Em caso de contato com os olhos

(Um texto que deveria ter saído no fim do mês passado)
Gal Costa interpretando Caetano Veloso define.

Dia desses me apareceu, na livraria, uma senhorinha muito simpática, lusitana. Devia estar perto dos sessenta anos, duvido muito que tenha alcançado essa idade. Contou-me sua história. Disse que precisava de um livro para um amigo muito especial – que ela não via há anos, porque uma guerra em Angola os separou. Reencontraram-se via Facebook. Pelo modo como ela falava, percebi uma paixão despertando de um longo período em que estivera adormecida. Recordei os livros de Lobo Antunes sobre a guerra. Até mesmo em Safran Foer, com seu livro sobre um garoto em busca de vestígios o próprio pai, cujos avós tiveram uma extraordinária e infeliz história. Mas optei por Inês Pedrosa, e seu Fazes-me Falta, a história dos amantes que se comunicam, apesar da enorme distância.
Devo ter escrito mil ensaios sobre o assunto, ao longo desses sete anos. Falando assim, parece até que o tema é religião, feminismo, essas importâncias amplas demais e muito pessoais para serem expostas em poucas linhas (principais geradoras de polêmicas, para ser mais exata). É apenas, no entanto, o fato mais interessante que já me ocorreu, se você contar que até meu livro predileto, esgotado na editora, foi encontrado no meio de um balaio nesse passado mês de Outubro. Estranhezas acontecem.
Eu era uma menina ainda. Apaixonava-me semanalmente por um perfil mais atraente, vejam só. Estudava música, não tinha o menor talento. Não sabia que seria de meu futuro, escrevia em um diário estampadíssimo de insignificâncias, destinados aos olhos de minha mãe, que furtava meus segredos para usá-los contra mim, posteriormente.
Foi em uma dessas brigas que saímos juntas e fechadas uma com a outra do shopping center no qual trabalho hoje. Isso faz sete anos, creio. Paguei, sentei na frente, ela ao meu lado. Não conversamos. Decidi olhar para o fundo do ônibus, quando me deparei com aqueles olhos grandiosos que me fitavam.
Existe uma palavra húngara intraduzível para qualquer outro idioma (tal como “saudade” – um sentimento inenarrável). “Délibáb” significa “miragem”, no sentido mais leigo. Quando você vê sem saber muito bem o que é, uma utopia enfim. Algo inesperado, que veio feito presente. Foi isso que senti quando pousamos quase que simultaneamente o olhar um no outro. Uma troca apenas. Sete anos.
Engraçado, desci do ônibus ainda observando indiscretamente. Ele continuou lá, igualmente perscrutando-me. Desci no ponto perto de minha moradia atual. Acaso?
Era dezembro, ainda me lembro, e recordo-me muito bem de seu rosto – logo eu, tão boa com nomes inteiros e péssima de fisionomia. Na semana posterior, tive uma reunião, uma festa de encerramento anual na escola de música. Quem estava lá? Vejam só. Reconhecemo-nos de imediato. Com o auxílio de colegas, recolhi informações.
Era francês. E dava aulas de flauta na escola que eu viria a estudar todo o meu ensino médio. E só. Tinha um nome muito complicado, que eu não saberia escrever então, mas inesquecível.
O terceiro dia foi uma manhã chuvosa, na qual eu saía do colégio pegando carona em guarda-chuva alheio. Ele vinha na direção oposta, completamente vestido de preto, como eu o vira nas outras ocasiões. Olhou e sorriu. Retribuí. Depois, nunca mais.
Tudo bem, eu me apaixonei ali. Mas isso não vem ao caso. Levem minha pouca idade em consideração. Devia ter doze, treze anos. Um sinal menor de atenção despertava-me imaginações diversas para o que nada poderia significar. E ele era um rapaz “mais velho”. Eu não tinha chance. Mas fazia o meu tipo. E um olhar atormentador.
Os encontros cessaram (na verdade, ele desapareceu quando o novo ano chegou), pesquisei seu nome na internet – e qualquer outro termo em comum com sua pessoa. Nada foi encontrado. Devia estar errando alguma coisa.
Deixei o tempo passar, fui me apaixonar novamente outras tantas vezes, quebrei a cara no ensino médio, criei um blog para curar minhas mágoas, mas ainda procurava-o vez ou outra, só para não perder a esperança (ou as estribeiras). Acostumei-me com a ausência de resultados. Poderia questionar os comuns, mas isso despertaria suspeitas, visto que nunca nos falamos.
E daí que hoje, madrugada de terça, outubro, 2012, eu casada e feliz, abrindo e fechando páginas de uma rede social tão comum – eis que me deparo com a lista de amigos de um determinado indivíduo – e quem está lá afinal? Justamente.
“Oi Fulano. Nos conhecemos ‘de vista’ quando você estava no Brasil. Duvido que se lembre. Caso esteja curioso, mantenha contato”, escrevi. Vi suas fotos – o mesmo rosto. Porém, está calvo. Logo ele, que adornava uma cabeleira vasta.
Não é nada demais. É só quando você olha e sente que conhece há anos – ou de muito tempo, outras vidas, talvez. Ainda mora em mim uma constatação do “deixei escapar”, pois tive a chance de dizer um simples “bon jour” sete anos atrás – mas isso era tudo que eu sabia de francês e espero – sinceramente – que ele compreenda meu português infeliz. E que me responda. E que não tenha me esquecido.

