Eduardo e Mônica, #sóquenão

Minerva Green (Min, para os íntimos) possui esse nome porque seu pai estudava mitologia romana no mestrado na época em que ela estava para chegar. A garota é uma adolescente de família judia, sonha em ser diretora de cinema, compara sua vida com os filmes que assiste e não tem uma beleza extraordinária, dessas que param o trânsito. Tem poucos, mas bons amigos. É considerada “das artes”, o que significa que anda com aquele grupinho nerd que senta na frente. E, muito recentemente, ela teve o coração partido.
O responsável por esse crime foi Ed Slaterton, também adolescente, mas pertencente a um mundo diferenciado: cocapitão do time de basquete do colégio, extremamente popular, coleciona ex-namoradas líderes de torcida como se fossem melhores amigas. Sabemos desde o início que um relacionamento assim pode funcionar no cinema e na música, mas não na literatura, tampouco em vida real.
Capa do livro "Por Isso a Gente Acabou", de Daniel Handler, pela editora Companhia das Letras.O acidente com o coração de Min Green não foi noticiado nos jornais, sequer nos sites mais importantes. Não está nos obituários, não está nos murais das escolas. Está um pouco dentro de nós, todos já tivemos uma “fase Minerva Green”.
Está em um livro de quase quatrocentas páginas, escrito por Daniel Handler (também autor de Desventuras em Série – que virou filme e fez parte da minha infância), sob as (belíssimas) ilustrações de Maira Kalman, lançado há poucos meses aqui no Brasil pela Companhia das Letras, sob o título de Por Isso a Gente Acabou.
Para curar as mágoas e pôr um ponto final na sua relação com Ed, Min encontra uma caixa no porão (típico) e decide jogar ali dentro tudo que os dois representavam quando ainda estavam juntos. O livro começa com Min escrevendo uma longa carta, explicando a necessidade de fazer tal ato, enquanto está no caminhão do pai do seu melhor amigo, Al, que o dirige. Pouco a pouco, cada coisa que ela vai colocando na caixa aparece de forma ilustrativa, compondo capítulos, como se o Ed estivesse abrindo-a e tirando tudo lá de dentro, acompanhando as justificativas da Min. Todo final de capítulo vem com a mesma conclusão: “e foi por isso Ed, foi por isso que a gente acabou”.Os dois já tinham se visto no colégio, mas foi na festa de aniversário do Al que ela prestou bastante atenção nele. O garoto havia perdido um jogo de basquete e, como é seu costume, decidiu entrar de penetra na festa errada. Mas foi lá que conheceu sua amada (“e quem um dia irá dizer / que existe razão / nas coisas feitas pelo coração / e quem irá dizer / que não existe razão?”).

Imagem promocional da editora para divulgação do livro.
A conversa entre ambos fluiu tão bem que Ed Slaterton passou a enxergar Minerva Green com outros olhos. Apesar dela ser uma garota muito inteligente e fora do seu convívio social de amigas superficiais, é justamente esse aspecto que faz com que ele se sinta atraído por essa moça misteriosa, engraçada e tão dona de si.
Daí a gente retoma uns cinco anos atrás.
Comecei este blog porque estava loucamente apaixonada por um garoto da minha escola, que tinha um sorriso lindo e não era muito diferente do Ed. Só que eu era a menina que passava as horas vagas na biblioteca. Nada batia. Por um tempo, cheguei a ser correspondida, mas nada ia para frente, ele não queria saber de namorar (e eu era muito medrosa para tanto). Eu desabafava nesse espaço as desventuras (em série – veja o trocadilho) desse amor primeiro e nunca consumado. Hoje eu penso que esse livro do Daniel deveria ter sido o meu guia, a minha auto-ajuda daqueles tempos.

Ed pede o telefone de Minerva naquela festa. Suas amigas não acreditam nesse acontecimento.

“- A Min foi convidada para sair…
– É mesmo? – A Jordan estava procurando por ele no quintal.
– Não – falei. – Não foi assim. Ele só pediu o meu telefone.
– Claro, pode ser qualquer coisa – a Lauren bufou, jogando guardanapos molhados na sacola. – Pode ser que ele trabalhe na telefônica.
– Para.
– Ele pode ser obcecado por DDDs.”

