no Estante Virtual, por um precinho nada camarada), é o fato de que ele já começa de maneira fechada, mas intimista, com a informação-chave de todo o enredo: em 1952, a ciência avançara o suficiente, com a descoberta da cura para muitas doenças. E em 1967, a expectativa de vida no mundo ultrapassava os cem anos.
Kathy, interpretada pela excelente (e dramática) Carey Mulligan (aquela mocinha que encantou o mundo inteiro no filme Educação), é a narradora e personagem principal da história. Ela decide retomar o passado, mais especificamente para o ano de 1978, porque o início irá justificar o fim e os meios. Apesar das regras invioláveis, todo mundo é aparentemente feliz em Hailsham – essa escola de professoras velhas e opressoras. Uma das obrigações das crianças é se expressar o melhor possível nos quadros que pintam, para que a Madame, uma visitante misteriosa, possa escolher os melhores a fim de expô-los em sua galeria – famosa apenas nos corredores do orfanato.
Miss Lucy é uma professora jovem e nova no local. Ela observa Hailsham incrédula com o esforço e a ordem das crianças, até que, um belo dia, decide expor a verdade para eles, dizendo-lhes que muitos garotos e garotas poderão crescer e tornarem-se músicos, engenheiros, caixa de supermercado. Exceto eles. Porque são clones. E, desde o momento em que nasceram, estão irremediavelmente predestinados a serem doadores de órgãos. No mesmo dia, a professora é mandada embora.
Os alunos de Hailsham crescem assustados sob diversos aspectos, mas não tentam fugir e nem se desesperam, devido à educação que receberam. É importante frisar que algumas palavras sequer são citadas e, caso fossem, não representariam muito. Eles não sentem falta dos pais que nunca tiveram. E a morte só é mencionada se você ultrapassar as cercas do orfanato. O mais estranho de tudo é que o suicídio não é uma opção, eles tampouco se rebelam. Isso mostra que o sistema de clones seguido de doação realmente funciona (ou o filme se mostra incompleto, pois é sempre melhor acompanhar o livro antes). E não há como fugir. Em 1985 (que é para onde a cena migra) Kathy já é uma moça de dezoito anos, e se muda com Ruth (Keira Knightley, minha atriz predileta) e Tommy (Andrew Garfield, dizem por aí, O Espetacular Homem-Aranha) para os Chalés – uma espécie de moradia de clones, nas quais eles poderão conviver com outros seres nascidos em laboratório, vindos de orfanatos dos quais Kathy nunca tivera conhecimento. Em menos de um minuto ela consegue esclarecer que eles não estavam presos, de nenhuma forma. Pelo contrário, até poderiam fazer pequenas viagens, caso quisessem. A intenção era que o máximo fosse aproveitado, antes das primeiras doações.

Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield em cena para o filme Não Me Abandone Jamais.

Ruth e Tommy aparentemente deram certo. Continuam juntos, para infortúnio de Kathy. Esses três amigos acabam conhecendo outro casal nos Chalés. Um dia, esse casal diz para Ruth que viram a sua “original” em um escritório, pouco longe dali. Eles seguem de carro para o local, mas Ruth, ansiosa, se desespera ao comprovar que não era ela. Ruth provavelmente tem razão quando diz que eles devem ser clones de viciados, prostitutas e psicopatas. “Gente normal” não precisaria ter cópia, mas sim um rim ou pâncreas – e isso dá sentido a introdução do filme. “A cura” é a doação de órgãos, caso ainda não tenha ficado claro. E eu não sei se qualquer semelhança com o filme A Ilha (que eu não assisti) é mera coincidência.

Carey Mulligan e Keira Knightley em cena para o filme Não Me Abandone Jamais.

