Achado

No ano de 1992, lá para maio, eu nascia. Também no mesmo mês, Inês Pedrosa, escritora portuguesa, publicava sua primeira obra, A Instrução dos Amantes. É óbvio que quase vinte anos tiveram que decorrer para que eu tivesse ciência do fato.
No ano passado, “descobri” a “literatura de PDF” para trazer às minhas horas de trabalho um aspecto mais feliz (estava no emprego antigo, ainda). Comecei com um desafio enorme, que foi o de ler A Caverna, de José Saramago. Não foi uma boa ideia, eu mal conseguia me concentrar na leitura: Saramago exige um tempo precioso do leitor. Não sem razão.
Mas, procurando por Inês, deparei-me com essa obra. E numa fonte 14 acessível (eu ainda não usava óculos). Aproveitei o momento e devorei essa obra da autora de Fazes-me Falta, seu maior sucesso.
O livro conta a história de uma turma num bairro comum de Portugal. Adolescentes, passam a ficar mais unidos depois do fato que o inicia: o suicídio de Mariana (aquela que “sofreu a infância com a terrível maturidade de um adolescente e decifrou a adolescência com a impiedosa infantilidade de um adulto”), cujo mistério do motivo para tal ato perseguirá veladamente o leitor páginas adentro. Mariana serviu de elo para que Claudia, protagonista, percebesse Dinis, irmão de Isabel. Porém, Claudia namora o “chefe” da turma. E o que parece um mero triângulo amoroso, se mostra como uma delicada e ímpar obra de estreia.
Em julho desse ano, tive um treinamento lá na livraria com a editora Planeta – que agora também é parceira deste espaço – e perguntei se seria possível que me enviassem este livro, pois nunca o vi disponível em lugar algum. Ocorre que a obra está esgotada aqui no Brasil, e a Inês agora publica pela Alfaguara. Mas a Alfaguara ainda não relançou sua obra de estreia – e nem possui data específica para tanto.
No interior da Bahia, mais especificamente em Cachoeira, está acontecendo a FLICA (Festa Literária Internacional de Cachoeira) – que, obviamente, está nos mesmos moldes da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Inês Pedrosa foi presença garantida por lá na última sexta-feira, dia 19 de outubro. Perguntei na livraria se trabalharíamos nessa festa, mas a resposta foi negativa. Alice, minha colega de trabalho, considera Inês como “a Clarice Lispector lusitana”, palavras dela, e planejara ir este ano (eu não poderia, pois fiz um ano de relacionamento com o filósofo daqui de casa, no dia 12 – e pedi folga). Fizemos de tudo, dei-lhe meu único exemplar de Fazes-me Falta para autografar (a edição mais recente, lançada pela coleção da Folha de S. Paulo, de autores ibero-americanos), consultamos a programação do evento no site, planejamos… Mas Alice precisou cuidar de seu gato que se machucou por esses dias – e gastou quase todo o seu dinheiro no veterinário.
Dia 19, tentei sinceramente esquecer a existência do evento. Indo trabalhar, senti uma violenta cólica e não consegui ficar. Liguei para o meu marido, que foi buscar-me. Por algum motivo que já não me recordo qual, fomos ao mercado ao lado do shopping center. E lembrei das palavras de Alice, meses antes: “encontrei A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa, por menos de dez reais no supermercado da Garibaldi!”. Eu precisava conferir essa, pois estava numa filial do mesmo supermercado que ala havia ido. E foi então que me deparei.
Quem mora no Nordeste (e é literato), provavelmente já se confrontou com o “balaio de livros” esquecido perto da seção de tecnologia, do Hiper Bompreço (Walmart para o restante do país, acredito) ou Extra. São livros infantis – que a minha livraria vende bem lacrados e conservados, mas com preços absurdos – que nestes mercados estão por, no máximo, trinta reais. Muitos clientes me fazem reclamações do tipo: “Na Lojas Americanas, esse livro custa dez. E aqui, na livraria de vocês, custa o dobro!”. É sempre necessário explicar o óbvio: somos uma livraria, vendemos livros. Se você vai à um mercado comprar um livro por preço baixo, a intenção é que você saia de lá com um produto a mais para compensar o valor do livro. “Fui ali comprar um best-seller, mas acabei levando também um ventilador e uma batedeira!”, fui clara?
"A Instrução dos Amantes", de Inês Pedrosa. Capa da edição brasileira da editora Planeta.Nesse balaio todo (aquilo é o pote de ouro no fim do arco-íris, meus caros), também é possível encontrar obras já esgotadas de grandes editoras. A maioria por dez reais mesmo. Livros da Rocco, Alfaguara, Planeta e Nova Fronteira. Sim, é um sonho realizado. Deparei-me com um livro da Carmen Posadas que, em minha livraria, custa cinquenta reais. Comprei por dez e, xeretando mais um pouco, eis que pego um livro vermelho – e quase choro de emoção – ao descobrir que, enquanto Inês palestrava em uma cidade vizinha, eu encontrava essa relíquia há muito procurada.
Os acasos ocorrem assim. A Instrução dos Amantes agora faz parte de minha coleção de favoritos. Sendo eles: Todos os Nomes, do Saramago; Lolita, de Nabokov; e A Trégua, de Mario Benedetti. São coisas que não se esperam e que, sem desespero, ocorrem quando estamos dispostos a permitir que a vida nos surpreenda – mais uma vez.