No dia seguinte, ambos se encontram no cinema, para assistir um dos filmes antigos que a Min gosta. Na mesma sessão está presente uma senhora muito velhinha, que usa um chapéu vistoso. E, quando saem de lá, Minerva insiste que aquela é Lottie Carson, a atriz que protagonizou o filme que eles acabaram de assistir.
Os dois começam a persegui-la pelos bairros no intuito de tirar a prova. A determinação de Min faz com que Ed a tome como sua namorada. E, apesar da pouca duração desse namoro juvenil, podemos acompanhar o amadurecimento nítido de Ed, tudo porque ele se apaixona verdadeiramente.

“-Eu sou diferente, eu sei – falei, meio cansada daquilo.
– Não quis dizer isso. É que eu te amo.
Toda vez que você dizia aquilo, era para valer. Não era tipo essas sequências que Hollywood faz usando os mesmos atores e esperando que dê certo de novo. Era tipo um remake, com diretor e equipe novos tentando algo diferente e partindo do zero.”

É exatamente assim que vejo a história criada por Handler. Minerva Green é tipicamente adolescente, utiliza expressões como “tipo”, mas não perde a profundidade da sua narrativa. O livro consegue se equilibrar entre a comédia e o drama. Os personagens são tão fáceis de serem imaginados que tudo passou pela minha cabeça como se fosse um filme: protagonizado e dirigido por ela.

“Quando a Lauren tinha sete anos, ela via símbolos nos balões de fala [das histórias em quadrinhos] e os pais supercristãos dela eram tementes a Deus demais para explicar que os símbolos queriam dizer ‘porra’, então no primeiro ano a gente tinha essa piada de dizer ‘ah, seu cerquinha ponto de interrogação’ e ‘que asterisco ponto de exclamação esse mundo’.”

Uma curiosidade interessante dessa obra é que todos os filmes descritos no livro não existem, foram criados pelo autor. O gostoso dessa leitura é que participamos de um filme dentro de um filme, infinitamente, viajando (perdendo países) para outros universos, indo até os extremos da imaginação adolescente. Handler também criou um tumblr no qual pessoas diversas assumem que também possuíram um coração partido. Até o lindo do Neil Gaiman está lá.
Dois personagens paralelos que também merecem destaque são o Al e a Joan. O primeiro é o melhor amigo da moça, nitidamente apaixonado por ela há muito tempo, visto como gay por Ed Slaterton e por metade do colégio – um garoto muito contido. E a segunda é a irmã mais velha do Ed, que já estudou um pouco de cinema, mas desistiu porque sua mãe possui alguma doença, o que fez com que ela assumisse a casa. Joan adora fazer comida, experimentar diferentes receitas e ouvir jazz enquanto isso.
É forte o motivo pelo qual Ed e Min terminaram o namoro (eu fiquei com uma puta raiva desse garoto que se dizia tão apaixonado e fez com que a Min se decepcionasse de uma maneira chocante e cruel). Mas esse livro é uma sugestão excelente para quem está apaixonada ou para quem passou por essa fase terrível do amor primeiro. Funciona para expressar que o amor não acaba ali. E podemos nos apaixonar sempre, como um círculo vicioso, mesmo que o “não deu certo” pareça o fim do mundo naquele momento. E isso me lembra uma outra coisa: que eu preciso voltar urgentemente com a:

Mixtape

Decidi escolher algumas canções para compor  o infortúnio de Min. É só clicar na imagem abaixo que você será direcionado para escutar as músicas.

Mixtape "Eduardo e Mônica, #soquenão".
Quando essa obra chegou lá na livraria, fiquei curiosíssima pelo conteúdo, já que foi escrita por um autor confiável na literatura infanto-juvenil e inicia a minha parceria com a editora Companhia das Letras. Imaginem o tamanho da minha felicidade, é a minha editora preferida. Acho que é paixão. Foi por isso que a gente começou.

Companhia das Letras

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35 respostas em “Eduardo e Mônica, #sóquenão

  1. Depois de um texto tão apaixonado pelo livro, fiquei curiosa para ler. Parece uma daquelas histórias que todo mundo tem, sabe? Isso é legal.

    E logo vou ouvir a mixtape! \o/

    Beijo!

  2. Oi Nina ! Gostei da tua dica, se o cara escreveu desventuras em série, olha … E eu já estive nessa mesma história, olhe só ? Quem nunca ? Na hora lembrei de uma música da Kate Nash, Get On, ouça e procure a letra, vê se não bate !!!

    E olha, eu sou beeem desorganizada e tô tentando mudar, se eu tô conseguindo, qualquer um consegue, força aí !

    Bjos e obrigada pela visita lá no Creyssa !

  3. Eu gosto desse tipo de estória. É como se contasse algo de alguém muito próximo, ou que irei viver.
    Layout interessante (:
    Beijo.