O casal expõe para os três que existia um boato de que, em Hailsham, os alunos que estivessem namorando conseguiriam um adiamento da primeira doação, de dois ou três anos, caso comprovassem que estavam apaixonados. O problema é que Kathy, Ruth e Tommy jamais souberam dessa história e, ainda assim, não perdem a esperança. É óbvio que Kathy ainda ama Tommy (e ele sabe e corresponde a isso), mas Ruth ainda é o maior empecilho. Os três brigam. Kathy passa cada vez menos tempo nos Chalés até ser transferida para trabalhar em um hospital, uma maneira de se sentir útil, enquanto Tommy e Ruth vão embora, em caminhos opostos.
Dez anos se passam.
Em 1994, Kathy se estabeleceu como acompanhante dos doadores, mas a morte de gente tão próxima não fez com que se acostumasse completamente ao ofício. Certo dia, ela reconhece Ruth no monitor de um dos hospitais e pede para vê-la. Sua amiga era sobrevivente da segunda doação, e já estava bastante debilitada.
As duas decidem procurar Tommy, que também se encaminhava para a terceira doação. Ruth sente que o seu fim está próximo, e pede perdão aos dois apaixonados, dando-lhes o endereço da Madame, a visitante de Hailsham, porque ela provavelmente precisava dos desenhos dos alunos para ter a comprovação de que aquilo lhes mostrava sua verdadeira alma – e poderia servir como prova de um passado no qual eles cresceram juntos e precisariam viver mais um tempo, um tempo perdido que não volta.
Porque essa chance de adiar o próprio fim não existe. Quem convive com a Madame também é a ex-diretora de Hailsham, e ambas recebiam constantemente, todos os anos, casais como Tommy e Kathy, em busca da lenda de adiar em prol de um amor insignificante para o mundo. E um questionamento é levantado: se fosse possível pedir ao mundo que seres humanos “normais” morressem para que clones vivessem, eles aceitariam? (Um amigo meu considerou o ótimo elenco, mas não suportou a “trama mal desenvolvida”, simplesmente porque o filme fica “em cima do muro”. Mas que lado há para ser defendido?)
Apesar de nascidos em circunstâncias tais; Kathy, Tommy, Ruth e tantos outros também são pessoas com sentimentos, sacrificando suas vidas geradas em frios laboratórios para salvar a espécie humana, sobrevivente na base do egoísmo. O enredo de Não Me Abandone Jamais, filme de 2011, nos traz exatamente a reflexão final de Kathy: será que a vida deles vale menos do que as vidas das pessoas para as quais seus órgãos foram doados?
Não Me Abandone Jamais, publicidade do filme.A brutalidade que poderia existir no filme é substituída por uma delicadeza ímpar. Não se assemelha a ficção científica, mas há um tom confessional e cenas minimalistas tal como imagino que seja o livro de Ishiguro, um escritor inglês nascido no Japão, que trouxera do Oriente essa percepção de grão de areia que somos no mundo. Vale à pena porque nos acrescenta a sabedoria de que nós, ainda mais humanos, constantemente erramos, quando se trata dos sentimentos de outras pessoas. Os personagens, apesar de inocentes ao extremo, sobretudo por acreditarem que podem e devem provar ao mundo o amor entre eles compartilhado, são bem construídos e amadurecidos. Vale ler, vale assistir, vale refletir. Fica a dica.

Kathy, personagem interpretada por Carey Mulligan.

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13 respostas em “Não os abandone

  1. Assisti esse filme ano passado e chorei, chorei que nem criança diante de tanta beleza, tanta tristeza. “Não me abandone jamais” é realmente aquele tipo de filme que deixa a gente pensando e com a sensação de que somos míseros mortais… não sei, ele dá agonia.

    Teu texto conseguiu transmitir a essência do filme. E eu nem sabia que existia livro (!), acho que deve ser bom.

    Beijo, Nina! :)

  2. Nunca tinha ouvido falar desse livro, achei parecido com A ilha viu, assisti a esse filme mas faz um bom tempinho. Amei sua descrição sobre ele, pena que o livro não é tão fácil assim de se obter :X Enfim, dica anotada, quero assistir com certeza!

