A força dessa mulher

Ele foi neto de analfabetos – e sua família não tinha a menor inclinação para as letras. Sua vida começou aos sessenta, quando suas poucas obras ficaram conhecidas. Ela, trinta anos mais jovem, também lhe foi um presente bem-vindo. Recebeu o Nobel. Morreu dormindo.
A vida profissional de José Saramago dependeu muito mais de talento que de sorte. Não que a última tenha se desassociado da primeira. Afinal, ele mesmo ficara surpreso quando soube que o destino do prêmio Nobel lhe cabia, já que não se considerava autor de muitas publicações e avaliava sua muita idade e pouca trajetória literária.
“Não tenhas pressa e não percas tempo” foi um conselho recebido por muitos dos admiradores (e aspirantes literários) deste escritor . Talvez porque, nessas palavras, esteja inserida a maior das verdades que compunham o universo saramaguiano. Costumava ser um livro por ano, uma obra-prima atrás da outra, com narrativas bem estruturadas e trama intensa. Cativar o leitor era fácil. Surpreendê-lo e instigá-lo, mais ainda. Como escreveu Valter Hugo Mãe, “ler Saramago é ser cidadão” e eu concordo absolutamente com isso.
Entretanto, talvez o maior presente da vida de Saramago tenha sido a sua esposa, a jornalista Pilar Del Río.

José Saramago e Pilar del Río, em cena para o documentário "José e Pilar".

Pilar não gosta de ser conhecida apenas como “a esposa de José Saramago”. No entanto, por ironia do destino, foi dessa maneira que eu soube de sua existência. Quem me conhece sabe que tardiamente descobri o José. Tudo começou com Ensaio Sobre a Cegueira, migrando para Todos os Nomes. Nas dedicatórias dos livros, Pilar era um nome presente. “A Pilar, os dias todos”, em Ensaio Sobre a Lucidez; “A Pilar, minha casa”, em As Intermitências da Morte; e o meu predileto: “A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”, em As Pequenas Memórias.

Capa do livro "José e Pilar - Conversas Inéditas", de Miguel Gonçalves Mendes, editora Companhia das Letras.Minha curiosidade foi amenizada quando me permiti adentrar a intimidade do casal. Para tanto, basta assistir o documentário José e Pilar – um tipo de filme bem diferente de tudo que já se viu sobre a história de um relacionamento. Pelo simples fato de que tudo que se passou foi verdadeiro. Vejo muitos casais procurando por títulos como Casamento Blindado, mas o que estou recomendando mesmo é a obra José e Pilar – Conversas Inéditas, livro de diálogos entre o casal, transcritos por Miguel Gonçalves Mendes, diretor do longa.
No filme, conheci um Saramago categórico em suas opiniões, porém comedido em personalidade. Tímido, como imagino que sejam os portugueses. Pilar, no entanto, é o oposto. Espanhola que me pareceu falar pelos cotovelos, bradando o seu senso crítico com uma razão e sensatez ímpares. Durante todo o filme, perguntei-me como era possível que um casal como esse desse tão certo. A resposta parece ser a afirmação popular de que “os opostos se atraem”.
Como assisti ao filme em uma época na qual o José havia recém-falecido – e eu ainda estava a descobrir muito mais de sua literatura – chorei horrores durante a exibição em um cinema perto de casa. Basta dizer que a película inicia e termina com uma frase bastante significativa de José, um convite: “Pilar, encontrarmo-nos noutro sítio”. Parecia a última das dedicatórias.

Acreditei que o mesmo sentimento me ocorreria durante a leitura do livro, que coleciona momentos que não couberam no filme (e traz fotos do mesmo, antes do início da obra). Mas não. Porque, apesar de Saramago ter participado consideravelmente do desenrolar da obra, o que mais me impressionou foram os pensamentos expressados por Pilar. Uma mulher forte em seus argumentos, que talvez até tentasse esconder alguns deles. Uma mulher que não se permite chorar. Uma mulher racionalíssima.