  4. estou lendo esse livro também. acho que é um livro pra todo mundo que já teve o coração partido por algum babaca (desculpa, ed. não resisti). e achei a sua seleção de músicas muito apropriada para a história. :)

  5. não sei se o amor evolui ou estagna, a partir de uma certa altura. mas vai e vem, isso é certo :)

  6. Ah, adoro a saraiva! Mesmo que nos últimos tempos tenho ido lá só para olhar :// falta $$! sinto falta do cheiro de livros novos! hahaha
    Até gostei desse livro, “Por isso a gente acabou”. No começo, parecia meio bobinho mas o jeito como você o descreveu o fez parecer mais interessante!

    bj

  7. Já estava curiosa para ler esse livro. Agora fiquei mais ainda.
    Pela sua descrição, parece incrível ♥

  8. Gostei muito, apesar de não ter ficado muito tentado a ler o livro. A mixtape também ficou ótima! :)

  9. Nina do céu. Eu tive esse livro nas mãos numa promoção ótima lá na Bienal e não comprei. A Marie já tinha falado sobre ele e dito mil coisas incríveis, quase ma bateu por não ter levado e agora, depois desse post, estou querendo bater minha cabeça no teclado de arrependimento. Comprarei assim que tiver chance. Ótimo post!
    beijos

  10. Se continuar frequentando seu blog vou ficar louca. Esse livro parece ótimo! ahuahauhauhau, minha lista no skoob só aumenta não diminui rsrs. Quero ler, quero ler *_*
    bjos

  11. Nina, olha só o que você me fez: já estou mesmo a ponto de comprar esse livro. Penso que me identificaria com a personagem. Já fui apaixonada pelo garoto mais lindo da escola, só que ele não me correspondeu. E…..isso,sim,é uma resenha. Não faz muito tempo,li uma sobre esse mesmo livro. Só que ela me desencorajava totalmente a lê-lo. Além de criticar o autor por citar filmes que não existem. Eu adoro o Daniel, e sei que coisas diferentes fazem parte da sua escrita,então…

  12. Adorei o seu comentário. A sua opinião valeu por muitas. Tens razão, é isso mesmo que vou fazer. Obrigada Nina. Abraços.

  13. Nossa, esse livro parece ser tipo, incrível! Sério, vou procurar correndo por ele! Obrigada pela dica!

    Sobre seu comentário no Falando Sozinha sobre Bloguetes Infernais: jura que isso aconteceu? Que raiva! Odeeeeio esses blogs que tem o unico intuito de fama e coisa e tal. Sem personalidade antes de tudo e, como você mesma disse, analfabetas (os) do caramba!

  14. Nina do céu, porque você não fez esse post antes da Bienal do Livro! Acabei de comprar sete! rs… mas já estou louca para ler esse! Coração partido é uma unanimidade mundial… sempre adoro ouvir histórias sobre, quando os amores já foram curados! rs

    Beijoca

  15. Vir aqui é sempre ter que ir no skoob e acrescentar um ‘vou ler’! HAHAHA
    Não sou muito de leitura juvenil, mas eu gosto de leituras leves também, acho que é uma boa dica e não vou resistir: já quero ler! ;D

  16. Nina, primeiro eu tenho que dizer que eu amo a forma como você faz as resenhas dos livros. Você nos faz viajar na história junto com você e sem nem ao menos termos lido a obra. Você nos conta os detalhes, mas ainda dá aquele gostinho de quero mais.
    Confesso que não sou muito fã de ler resenhas, mas toda vez que venho aqui fico com aquela sensação de “oba! mais um livro!”. É como se eu voltasse a ser criança, sentasse no chão e esperasse que a “tia do jardim” começasse a contar uma história que só terminaria no outro dia – quando eu realmente ler o livro.
    Agora, sobre o Por Isso a Gente Acabou, primeiro meu coração deu um pulo de alegria quando vi que era o mesmo autor de Desventuras em Série. Ele simplesmente fez a minha infância e eu choro até hoje quando vejo o filme, porque lembro de todas as desventuras pelas quais os irmãos Baudelaire ainda iriam passar. HAHAHA Sem falar, eu eu adorei a história do livro resenhado e fiquei curiosa pela forma como ele deve ser narrado. Uma vez que essa era a característica que mais me prendia na série e gostaria de saber se ela ainda está presente nessa obra.
    Realmente, você está de parabéns pela resenha! E colocou mais um livro na minha listinha! haha
    Beijos, Xiricutico.blogspot.com

  17. Seus posts enormes mas sempre tão deliciosos de ler. >< Quando eu vi os falatórios por aí, fiquei animada, mas não tanto. Nunca tive um Ed na vida e acho que esse é um fator importante para quem vai ler poder gostar (que frase mais infeliz!) da história. No entanto, como o pessoal é só amores, vou dar uma chance ALGUM DIA, quando o preço couber no meu bolso apertadinho.

