Extremo, incrível

-Olá, posso ajudar?
-Oi moça, pode sim. Eu preciso de um presente para o meu pai. Mas não sei o que escolher.
-O que o seu pai gosta de ler?
-Ele adora livro de mistério, com algum suspense no meio.
-Hummm… Olha, eu tenho um livro que vai ser perfeito para o seu pai.
-Qual é?
-A senhora já ouviu falar de um livro chamado Extremamente Alto & Incrivelmente Perto?
-Não.
-E de um filme cujo título é Tão Forte, Tão Perto?
-Também não.
-Ótimo. Bem, essa é a história de Oskar Schell. Segundo a orelha do livro, ele “é inventor, desenhista e fabricante de joias, francófilo, vegan, origamista, pacifista, percussionista, astrônomo amador, consultor de informática, arqueólogo amador e colecionador de moedas raras, borboletas que morrem de causas naturais, cactos em miniatura, memorabilia dos Beatles e pedras semipreciosas. Ele tem 9 anos”.
-Nossa, isso tudo e é só uma criança de nove anos?
-Pois é, impressionante! Mas o Oskar possui um trauma muito forte: ele perdeu o pai no 11 de setembro de 2001. E, um belo dia, cerca de dois anos após essa perda, ele encontra uma chave com um papel escrito “Black”, nos pertences do pai dele. Com uma breve pesquisa, ele descobre que a palavra “Black” é mais do que uma cor, já que a primeira letra está escrita em maiúscula. Pode ser o nome de alguém. Na lista telefônica de Nova York, ele descobre que existem cerca de 16.000 “Blacks”. Porém, com muita força de vontade, vai procurar por tudo que é canto alguma pessoa que veio a conhecer o seu pai para desvendar o segredo daquela chave – e talvez tentar explicar a morte daquele que foi o seu melhor amigo.
-Mas você não disse que ele morreu no 11 de setembro?
-Sim. Mas o corpo nunca foi encontrado. Oskar vive imaginando a morte do pai. A resposta que mais lhe apetece é de que o pai tenha pego uma toalha de mesa em um restaurante do World Trade Center para servir de pára-quedas. De lá, ele pulou. Oskar viu uma imagem assim na internet e percebeu que o homem que cometera esse ato trajava roupas muito parecidas com as do pai dele naquele dia triste.
-Parece incrível. Eu vou levar. Obrigada!
-De nada, feliz Dia dos Pais!
Foi assim que vendi os nove exemplares de Extremamente Alto & Incrivelmente Perto do norte-americano Jonathan Safran Foer lá na livraria. Eu havia encomendado dez livros no último mês. O único que sobrou está comigo. Eu não esperava que essa obra de arte da literatura contemporânea fosse assim, tão “de filho para pai”, o que calhou com a data.
Capa da edição brasileira de "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto", do Jonathan Safran Foer, lançado pela editora Rocco.Oskar (“esse é o meu nome, cuidado para não gastar!”) é um garoto especial e singular para a sua idade. Fã de Stephen Hawking e do idioma francês (ele até costuma enumerar suas raisons d’être), a capacidade perceptiva do garoto se intensifica após a morte do seu herói. Ele vive com a mãe e sua avó mora em frente a sua casa. Ele não é muito querido na escola pelos seus colegas de classe. Ele não tem uma namorada (é muito novo para isso). Ele não tem muitos amigos e adora invenções que facilitem a humanidade. Ele cria em sua mente um mundo próprio. O leitor se aprofunda tão bem nessa perspectiva que o livro de Foer se torna de um apelo muito pessoal. E difícil de resenhar.
No início do livro, Oskar está no closet dos seus pais e, como um acidente, deixa quebrar um lindo vaso que servia de enfeite. Dentro desse vaso é encontrada a chave seguida da folha de papel contendo a mensagem “Black”. O garoto testa a chave em todas as portas que conhece, mas nenhuma lhe serve. Ele entende como mais uma das charadas que o pai lhe deixava e, por isso, vai perguntar a todos os “Black” da cidade se alguém o conhecia.
Nesse caminho, passamos por uma jornada interessante do garoto, encontrando personagens diversas e tão ímpares quanto ele. A exemplo de Abby Black, uma mulher “incrivelmente” bonita, cujo rosto parecia com o da sua mãe e a qual ele pede um beijo, ao mesmo tempo em que sente que Abby lhe esconde algo com relação a chave. E o Sr. Black, um  senhor “extremamente” velho, de 103 anos de idade, que esteve presente como jornalista em todas as guerras do século anterior. Este último auxiliará Oskar em sua busca.
Em paralelo, nos deparamos com a interessantíssima história de vida dos seus avós. Sobreviventes do bombardeio a Dresden na Segunda Guerra Mundial, Thomas era apaixonado por Anna – que acabou ficando grávida dele, mas faleceu no bombardeio, junto com toda a sua família. A irmã de Anna fora uma sobrevivente. Ela reencontra o namoradinho da irmã no futuro e ambos resolvem unir-se na solidão, mesmo sem saber se estão apaixonados ou apenas fascinados pelo reencontro. Thomas está traumatizado desde aqueles tempos difíceis e, por isso, ouve mas não fala. Tatuou em uma das mãos a palavra “sim” e na outra “não”. O resto, quando quer dizer, recorre aos cadernos que compra. Escreve uma frase em cada folha e tenta se comunicar dessa forma. O que melhor define os silenciosos diálogos de Thomas Schell está nessa resenha:

“A narrativa, que não é conduzida apenas por frases e parágrafos, também nos traz por palavras dispersas, grafismos, cores, fotos, códigos numéricos e textos sobrescritos – uma inteligente metáfora para os personagens de Foer, pessoas que amam profundamente, mas têm extrema dificuldade em dizê-lo. Tais recursos são muito mais que maneirismos estilísticos; exemplificam a dificuldade de estabelecer comunicação e de achar as palavras certas no momento certo.”

Os dois se casam. Mas o único pacto é que ela não engravide. O tempo passa e, no dia em que ela anuncia que terá um filho, Thomas vai embora para nunca mais voltar.

“Ele ergueu a cabeça e olhou para mim.
‘Não estou brava com você’, falei.
‘Deve estar’.
‘Fui eu quem quebrei a regra’.
‘Mas fui eu quem criei a regra que você não pôde suportar’.”

A avó de Oskar se comunica com o leitor através de cartas destinadas ao neto, sob o título de “Meus Sentimentos”. Já o avô dele destina cartas ao filho que não conheceu sob a justificativa “Por que não estou onde você está”. Essa leitura me deixou um tanto quanto confusa. Principalmente pelo fato de que o nome do avô e do pai de Oskar são o mesmo: Thomas. Por desatenção, não captei o nome da avó de Oskar, mas sei que Anna era o nome de sua irmã e também é o nome da mãe do garoto. Um fato curioso e uma grande peripécia da narrativa de Safran Foer.
Embora a maior parte do livro seja narrada pela voz de uma criança – Oskar – a leitura não se torna forçada pela mentalidade de um adulto. E nem se torna algo parecido com “bebês inteligentes na Sessão da Tarde”. A inteligência do garoto também se mescla com a sua inocência. Ele desconhece muitas palavras que os adultos proferem, mas escreve cartas diversas a Hawking na esperança de que, um dia, o físico responda algo mais do que o envio automático de resposta para fãs.
Quando digo que o livro do jovem Foer é uma obra de arte, não estou brincando. Ao longo das páginas, o leitor se depara com imagens de pássaros, fechaduras, cidades, corpos caindo do World Trade, páginas em branco, páginas preenchidas com uma frase apenas e até a interessante chamada telefônica do avô de Oskar para sua esposa, após quarenta anos desaparecido: Thomas começa a digitar os números para formar palavras. A exemplo de quando ele disca”2,6,6,7”. Se você estiver com um telefone próximo agora, vai perceber que esses números correspondem a palavra “amor”. Eu não estava achando a tradução do Daniel Galera tão boa, mas se ele realmente traduziu os números para o nosso idioma (e isso significa duas páginas de uma ligação telefônica), merece meu total crédito pelo desafio (e, se alguém souber o que Thomas Schell disse naquilo tudo, me avisa, tá?).

