Banalização literária

O meu plano de fuga para as férias é sempre o mesmo: passar o ano inteiro garimpando os livros que pretendo ler ou gastando excessivamente naqueles que não posso pechinchar. O fim de ano, hoje em dia, não é mais uma esperança tão certa. Quem trabalha em comércio deve esquecer dezembro ou janeiro e se focar lá para maio, agosto, setembro. Nos tempos da escola, era mais fácil. Eram três meses sem aula e muita literatura disponível. Foi assim que larguei os clássicos.
Os meus clássicos deram lugar aos novos autores latino-americanos (vez ou outra interrompidos por Agatha Christie, mas tudo bem). Eu descobri Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti com imenso atraso, mas devorei-os o quanto pude. Quando Pola Oloixarac foi considerada “musa da FLIP” no ano passado eu senti que ficaria desatualizada novamente se não lesse As Teorias Selvagens. Depois que li essa obra ímpar e de estreia da autora argentina, senti que estava “por dentro” da alta literatura.
Ledo engano. Quando comecei a trabalhar na livraria, o livro da Pola era o que eu mais indicava quando alguém procurava presentear “uma pessoa muito inteligente”. Os mais intelectuais desconheciam o nome da moça – e pensar que o livro dela foi traduzido em diversos países. Mas depois dos últimos “bafafás literários” foi que compreendi a alma do negócio.
Capa da nova publicação da Granta.A lista da Granta (que publicou “os melhores jovens escritores” em língua espanhola e inglesa) é uma dessas polêmicas. Recentemente, a publicação britânica lançou Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros, mas a lista (com excelentes nomes, a exemplo de Carol Bensimon, Antonio Prata, Michel Laub e Antônio Xerxenesky) não agradou a todos. Me pergunto, entretanto, o motivo. Até onde sabemos, “os 20 escritores foram escolhidos entre 247 autores que mandaram textos para a curadoria, composta por escritores e críticos literários. Destes, no entanto, os jurados afirmaram, durante a coletiva de imprensa do lançamento, que apenas 80 foram lidos. E do grupo selecionado boa parte fazia parte de uma lista prévia, entregue aos jurados pelos editores, mapeando bons escritores abaixo dos 40 anos”, segundo o site da Folha Pernambuco. Já não é novidade que tudo no Brasil se compõe de cartas marcadas, mas quando vi a lista pela primeira vez, não pude considerar mais justa a visibilidade desses escritores lá fora. Os nomes, em suma, eram absurdamente previsíveis e dentro do perfil e propósitos da Granta. Se 247, 500 ou 1000 autores fossem lidos, a lista permaneceria igual. E, mesmo que “jovens autores” não esteja dentro de um estilo literário, reconheçamos a estrutura que a Granta representa, pois se trata de uma publicação séria, competente e com alta visibilidade lá fora. Quem ainda discute esse assunto utilizando a palavra “injustiça” na maior parte do texto que me perdoe, mas só consigo enxergar como inveja ou, no mínimo, indignação por não estar presente na lista ou porque o seu pupilo que, na sua opinião, constrói narrativas fantásticas também se ausenta do privilégio de ter um lugar ao sol na Granta. Lembrando o fato de que essa lista foi gerada pelo acordo de um júri sério e não pelos seus 20 melhores da nova geração.
No mesmo sentido, sem desvios, vai o famoso El Libro que no Puede Esperar, uma publicação argentina que, segundo a Juliana Cunha, “eles focaram nos escritores contemporâneos porque são os que mais sofrem com o a falta de leitura. Borges já é Borges. Se você não quiser ler, azar o seu, ele permanecerá. Mas alguém que está começando agora não tem grandes chances caso não seja lido agora e a venda de novos autores latino-americanos caiu 37% nas últimas duas décadas, segundo os editores do livro”. A intenção dessa obra (que se trata de uma série com vários volumes) é fazer com que a pessoa compre o livro, mas tenha uma data para terminá-lo. A tinta desaparece após 60 dias. Nesse meio tempo, você precisa lê-lo ou “o segredo estará perdido para sempre” – o que equivale a um bom suspense norte-americano #sóquenão.
Compreendo que tudo isso é uma grande questão de mercado, mas quem trabalha em livraria sabe que, se for para um autor novo chamar a atenção da mídia, precisa publicar um escândalo literário e extremamente mal escrito para que você, leitor, passe por lá e gaste o seu dinheirinho antes que esgote ou ganhe versão cinematográfica. Trabalho diretamente com autores regionais que não vendem. Recentemente, tínhamos 80 exemplares de uma mesma obra de um escritor baiano. Os livros estavam lá há mais de um ano. Entraram 80, saíram 80 – só que nas mãos do escritor (que deve ter passado vergonha). Em suma, qualquer visibilidade possível para autores da nova geração, eu apoio. Imagino o quanto deve ser difícil para você, que gosta de escrever e tem menos de quarenta, ganhar um punhado a mais de leitores. Eu não imagino apenas – procuro vender esses livros. No fundo, eu te entendo.
Mudando “de pau para barraca” (como diz a mãe de uma amiga minha), vergonha alheia mesmo eu senti com essa situação: “a escritora e ex-garota de programa Vanessa de Oliveira decidiu fazer um protesto diferente para falar sobre a importância da leitura. Vanessa ficou nua em uma livraria de São Paulo, na tarde deste domingo (12), para protestar contra a pirataria em um ato que afirma também servir de estímulo à leitura. A moça estava apenas pintada. O artista desenhou um short vermelho e uma blusa branca, onde havia a mensagem: ‘não à pirataria’.”