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28 respostas em “Em caso de contato com os olhos

  1. Dos desejos que a gente tem.
    Bom, até hoje leio “Délibáb”. Das coisas em teu blog que tocam minha alma.

  2. Que história legal. Acabei lembrando de uns olhares que já cruzaram o meu e se perderam na vida… Engraçado reencontrar pessoas.

  3. Nossa! Que coisa mais impactante. Sempre quis viver uma história dessas, sempre cacei no olhar de cada interessante ser, um retorno prolongado. Talvez esse foi o erro: a procura. A gente nunca sabe o que pode encontrar quando não estamos procurando nada.

  4. Eu já vivi algo parecido, mas o grande problema é que eu achei que era uma coisa e não era. Muitas vezes aconteceu essa coisa de olhar, de sentir algo estranho, mas infelizmente não era recíproco como no seu caso. Eu olhei, ok, achei legal, mas não fui correspondida. Isso foi durante todo meu Ensino Fundamental e Médio. Até o dia que eu estava fazendo cursinho, fui numa festa de formatura e o jogo de olhares recíproco me levou aos 2 anos e meio de namoro que tenho hoje (:
    Sua história é linda! Tomara que ele responda.

    http://www.dedilhar.com

  5. Nossa, gostei demais da sua crônica. Engraçado que eu lembro que tinha 5 anos e pensava em como seria minha vida se eu reencontrasse meus amigos daquela época quando já adulta, hahahaha.

    Obrigada pelo comentário lá no blog!

    Beijonas e boa segunda!

  6. Que história mais curiosa. E deliciosa ao mesmo tempo. Essa coisa do olhar marca demais, a gente acaba levando aquele olhar inesquecível para sempre…

  7. Essas histórias mereciam ser publicadas e lidas para inspirar. De verdade.
    Acho que cada um poderia contar a sua história desse tipo de amizade, amor, saudade ou délibáb.

  8. que bonito é estar aberto para viver os encontros e não-encontros que a vida traz.
    adorei o texto, nina.

    beijodoce

    iza =)

  9. Certa vez, havia um rapaz. Mas, nunca mais o achei. Penso que algumas coisas são feitas para serem deixadas no passado mesmo, porém é mágico quando acontece o reencontro de pessoas que cruzaram olhares, trocaram energias, mesmo que isso tenha ocorrido por pouco tempo.
    Linda, linda história. *—–*

  10. Impossível não recordar de olhares trocados. Já vivi um quase-amor assim, tão juvenil quanto. E outros vários. Gostei. E achei a indicação do livro, Fazes-me falta, de acordo com a situação. Não sei quanto ao resto do mundo, mas eu, ao menos, tendo a ver mensagens subentendidas no meio das músicas, dos títulos, das entrelinhas.