Imagens do conteúdo do livro, retiradas do Google.

O livro ficou esgotado por muito tempo aqui no Brasil (mancada da editora Rocco), mas retornou recentemente graças a versão cinematográfica do livro, com Tom Hanks e Sandra Bullock, respectivamente, nos papéis de pai e mãe de Oskar Schell. Esse filme foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (para Max von Sydow) e de Melhor Filme nesse ano. Decidi compartilhar o emocionante trailer com vocês:

Jonathan Safran Foer é casado com a escritora Nicole Krauss (a quem dedica esse livro) e tem outra publicação traduzida para nós (também pela Rocco), intitulada Tudo se Ilumina. Eu não tenho dúvida de que Extremamente Alto & Incrivelmente Perto será um dos livros mais interessantes desse ano e um dos mais significativos da minha vida. Uma trama bem feita com personagens singulares e bem construídos não se vê por aí. Recomendo. Mais que isso: você está intimado a ler esse livro (e me contar o que achou, é claro).

Jonathan Safran Foer, escritor.

Jonathan Safran Foer, você agora é uma das minhas raisons d’être.

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31 respostas em “Extremo, incrível

  1. Meu Deus, eu preciso muito ler esse livro! Tenho o filme aqui baixado (que divide as críticas, ao que parece), mas depois dessa resenha tão empolgada, quero conhecer a história original primeiro…
    Eu queria ler em português, mas fiquei em dúvida depois que você disse que a tradução do Daniel Galera não é tão boa. :/
    Vou passá-lo à frente na minha lista e depois te digo o que achei.
    Bjos

    P.S.: Gostei do jogo de palavras no título.

  2. Nossa, eu conhecia o filme, cinéfila que sou e mais por causa das indicações ao Oscar, por coincidência foi o único filme que não consegui assistir antes da premiação esse ano. Sempre li muitos elogios mas não lembro de ter lido nada sobre ser inspirado em um livro e olha que isso muito me interessa, sabe. Mas agora, lendo você falar tão bem, só posso agradecer por ainda não ter assistido ao filme, prefiro sempre ler o livro antes. Vai pra lista! ;)

    Beijos

  3. nove livros. =). excelente abordagem, nina.
    quero ler!!
    e que beleza de capa…

    beijoextremamenteleveeincrivelmentesincero

  4. Eu já tinha visto o nome do livro e do filme em algum lugar, mas nem tinha dado atenção, mas agora fiquei com vontade de chorar depois desse trailer e curiosa para ler o livro.

  5. Mas Nina do céu eu tô pra ler e é de ontem! Nunca dá certo, já procurei duas vezes em duas livrarias e não encontrei. Uma amiga leu e falou bem horrores, tô com inveja dela até hoje rs.

    Agora, depois dessa sua “leitura” da obra tô aqui na babaneira querendo ler. Um monte de outros na lista… como eu queria!
    rs

    beijoca

  6. Nina,

    Você foi extremamente(rs) feliz na sua resenha, até me emocionei. Com certeza esse livro foi o melhor que li nesse ano e entrou para o meu top 5 de preferidos. Oskar é simplesmente encantador. Para quem só assistiu ao filme não tem noção do que é esse personagem no livro.

    Senti saudades do Oskar agora.
    Bjos
    Carol

  7. Não vi resenha mais detalhada e completa que essa, rs.
    Assisti o filme nesse final de semana. Foi um dos mais apaixonantes que já vi e, indiretamente, você também me vendeu o livro. Minha próxima compra, certamente.

    Beijos

  8. Confesso que nunca havia ouvido falar nem do livro nem do filme (se bem que o título do filme não me é tão estranho assim), mas fiquei com vontade de lê-lo/assisti-lo após o que você escreveu sobre. Costumo gostar de histórias que se passam através da perspicaz perspectiva infantil. Tenho impressão de que gostarei muito dessa.
    Beijo!

  9. que coisa mais linda. fiquei com muita vontade de ler.
    vou dar um jeito nisso.