    Beijo ;*

  18. Nina, já havia ouvido falar sobre esse livro, mas infelizmente ainda não o encontrei por aqui. Sua resenha me deixou com uma vontade ainda maior! Favoritarei o link da mixtape para ouvir assim que encontrar o livro.

    Beijos!

  19. 90210 é um série que retrata a vida de vários adolescentes desde o secundariA até a faculdade. Tem 4 temporadas e em Outubro salvo erro saí a 5ª. É muito interessante porque tem actores jovens mas muito bons. :)

  20. Adorei a resenha. Sério. Não tenho passado nem perto desse tipo de literatura e, confesso, tenho uma implicância com o autor de Desventuras. Tentei ler na minha infância e não gostei da escrita dele. Mas, surpreendentemente, fiquei com vontade de conhecer essa história. Achei criativo, apesar de a ideia central parecer clichê. Vou olhar bem pra quanto dinheiro vai sobrar esse mês e pensar com carinho na ideia de me dar esse livro de presente.

  21. Olá, boa noite! Você sempre comenta no meu blog e eu acabei “esquecendo” de te responder. Muito obg por frequentar lá, fico muito feliz.. Ah, e eu também espero que esse dia chegue logo, para que essa solidão no cinema acabe.

    Seu blog é muito lindo, beijo querida!

  22. KAKAKAKAKAKAKA mentira que tu ainda tem um V3!!!!!! Cara, que engraçado!

    Mas eu só tenho um iPhone porque ganhei de presente, sabe?
    É o segundo que eu tenho, os dois ganhei de presente. Quando o primeiro estragou eu me recusei a pagar tão caro por um telefone, até porque foge completamente do meu orçamento. Mas agora que tá em mãos eu me esbaaaaaaaldo com os aplicativos de fotos.

    Cara, adoro ler seus textos ^^

    Beijos!

  23. Os mais estreites são bastante complicados, mas por vezes quanto mais complicado maior o sabor da recompensa Tal como comentaste! muito obrigada!

  24. Como que eu nunca tinha ouvido falar nesse livro??? Muito me interessei!
    Quem nunca passou por isso de se apaixonar por alguém totalmente diferente de si e ter uma desilusão, né? Ainda mais quando a gente é jovem, como esses personagens.
    Procurarei pra ler :)

  25. Fiquei realmente interessada pelo livro. Talvez por estar em uma fase como a da Min, talvez por você resenhar realmente bem.
    Obrigada pela dica – o título nem mal entrou e já pulou a fila, é minha próxima leitura.

  26. Ainda não conhecia o livro, mas confesso que depois da sua SUPER resenha fiquei muito empolgada, ainda mais com um playlist de músicas no final!
    Parabéns, vc escreve muito bem, adorei seu texto Não vele, revele tb, é incrível, sincero ao ponto!!! Hahahah

  27. Nina, não conhecia o seu blog e adorei ter tido a oportunidade através dessa ótima resenha. Muito bacana mesmo!
    Primeiramente, também tenho um caso de amor com a Companhia das Letras e, como você, fiquei mega contente quando pude iniciar a parceria. Eles são demais, você vai gostar bastante. Sem merchandising, juro. É de coração.
    E “Por Isso A Gente Acabou” é um amorzinho mesmo. Quero dizer, um livro adorável na maior parte do tempo e que, em dado momento, acabou comigo. Identifiquei-me tanto, tanto, tanto com a Min que acabei sentindo na pele tudo o que ela sentiu, inclusive o Ed, aquele safado. Mas é impossível a gente não se ver lá, naqueles momentos tanto de alegria quanto de rejeição. Como você, acho que Daniel Handler escreveu quase que um verdadeiro manual para quem já se decepcionou amorosamente e compreende tão bem esse sentimento.
    Ele foi extremamente versátil ao planar de “Desventuras em Série” a um romance tão palpável e incrível, com ilustrações mais apaixonantes ainda.
    Acho que me empolguei, né? Mas o livro merece, hahaha
    Parabéns pela crítica.
    Beijão!

  28. Pingback: Retrospectiva literária 2012 | Sobre Fatalismos

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