    Bon jour, madame.

  11. Seus textos são tão impressionantes. Como você conta essas passagens singelas da sua vida, de uma forma extraordinária. As vezes eu tenho a impressão de que esse “e se eu tivesse feito…” pesa demais na gente, sabe. O não fazer, o não viver, pode assombrar a gente de um jeito ruim. Quando é de um jeito legal, não pesado, é muito melhor né? Beijos.

  12. Até dói saber que uma oportunidade dessas foi perdida. Mas bola pra frente, tem que ser assim.

  13. Um sonho: que isso acontecesse um dia comigo também.
    Já cheguei a encontrar amigos de séculos atrás, mas minha vergonha é tanta que não consegui dizer um “oi” com medo de que a pessoa não me reconhecesse.
    Um dia saio por aí procurando e crio coragem de me reapresentar…. quem sabe.

  14. Olá Nina, tudo bem? *-*

    Passei só para dizer que tem postagem nova no meu blog. Bora conferir?

    Beijos e bom final de semana!

  15. Adoro passar no seu blog pra ler algo de interessante no meio de tanta frivolidade… de verdade :)
    O mais estranhos desses encontros, eu acho, é aquela sensação de “eu te conheço faz tanto tempo”, embora não seja tanto tempo, nem o termo “conhecer” realmente… rsrs se sente uma intimidade tão estranha nessas horas :)
    Mas fiquei curiosa… tomara que ele responda! :D

    Abs!!

  16. Acredito que sua memória daria um delicioso curta-metragem, sabe? Mas não sou nem uma cineasta amadora pra palpitar sobre esses assuntos. Acontece que já vivi uma coincidência romântica parecida, na qual encontrei perambulando pela minha cidade um garoto com quem flertei em uma cidade vizinha. Costumava chamá-lo de “garoto do suéter”, intimamente. E não é que tivemos um breve casinho? Hoje ele namora, conversamos de vez em quando e eu continuo solteira procurando por novas coincidências românticas que desenvolvam em algo mais concreto. Sou incurável, pode falar!

    Beijos ;*

  17. Muito interessante a ligação que você fez da senhorinha em busca de um livro para presentear alguém do passado e seu inesperado encontro virtual com o francês. Identifiquei-me com você quando li sobre suas pesquisas na internet, procurando por sua paixão. Ano passado inventei de me apaixonar e o cara não tinha Facebook. Este ano, depois de tantos problemas passados, amores perdidos, eis que ele cria uma conta. Não, não o adicionei, mas ainda o olho de longe quando nos encontramos.

  18. Oi Nina. Sei que gosta de Literatura Portuguesa, então venho lhe perguntar se já leu “Seara de Vento”, de Manuel da Fonseca. Trata-se de um romance neo-realista muito lindo. Li ano passado na disciplina de Literatura Portuguesa e adorei. Acho que você pode gostar.

  19. história que me fez viajar e relembrar muita coisa boa também… que saudade!

  20. Encontros, reencontros e desencontros, vida de tanto deles.

    Lindo o que escreveu Nina, muito lindo.

    Beijos!

  21. Engraçado como o tempo prega peças na gente. Quem vai imaginar que coisas assim poderiam acontecer. Já tive casos de achar uma pessoa que não via há anos. Não um amor, mas um amigo ou amiga antiga. Um rebuliço toma conta do peito. Ainda mais em mim que sou bom hein lembrar rostos. Sentimentos despertam depois de anos adormecido. Porque às vezes são pessoas que significaram algo. Tem um efeito diferente…

    Achei curioso este teu reencontro com o professor Francês. Pelo menos a forma como se deu. E saber que ainda lembra, que alguma coisa balançou em ti é de fato admirável. Sempre te achei uma pessoa com memória boa, a julgar pela maneira tão deliciosa, humorada e descritiva que conta suas experiências passadas, suas decepções, seus sentimentos ao longo dos anos em que crescera. Se te acompanho há tempos, é porque aprecio demais esse teu jeito tão intenso e singular de contar de si. Tomara que ele lembre, te responda, que um vínculo de amizade se forme.