  3. Quando sei que aquele filme que estou querendo ver é uma adaptação de uma obra literária, fico louco para ler primeiro. Estou lendo “Na Estrada”, de Jack Kerouac, para depois assistir ao filme de Walter Salles. Gostei muito, muito mesmo da resenha e fiquei com muita vontade de assistir a este filme (porque o livro será difícil de encontrar). Prefiro distopia a utopia. Quando li a palavra “minimalista” minha excitação aumentou.

  4. Ai.. isso é tão tenso.. Alma é maior que tudo né, e é igual pros humanos e pros clones.. :P

  5. Costumo gostar das obras de Ishiguro, mas, estranhamente, achei esse livro bem chato. Já do filme, gostei. Gostei bastante, até. Há histórias que ficam melhor narradas em filme, mesmo.

  6. Já tinha ouvido falar do filme, mas não sabia do livro. Fiquei curiosa em relação aos dois. Obrigada pela dica.

  7. Estava comentando no Twitter esses dias que achei o livro, mas não comprei =/. Agora que você falou que é difícil de achar. Que coisa!

    Eu assisti ao filme e gostei, mas sei lá, parece que ficou faltando alguma coisa, alguma eplicação…Não sei ao certo.
    Não duvido que o livro seja melhor, mesmo. Sempre é hehehe.
    E sua resenha está perfeitinha! Adorei cada linha. É aquele jeito inteligente de escrever e mostrar o que se sente de verdade ^^

    Bjins =*

    p.s: obrigada pela visita no blog :)

  8. Eu gostei muita da reflexão/dilema ético do filme que você evidenciou. Não é uma questão fácil, e podemos trazê-la para nosso cotidiano, em que muitas vezes nós pensamos mais nos nossos sentimentos (e nos sentimentos daqueles que são próximos) e menos nos de estranhos.

    Eu vi o filme no cinema, há algum tempo, e eu gostei de muitas coisas e desgostei de várias outras. Lembro-me que a passividade das personagens me irritou demais. Ainda que faça todo um sentido, dentro do contexto da criação dos mesmos, eu não achei que o filme acentuou a justificativa para essa passividade da maneira que deveria. Faltou algo para mim. Mas o tom melancólico, a falta de enfoque na parte “científica”, a fotografia em tons neutros certamente são pontos positivos.

    Sempre tive vontade de ler o livro, mas como a maioria das minhas vontades literárias… essa foi para uma listinha cada vez maior e não há prazo para ela ser satisfeita.

    Lindo o seu blog, linda reflexão… e obrigada pelos comentários fofos e atenciosos no meu blog.

    Beijos

  9. Um dos fatos que eu achei muito interessante do filme(talvez o mais bonito e bem feito) é a grande questão existencialista. Veja bem, todos nós vivemos perguntando a razão de nossa existência, por que existimos, por que morremos, por que é tudo tão efêmero. E as personagens aqui apresentadas são postas de frente com a certeza do motivo pelo qual vivem. E é isso que é lindo demais no filme. Não – e não estou dizendo que também não é lindo, mas só que o achei mais tocante – o fato de colocar em pauta o valor da vida, mas de dar um motivo ao ato de existir.
    Seria realmente mais reconfortante – como o nosso anseio tende a nos levar – ter a ciência de um sentido?
    E no fim das contas a resposta que o filme dá é a de que não seria nem pior nem melhor. Os dramas e a densidade da depressão – peste negra do nosso século – se assemelham de forma tão sublime que a identificação – principalmente se for seguida de uma meta-reflexão – são espontâneas.
    O filme é lindo, principalmente porque ele é real quando o assunto é reações. Não há revolta para eles com relação ao seu destino, só descontentamente, pois como a morte natural, a doação de órgãos é certa.

    PS: (para o comentário acima)Fotografia em tons neutros não. O correto é tons pastéis.

  10. Pingback: Retrospectiva literária 2012 | Sobre Fatalismos

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