“Acho que a razão deve mandar na vontade. Creio que somos animais racionais e que o racional deve predominar sob o animal, e até sobre o emocional. Creio que a razão tem que controlar as emoções. Isso parece que é o mais frio e o mais forte que se pode dizer, mas é que acho que somos racionais e temos a obrigação de ser racionais e nunca deixarmo-nos levar pelo instinto. Ah, dizem: ‘É que emoção não é instinto’… Homem, a emoção às vezes é instinto. Às vezes, é instinto edulcorado pela cultura. E estou até pensando no amor, que é uma invenção cultural, porque o que há nos animais é o instinto, não o amor. Não, eu creio que a razão tem de controlar nossa vida. E cada dia dizermos, nós que aqui estamos, nós que vivemos num continente privilegiado, numa situação privilegiada, que nosso trabalho não pode ser de jeito nenhum chorar. Não, me nego. Nego-me ao pranto, nego-me a navegar sobre o pranto, como dizia o poeta, e nego-me ao fado e à insatisfação e à depressão. Ah, mas é que a depressão acontece. Pois tomemos uns comprimidos e vamos trabalhar. Ponto. Que para isso há os psicólogos e os psiquiatras, trabalhando, e os cientistas.”

Pilar visitou este espaço não faz muito tempo. Imaginem o tamanho de minha emoção. Ela confessou-me que talvez suas palavras tenham sido demasiado selvagens. Mas não se arrependera de tê-las dito. Pilar me parece um exemplo de mulher que não fraqueja perante situações diversas. E cuidou de Saramago, cuidou imensamente.
Digo isso porque, no filme, vários fatos me preocuparam acerca da rotina do casal. O maior deles foram as viagens inúmeras que ambos faziam ao redor do mundo, para divulgar o lançamento de A Viagem do Elefante (penúltima publicação de José). Estava claro que a saúde de Saramago já não ia bem. O cansaço tomava-lhe conta. Devo ter “culpado” bastante a Pilar por isso, mas, no livro, ambos revelaram que estavam satisfeitos com essa necessária divulgação. Sobretudo porque trabalhavam bastante em casa. Pilar transmitia de seus aposentos para uma radio. Traduzia os livros do José. Encomendava a biblioteca que dera de presente ao seu marido. José escrevia umas quantas páginas por dia, que fossem necessárias. Amor e escrita nunca estiveram tão perto. E pensar que Pilar talvez não seja nem um pouco romântica.

“O romantismo é essa coisa que fez chorar milhões e milhões de mulheres à noite quando estão na cama com o travesseiro. Isso é o romantismo. O romantismo é essa coisa que as transformou em tuberculosas para serem pálidas. O romantismo é o que impediu viver o momento em função de um futuro hipotético. O romantismo é uma das piores atrocidades que inventaram, imagino que os homens, para que as mulheres sofressem e padecessem. Detesto o romantismo.”

A melhor opinião emitida por Pilar, no entanto, fora a respeito do que ela diz serem os “suicidas do privilégio”: esses indivíduos do “primeiro mundo” que se matam porque a vida lhes proporcionou benefícios diversos. Isso contrapõe justa e significativamente a frase cantada por Cazuza: “meus heróis morreram de overdose”:

“Os países privilegiados são países privilegiados e as pessoas que vivem nos países privilegiados não sabem o que têm e se suicidam de puro privilégio, não é? E não tenho pena dos suicidas do privilégio, porque toda a minha compaixão está esgotada com as pessoas que neste momento estão cruzando o oceano tentando cavar a vida com um bebê nos braços, mortas de frio, está certo? Minha compaixão está com esses, minha compaixão está com as crianças de cinco anos que estão trabalhando treze ou catorze horas. Minha compaixão está com os que estão trabalhando de sol a sol, por um salário miserável, também em Portugal e também na Espanha, explorados por empresários que vão à missa e batem no peito. Minha compaixão está com todos esses, não com os suicidas do Primeiro Mundo nem com os empresários maravilhosos que têm desgraças pequenas, pessoais, a mulher que lhe põe chifres e todas essas coisas. Desculpe, esses não são problemas meus. Esses não são problemas meus nem tenho a menor solidariedade, é como se machucassem os dedos…. Não me interessa o mundo rico. Não posso ter compaixão por eles.”

Exemplos de suicidas do privilégio: Kurt Cobain, Amy Winehouse e Heath Ledger.