    Sete anos? Eu não te acompanho há tanto tempo, nem lembro quando foi a primeira vez que vim aqui, mas sei tenho uma boa história por aqui. =)

    E muito, mas muito obrigado pelo lindo e afetuoso comentário que deixaste no meu blog, sobre entre as pessoas que conhece e os escritos que aprecia, achar que eu defino bem o amor. Nossa! Obrigado de coração. Fico lisonjeado com a sua impressão, porque sei que és uma pessoa bastante crítica e com uma inteligência literária absurda para poder dizer uma coisa assim apenas por dizer. É por isso que dou mais valor ainda por isso. Obrigado Daniele, foi um conforto que estas palavras vieram de ti.
    Embora não acredito muito de que saiba definir, até porque nunca me preocupei tanto com isso. Sei sentir, sei quando ele me preenche. Isto talvez me permita, naturalmente, pincelar em limitadíssimas palavras um pouco do amor…

    Sabe Daniele, você realmente cresceu. eu cheguei aqui, já era um adulto e tu uma adolescente. Mas nunca cheguei e chegarei perto deste seu talento tão maduro com as letras. Eu a lia e me interagia tanto em ti que pra mim eu via uma mulher e não apenas uma menina. Uma observação que ando tendo ultimamente em relação à tua escrita é o fato de que o estilo de escrever, a forma de se expressar é a mesma, porém, ainda assim consigo sentir que está mais consistente, bem mais madura no jeito de se colocar, você parece falar com mais propriedade. As mudanças na composição são poucas, o que me faz sempre te encontrar nesta tua característica singular, mas nas nuances, no sentimento despertado ao ler são bem diferentes, mais concisas, mais humanas e aprimoradas… Engraçado notar que crescera apenas com as sensações. Ou seja, desde antes sempre foste muito talentosa e madura com as letras, mas não inteiramente com o ser que te habita, o que é natural, sendo humana, vivendo neste processe de crescimento dia após dia. Mais talento ainda é conseguir manter esta mesma linha com tanta maestria. Eu ao contrário mudei muito no jeito de escrever, que ao ser ler coisas antigas nota-se a distância que deixei… rs

    Você é uma linda Daniele. Sou apaixonado pelas tuas letras. Me desculpe se comento pouco, mas é que você escreve muitas resenhas de livros, dos quais a maioria nunca li e não faz sentido opinar algo sem sequer saber do que tu critica… Perdoe-me. No mais, é bem difícil que eu me distancie daqui. De ti!

    Beijo carinhoso!

  22. Lindo texto! Fazia um tempinho que não vinha aqui, e me deparo logo com essas histórias sobre encontros e olhares. Sou muito disso até hoje, e é um problemão hehe Sempre deixo as pessoas passarem… :/

    Beijos e continue escrevendo sempre.

  23. Aguardo por uma nova postagem no seu blog como um bebê aguarda pela sua mamadeira! Sou fascinada pelo seu jeito poético de escrever, acho incrível a maneira que você usa para descrever as coisas mais simples… Suas resenhas têm um forte poder de influência sobre mim, creia.
    E falando da postagem em questão: sou louca por olhares, acho que eles tornam as pessoas mais atraentes. Inclusive estava escrevendo uma crônica sobre uma situação parecida. Tão parecida que a situação se passa num ônibus.
    É difícil um amador me surpreender, Nina, e você me surpreende demais. Parabéns por ser incrível!

  24. Histórias de “e se” que deixam a mente inquieta. Acho curiosa a forma como imaginamos coisas sobre as pessoas só de olhar para elas… definimos suas personalidade, estilo, jeito (…) e podemos até nos apaixonar por essa ideia.

  25. Pingback: Tanto faz dizê-lo imediatamente | Sobre Fatalismos

  26. Gostei muito da maneira que você construiu seu texto, transformou fatos corriqueiros em momentos de poesia, parabéns!
    Não conhecia o termo délibáb, gostei de saber!

    Bjaum

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