Vanessa de Oliveira, "umazinha aí" que diz ser escritora.
Eu ri (sobretudo porque ela tem o apoio da FEMEN, que eu considero um grupo de mulheres com objetivos ridículos e sem o menor sentido, como já falei aqui), mas também fiquei triste. Afinal de contas, isso é o equivalente a mulher pelada no meio de um programa de comédia. Você ri? E quando uma loira aparece de biquíni no meio do comercial de cerveja? Você tem vontade de beber por causa disso? E quando a Vanessa de Oliveira (quem? Ah, só mais uma “garota-de-programa-que-pensa-que-escreve”) aparece “protestando contra a pirataria” (sei), você tem vontade de comprar o livro dela? Ou qualquer outro?
E agora, que os clássicos ganharão versão (aka) erótica, fazendo com que Jane Austen perca a virgindade sem a menor necessidade? Enquanto vocês surtam com Cinquenta Tons de Cinza e detonam a Granta, a banalização literária parece surreal, meus caros (vide Paulo Coelho pensando que é alguém para falar mal de James Joyce).

Anúncios

12 respostas em “Banalização literária

  1. Ótimo texto, Nina, concordo com muito do que você disse. De fato, é preciso muita disposição para encarar o mercado literário brasileiro, só não faz sentido desistir porque “é impossível” ou porque a mídia não se importa com os novatos. Os escritores iniciantes (ok, alguns) vêm tendo algum espaço para divulgar seu trabalho, sim, e nem é preciso fazer “”protestos”” sem roupa para chamar a atenção…

  2. Acho que qualquer pessoa que fale sobre coisas que não interessam a mídia, eles abafam. Seja você cantor, ator, escritor ou outra profissão. Pra vender um livro hoje é muito difícil, até porque tudo se encontra na internet, muitas vezes sem autorização, ainda mais para autores novos. Difícil se destacar, se sobressair.
    Também achei uma palhaçada esse manifesto, quer dizer, a pirataria não vai parar com isso (na verdade, nada vai parar a pirataria) mas ela poderia fazer algo que ao menos pudesse diminuir. Enfim, não sei o que as pessoas têm na cabeça hoje em dia. Só sei que agora todo mundo acha que pode ser escritor. Sei que não sou uma Clarice Lispector, mas isso chega a me ofender.
    Beijinhos

  3. Achei a abordagem estilosa,e o assunto extremamente polêmico.Concordo inteiramente com a sua opinião.Realmente,Paulo Coelho falando mal de James Joyce,é hiper saturação do ego.Parabéns.

  4. Sabe, eu fico muito triste por ver no que esse país está se tornando. E há certas ações que me enojam, infelizmente.

    E, parece que tudo virou motivo para tirar a roupa.

    Gostei do teu texto guria.
    Beijos

    Maya Quaresma

  5. Eu ainda tenho esperança que um dia a gente vai dar a devida importância à literatura aqui dentro. Mas para isso as pessoas precisam aprender a ler antes. APRENDER mesmo, não pegar só qualquer desses livros “best seller” que não exigem qualquer reflexão e são lidos em cinco minutos (digo não SÓ esses, mas não estou dizendo que eles não podem ser lidos TAMBÉM). Talvez seja esse o problema, pensar.

    Eu acho que é triste a situação do escritor brasileiro atualmente, de verdade. Enquanto alguns livros (a esmagadora maioria estrangeira) praticamente se joga no colo dos “leitores”, os escritores nacionais permanecem escondidos em um canto escuro deus sabe onde. Estou falando como leiga absoluta, obviamente, mas acho que esses autores e livros deviam tem um pouco mais de divulgação, de publicidade. Afinal de contas, o consumo é movido pela propaganda, ou não?

    Beijos

  6. Eu tenho muita vontade de ter uma editora um dia e mostrar como é que se faz, sabe.
    Quanto será que eles devem gastar para publicar gringos enquanto tem tanto autor nacional por aí cobrando baratinho.
    Mesmo que a “publicação alternativa” esteja crescendo, ainda não virou modinha, infelizmente, e enquanto isso não acontecer continuaremos tendo toneladas de livros ruins, repetitivos e estrangeiros sendo enfiados goela abaixo pelas editoras. =/

  7. Nina, sou uma amante ferrenha da literatura e por conta disso troquei meu diploma de jornalismo para estudar letras esse ano e sei muito bem do que você está falando. Tenho uma vontade imensa de virar uma grande escritora de sucesso, mas se está difícil vender na cultura latino americana, o espaço dos jovens escritores brasileiros é quase nulo – mal se consegue lembrar de um.

    Sinceramente, me pergunto muito qual a solução para tudo isso e qual o limite do que é bom e do que é ruim. Mas em nosso país, acho que o primeiro passo era divulgar esse prazer que é o ato de ler.

    Beijoca.

  8. assim, estou apaixonada pelo teu blog, já li paginas e paginas.. parabens pelo q vc faz aqui, de verdade..

    as reflexões q vc fez sobre o mundo literario foi excelente e imagino coma deva ser ver ume scritor levar todos os seus exemplares embora, com todo seu texto essa foi a parte q mais me marcou.. me fez pensar tantos autores bobos vendendo enquanto talentos podem estar levando seus livros de volta sem vender ou ter reconhecimento algum.

    quero voltar mais vezes aqui..

  9. francamente, eu nem sei o que te dizer sobre essas coisas. As coisas estão todas banalizadas, não só a literatura… infelizmente.
    Kiss e estou aqui, viu!?

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s