Mesmo para aqueles que desconhecem a trajetória ou a literatura de Saramago, recomendo esta obra. Sobretudo porque, se você vive atualmente com uma pessoa, ou pensa em fazê-lo, talvez o livro sirva de referência para o seu casamento, namoro, o que for. O respeito mútuo é matéria constante ao longo das páginas – e base para a junção de dois seres. Neste livro, sobre um escritor polêmico, você não se depara apenas com opiniões políticas e/ou religiosas que o autor costumava transmitir, mas explicações, entendimentos simples para assuntos complexos como a vida, a morte e as relações humanas. “Por não ter esperado nada da vida, tive tudo”, era o que o José dizia. Eu não duvido, pois assim os melhores presentes surgem: inesperadamente.

Companhia das LetrasDeseja conhecer o catálogo dessa editora? Clique aqui.

Cronista Amadora

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24 respostas em “A força dessa mulher

  1. Que coisa linda isso, Nina! Não tenho paciência pra vídeos, mas assisti os dois e me emocionei! Como sou mais de ler do que de assistir, já fiquei doida pelo livro..

  2. Nina,
    Desde que me aventurei por essas aventuras de ter um blog (coisa que por sinal faço muito mal, uma vez que minha paciência é pouca e meu blog acaba por não ter alcance algum), o seu blog é um dos que mais gosto de ler. Volta e meia dou uma passadinha por aqui, mesmo quando não comento.
    Engraçado que geralmente acaba coincidindo muito os temas sobre os quais você escreve com aquilo que eu ando pensando ou lendo mais recentemente, e agora não foi diferente. Baixei um dia desses “José e Pilar” e estou pra ver desde então.
    Seu post me animou completamente, acho que vou dar cabo disso hoje mesmo.
    Beijo enorme!

  3. Com certeza, Pilar é uma mulher guerreira, que amou sem perder a lucidez, uninco coração e razão.

    Adorei conhecer mais sobre a vida deste escritor tão consagrado. Me fez enxergar que nunca é tarde para lutar pelos nossos ideais e sonhos.

    Beijos.

  4. Nina querida que emoção! Que emoção! A Pilar te leu, eu consigo ver seu coração dando pulos, a alegria em cada parte de você! Sou fã número um de Saramago – apesar de só ter lido duas obras dele, shame on me! – e sabia da relação intensa dos dois, mas que lindo o trecho que você selecionou! Que sabedoria, que entrega, que homem incrível!

    Estou super feliz por você e já quero muito muito o livro!

  5. Ainda não li Saramago (shame on me), mas meu primeiro contato com ele foi pelo filme “O Ensaio sobre a Cegueira”. E pro colégio tive que fazer uma comparação entre esse livro e a teoria hobbesiana sobre o contrato social e criação da sociedade civil – mas pesquisei tudo na internet! Tem o texto no meu blog, se quiser ler ;)
    Mesmo assim, ainda não chegou em minhas mãos nenhum livro de Saramago e irei providenciar isso imediatamente rs
    Não sei, mas fiquei com vontade de viver um romance desse jeito: racional, dedicado e ainda assim cheio de amor (ou instinto).

  6. Gente, senti amor transbordando aqui. Sério.
    Confesso que nunca li nada do Saramago, só assisti “Ensaio Sobre a Cegueira”. Tenho tanto o que ler, e pouco foco pra isso. Triste.
    E que mulher Pilar parece ser!

    Um beijo, moça.

  7. Nunca li Saramago, apenas alguns trechos espalhados por aí. Mas sinto muita vontade de lê-lo. E também senti vontade, agora, de conhecer Pilar. Admiro mulheres assim, fortes, que possuem opiniões próprias e se recusam ao sofrimento.
    Mas, deixa eu ver se entendi: ela te leu? Incrível isso. Você deve ter se sentido muito bem, eu sei que me sentiria.
    Tratarei de assistir ao filme e ler alguns livros dele.
    Beijo!

  8. tenho que dizer que discordo completamente da pilar quanto aos suicidas do privilégio. o buraco é muito mais embaixo, e provavelmente o saramago também discordava. ou não, né.
    mas nunca vi esse filme, apesar de já ter dito oportunidades. preciso consertar algum dia.