  10. Olá Nina,

    Li o livro, ele me prendeu do inicio ao fim, é cativante esse menino =)

    – Poderia me dizer como dá esse efeito bacana nas imagens de seus posts?

  11. Eu não li o livro, apenas assisti o filme, mas foi um filme que me tocou bastante. O roteiro é bem original e emocionante, a gente se envolve e fica torcendo pra que Oskar encontre uma resposta. A gente sente a angústia dele e sofre junto, Eu chorei muito durante o filme.
    Fiquei muito interessada no livro, sempre acho que os livros são melhores porque são mais detalhados e nos dão a liberdade de imaginar. Vou tentar comprá-lo ou pegar emprestado, porque com certeza vale muito a pena ser lindo.
    Beijos, Nina.

  12. Nunca tinha ouvido falar, mas você fez parecer ser bem legal. Com certeza teria conseguido vender o livro pra mim rs, por mais que o meu estilo de leitura seja uma coisa mais pesada.

  13. Ah, Nina! Acabou de me fazer colocar mais um livro pra lista do aniversário (tenho que economizar, então, o melhor é pedir de presente, rs). E mais um filme pra baixar, só que esse vai ter que esperar o livro chegar.
    Eu adoro ler o que você escreve, porque eu consigo sentir o que você sente. Vivo me apaixonando pelas coisas que você indica. XD

  14. Eu adorei a forma como você narrou a “propaganda” do livro (sim, porque dessa forma eu mesma compraria), mas parei quando você começou a falar do livro pra não ler spoilers (pois é, agora quero comprar e ler).
    Por sinal, próxima vez que eu for na Cultura, vou tentar descobrir quem você é, rs. Quero conhecer pessoalmente as pessoas que só conheço virtualmente… Espero que dê certo =]

  15. não tive coragem de ver o filme após quase todas as pessoas com uma opinião cinematográfica parecida com a minha dizerem que ele é muito, muito ruim. acabei por isso pegando preconceito com o livro também, mas provavelmente é um preconceito idiota, como você acaba mostrando. com o livro, não com o filme.

  16. este filme já saiu?
    obrigada pelo comentário que deixou no meu blog.

  17. conseguiste ler-me por uns instantes. é exactamente isso que o coração grita, anseia por alguma liberdade.

  18. Segundo a crítica o filme não é tão legal assim, mas sei que já no estacionamento do shopping, indo embora pra casa, eu ainda chorava sem parar por causa dele. Quero muito ler o livro, mas nunca consigo encontrá-lo em lugar algum.
    Beijos.

  19. Eu já tinha ouvido falar do livro, mas nunca tinha me interessado em saber do que se tratava, gostei da sinopse parece ser bem interessante.
    Pretendo ler o livro antes de ver o filme (se não nunca vou ler o livro por preguiça).
    Abç

  20. Encontrei esse livro um dia desses, meio sem querer, lá no Skoob e li umas resenhas maravilhosas sobre ele, como essa sua. Daí foi um passo enorme para eu querer lê-lo imediatamente. A história é tão completa, cheia de faces e núcleos e um contexto tão bem construído que é irresistível não querer lê-la.
    Pena que o livro seja caro :(
    Beijo!

  21. Nossa, que incrível! tua descrição é tão instigante que dá vontade de agora mesmo pegar esse livro para ler. Deve ser uma história e tanto! ;)

  22. Eu vi quando o filme saiu… mas te juro que não me interessou… agora vi o que você escreveu do livro… quero o livro. HAHA
    Depois do 11 de setembro sabia que iam sair muitos livros relacionados ao evento, por isso sempre que aparece algum com o tema saio correndo com um preconceito enorme. Mas conseguiu mudar minha ideia :)
    Ótima resenha!

    Abs!
    Camila
    http://www.castelodecartas.com.br/

    ps.: Adorei seu blog!

  23. Nina, que encanto de post!
    Eu preciso ler esse livro, cara. Interessei-me MUITO pela sinopse do livro e a sua resenha, então, me deixou com muita vontade de ler o livro. Muita mesmo. Preciso ler urgentemente. E depois ver o filme, claro.

    Um abraço, Nina. Saudade daqui.

    Sacudindo Palavras

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