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17 respostas em “Achado

  1. Que sorte você ter achado um livro dela no Walmart, meu deus! \o/
    Essa semana estou entrando em contato com um livro da Clarice Lispector pela primeira vez e, já adianto, estou amando! Agora que você disse que a Inês é a Clarice lusitana, também fiquei com vontade de ler alguma obra dela. :)

    É o destino, moça!

    Beijo :)

  2. ‘Quem mora no Nordeste (e é literato), provavelmente já se confrontou com o “balaio de livros” esquecido perto da seção de tecnologia, do Hiper Bompreço.’ Vivo de esperar por isso aqui em Teresina. Comprei ‘A instrução dos amantes’ no salão do livro daqui, num stand do Paraná, e também experimentei emoção parecida. Afinal, é um livro que faz lembrar muito da minha adolescência e como sou a Teresa de Inês.

  3. Confesso que andei relaxando nas minhas leituras. Eu aprecio muito a literatura asiática, mas como não ando encontrando nada que eu já não tenha, parti para um recente best-seller e agora não consigo terminar por falta de tempo.
    Gosto de romances mais simples, com uma narrativa mais fluída, nos quais tu pode simplesmente se jogar de cabeça que a história se desenrola aos seus olhos. A literatura asiática pode ser muito poética, muito enrolada, muito subliminar, mas nunca simples – sempre tem algo escondido e subentendido, o que reflete a personalidade e cultura asiática (infelizmente).

  4. Eu amo Lolita do Vladimir! Foi o primeiro livro que li inteiro! Também estou bem relaxado com a minha leitura… mas não vai mais ficar assim! amor seu blog é lindo e eu amei! lelusantos.blogspot.com

  5. ADORO encontrar preciosidades em lugares inesperados. Se pudesse, vivia de cavucar estantes menosprezadas nesses lugares “obscuros”. Sempre se sai com uma pechincha. Por isso que estou tentando ficar longe desses lugares atualmente, preciso dar um tempo nas compras (não tanto por falta de dinheiro, quanto pela quantidade de livros não lidos que tenho por aqui).

    Beijos

  6. Fiquei com vontade de ler Fazes-me Falta! E pior que vai ser difícil de achar aqui por SP!
    Gosto muito dessas histórias, lia muitas do gênero quando era mais nova, pois usava a biblioteca da escola! Agora esgotei meu leque de bons autores de ficção, estou querendo fugir dos lugares comuns da literatura!
    Adorei a dica, quem sabe eu não acho o livro na internet!
    ^^

  7. Ai, desde que entrei na faculdade não tive tempo de ler um livro se quer “por prazer”. Preciso botar a leitura em dia nas férias e ler esses “clássicos”.

  8. Sempre que venho aqui me sinto culpada por estar lendo tão pouco, e sempre coloco livros novos na “lista”…
    Meu maior achado “literário” foi encontrar uma coleção de “manuais” da Disney que eu tinha quando criança e sumiram quando cresci. Não tão importantes literariamente falando, mas foi igualmente emociante. haha

  9. Oi, moça;

    Obrigada por ter passado no meu Breviário. E eu achando que só eu notara que Saramago sempre punha um cachorro (o cão das lágrimas, o da Escadaria de São Crispim…) em suas histórias. Que tolinha.
    Bjs

  10. Pdf tem seu valor, a facilidade de encontrar o livro que se deseja no tempo em que se deseja, mas nada substituí um livro nas mãos. Bem, o importante é ler, seja como for.

    Adorei a dica, “Fazes-me falta” será a minha próxima leitura.

  11. Com certeza uma ótima dica e eu estava precisando me lembrar da leitura pdf, fazia isso no outro trabalho mas aqui tem menos tempo, porém vai ser o jeito. Saudades de ler :)

  12. Eu adoro quando isso acontece! A gente está procurando um livro, desiste de tudo, e quando menos se espera encontra, e no seu caso, mais barato ainda. Eu fico radiante quando encontro livros mais baratos ou promoções de livros; Esses dias peguei uma promoção onde ao levar um exemplar que estava com a tag “100 milhões de leitores”, que estavam R$19,90, ganhava o livro “O Caçador de Pipas”, o qual queria ler faz muito tempo. No fim fiquei com 2 livros excelentes: “O Caçador de Pipas” e “Um Hotel na Esquina do Tempo”. Mais alegria impossível!

    http://www.dedilhar.com

  13. Supermercados sempre tem esses achados inesperados, né…Eu nunca li Inês Pedrosa, aliás, minha lista aumenta a cada segundo. Mesmo eu lendo um bocado, sempre que vejo uma indicação de alguém que condiz com o meu gosto, dá vontade.

    http://www.despindoestorias.com

  14. Que legal! Nascemos no mesmo. Não conhecia ainda Inês Pedrosa, mas penso que esse livro vai ser muito interessante. Irei começar a minha buscar rsrs
    Ah, sempre sou sortudo já encontrei muitas raridades e preciosidades nesse “balaio” do Hiper. rsrs

  15. Pingback: Em caso de contato com os olhos | Sobre Fatalismos

  16. Pingback: Retrospectiva literária 2012 | Sobre Fatalismos

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