  9. Nossa, que demais! Existem tantos casais que as pessoas ficam puxando o saco, quando na realidade existem casais de verdade e realmente fortes. Alguns heróis meus QUASE morreram de overdose, mas outros se foram =/

    Eu nunca li Saramago, mas ele sempre pareceu, aos meus olhos, brilhante! E pelo que li, sua mulher também.

    Saudades de ti no meu blog, hein?

    Tem post novo lá! Beijos e bom feriado!

  10. Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Parece-me um documentário muito interessante. Imagino a emoção de descobrir que a Pilar leu seu blog, deve ter sido o máximo!
    Também tenho um blog e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^

  11. Em uma entrevista coletiva, um jornalista brasileiro disse a Saramago:
    – Desculpe, você pode repetir o que disse? Não entendo bem seu dialeto.
    E o Saramago respondeu:
    – Quem fala o dialeto é você, nós somos os donos da lingua.

    Depois disso, nunca mais li Saramago.

  12. Nossa, adorei saber que existe mulher tão forte, com idéias tão diferentes do que estamos acostumados…gosto muito de conhecer esse tipo de personalidade e fiquei bem curiosa para assistir ao filme AND claro, ler o livro. Obrigada pelas dicas sempre ótimas! :)

    Beijos

  13. Ei, Nina. Eu li somente o Ensaio sobre a Cegueira (que por sinal é bem forte), e ele narrando a cena do estupro…nossa! Chorei horrores. Ele é excepcional! É impressionante como cada história de Saramago, seja fictícia ou de sua vida, me chocam e me emocionam de maneira estranha.

  14. Eu idolatro o saramago. Ensaio sobre a cegueira é um dos livros mais absurdamente fantásticos que eu já li, e um dos poucos livros que eu repeti a leitura. Sabe, eu nunca procuro saber sobre a vida dos autores, ou quaisquer artistas no geral, que eu gosto. Só que no caso da música, a vida pessoal dos artistas é esfregada na nossa cara pela mídia, então acabamos sabendo. Com escritores isso não acontece. O único que eu vivo pesquisando sobre é Edgar Allan Poe, mas aí é por que ele é tipo Deus pra mim.
    Enfim, o que eu quis dizer com isso tudo é que o post foi extremamente interessante, porque eu sabia muito pouco sobre o Saramago (fora que ele ganhou o Nobel. Isso todo mundo sabe rs).

  15. Nunca li nada de Saramago, não por falta de opção, mas por falta de vontade mesmo. Mas vi o filme há um ano atrás e achei incrível! E como você disse, essa mulher tem uma força.

  16. nem sei quantas vezes já assisti ao “josé e pilar”, nina, e quero ler o livro simsim.
    fico feliz que a admiração pelo saramago me levou a conhecer pilar. e a admirá-la também.

    beijos e uma semana leve e produtiva p’c!

    iza =)

  17. Nunca havia ouvido falar dessa obra, mas correrei para ela. Quando o Saramago ainda era vivo, eu fui morar no Sul da França e passei a nutrir meus devaneios, sonhando em poder conhecê-lo, as perguntas que gostaria de fazer, etc. Ele era um dos poucos escritores vivos que me deixava de bica aberta a cada frase. Pouco antes de eu viajar, ele morreu. É claro que tudo era sonho de uma fã louca, mas ainda assim fiquei triste como um cão abandonado. Acho que essa obra é uma oportunidade de conhecê-lo um pouco…

  18. caramba, Nina, é exatamente o que eu precisava ler hoje. O livro já foi pra minha listinha. Obrigada.

    Eu gosto muito dos teus comentários lá no Creyssa, mas sempre venho aqui rápido demais e fico com vergonha de comentar qualquer coisa. Gosto muito dos teus textos. Um beijão,
    Anna

  19. Adorei. Saramago era um excelente escritor. É pena que a sua leitura seja obrigatória no ensino português pois isso faz com que muitos jovens e adolescentes o detestem sem sequer conhecer as suas obras.

  20. Pingback: Retrospectiva literária 2012 | Sobre Fatalismos

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